1. GİRİŞ
2.1 İş Sağlığı ve Güvenliğinde Risk Değerlendirmesi
2.2.1 Risk Değerlendirmesi Çalışmasının Yürütülmesi
2.2.2.2 Risklerin Değerlendirilmesi ve Tehlikelerin Kontrolü
Primeiramente, cabe ser dito que a referida sentença internacional, no caso Damião Ximenes Lopes, foi reconhecida pelo Estado Brasileiro e, desde logo, tratou o Estado de achar formas eficazes de implementação no âmbito interno.
Prova disso é que um dia após a promulgação da sentença pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, o Ministério das Relações Exteriores, em nota de n.o 512, veio a declarar que:
O Estado brasileiro já está estudando as formas necessárias para dar pleno cumprimento a todos os itens da sentença da Corte. No que diz respeito, especificamente, à garantia de maior celeridade à ação penal, está sendo constituído grupo, que deverá ser integrado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, Conselho Nacional de Justiça, Ministério das Relações Exteriores e Advocacia-Geral da União, para agilizar este e outros processos judiciais internos cujos objetos estão sob consideração dos órgãos internacionais de proteção e promoção dos direitos humanos.327
Deve-se pontuar que o cumprimento da sentença iniciou-se em 17 de agosto de 2007, quando então a União veio a pagar a indenização devida à família da vítima.
Um ano após, a Corte emitiu uma resolução sobre o cumprimento da sentença em solos brasileiros, alertando o país que o seu cumprimento não repousa apenas no pagamento da indenização, requerendo que o Brasil também remetesse informações atualizadas e detalhadas sobre o estado da investigação penal e sobre os avanços no tratamento de doentes mentais.
Assim sendo, em 27 de junho de 2008, finalmente, houve a prolação da sentença no âmbito da ação cível, proposta pela família da vítima para a devida reparação material.
Mais tarde, em 29 de junho de 2009, prolatou-se a sentença em âmbito penal, pelo juiz da 3.a Vara da Comarca de Sobral, condenando os envolvidos na
327MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES. Disponível em: <http://www.itamaraty.gov.br/>.
morte de Damião Ximenes Lopes328, pelo crime de maus-tratos que resultaram na
morte da vítima.
Com essas duas condenações, seria possível dizer que houve o cumprimento de mais uma determinação da sentença da Corte? Teriam sido elas prolatadas em prazo razoável?
Esse vem a ser um problema não apenas do cumprimento da sentença internacional, mas sim de todo o judiciário brasileiro: a demora na prolação das sentenças e na finalização de um caso.
Logicamente, existem diversas razões para que se justifique a demora processual na justiça brasileira (excesso de ritos no conhecimento da causa, protelação por intermédio de recursos, ineficácia no cumprimento da decisão, excesso de demandas, entre inúmeras outras), mas o que é necessário ser entendido é que, no que tange aos direitos humanos, não cabe qualquer atraso na demanda processual, sendo que, nesse limiar, qualquer justificativa acaba por ser esmagada pelo interesse e necessidade de proteção e efetividade desses direitos.
Assim sendo, deve ser dito que o caso Damião Ximenes Lopes iniciou-se com a ineficácia e demora injustificada da justiça no âmbito interno, configurou o descaso do governo brasileiro – e seus representantes – quando da apresentação da questão à Comissão Interamericana de Direitos Humanos e findou-se com a alarmante demora do Brasil em fazer cumprir, em âmbito interno, o teor integral da sentença internacional.
Sem dúvidas, o esforço em reconhecer a referida sentença, nesse caso, foi realizado de forma efetiva pelo Brasil, mas faltou-lhe muito o empenho em cumpri-la em prazo razoável, o qual, quando se encontra na esfera dos direitos humanos, deve ser realizável em urgência máxima e absoluta.
O Brasil deveria, nesse caso, ter dado mais atenção logo quando a situação chegou ao conhecimento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Como não acontecera, deveria, ao menos, ter proporcionado, em vias internas, o cumprimento do teor integral da sentença em tempo menor que os quase quatro anos da demora.
328São eles: Sérgio Antunes Ferreira Gomes (proprietário da casa de repouso), Carlos Alberto
Rodrigues dos Santos (auxiliar de enfermagem), André Tavares do Nascimento (auxiliar de enfermagem), Maria Salete Moraes Melo de Mesquita (enfermeira-chefe), Francisco Ivo de Vasconcelos (médico) e Elias Gomes (auxiliar de enfermagem).
