Diante das análises acima realizadas, pode-se afirmar que a dinâmica rural não deve ser analisada isoladamente, isto é, distante das relações que ultrapassam os limites dos estabelecimentos rurais. O processo de desenvolvimento é bem mais complexo, principalmente ao perceber-se que a partir da reestruturação da agricultura houve o surgimento de novos fenômenos, entre os quais se inclui a crescente importância das ocupações rurais não-agrícolas, doravante chamadas de ORNA’s.
As origens desse fenômeno podem ser encontradas em algumas mudanças conjunturais e estruturais que passaram a envolver a agricultura e consequentemente o meio rural, tais como: crescimento das cidades com o aumento e diversidade das oportunidades de ocupação; interiorização do desenvolvimento e das oportunidades de emprego não-agrícolas no meio rural; ampliação dos mercados de bens e serviços que geram novas ocupações rurais não agrícolas tanto no setor da indústria, como no setor de serviços, no turismo e na administração pública e privada, dentre outros (GRAZIANO da SILVA, 1997; SILVA; DEL GROSSI, 2000).
Na análise deste fenômeno a industrialização/modernização é o eixo dinâmico, no qual o capital comanda um processo de acumulação, que não se prende apenas ao setor agrícola, mas incorpora-se nos outros setores fazendo com que a divisão social do trabalho se dissipe em várias ocupações, sendo estas agrícolas ou não.
Assim, este rural permeado por atividades não-agrícolas se dá através do redirecionamento de empresas procurando minimizar seus custos por meio do aporte de mão de obra mais barata, menor preço dos imóveis, além de incentivos fiscais advindos de programas governamentais de incentivo a interiorização das indústrias. Além da indústria, o setor de serviços também se alarga, como também atividades que cultuam o espaço rural, como o turismo rural (GRAZIANO da SILVA; DEL GROSSI, 2000).
O surgimento das ORNA’s desencadeia em outro fenômeno, a pluriatividade. Este fenômeno remonta a estudos que analisaram a situação dos part-time farmers que dedicavam apenas parte de sua jornada de trabalho em uma ocupação. Tais estudos evoluíram e mostraram que os trabalhadores não dedicavam apenas parte de seu tempo a uma atividade, mas sim, combinavam diversas atividades de modo a incrementar a renda dentro de sua família, o que passou a diferenciar e a caracterizar o fenômeno da pluriatividade (SCHNEIDER, 2003).
A pluriatividade caracteriza uma unidade de família rural que tem múltiplas ocupações, ou seja, tem sua renda proveniente de diversas atividades. Entretanto, esta combinação de diversas fontes de rendas está ligada às atividades realizadas pela família, portanto, fontes de rendas como aposentadorias, remessa de dinheiro e transferências governamentais não são incorporadas no conceito de pluriatividade (SCHNEIDER, 2006).
Todavia, a pluriatividade não é um fenômeno recente, as combinações de atividades que as caracterizam já aconteciam tradicionalmente. O que ocorre é que agora este fenômeno ganha novas roupagens devido à modernização, ao marcante processo de terceirização que avançou nos anos 1990 no Brasil, às mudanças no mercado de trabalho, e às políticas de estímulo às ORNA’s (SCHENEIDER, 2006).
Desta forma, os fenômenos das ORNA’s e da pluriatividade dão novas perspectivas de enxergar o meio rural e em particular a condição da agricultura familiar, pois alguns teóricos identificam a pluriatividade não como um fato decorrido da dinâmica da modernização, mas como parte de uma estratégia da agricultura familiar em aumentar sua autonomia perante as condições adversas enfrentadas. Tratando-se, portanto, de um fenômeno mais complexo do que uma simples decorrência do processo de modernização (SCHNEIDER, 2006).
A pluriatividade não é uma conseqüência direta do surgimento das ORNA’s, uma vez que já existe desde muito tempo. Entretanto, pode-se afirmar que atualmente a relação existente entre os dois fenômenos é simbiótica, já que a pluriatividade incentiva e é incentivada pelo aumento das ORNA’s. Além disto, a pluriatividade é recoberta de nuances: perpassa pela estratégia dos agricultores, é própria de uma conjuntura específica da localidade, e não se trata de um fenômeno temporário. Sua prática se modernizou com a
combinação de atividades de diferentes setores da economia, mas ainda mantém relações com as práticas “antigas”, como a combinação de atividade dentro do próprio setor agrícola, que de muito tempo já era algo comum e existente no meio rural (SCHNEIDER, 2006).
Esta relação de evolução das ORNA’s e da pluriatividade tem implicância no desenvolvimento rural, com estes dois fenômenos atuando em conjunto e dando um contorno mais complexo da realidade, que cada vez mais combina ocupações agrícolas e não-agrícolas. A partir de então, a estratégia de desenvolvimento e a própria concepção das políticas e dos estudos têm que captar esta realidade. A estratégia que emerge desta combinação vem se tornando cada vez mais importante, uma vez que tem contribuído para a inclusão social, reduzido a pobreza e as desigualdades, além de ter diminuído a vulnerabilidade do produtor rural através da elevação da renda familiar. Além disto, tem possibilitado uma maior autonomia por meio da diversificação gerando maior estabilidade aos produtores frente às especificidades da agricultura (SCHNEIDER, 2006).
Esses fenômenos conferem maior complexidade às formas organizativas do meio rural, contrapondo-se à standartização da agricultura e seus agentes, tanto das abordagens que deram conta da modernização, levando os agricultores familiares a serem absolvidos pelo processo de industrialização e urbanização da agricultura, como pela vertente que enxerga a agricultura familiar e os agricultores como completamente integrados com os mercados e os pacotes tecnológicos. A expansão das ORNA’s e o surgimento da pluriatividade dão uma nova roupagem a agricultura familiar e abrem um leque de perspectivas de análise, além de ampliar o espectro dessa categoria que está longe de ser homogênea.
Entretanto, os enfoques até aqui debatidos privilegiaram suas análises em fenômenos existentes dentro do desenvolvimento. Nas próximas seções trataremos de algumas abordagens que tentem compreender a diversidade de agentes do meio rural e suas implicações no processo de desenvolvimento.