Como já afirmamos anteriormente, diferentemente da CSUTCB, o CONAMAQ se baseia, principalmente, na proposta de reconstituição dos Ayllus e a consequente reconstituição dos “territórios originários”, de suas autoridades originárias e das formas de organização entendidas como tradicionais entre os povos de origem quechua e aymara localizados, em especial, nas terras altas bolivianas, e a volta ao Qullasuyu, território original pré-incaico. Com o passar do tempo, o CONAMAQ, em especial por ocasião da assembleia constituinte, estabeleceu importantes alianças com organizações representativas dos povos indígenas do oriente, principalmente com a CIDOB.
Existem muitas semelhanças entre CONAMAQ e CSUTCB, pois ambos incorporam certos elementos do ayllu em seu modo de organização e em sua compreensão do político – os dirigentes e as autoridades das comunidades são vistos como servidores da comunidade, o cumprimento de cargos no CONAMAQ é rotativo e não é pago, na CSUTCB existem eleições e a possibilidade de reeleição, o que é impensável no
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CONAMAQ. Além disso, a maior parte dos membros de CONAMAQ em algum momento esteve ligada aos sindicatos camponeses e à CSUTCB, tendo vivenciado suas primeiras experiências de mobilização nessas organizações. No CONAMAQ, as decisões são tomadas de modo comunitário, buscando o consenso; embora a CSUTCB também possua estruturas participativas, principalmente em nível local, e geralmente exista uma proximidade grande entre os dirigentes/autoridades e a base, aspecto que também decorre do fato de as organizações cumprirem papéis fundamentais na vida cotidiana das comunidades, como, por exemplo, em relação a serviços de educação; os processos decisórios na CSUTCB são mais “hierarquizados”, o executivo nacional, por exemplo, tem poderes de decisão que um membro do conselho de governo do CONAMAQ não tem. Enquanto CONAMAQ defende um retorno às “raízes culturais” indígenas, a CSUTCB mantém suas estruturas sindicais, identificadas pelo CONAMAQ como “coloniais”, pois alienígenas ao mundo andino. Também existem diferenças de classe entre CONAMAQ e CSUTCB, no sentido de que os ayllus de CONAMAQ geralmente se encontram em áreas marginais e pobres, aspecto que acaba refletindo em certas características de suas autoridades e integrantes de base que, muitas vezes, têm menos educação formal ou formação estatal que os membros da CSUTCB e, diferentemente dos últimos, não falam bem o castelhano. (Schilling-Vacaflor, 2008)
Uma das características centrais do CONAMAQ é sua defesa e ênfase na continuidade, na estabilidade e homogeneidade da identidade cultural andina. A importância da continuidade histórica, no sentido de revitalizar elementos pré-coloniais, é expressada na valorização dos símbolos da identidade indígena originária e, por exemplo, no fato de que CONAMAQ foi a única organização indígena originária campesina no interior do Pacto de Unidad a defender a mudança do nome da Bolívia para Qullasuyu. (Schilling-Vacaflor, 2008: 154)
Na imagem da identidade cultural difundida e representada pelo CONAMAQ, destaca-se a homogeneidade da população que vive nos ayllus. Em encontros e assembleias de comunidades do CONAMAQ, a identidade cultural é simbolizada como uma árvore que tem suas raízes no passado, seu tronco o presente e a copa no futuro. Esse símbolo também serve para legitimar e sustentar demandas por reconhecimento de territórios, autoridades e sistemas jurídicos indígenas. Nos discursos do CONAMAQ, reitera-se o foco na suposta continuidade e estabilidade cultural existente no mundo
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andino, e as transformações, os processos híbridos e as heterogeneidades internas quase são ignoradas, algo que tem um caráter estratégico, no sentido de transmitir a impressão de unidade, uniformidade e antiguidade dos símbolos e práticas identitários indígenas. Dessa maneira, certas mudanças internas, como a participação crescente de mulheres, estão sendo interpretadas no interior da organização como uma continuidade histórica de estruturas pré-coloniais e como processos de “descolonização”, uma vez que a desigualdade de gênero e a marginalização das mulheres são atribuídas à influência dos espanhóis. Assim, esses processos de transformação atuais são entendidos como um retorno às relações pré- coloniais, uma vez que estas são imaginadas como mais igualitárias e complementares.