Finalmente, cabe uma última ressalva: o Brasil fora condenado, também, no desenvolvimento de programas de capacitação dos agentes que lidam com doentes mentais. Até hoje, ano de 2011, não se desenvolveu qualquer programa eficaz nesse âmbito, decorrendo, então, a seguinte indagação: até que ponto se deu o cumprimento da sentença do Caso 12.237 e quantas, ainda hoje, não serão as vítimas em situações análogas às de Damião Ximenes Lopes?
3 CASO GILSON NOGUEIRA DE CARVALHO – CASO 12.058
Juntamente com o caso Damião Ximenes Lopes, interessa discorrer algumas peculiaridades do caso Gilson Nogueira de Carvalho. Pontuam-se ambos os casos como os primeiros, contra o Estado brasileiro, perante o sistema interamericano de proteção aos direitos humanos.
Apesar do Brasil ter sido, nesta situação, absolvido, é de importância suprema o entendimento da questão, até mesmo para se compreender que há sim a possibilidade do Estado não ser condenado, em um tribunal internacional, quando uma questão é levada a seu conhecimento.
3.1 HISTÓRICO DO CASO
Gilson Nogueira de Carvalho, com 32 anos no momento de sua morte, era um advogado ativista dos direitos humanos, tendo dedicado boa parte de seu trabalho na denúncia dos crimes cometidos pelos Policiais Meninos de Ouro e no impulso às causas penais já iniciadas.329
Trabalhava para a organização não-governamental de promoção e defesa dos direitos humanos, Centro de Direitos Humanos e Memória Popular – filiada ao Movimento Nacional de Direitos Humanos –, cuja missão era lutar, de maneira
329Demanda do Caso Gilson Nogueira de Carvalho contra o Estado brasileiro (caso 12.058), na
frontal, contra a impunidade no estado do Rio Grande do Norte, centrando seu trabalho na denúncia das atividades criminais dos Policiais Meninos de Ouro.
Como parte de suas atividades profissionais, Gilson Nogueira de Carvalho apresentou ao Ministério Público, em nome do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular, uma notitia criminis, cuja qual deu ensejo a uma investigação de diversos homicídios, torturas e sequestros cometidos pelos Policiais Meninos de Ouro. Tal investigação clareou nomes de vítimas e descrições de feitos concretos atribuídos a tal grupo.
Em decorrência da denúncia, criou-se uma comissão especial de fiscais do Ministério Público, com o objetivo de investigar os crimes cometidos pelo referido grupo. Esta comissão, após a escuta de diversas testemunhas e a colheita de várias evidências, apresentou acusação contra membros dos Policiais Meninos de Ouro, incluindo, até mesmo, o Subsecretário de Segurança Pública do estado do Rio Grande do Norte. Também, a referida comissão veio a publicar informes e assegurou que todos os crimes investigados eram de responsabilidade da polícia civil e de empregados da Secretaria de Segurança Pública.
Assim sendo, subentende-se que as denúncias de Gilson Nogueira de Carvalho vieram a ocasionar a acusação criminal de diversos policiais e funcionários do estado. Também, ocorrera a difusão da existência de um grupo de extermínio, por intermédio dos meios locais e nacionais de comunicação, motivando a atuação do Governo Federal.
Em meio a este cenário, Gilson Nogueira de Carvalho recebera inúmeras ameaças de morte330, especialmente pelo desenvolvimento de suas atividades
profissionais de proteção e promoção de defesa dos direitos humanos. Assim sendo, o Governo Federal lhe disponibilizou uma proteção específica, por intermédio da polícia federal, a partir da data de seis de setembro de 1995.
Acontece que, sem motivação alguma, na data de quatro de junho de 1996 – quatro meses antes de seu assassinato –, por ordem do chefe de gabinete do Ministério da Justiça, Dr. José Gregori, cumprindo determinações do próprio Ministério, a referida proteção foi suspensa.
330Viera a relatar, em 16 de agosto de 1995, tais ameaças à Comissão de Direitos Humanos da
Câmara dos Deputados e do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, requerendo uma especial proteção.
