Em contraste com o modelo francês em que a estrutura é centralizada e utiliza duas forças policiais de ciclo completo para o trato da segurança pública em todo o Estado da França, temos o modelo português que utiliza uma estrutura descentralizada que subdivide o sistema de segurança pública em diversas instituições diferentes, conforme demonstrativo abaixo:
Fonte: Portal da Guarda Nacional Republicana de Portugal61.
Como se observa no organograma acima, as forças de segurança em Portugal são divididas em três modalidades: Forças Militares (o que no Brasil seria equiparado às Forças Armadas), Forças de Segurança e Serviços de Segurança (que juntas seriam as instituições responsáveis pela segurança pública do Estado Português).
Dentro do Sistema Português de Segurança Pública existem duas instituições com características militares (a Guarda Nacional Republicana - GNR e a Polícia Municipal - PM), e quatro instituições com características civis (a Polícia de Segurança Pública – PSP, a Polícia
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Judiciária – PJ, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras – SEF, e o Serviço de Informações de Segurança – SIS).
Embora inicialmente possa se pensar que o sistema português seja semelhante ao brasileiro por haver diversas forças policiais atuando na segurança pública do país (umas atuando a nível nacional, outras municipais, sendo comparável ao Brasil com as polícias federais, estaduais e municipais), a primeira diferença observável nas polícias portuguesas é que todas possuem Ciclo Completo de Polícia, ou seja, todas realizam o policiamento preventivo, a investigação criminal e a entrega ao judiciário para a realização do processo penal.
Outra diferença importante sobre o sistema de segurança de Portugal é que neste país não existe a parte administrativa da investigação policial como no Brasil, ou seja, não existe o cargo de Delegado de Polícia e tampouco a figura do inquérito policial. A estrutura de oitiva das partes envolvidas no crime (autor e vítima) e testemunhas do fato fica a cargo do Juiz de Instrução ou do Ministério Público (pois em Portugal são integrantes da mesma estrutura do Poder Judiciário), os quais recebem as pessoas envolvidas em fatos criminosos encaminhados pelas polícias supramencionadas e tem a responsabilidade de realizar a análise jurídica ou processual do fato.
Assim, não há em Portugal a chamada ―fase investigatória administrativa‖ como no Brasil que, antes de encaminhar ao Ministério Público para decidir pela Denúncia ou não de uma pessoa, primeiro é realizada a oitiva das partes e colheita de provas em fase de inquérito policial.
Pode-se afirmar que com essa supressão de uma fase administrativa de investigação, o sistema português de apuração criminal torna-se mais célere, pois em comparação ao sistema brasileiro, a partir da oitiva das partes pelo Judiciário português, o processo já se inicia sem que as partes tenham que ser ouvidas em dois seguimentos diferentes do Estado, como no caso do Brasil (Delegacia e Judiciário).
No Sistema de Segurança Pública de Portugal, diferentemente do Sistema Francês (Ciclo Completo de Polícia com atuação policial definidas em áreas geográficas com base na dimensão populacional) e do Brasileiro (―meio ciclo‖ com atuação através da divisão geográfica por estados-membros), Portugal adotou o Ciclo Completo de Polícia através da atuação por especialidade dos tipos penais, ou seja, cada polícia é responsável por certos tipos de crimes.
Vejamos uma breve distinção das atribuições de cada força policial portuguesa abaixo, para um melhor entendimento sobre essa forma de atuação por especialização:
1) A Guarda Nacional Republicana – GNR: é uma força policial de natureza militar que possui atuação em todo o território nacional português. Comparável ao sistema brasileiro, a GNR teria as atribuições mescladas entre a Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal do Brasil, pois a sua atuação é direcionada a: a) fiscalizar o trânsito em todas as rodovias de Portugal; b) realizar o patrulhamento marítimo em toda a costa portuguesa; c) garantir a segurança de espetáculos públicos; d) realizar as ações de defesa civil; e e) Realizar ação preventiva em relação aos crimes em geral, onde tal atuação é de forma integrada com as demais forças e serviços de segurança, sendo que esta modalidade de ação preventiva é mais direcionada ao policiamento das áreas rurais.
