4. ARAŞTIRMA SONUÇLAR
4.2.6. Roksana/Myrobolan 29C aşı kombinasyonu
A disputa travada no seio da Comissão de Energia Atômica da ONU, entre os Estados Unidos e a União Soviética - em sua batalha pela definição de uma legislação internacional para a energia nuclear -, seguiu de forma cada vez mais intensa. Segundo Carlo Patti, ao longo dos trabalhos da CEA-ONU, basicamente quatro posições emergiram: “a primeira, em harmonia com a Carta da ONU, clamava por um controle internacional da energia nuclear e por um banimento total do seu uso com fins militares”. A segunda posição era a que propunha “um prolongado monopólio atômico para os EUA, com uma promessa indefinida de renúncia de tais armas”. A terceira “pedia a difusão da tecnologia sem limitações”; enquanto que a quarta defendia a livre “proliferação de armas, para contrastar a supremacia dos EUA” (PATTI, 2012: 29).
De fato, Álvaro Alberto soube capitalizar a disputa acirrada que estava sendo travada na CEA-ONU, e conseguiu aprovar uma emenda ao 1° Relatório da Comissão, publicado no dia 30 de dezembro de 1946. A emenda da delegação brasileira definia que “A propriedade, por parte da agência de controle internacional, das minas e dos minérios ainda não extraídos, não deve ser considerada como obrigatória”39 – ou seja, ficava implícito que caberia a cada país decidir sobre o controle dos seus recursos minerais físseis. Com isso, Álvaro Alberto logrou afastar a possibilidade que mais o incomodava: a desapropriação compulsória das reservas brasileiras de minérios atômicos.
A julgar pelo conteúdo de suas correspondências, Álvaro Alberto considerava ter obtido uma importante concessão nas negociações da Comissão, de modo a acreditar que não teria dificuldades em incluir novas exigências nas versões finais do Plano Baruch. Além disso, o almirante parecia não enxergar – ao menos naquele momento - as
38 Carta de Robert Oppenheimer a Álvaro Alberto, datada a 5 de setembro de 1947. IN: Arquivo Álvaro Alberto, Op. Cit.
39 Proposals and Recommendations of the United Nations Atomic Energy Commission (1946-48). Pg. 7. IN: IBID.
outras propostas presentes no projeto estadunidense de política nuclear internacional (tais como o controle sobre todas as indústrias de produção de energia atômica, e o banimento das bombas nucleares40) como sendo ameaçadoras aos interesses brasileiros na questão atômica41.
Somente mais tarde, a partir do julgamento político que teve lugar na CPI da Questão Atômica de 1956, é que a proposta americana passaria a ser vista como absolutamente contrária às pretensões brasileiras com relação à energia nuclear42. Isto se deu devido à percepção reinante entre os membros da CPI de que o Brasil deveria garantir a sua autonomia plena para conduzir a própria política nuclear, sem qualquer ingerência externas – ainda que sob o argumento de garantir a segurança internacional contra novos ataques atômicos.
Contudo, as expectativas de Álvaro Alberto em flexibilizar ainda mais a proposta americana não prosperaram. Após lograr incluir a emenda que derrubou a obrigatoriedade da apropriação de reservas atômicas pela ADA, o Capitão de Mar e Guerra também tentou incluir, no Plano Baruch, condições que julgava compensatórias aos países detentores de minérios físseis em seu território. Segundo Olympio Guilherme, o chefe da delegação brasileira na CEA-ONU reivindicou cotas preferenciais de minérios físseis brutos para os países detentores de tais recursos minerais.
Álvaro Alberto ainda propôs que os países fornecedores de minérios físseis deveriam ter cotas preferenciais de combustíveis nucleares e da energia gerada a partir dos minérios cedidos. Essas reivindicações podem ser consideradas como um primeiro esboço das “compensações específicas” que seriam formuladas por Álvaro Alberto mais tarde (GUILHERME, 1957: 96), pois já partiam do princípio de que os países
40 Proposals and Recommendations of the United Nations Atomic Energy Commission (1946-48), Pg. 7. IN: Idem.
41 Em carta de Álvaro a Ricardo Xavier da Silveira, datada a 17 de novembro de 1947, Álvaro Alberto, ao criticar a posição soviética de recusar integralmente o Plano Baruch, afirmou: “Os russos votaram sempre contra tudo, porque o seu papel na CEA tem consistido unicamente em promover delongas e resistir contra tudo que lhes pudesse prejudicar a possibilidade de, futuramente, empregarem a seu bel prazer os combustíveis e explosivos atômicos. Devo assinalar a v. [você] que obtivemos muitas concessões e outras se acham bem encaminhadas”. IN: Idem.
42 Um exemplo é o livro de Olympio Guilherme, publicado no ano seguinte à CPI, que tece críticas a Álvaro Alberto e ao Itamaraty pelo apoio que deram à proposta americana: “tanto o Itamaraty, como o Almirante Álvaro Alberto, só se insurgiram contra o Plano Baruch quando a ele se incluiu a cláusula de expropriação das minas, tal como se o primitivo Plano fosse um documento capaz de ser aceito por qualquer nação que tivesse interesse imediato na exploração de suas reservas de minerais atômicos” (grifo nosso). IN: (GUILHERME, 1957: 92).
detentores de minerais atômicos deveriam exigir facilidades diversas para impulsionar o desenvolvimento de tecnologias nucleares nessas nações - como forma de compensar o imenso valor estratégico de tais recursos.
Porém, tais propostas compensatórias não foram bem recebidas pelas delegações dos países que detinham avançado conhecimento científico, mas que não possuíam grandes reservas conhecidas de minérios radioativos. Liderados pelos EUA, esses países passaram a advogar que a desapropriação dos minérios radioativos, alegando que ao colocar tais recursos minerais sob a propriedade e controle da ADA, estar-se-ia compensando supostas “injustiças da natureza” (IBID: 96-97). Álvaro Alberto, enquanto chefe da delegação brasileira, aproveitou as duas sessões em que presidiu a CEA-ONU para criticar tal argumento. Nas palavras de Álvaro Alberto, referindo-se a tal debate anos depois:
“(...) apenas quatro ou cinco países são capazes de abastecer os demais (...). Acresce que, não raro, aqueles que se apresentam para a ambicionada partilham a custas de matéria-prima alheia, argumentam estranhamente que ‘os minérios não têm memória’, e, portanto, os produtores de matéria-prima básica não teriam direito a quotas preferenciais de energia delas resultante; que é necessário ‘corrigir as injustiças da natureza’, como se os pretendentes a beneficiarem-se dessa correção estivessem prontos a praticá-la em favor de terceiros em relação a outros dons que, porventura, lhes tenham cabido, na distribuição das riquezas da terra” (MOTOYAMA e GARCIA, [Orgs], 1996: 64).
No final as contas, as emendas extras propostas por Álvaro Alberto acabaram não sendo incluídas no Plano Baruch, o que motivou o seu descontentamento e a busca por salvaguardas nacionais para os minérios radioativos, tal como veremos a seguir. Além disso, as negociações no âmbito da CEA-ONU chegaram a um impasse intransponível no dia 29 de julho de 1948 (HALL, 1987: 48). Ainda que a Agência só tenha sido formalmente abolida em 1952, na prática ela permaneceu suspensa neste meio tempo. Somente com o advento do programa Átomos Para a Paz, lançado pelos EUA em 8 de dezembro de 1953, é que seria retomado o debate pela criação de um
organismo internacional para o setor – resultando na constituição da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em 195743.