Na data de 19 de outubro de 1996, Gilson fora uma festa pública, acompanhado de uma jovem que havia conhecido poucos dias antes. Segundo seu amigo, Juney Pinheiro Lucas, a jovem insistiu que Gilson a levasse a seu sítio, em Macaíba. Pouco tempo depois, Gilson e a jovem deixaram o local, em direção a seu sítio.
Ocorre que o referido amigo morava nas proximidades do sítio de Gilson e deixou a festa no mesmo período que os dois, podendo notar que eles estavam sendo seguidos por um automóvel.
Poucos minutos após chegar a sua casa, o amigo de Gilson ouviu alguns tiros, fato que motivou sua ida imediata ao sítio do referido. Chegando lá, encontrou Gilson morte e a jovem com o telefone celular dele em suas mãos.
Segundo depoimento da jovem, logo que ela e Gilson chegaram ao sítio, por volta da meia noite e meia, do dia 20 de outubro de 1996, três homens, que estavam a bordo do automóvel, atiraram com uma escopeta e um rifle em direção de Gilson, não tendo acertado a jovem.
O homicídio de Gilson Nogueira de Carvalho teve ampla difusão no país, fato que motivou o governador do Rio Grande do Norte declinar a competência do fato em favor da investigação da Polícia Federal, justificando a necessidade de assegurar a imparcialidade das investigações.
Também, o referido governador, logo após o homicídio, resolveu afastar do cargo o Subsecretário de Segurança Pública de seu estado, dando como motivos a existência de acusações sobre a possibilidade de seu envolvimento com grupos de extermínio.
De tal forma, já em 25 de outubro de 1996, a Polícia Federal iniciou a investigação331 com o depoimento da jovem que estava com Gilson quando de seu
assassinato. A jovem declarou que teria pedido a Gilson que a levasse a sua casa e que não queria ter ido ao sítio do rapaz. Ocorre que a mãe da jovem, em um jornal local, relatou que sua filha havia mentido em seu testemunho à polícia federal, uma vez que havia sido pressionada, pela própria polícia, a não contar nada sobre o ocorrido.
Ao mesmo tempo, o amigo de Gilson, Juney, declarou que havia presenciado a insistência da jovem em ir ao sítio: contradição entre as testemunhas que nunca foi solucionada.
Nessa investigação, o Ministério Público observou que os policias a cargo de tal omitiram perguntas fundamentais às pessoas que poderiam ter interesses na morte de Gilson, tendo sido, tal investigação, arquivada, por ordem judicial de 19 de junho de 1997.
Não satisfeito, o Ministério Público ordenou, em 24 de setembro de 1998, a reabertura da investigação. Como parte de sua fundamentação, a referida instituição ressaltou que Antonio Lopes, amigo de Gilson, havia realizado uma investigação por sua própria conta, mediante gravações de entrevistas, e tinha encontrado fortes indícios a respeito da autoria do homicídio em um elemento identificado como "Chicão". Absurdamente após tais revelações, Antonio Lopes também viera a ser assassinato.
Assim, em 15 de novembro de 1998, policiais federais executaram busca e apreensão na propriedade de Otavio Ernesto Moreira, policial afastado da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Norte, e ali encontraram duas metralhadoras, duas escopeta e uma pistola. A referida pessoa foi, logo após tal fato, detida preventivamente.
Ocorre que, até aqui, como bem se sabe, o Estado brasileiro ainda não havia reconhecido a competência da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Após essa data, a partir de 10 de dezembro de 1998, o caso Gilson contou com a possibilidade de ser levado a tal instância.
Ainda na mesma data supracitada, peritos do Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal determinaram que Gilson tinha sido morto por uma bala de escopeta, tal qual tinha sido encontrado na casa de Otavio Ernesto Moreira – que declarou que a arma era de seu uso pessoal.
Assim, em 25 de janeiro de 1999, o Ministério Público formulou denúncia contra o ex-policial Otavio Ernesto Moreira, pelo homicídio de Gilson Nogueira de Carvalho. O caso fora levado a júri popular que entendeu que Otavio seria inocente e, em 7 de junho de 2002, o juiz que cuidava do feito decidiu pela sua absolvição.
Então, em 28 de agosto de 2002, o Ministério Público apelou da decisão, solicitando a realização de um novo júri, com novos jurados, uma vez que a decisão fora contra as provas apresentadas nos autos. Além do Ministério Público, os pais de Gilson, por intermédio de seu advogado, também apelaram da decisão.
