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2.4 Elektrik Motorları

2.4.1 İç Rotorlu Motorlar

Para tratar das especificidades do objeto de parte dessa pesquisa, ou seja, narrativas escritas por professores, trago à tona a questão dos estudos por meio de documentos autorreferenciados, com Verena Alberti (1991) e Antonio Viñao Frago (2004); do foco narrativo ou ponto de vista, trazendo a concepção de pacto autobiográfico, com Philippe Lejeune (2008); a recuperação do passado e atualização no presente da narrativa, com Walter Benjamin (1997); aspectos da recuperação da memória, com Maurice Halbwachs (2006) e Michel Pollak (1989); e, por Pierre Bourdieu (2008) e Beatriz Sarlo (2007), as ressalvas quanto à subjetivação num relato em primeira pessoa.

Tais formas narrativas escritas em primeira pessoa incluem-se nos gêneros também chamados confessionais, a saber, autobiografias, biografias, diários, cartas, memórias. Antiquíssimos no universo literário, tais gêneros já foram considerados menores, uma vez que, pelos elementos autobiográficos, seriam enquadrados em formas de não ficção. Entretanto, tal categorização não procederia, pois existem elementos de realidade em qualquer criação literária; igualmente, como qualquer outro discurso literário, os gêneros confessionais se constituem em produções entremeadas de elementos ficcionais.

A reconstrução da realidade por meio da história de vida, resgatada e reinventada na memória, permite recuperar narrativamente as múltiplas experiências formativas que norteiam o saber construído ao longo da trajetória individual. Tal narrativa de si dá voz a sujeitos que trazem à tona, pelo relato de episódios do passado, percursos de formação e de transformação pessoais e profissionais, e, desta maneira, estabelecem um paralelo entre experiência e educação, tal como expressam Larrosa e Koban:

A experiência, e não a verdade, é o que dá sentido à escritura. Digamos, com Foucault, que escrevemos para transformar o que sabemos e não para transmitir o já sabido. Se alguma coisa nos anima a escrever é a possibilidade de que esse ato de escritura, essa experiência em palavras, nos permita liberar-nos de certas verdades, de modo a deixarmos de ser o que somos para

ser outra coisa, diferentes do que vimos sendo. Também a experiência, e não a verdade, é o que dá sentido à educação. Educarmos para transformar o que sabemos, não para transmitir o já sabido. Se alguma coisa nos anima a educar é a possibilidade de que esse ato de educação, essa experiência em gestos, nos permita liberar-nos de certas verdades, de modo a deixarmos de ser o que somos, para outra coisa além do que vimos sendo (LARROSA, J. e KOBAN, 2007).

Aspecto relevante da subjetividade, inevitavelmente associada a múltiplos sistemas de representação, a identidade se reveste de significado cultural socialmente constituído nas e pelas experiências individuais. Neste sentido, a prática de escrever sobre si mesmo, como fizeram diversos escritores, estimulada pelas condições de produção de uma época, segundo Alain Corbain, favorece o aprofundamento do sentido de identidade de sujeitos histórica e socialmente inscritos (CORBAIN, 1991).

Verena Alberti pontua que a autobiografia, cujo nascimento é costumeiramente atribuído a Confissões (2007), de Rousseau, constitui-se como espaço por excelência de expressão do indivíduo. A autora salienta ainda que, se alguém se põe a escrever uma autobiografia, é porque se propõe a fixar um sentido em sua vida e dela operar uma síntese. No processo de produção, fortemente vinculado e ancorado à existência de um indivíduo sujeito da criação, origem legítima da produção do discurso, o “eu” se revela aos leitores, não sem uma profunda ambiguidade entre o que o escritor “é” e o que “poderia ser”, de modo que a alteridade criada ganha estatuto de realidade (ALBERTI, 1991).

Alberti discorre sobre o estado sublime de pura levitação espiritual do culto à obra literária, que eleva tanto o criador-escritor (com dons especiais) quanto o leitor a uma espécie de sagração purificadora do que nele há de mais íntimo. Nessa configuração, o sujeito se constitui ficcionalmente pelo cotejo entre o “eu” imaginário e o “eu” real, de acordo com um determinado ângulo de refração das experiências pessoais do escritor, na movência do ficcional ou espaço no interior do qual se estabelece esta tensão.

