discurso em si, através do qual, praticamente sozinho, nos distinguimos superiormente dos outros animais; apesar de Xenofonte pensar que seja a glória100. Já Virgílio crê que o desejo pela glória pode afetar também os cavalos, como ele disse nas suas Geórgicas:
99 O nome Rufus sugere a rosácea face de um camponês e Catena, uma corrente ou prisão. (NE, De Panizza, op. cit., nota 55, p. 328).
101 (...) um que se ressente pela derrota, o outro que se
regojiza pela vitória101.
Nós já discutimos a risada. Agora, falando do ponto de vista masculino, eu vos pergunto: se, por acaso, alguma vez eu escutasse uma mulher falando docemente, como dizem que Cleópatra fazia, deveria eu me retirar, terminando assim com a conversa? E, como a nossa audição não é sensível apenas ao discurso, toda vez que uma jovem (seu canto é mais doce para mim do que o nosso) cantar com uma voz clara e bem modulada como a de Carini Amphrisia, devo eu tapar os meus ouvidos como eu faria ao som das sereias? (2) Quem agisse assim deveria sempre perseguir sons desagradáveis, como o martelar do ferreiro, ou o bater das quedas d'água dos rios, como as do Reno ou do Nilo; e, em relação às vozes humanas, os sons de choro e gemido. E se ele gostar desses sons, ele deve ser obrigado a escutar o de seu próprio choro. A opinião geral é a de que o homem, longe de desaprovar a música, aparentemente esforçou-se zelosamente no seu cultivo, mais do que em qualquer outra coisa. Realmente, alguns estudiosos dizem que a música é o estudo mais antigo de todos. Daí se esclarece porque a busca do prazer é o mais antigo de todos os estudos, já que a música não produz nada além de prazer. (3) O fato de que os numerosos instrumentos musicais não sejam ignorados nem mesmo pelos iletrados, indica o quão satisfatória é para eles a música, através da qual até mesmo os próprios deuses (se podemos falar por eles) são afetados. E os poetas, que se auto intitulam profetas dos deuses, estão sempre cantando para dar prazer aos deuses ou aos homens, ou a ambos. Além do mais, naqueles tempos antigos, músicos, poetas e sábios eram julgados na mesma medida. Como em outros de seus livros - tal qual na República e no Timeu -, Platão julgou que a música era necessária ao homem civil102. O que mais precisamos dizer? Nossos ouvidos são amaciados não apenas pelas canções dos homens, mas também pelas dos pássaros. Nem digo nada sobre o quão doce é o canto de um homem para si próprio - tal é sabido por aqueles que já o experimentaram. Eu mesmo já me dediquei o suficiente nesta arte quando
101 Virgílio, Geórgicas, III, 102.
102 Platão, Republica, II, 376e, 377a; III, 401d; Timeu, 18a. Também ver: Quintiliano, Institutio oratoria, I, 10, 13-15.
102 eu era garoto, seja porque esta parecia induzir-me às habilidades poéticas e oratórias, seja porque era uma ocupação muito agradável.
XXIII. (1) Vamos agora lidar com os dois últimos sentidos que faltam, a começar
pelo gosto. Por que eu precisaria listar comidas? Não apenas os livros de culinária, mas também os trabalhos dos médicos e de alguns filósofos são cheios de conversas sobre sua natureza e preparo; sejam comidas feitas a partir de animais, pássaros, peixes e plantas; seja uma mistura de todos estes. Com a comida ocorre algo semelhante ao que eu já mencionara antes quando eu falava sobre a face feminina: tu hesitarás em escolher qual comida gostas mais. Deve-se reconhecer que, no caso dos demais sentidos, o mesmo também ocorre. Assim, em Terêncio encontramos: “banquetes põem dúvidas na mesa”103; quer dizer, um banquete preparado de modo tal que não se sabe que prato escolher. Qualquer um que ousar difamar ou proibir tais comidas, parecer-me-á estar louvando a morte ao invés da vida e, por isso, na minha opinião, deveria ser torturado com o seu próprio jejum, até morrer de inanição. Realmente, a este desejo tal sorte.
