Cultura Popular é o que eu vejo aos pedaços da vida feroz do boia fria, do operário ou do camponês; o trabalho do pobre, o arranjo das sobras, os artifícios do viver e a canção sobre o trabalho e a vida. “Cultura Popular” é também o meu conceito, a minha teoria, algumas vezes a minha ilusão, outras, o meu emprego. Por isso ele faz a fala e a arte, e eu invento os seus nomes: “cultura”, “popular”. A Cultura Popular é a tessitura do povo sobre o mundo no lugar de onde eu não sou, de que eu não faço parte. Ela é o que se faz sem mim, fora do poder do meu trabalho letrado,
mas não no ardil do meu pensar “sobre”, que pensa a cultura da vida de que não é parte para compreendê-la, ou para fazer parte do seu domínio?
Mesmo que eu more ao lado da favela ou dentro dela, há uma distância de muitos alqueires entre o quintal dessa cultura e a minha mesa. É a distância que existe entre o fazer de dentro com o trabalho, as mãos e a vida, e o trabalho sem vida de pensá-lo do lado de fora, quando o gesto de pensar o fazer do outro não é mais do que o compromisso do pensador com ele mesmo ou com a pequena quadrilha dos seus iguais. (BRANDÃO, 1980, p. 123)
Desde 2012, venho acompanhando a turma da EJA do acampamento Elizabeth Teixeira e tive a oportunidade de também construir junto com a comunidade minha pesquisa de mestrado. Assim, conhecendo a comunidade e seus sujeitos, procurei que esta pesquisa de campo acompanhasse e respeitasse as particularidades apresentadas por cada uma das pessoas envolvidas.
Para mim, esta discussão é importante, pois hoje a turma da EJA conta com cerca de 12 pessoas entre educandas e educandos e mais 2 educadoras. Nesta pesquisa apresentamos as duas educadoras e apenas 2 educandos, o que pode ser caracterizado, em certo momento, como de pouca legitimidade para uma pesquisa. Porém o que quero abordar aqui é exatamente essa questão, as particularidades e as fragilidades que as salas de EJA apresentam e como nossas intervenções como pesquisadores podem interferir no cotidiano da turma.
Em um primeiro momento, nossa estratégia foi de conversar com as educadoras e discutir com elas os questionários, para então serem aplicados de maneira individual com cada educando e educanda. A partir de então, ficou combinado que minha participação se daria nas aulas da EJA, chamando um educando por vez em um local separado da sala, para que não atrapalhasse o andamento da aula e também para que os educandos tivessem mais liberdade para falar sobre a EJA, sem os demais por perto.
Iniciei então, o processo de ir às aulas para realizar as entrevistas. Logo nas duas primeiras semanas que marcamos de fazer as atividades, a chuva foi bastante intensa por toda a região e devido às más condições das estradas de terra do acampamento, as aulas foram canceladas. Em um desses dias, acreditamos que poderia ocorrer aula e me dirigi ao acampamento, me encontrando com uma das educadoras em sua residência. Naquela noite, não conseguimos sair de sua casa para írmos até a escola, pois a chuva iniciou-se novamente de forma bastante intensa. Nesse dia então, ela me concedeu sua entrevista e ofereceu-me um jantar. Já estávamos há 2 semanas sem aulas.
Na próxima semana uma das educadoras estava com problemas particulares para resolver e alguns educandos e educandas também não estavam no acampamento, o que culminou em uma
terceira semana sem aula. Na quarta semana combinada um feriado se aproximava, e os educandos e educandas decidiram coletivamente que não queriam ter apenas um dia de aula e decidiram que as aulas começariam na semana seguinte, em uma segunda-feira, com uma reunião coletiva sobre a falta de aulas no mês que passou.
Por sugestão da educadora, me dirigi ao acampamento durante o feriado, pois segundo ela não seria um bom momento “atrapalhar” o re-início das aulas para realizar as entrevistas. Segui para o acampamento e realizei a entrevista com a segunda educadora e com os outros dois educandos. Os demais ou não se encontravam em suas casas, ou estavam recebendo familiares e não poderiam deixar os afazeres. A partir de então, os prazos para entrega deste texto já estavam apertados.
Assim, quatro entrevistas são apresentadas nesta pesquisa, com detalhes das narrativas que acredito serem importantes para debatermos as políticas públicas da EJA do campo e neste momento, acredito que suficientes para compor este trabalho. Se o trabalho tiver um bom resultado para as análises que pretendemos, novas entrevistas podem ser realizadas nesta sala de EJA, assim como em demais salas de outros áreas de reforma agrária.