Antonio Viñao Frago (2004) ressalta a noção de memória pessoal como “refúgios do eu” e que esta literatura autorreferencial se manifesta como gênero discursivo e textual diverso de outras modalidades discursivas. Além disso, salienta a crescente publicação de trabalhos de classificação, catalogação e análises destes textos

autorreferenciados, bem como a tentativa de estabelecer uma taxionomia ou tipologia provisória de trabalhos com interesse histórico-educativo (memórias, diários de infância, adolescência e juventude, de viagens, de educadores, professores e alunos e institucionais), e propostas utilização no âmbito historiográfico.

Diversamente do pacto romanesco, por se constituir em narrativa retrospectiva tratando da vida individual, a autobiografia – que não pode ser anônima – implica identidade entre autor, narrador e personagem. Isto nos remete à concepção de Phillipe Lejeune (2008), de acordo com a qual, na autobiografia, a identidade entre narrador e autor se expressa por meio de um pacto ou contrato autobiográfico firmado entre o narrador e o leitor, para estabelecer fronteiras entre os modos discursivos fictícios e os modos discursivos factuais. Um pacto pelo qual o autor se compromete a ser o mais fiel possível aos fatos narrados e o leitor se apossa dos fatos narrados como ficcionalmente verossímeis. Para Lejeune, o autobiográfico se constitui como um gênero contratual, implícito entre autor e leitor e determinante do modo de leitura do texto. Tal pacto só é possível se houver uma afirmação no texto da identidade do nome (autor = narrador = personagem), pois todas as formas de pacto manifestam a intenção de honrar sua firma, podendo o leitor questionar o que está dito, nunca, porém, a identidade de quem se escreve.

A noção de pacto proposta nos estudos de Philippe Lejeune desde 1973 resultou em inúmeras críticas e controvérsias, pela precariedade desse contrato e sua ambição de legalidade. Conceber uma definição para uma forma também ficcional usando a expressão “pessoa real” torna-se algo inviável por meio da leitura. Há na autobiografia dificuldade de definição a partir de um critério textual puro, pois, enfatizando sua vida pessoal e sua personalidade, um indivíduo, com vida extratextual comprovada, realiza, em prosa, um relato retrospectivo de sua própria existência. De acordo com Lejeune, a autobiografia se caracteriza pelo ponto de vista retrospectivo da narração em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, pondo ênfase em sua vida individual e, em particular, na história de sua personalidade.

Em contrapartida, Beatriz Sarlo, com Paul Man, nega a própria ideia de gênero autobiográfico, por produzir “‘a ilusão de uma vida como referência’ [...] e de que existe

algo como um sujeito unificado no tempo. Não há sujeito exterior ao texto que consiga sustentar essa ficção de unidade experencial e temporal” (2007, p.31).

Por essa linha de estudos, baseados em discursos sobre si, julga-se viável examinar de que modo os aspectos relacionados à experiência individual influenciam as práticas profissionais ao longo da vida; como a subjetividade se projeta nos percursos profissionais; e o que impulsiona a mudança de deslocamentos de uma individualidade ou de um grupo social. Portanto, com base na singularidade, os egodocumentos possibilitariam esquadrinhar o sentido coletivo, social e histórico. No entanto, vale também trazer à tona as ponderações de Pierre Bourdieu em “A ilusão autobiográfica” (2005), as quais se referem a pesquisas sociológicas baseadas em histórias de vida, especialmente à biografia e à autobiografia. Um dos pontos considerado por Bourdieu se refere à noção de vida, nessas narrativas, como um caminho, um percurso, uma estrada, “um deslocamento linear unidirecional”, num processo de tácita aceitação da filosofia da história com o sentido de sucessão de eventos históricos, como se a vida fosse um conjunto coerente e orientado de acordo com uma cronologia, uma ordem lógica, partindo de um princípio a um telos.