(2) No entanto, muitos são elogiados por sua parcimônia, moderação ao comer e
extraordinária frugalidade. Tal eu admito, mas só em parte, porque estas pessoas pouco diferem daqueles homens primitivos que eram rudes, grosseiros e quase animalescos. Eles realizavam apenas o que suas mãos descuidadas lhes permitiam e não conheciam ainda outros recursos:
(...) as cavernas frescas serviam de humildes moradas, onde, sob a mesma escuridão da fogueira, se reuniam seus deuses do lar104, seus rebanhos e seus senhores. E a esposa errante sobre as montanhas, estendendo à terra um leito feito de ramos, folhagens e de pele de bestas selvagens capturadas nos arredores, (...) oferecia seus seios para amamentar as crianças robustas, às vezes mais
103 Terêncio, Phormio, II, 342.
103 repugnante que seu marido ao vomitar sua glande
(...)105
Estas mesmas pessoas, entretanto, gradualmente deixaram aquele modo de vida grosseiro e, dia após dia, deleitaram-se em viver com algum conforto, de modo que, não importa aonde metessem os pés, este conforto - como se fosse o Senhor e não um visitante - nunca mais deixaria as suas casas. (3) Contudo, existem muitos que ainda hoje não deixaram aquele antigo estilo de vida. E quem são, se posso perguntar a vós, esses homens? Estes são aqueles que não podem viver decorosamente, como Garamantes e muitos outros povos das regiões do sul que se alimentam de lagostas; ou, do lado oposto, aqueles do norte, de quem Virgílio dizia:
(...) que se sustentam de leite coalhado misturado com sangue de cavalo106.
Os gimnosofistas107 que Xenofonte elogia e os sacerdotes de Júpiter Cretense parecem ter sidos incitados por um tipo de fúria má, quase um fanatismo, muito símile aos estóicos, os quais fazem de tudo por uma inócua ostentação. (4) Os lacedemônios108, depois de livres desta ambição, praticavam a frugalidade, não devido ao seu desprezo pela comida, mas por conta de seu excessivo amor pela guerra. Agindo assim, acho que eles foram duplamente insensatos: primeiro porque fraudaram suas próprias naturezas e segundo porque se inclinaram à morte. Mas, por que eu deveria surpreender-me com os costumes dos espartanos, os quais correspondem àqueles mesmos lacedemônios que nasceram torpes e consideravam o furto como um sinal de habilidade? Eles praticavam roubos uns contra os outros como se este fosse um êxito louvável e expulsaram de sua própria cidade a arte da oratória. Quanto ao que comumente se diz sobre a abstinência de Pitágoras, é negado por
105 Juvenal, Sátiras, VI, 2-10. 106 Virgílio, Geórgicas, III, 463.
107 Gimnosofistas, os “filósofos nus”, é o nome dado pelos gregos aos filósofos orientais que meditavam despidos, vagando pela Índia.
104 Aristóteles e seu pupilo Aristoxeno109, o músico, e, mais tarde, por Plutarco e alguns outros110. O mesmo também foi falsamente declarado sobre Empédocles e Orfeu. (5) E mesmo se estes homens tivessem sido abstémios, eles deveriam ser assim imitados categoricamente, sem nenhuma razão? E se eles tiverem feito isso para não oprimirem ninguém com seus gastos; ou para parecerem mais sábios que os outros; ou para não parecerem viver de acordo com os costumes dos outros? E se eles apenas não gostassem de certas comidas, pois, de fato, eles não comiam carne e certas comidas? É fácil abster-se do que não se gosta, como algumas pessoas que não gostam de vinho e, logo, são chamadas de abstémias. Portanto, não devemos considerar aquilo que é feito, mas sim por qual razão e com qual justificativa é feito. Sem falar ainda que, dentre aqueles dois, um, crendo ser um deus, jogara-se para dentro do Etna; ao passo que o outro foi acusado de ofensa ainda mais vergonhosa111.
(6) Finalmente, ainda em relação ao assunto sobre comida, seja qual for a opinião
dos outros, deixai que eles vejam por si próprios. Pois, na minha opinião, aquele que melhor e mais sabiamente poderia falar sobre esse assunto seria aquele que permitisse que lhe fosse alongada a garganta para que assim pudesse saborear, o mais demoradamente possível, o prazer do gosto, admitindo-se que de uma garganta mais longa derive um maior prazer em comer e beber112. E por que eu temeria dizer o que eu penso? Ah, se os homens pudessem ao menos ter não cinco, mas cinqüenta ou quinhentos sentidos! Pois, se os sentidos que temos são bons, por que não poderíamos desejar outros mais do mesmo tipo?