Também no caso das demandas por direito a terra e território, as condições pré- coloniais têm um papel importante, uma vez que o objetivo é recuperar territórios ancestrais e as reivindicações por direitos coletivos a terra se baseiam, principalmente, em documentos históricos. O objetivo é reconstituir as 16 nações das terras altas, o que necessariamente está ligado a processos profundos de reterritorialização. As reivindicações político-jurídicas preponderantes no CONAMAQ se referem aos direitos à livre determinação, a territórios indígenas e ao controle sobre os recursos naturais em seus territórios, enquanto que a integração ao aparato estatal e a redução da discriminação étnica nesse âmbito tem um significado secundário. Dessa perspectiva, as demandas por transformação de sistemas e instituições estatais são entendidas como uma ampliação ou projeção do ayllu em direção ao Estado que, finalmente, seria um Estado comunitário, mais de acordo com a tradição andina. Uma perspectiva distinta daquela da CSUTCB, que propõe a transformação do Estado por meio de sua “indianização”, adaptando a estrutura estatal de acordo com os princípios comunitários.
O CONAMAQ106 também defende a representação direta em todas as instâncias e instituições estatais e questiona o sistema político existente, em especial os partidos políticos. O rechaço aos partidos políticos e sindicatos é uma das principais causas de sua atual relação distante e tensa com o MAS-IPSP. Segundo Epifanio Pacheco107, o distanciamento também se dá “porque o MAS representa um movimento sindical, não representa os originários. Então, é aí que falham os operadores políticos do governo. Que não buscam um entendimento (com os originários), e se buscassem um entendimento seria outra coisa. Por isso que esse processo de cambio pode falhar. Pode falhar...”. Já a
106 O atual Jiliri Apu Mallku, líder máximo, do CONAMAQ é Félix Becerra. 107 Em entrevista realizada por nós em La Paz, em 25/05/2010.
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CSUTCB é alinhada com as ideias do instrumento político e com o governo central, e tem atuado, em suas mobilizações, no sentido de apoiar o governo de Morales. É interessante observar que apesar de questionar o governo Morales, o CONAMAQ não consegue organizar mobilizações no sentido de publicizar sua insatisfação. Nas entrevistas com Jesus Jillamita, Epifanio Pacheco, Freddy Cayo108, Tata Gabino Apata109 e Tata Rafael Quispe110, os entrevistados comentaram a dificuldade em organizar marchas de protesto, uma vez que os afiliados de CONAMAQ percebem Evo Morales como um “hermano”, um indígena, e seria, portanto, errado marchar contra ele. A ideia é de que, por ser indígena, especificamente, aymara, Evo deveria ouvir as recomendações e reclamações do conselho de governo do CONAMAQ, a quem caberia orientá-lo quando estivesse equivocado, mas, nas palavras de Jillamita: “Evo não leva os mallkus em consideração (no les hace caso).” E a percepção geral, entre ex-assessores e representantes do conselho de governo de CONAMAQ, é de que os povos indígenas realizaram maiores conquistas na primeira metade da década de 2000, quando eram governos “neoliberais” que comandavam o país, que após a assunção de um “hermano” à presidência.
De toda essa discussão, dentre alguns aspectos que podemos destacar, temos que o posicionamento do CONAMAQ é, e tem sido em episódios recentes, como o de TIPNIS, mais radical no sentido de defender o que o movimento entende como sendo os direitos indígenas, quando o comparamos à atuação da CSUTCB, que no mesmo episódio se mostrou mais alinhada com as ideias do governo de Morales – García Linera. A questão aqui não é apenas quanto ao posicionamento político de cada um dos agentes, mas perceber o quanto este é representativo de modos distintos de perceber o que deve ser o Estado Plurinacional e de como se constituem os processos de elaboração de cada um desses discursos identitários.
108 Freddy Cayo é ex-assessor técnico do CONAMAQ, na ocasião da entrevista trabalhava no órgão de
cooperação internacional IBIS – Dinamarca. Entrevista realizada por nós em La Paz, em 01/06/2010.
109Tata Gabino Apata Mamani (Suyu Jacha Karangas) – Arquiri Apu Mallku del CONAMAQ (2009-2011),
o “segundo homem” no Consejo de Gobierno del CONAMAQ. Entrevista realizada por nós em La Paz, em 02/06/2010.
110 Tata Rafael Quispe (Jacha Suyu Pajakaqi), Mallku da Comisión de Reconstitución e Indústrias
Extractivas, um dos atuais Apu Mallkus da gestão 2009-2011 de CONAMAQ. Tata Rafael Quispe é jovem e,
após assumir o cargo, gerou polêmicas com suas declarações à imprensa, no entanto, na entrevista realizada com ele em 26/05/2010, mostrou-se ponderado e não fez declarações dissonantes em relação ao discurso geral do CONAMAQ.
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