Bourdieu pondera que o selecionar “[...] acontecimentos significativos e estabelecer entre eles conexões que possam justificar sua existência e atribuir-lhes coerência”, que faz parte da preocupação de atribuir coerência, razão, lógica retrospectiva e prospectiva, consistência e constância, relações aceitáveis de causa e efeito, possa corresponder a uma tentativa de encontrar e a acatar a criação artificial de sentido, algo que foge à realidade descontínua, aleatória e imprevisível (p.74-5 – destaque do autor da citação). A narrativa de vida submetida a uma seleção de acontecimentos significativos pode não se constituir num documento que corresponda ao que, de fato, ocorreu na realidade.

Outro aspecto importante observado por Bourdieu se refere à variação tanto da forma como se procede a uma coleta para pesquisa, como na própria narrativa sobre si em função da qualidade social do mercado no qual será apresentado. Na superfície social, como descrição da identidade social e personalidade designada pelo nome próprio (que configura o acesso oficial à existência social, suporte do estado civil),

[...] isto é, o conjunto de posições simultaneamente ocupadas, em um momento dado do tempo, por uma individualidade biológica socialmente instituída, que age como suporte de um conjunto de atributos e de atribuições que permitem sua intervenção como agente eficiente nos diferentes campos (p.82).

Prossegue Bourdieu sobre o que ele avalia como forma particular de expressão, isto é, os discursos sobre si, a narrativa de vida:

De qualquer modo, não podemos deixar de lado a questão dos mecanismos sociais que privilegiam ou autorizam a experiência comum da vida como unidade e como totalidade. De fato, sem sair dos limites da sociologia, como responder à velha questão empirista a respeito da existência de um eu irredutível à rapsódia de sensações singulares? Sem dúvida, podemos encontrar no habitus o princípio ativo, irredutível às percepções passivas, de unificação das práticas e das representações (isto é, o equivalente, historicamente constituído, logo historicamente situado, desse eu cuja existência devemos postular, de acordo com Kant, para dar conta da síntese da diversidade sensível intuída e da coerência de representações em uma consciência). Mas essa identidade prática só se entrega à intuição na inesgotável e inapreensível série de suas manifestações sucessivas, de modo que a única maneira de apreendê-la como tal consiste em talvez tentar apanhá-la na unidade de uma narrativa totalizante (como autorizam as várias maneiras, mais ou menos institucionalizadas, de “falar de si’, da confidência etc.). O mundo social, que tende a identificar a normalidade com a identidade entendida como constância de si mesmo de um ser responsável, isto é previsível, ou, pelo menos, inteligível, como uma história bem construída [...], propõe e dispõe todos os tipos de instituições de totalização e de unificação do eu (p.82).

Bourdieu chama a atenção para o que está em jogo ao se tomar numa pesquisa a história de vida mal analisada e mal compreendida como se fora a construção de um artefato irrepreensível, de acordo com a

[...] noção de trajetória como uma série de posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente (ou um mesmo grupo, em um espaço ele próprio em devir e submetido a transformações incessantes). Tentar compreender uma vida como uma série única e, por si só, suficiente de acontecimentos sucessivos, sem outra ligação que a vinculação a um “sujeito” cuja única constância é a do nome próprio, é quase tão absurdo quanto tentar explicar um trajeto no metrô sem levar em conta a estrutura da rede, isto é, a matriz das relações objetivas entre as diversas estações. Os acontecimentos biográficos definem-se antes como alocações e como deslocamentos no espaço social, isto é, mais precisamente, nos diferentes estados sucessivos da estrutura da distribuição dos diferentes tipos de capital que estão em jogo no campo considerado. É evidente que o sentido dos movimentos que levam de uma posição a outra [...] define-se na relação objetiva entre o sentido dessas posições no momento considerado, no interior de um espaço orientado (p.81-2).