2) As Polícias Municipais – PM: é uma força policial de natureza militarizada, visto que usa de algumas características militares em sua estrutura, mas, em regra, mescla em sua estrutura cargos com características militares e civis, posto que é composta por oficiais, chefes e agentes de Polícia. Suas atribuições são muito semelhantes as das Guardas Municipais brasileiras, haja vista que sua atuação é a nível municipal e suas principais funções são: a) fiscalizar o cumprimento dos regulamentos municipais e de outras normas legais de interesse local; b) vigilância de espaços públicos, dos transportes urbanos locais; c) a guarda de prédios públicos municipais; e d) fiscalização do trânsito rodoviário na área municipal. Apesar de sua atuação restrita, como dito anteriormente, as polícias municipais realizam toda a atividade policial, desde a ostensividade até a lavratura da notícia de crime e encaminhamento dos suspeitos à autoridade judiciária competente.
3) A Polícia de Segurança Pública – PSP: é uma força policial de natureza civil que tem atuação em todo o território nacional português. Em comparação ao sistema brasileiro, a PSP teria as atribuições semelhantes às da Polícia Militar do Brasil, uma vez que ela é a força de segurança responsável pelo policiamento fardado e ostensivo nas grandes áreas urbanas.
Não obstante, a principal diferença com as PMs brasileiras é que sua atuação é a nível nacional e seus integrantes mesclam cargos entre oficiais, chefes e agentes de Polícia, sem seguir a filosofia de formação das Forças Militares Portuguesas. A atuação policial tem como fundamento a defesa da legalidade democrática e garantia da segurança interna do país e a defesa dos direitos dos cidadãos.
4) A Polícia Judiciária – PJ: é a principal instituição de investigação de Portugal que fica subordinada ao: a) Ministério da Justiça, com atribuições de investigação ao crime organizado, ao tráfico de entorpecentes, ao terrorismo, à corrupção e aos crimes financeiros e econômicos (nessa função, a PJ de Portugal se assemelha às funções da PF do Brasil quanto
ao seu papel de polícia judiciária em âmbito federal); b) Ministério Público, com atuação voltada à investigação dos demais crimes em geral, sendo que seu trabalho segue a orientação e dependência funcional direta do Ministério Público, o que a diferencia da polícia judiciária brasileira que possui autonomia em relação ao trabalho do Ministério Público. Quanto à carreira da Polícia Judiciária portuguesa, esta é de entrada única, havendo apenas um cargo, o de Inspetor; embora haja níveis dentro da carreira que poderão promover o integrante da carreira aos cargos de chefia, é fato que tal estrutura difere da estabelecida na polícia judiciária brasileira em que há cargos de agentes, escrivães e delegados em quadros separados e que não garantem acesso uma em relação às outras.
5) O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras – SEF: é um órgão de polícia criminal de estrutura civil que tem como principal atividade o controle de circulação de pessoas nas fronteiras, a permanência de estrangeiros no território português, bem como é responsável pela emissão de passaportes em Portugal. Se compararmos com o Brasil, tais atribuições são encargos da Polícia Federal, o que demonstra novamente a especialização das atividades policiais em Portugal. O cargo único existente na SEF é o de Inspetor e, como o caso da PJ, a ascensão funcional se dá aos cargos de chefia. Diante de suas atribuições acima, o SEF também realiza todas as fases do Ciclo de Polícia, atuando desde o policiamento das fronteiras em busca de imigrantes ilegais, até a investigação e prisão de pessoas que descumpram as leis de migração do país.
6) O Serviço de Informações de Segurança – SIS: é um órgão civil que presta serviço com vistas à coleta de informações necessárias à segurança interna de Portugal visando coibir crimes de terrorismo, espionagem ou atos que possam comprometer o Estado de Direito Constitucional Português. Em termos de comparação, o SIS de Portugal seria semelhante em atuação à Agência de Inteligência dos Estados Unidos – CIA, ou a Agência Brasileira de Inteligência – ABIN. Dessa forma, a SIS também trabalha no serviço de investigação, possuindo, inclusive, competência de realizar prisões e encaminhá-las à justiça nos crimes que sejam da sua área de competência.
Pelo que foi visto sobre o modelo Francês, o modelo Português é bastante diferente, posto que o primeiro possui apenas duas polícias com divisão de competências de acordo com o critério geográfico/populacional, enquanto que o último possui várias polícias com atuação por especialização de tipos criminais.
Contudo, ficou claro que ambos os países utilizam o Ciclo Completo de Polícia, inclusive mesclando entre forças civis e militares na atuação policial. Seguir-se-á a partir
deste ponto à observação de outros modelos de polícia que adotam sistemas de policiamento com estrutura exclusivamente civis em seus países.