Acontece que ambos os recursos foram indeferidos e, assim sendo, valeu-se a decisão acima discorrida, obstando aos pais de Gilson uma compensação pelos danos sofridos e impossibilitando a identificação e a sanção aqueles que cometeram o homicídio.
3.2 O CASO NA COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS
O Caso Gilson Nogueira de Carvalho chegou a conhecimento da Comissão já em 11 de dezembro de 1997, quando então ocorrera a apresentação de uma petição pelo Centro de Direitos Humanos e Memória Popular, pelo Holocaust Human Rights Project e pelo Grupo de Estudantes de Direito Internacional dos Direitos Humanos. Além deles, mais tarde, em 2000, a Justiça Global incorporou-se ao caso como co-peticionária.
Na referida petição, os peticionários salientaram a responsabilidade do Estado pela morte de Gilson, alegando que o Brasil havia faltado com a sua obrigação de garantir ao referido cidadão o direito à vida, além de não ter realizado uma investigação séria sobre sua morte, nem processado os responsáveis e muito menos promovido os recursos judiciais adequados.
Em de janeiro de 1998, a Comissão transmitiu as informações ao Estado e às partes pertinentes da denúncia, dando-lhes o prazo de 90 dias para que prestasse informações sobre o caso. Acontece que, por diversos motivos – tais como a tradução ao português da petição –, o prazo do país para prestar esclarecimentos acabou por ser prolatado, mas, assim mesmo, até abril de 1999, o Brasil não havia apresentado a sua resposta, fato que levou a Comissão a conceder-lhe um prazo de mais 30 dias, mas advertindo-o sobre a possibilidade da aplicação do art. 42 do Regulamento da Comissão (presumindo a veracidade dos fatos alegados, caso não houvesse resposta do Estado).
Apenas em 29 de junho de 2000 é que o Estado foi informar que, segundo a Procuradoria Geral de Justiça do Rio Grande do Norte, o processo sobre o homicídio de Gilson se encontrava em fase de pronúncia.
Mais adiante, em 2 de outubro de 2000, a Comissão aprovou o Relatório de Admissibilidade n.o 61/00, ressaltando a possibilidade da denúncia ser recebida e
salientando que "o silêncio do Estado (sobre esgotamento dos recursos internos) constitui, no presente caso, uma renúncia tácita à invocação da exigência".
Seleciona-se que tal relatório fora enviado tanto aos peticionários, como ao Estado e, em 29 de agosto de 2003, a Comissão colocou-se à disposição das partes para que fosse encontrada uma solução amistosa ao caso. Ocorre que três dias após, os peticionários declararam que gostariam de continuar com a análise do mérito da causa, antes de se chegar a uma solução amistosa – fato este que o Estado não se pronunciou.
Em 10 de março de 2004, a Comissão veio a concluir que o Estado seria responsável pela violação dos direitos estabelecidos nos artigos 4 (direito à vida), 8 (garantias judiciais) e 25 (proteção judicial) da Convenção Americana, recomendando, em 13 de abril do mesmo ano, ao Estado a adoção de uma séria de medidas para sanar tais violações, fixando um prazo máximo de dois meses para que informasse sobre o cumprimento de tais recomendações.
Acontece que o Estado solicitou, por duas vezes, a prorrogação do prazo e, em 18 de maio de 2004, os peticionários requereram à Comissão, a submissão do caso à Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Mais tarde, de 10 de agosto de 2004 a 12 de janeiro de 2005, o Brasil apresentou vários relatórios acerca do cumprimento das recomendações formuladas pela Comissão, informando, inclusive, em que fase processual estava o processo de homicídio no âmbito interno e o desenvolvimento de um programa de proteção dos direitos humanos. Viera informar, ainda, que o principal acusado no processo havia sido absolvido em primeira instância, mas como era de interesse do Ministério Público em interpor recurso à decisão até os tribunais superiores, então as etapas recursivas ainda não se apresentavam conclusas.
Novamente, em 21 de dezembro de 2004, os peticionários alegaram que "era extremamente importante o envio do caso para a Corte Interamericana [...] uma vez que o Estado [...] não havia cumprido com as três recomendações formuladas pela Comissão". Logo, em 13 de janeiro de 2005, a Comissão apresentou a demanda perante a Corte, anexando prova documental e oferecendo prova testemunhal e pericial como fundamentos.