Para relatar histórias de vida literárias, o narrador é a entidade discursiva que define como será contada a história, marcando não apenas implicações estruturais, mas

temáticas e de sentidos. O narrador existe no mundo da história, apresentando especificidades que definem como o autor vai contar a história. Interage com as outras duas entidades: o autor e o leitor/espectador, os quais habitam o mundo real. O autor cria um mundo alternativo, com personagens e cenários e eventos componentes da ficção. O leitor interpreta, compreende e recria a história. Já (e apenas nele) e aparece de uma forma que o leitor possa compreendê-lo. No caso de Teacher man (2006), por exemplo, o relato se faz em primeira pessoa, mas há certa onisciência ou intrusão, pois o narrador-autor-professor é capaz de revelar vozes interiores, fluxo de consciência, em primeira pessoa, pelo discurso indireto livre, explorando entrelinhas, pressupostos da história da qual participa também como personagem.

Em “O narrador”, Walter Benjamin (1987) trata do remoto ato de narrar, o qual, pela tradição oral, atualizado no ouvinte, prescinde do livro e da solidão da leitura e guarda a função de difundir e ensinar experiências aos ouvintes. Benjamin atenta para o fato de que, na modernidade, a narrativa oral cede ao surgimento do romance, vinculado ao contexto de consolidação da burguesia. Este indivíduo solitário em sua criação e na leitura estabelece a ideia indivíduo-sujeito-criador (p.68).

A incorporação do passado pelo presente pela via da memória se efetiva por seu instrumento socializador, isto é, pela linguagem, que reduz, unifica e aproxima no mesmo espaço histórico e cultural representações ou símbolos da experiência passada evocada e presentificada. A apropriação peculiar de histórias de vida, convertidas em narrativas ficcionais, como se dá nas obras a serem analisadas, isto é, mediada pela subjetividade da memória, mas vinculada à realidade vivida, remete a concepções de memória, reminiscência, recordação, desenvolvidas por diversos autores, como a seguir se detalha.

Esse tipo de registro remonta ainda à concepção manifesta por Walter Benjamin, em “Sobre o conceito de história” (1997). Benjamin assinala a importância da memória, bem como de todos os acontecimentos narrados, sem distinção valorativa entre os grandes e os pequenos, levando-se em conta que nada pode ser considerado perdido para a história. Articular historicamente o passado significa apropriar-se de reminiscências, tal como surgem na memória, recuperada como presente. Sob este enfoque, não existe passado: o passado é projeção do presente e não há passado que não

traga nele implícito o presente. Qualquer olhar para o passado – tanto aquele com pretensões científicas, como o que recupera a memória individual – traz uma carga subjetiva e, portanto, arbitrária, que impossibilita conceber uma hierarquia para determinar o que é mais ou menos verídico à luz da história.

A teoria psicossocial de Maurice Halbwachs, dando relevo às instituições formadoras do sujeito, ocupa-se dos quadros sociais da memória, evidenciando o papel social da memória na vida dos sujeitos. As determinações sociais do presente nos fazem evocar as experiências do passado e trazê-lo reconstruído com imagens e ideias de hoje. Noutras palavras, esse passado é refeito pela incorporação dos materiais agora disponíveis no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual. Esse passado presentificado denuncia que se alterou a nossa percepção sobre ele, não sendo mais aquele passado vivido. Não são as mesmas as nossas percepções; tampouco nós somos os mesmos. O simples fato de lembrar o passado, no presente, exclui a identidade entre as imagens de um e de outro, e propõe a sua diferença em termos de ponto de vista. Nada é o mesmo e tudo mudou: ideias, juízos, valores, a própria realidade e até mesmo os sonhos (HALBWACHS, 2006).

Maurice Halbwachs salienta a força dos quadros sociais a servirem de diferentes pontos de referência, estruturando nossa memória e a inserindo na memória da coletividade a que pertencemos. Sem eles não há possibilidade de evocar e localizar lembranças para reconstrução do que chamamos memória. De um lado, Halbwachs faz a distinção entre a memória coletiva, que supõe a reconstrução dos dados fornecidos pelo presente da vida social e projetada no passado reinventado; de outro, a memória coletiva, que recompõe o passado. Halbwachs ressalta na memória coletiva o papel da comunidade afetiva, a coesão social, não por coerção, ou como uma forma específica de dominação ou violência simbólica, mas pela adesão afetiva ao grupo. Tanto na tradição europeia do século XIX, como em Halbwachs, a nação é a forma mais acabada de um grupo, e a memória nacional, a forma mais completa de uma memória coletiva. Desse modo, nas narrativas a serem analisadas, os narradores trazem à tona não apenas suas memórias individuais, mas também, indissociáveis, as memórias sociais e coletivas.