O mais importante de todo esse processo é compreendermos que o tempo, os prazos e os anseios do pesquisador e de uma pesquisa não correspondem ao mesmo tempo da comunidade estudada, o tempo é outro. Por mais que a pesquisa possa contribuir para a comunidade, os anseios são outros, a lógica é outra e ela deve respeitar o espaço-tempo e a individualidade de cada um. Por esses aprendizados adquiridos durante a pesquisa de campo, deixei as ansiedades de lado, realizei o campo que foi possível, não aquele que como pesquisadora me propunha e queria fazer, mas o campo que a comunidade permitiu que eu fizesse nesse momento.
2. 5 Um olhar sobre as entrevistas e a produção de narrativas
Quando fizemos a opção de trabalhar com as narrativas dos sujeitos envolvidos na EJA do acampamento Elizabeth Teixeira, nossa ideia foi a de trabalhar as narrativas benjaminianas, ou seja, aquelas baseadas nas memórias de histórias de vida dos sujeitos, na memória que é acionada à medida que o sujeito está narrando. Porém, algumas perguntas nos pareciam bastante importantes de serem respondidas e desta forma, baseando-nos em pesquisas anteriores do PRONERA seguimos a ideia de montar um questionário para auxílio, não abrindo mão da pesquisa qualitativa. Porém, à medida que trabalhávamos no questionário, mais e mais questões surgiam e achávamos importantes para compor a pesquisa, pois eram questões que nos intrigavam, ou nos intrigam ainda.
Ao final do processo, nosso questionário possuía vinte questões para as educadoras e vinte e cinco questões para as educandas e educandos responderem, individualmente. As questões que
elaboramos deram conta realmente das respostas que buscávamos, sendo respondidas algumas vezes com “sim” ou “não”, mas davam conta de uma pesquisa qualitativa. Porém, quero destacar que nem toda pesquisa qualitativa produz narrativas, assim como nem toda narrativa é produzida por memórias.
Destaco isso pois, durante a primeira entrevista percebi que as respostas que buscávamos estavam sendo respondidas, mas não com a metodologia e a forma como tínhamos pretendido desde o início da pesquisa; não havia memória nas respostas, dificilmente teríamos narrativas. Porém, pude perceber que as pessoas tinham muitas histórias para contar, queriam contar e só cabia a mim permitir esse movimento, pois eu, como pesquisadora ali, era quem tinha o “poder” do gravador. Os entrevistados buscavam a minha permissão para continuar falando, para contar histórias sobre o tema que eu buscava.
Foi a partir desse momento que me dei conta, que como pesquisadora, preciso deixar minha sensibilidade de educadora prevalecer e a partir dessa sensibilidade eu esteja disposta a ouvir e permitir que os “entrevistados” conduzam a entrevista e sejam autores de suas próprias narrativas. Não poderia deixar minha sensibilidade em querer ouvir esses sujeitos ser aprisionada por um questionário, era preciso utilizá-lo como uma ferramenta de organização e não deixar que ele conduzisse a entrevista.
Pequenas modificações em “como” fazer a pergunta faz bastante diferença na resposta, pois dá liberdade aos sujeitos acionarem suas memórias e construírem suas narrativas. Por exemplo, no questionário dos educandos, logo na questão 1 onde perguntamos:
- Antes do curso já havia frequentado algum tipo de escola? Se sim, até que série frequentou? Qual tipo? Por quanto tempo?
Para ouvir narrativas memoráveis, melhor seria se perguntássemos:
- Antes da EJA no acampamento, você já havia frequentado outra escola? Me conte um pouco dessa experiência.
A partir do momento que pedimos para que o educando conte sua experiência, as demais perguntas que vem em seguida acabam sendo respondidas, se não forem, melhor seria que utilizássemos a ideia de “me conte essa experiência” (seja a experiência da leitura, da escrita, dos cálculos). Quando eles contam suas experiências na escola, já é possível saber de qual escola falam e por quanto tempo ficaram.
Outro importante exemplo foi a questão 23, onde construímos um quadro que pedia ao educando que respondesse “sim” ou “não” quando cartões fossem mostrados. Logo que fiz a pergunta: “Desde que você começou a participar da EJA, o que mudou na sua vida?”, não tive tempo de mostrar os cartões pois tinham tantas coisas para contar que já começavam a narrar, então
percebi que os cartões não eram necessários e a partir de suas narrativas, a questão já estava respondida.
Assim, os questionários continuaram a ser seguidos, porém algumas questões foram alteradas na forma de se perguntar, permitindo que as memórias aparecessem e as narrativas tomassem conta deste trabalho.
Quero destacar que as narrativas foram uma escolha metodológica e compreendemos que há limitantes quando se trabalha com essa metodologia, ou seja, ela não é capaz de resolver todos os problemas de pesquisa, mas apresenta suas potencialidades, mesmo deixando falhas no percurso.