No que se refere à seletividade da memória, Halbwachs salienta um processo de negociação para conciliar memória coletiva e memórias individuais:

Para que a memória dos outros venha assim a completar e a reforçar a nossa, como dizíamos, não basta que eles nos tragam seus testemunhos: é preciso também que ela não tenha deixado de concordar com suas memórias as relações entre política e ciências sociais e que haja suficientes pontos de contato entre ela e as outras para que a lembrança que os outros nos trazem possa ser reconstruída sobre uma base comum (HALBWACHS, 2006, p.98). Nessa negociação, pode variar muito, segundo a experiência individual familiar, grupal, cultural, aquilo que fica retido pela memória, intacto, pouco ou profundamente alterado. Pelo processo de construção social da memória, retém-se como lembrança o que tem a ver com uma versão consagrada dos acontecimentos segundo uma elaboração grupal, que se fixa como imagem, representações e ideias dominantes inculcadas no sujeito ou apenas amortecida no inconsciente. Nesse aspecto, como observa Pierre Bourdieu, pela subjetividade, a conservação ou reelaboração qualitativa e quantitativa de acontecimentos e sensações passadas, o que vem à tona como acontecimentos significativos numa narrativa autobiográfica pode não corresponder à realidade concreta e vivida, mas a representações dessa realidade.

A isso se acrescenta que à memória individual – e à seleção operada por essa memória individual – o sujeito incorpora elementos da memória coletiva – familiar e grupal. Nesse aspecto, são também importantes as concepções de Michel Pollak (1989).

Os estudos de Michel Pollak se concentraram na reflexão sobre identidade social em situações limite, como no caso de sobrevivente de campos de concentração. Como Halbwachs, Pollak (1989) enfatiza que, mesmo no plano individual, o trabalho da memória é indissociável da organização social da vida. Ele trata também da força quase institucional dos fatos grupais, sociais, fundamentando e reforçando os sentimentos de pertencimento e as fronteiras socioculturais.

Um aspecto importante nas considerações de Pollak coincide com as ressalvas de Pierre Bourdieu no tocante à reconstituição de histórias de vida a serem tomadas como documentos para pesquisas sociológicas. Refere-se à ordenação a posteriori de acontecimentos do passado que balizaram uma historia de vida, que se constituem em instrumentos de reconstrução da identidade, e não apenas como relatos fatuais. Quer a pessoa seja submetida a entrevistas sucessivas, quer relate várias vezes poucos acontecimentos, há um núcleo resistente, um fio condutor, uma espécie de leitmotiv em cada história de vida. Neste processo, em geral, ocorre uma tentativa de estabelecer

certa coerência por meio de laços lógicos entre acontecimentos chaves (que aparecem então de uma forma cada vez mais solidificada e estereotipada), e de uma continuidade, resultante da ordenação cronológica. Trata-se, desta maneira, de um trabalho de reconstrução de si mesmo, no qual o indivíduo tende a definir seu lugar social e suas relações com os outros, bem como refletir sobre a validade de desvendar a alguém o próprio passado. Tal fato explica eventuais dificuldades e bloqueios raramente como brancos da memória ou de esquecimentos: um passado que permanece mudo é muitas vezes menos o produto do esquecimento do que de um trabalho de gestão da memória segundo as possibilidades de comunicação (POLLAK, 1989, p.13).

Como, então, considerar os discursos sobre si na recepção do texto? No caso das narrativas literárias, à ausência de questionários, penso que os fatos devem ser tomados como relatados pelo narrador, considerados verossímeis do ponto de vista narrativo, isto é, fazem sentido para o narrador no momento da atualização da escrita,

Benzer Belgeler