CHAPTER II CONCEPTUAL AND THEORETICAL FRAMEWORK
2.1. Right to the City
A palavra , conforme Anatole Bailly, Dictionnaire Grec-Français, significa ‘mérito ou qualidade pela qual alguém se excele’. De acordo com H. G. Liddell and R. Scott, no Greek-English Lexical, significa ‘excelência, qualidades físicas que constituem valor, excelência, perfeição'. Esse valor deve ser inerente aos , aos homens mais nobres da classe superior, aos bem-nascidos descendentes de deuses.
A busca da excelência pelo herói é impulsionada pela necessidade de se imortalizar, de permanecer vivo na memória das gerações vindouras. E para que isso aconteça, faz-se necessária a realização de grandes feitos, de modo que ele sirva de modelo a ser seguido pelos mais jovens. Assim, analisemos o termo areté a partir da raiz da palavra, na tentativa de identificar esse sentido de excelência na sua etimologia.
A raiz , que, segundo o Greek-English Lexical22, traz o sentido de ajustar, adequar conjuntamente, está no verbo , ajustar, adaptar, encaixar, construir, prover de, e encontra-se também nos vocábulos , e , superlativo e comparativo de superioridade respectivamente, do adjetivo 23. Partindo, então, do sentido etimológico, + (sufixo de superlativo)] significa aquele que mais se ajusta, aquele que mais se adéqua. De modo a comprovar essa ideia, elenquemos algumas
22 LIDDELL, Henry George and SCOTT, Robert. A greek-english lexicon. Oxford: Claredon Press, 1996.
23 CHANTRAINE, Pierre. Dictionnaire étymologique de la langue grecque: histoire des mots. Paris: Klincksieck,
1999, p. 6. "Exp i e les ualités vi iles de fo ce, d’efficacité epithéte d’Aga e o , d’Achille, etc. du hé os, ce qui entraine, mais par voie de conséquence, le sens de « courageux » et de « noble »." [Exprime as qualidades viris de força, de eficácia (epíteto de Agamêmnon, de Aquiles, etc.) do herói, o que carrega, porém, por consequência, o sentido de 'corajoso' de 'nobre'.]
palavras oriundas da raiz , as quais exprimem a ideia de adaptar, acordar, ajustar: (portas firmemente fechadas, fixadas), (ligação, união, amizade), (ligar-se, unir-se), (união, amor), (arranjar, preparar), (dispor, preparar). Os dois últimos verbos são provenientes de * , palavra conhecida senão por glosas, dela provém (colocado junto em ordem). Conforme Chantraine, a palvara é certamente antiga, cf. arm. ard, gén. ardu « ordem », lat. m.
artus, -us, skr. rtú- « momento fixado, ordem », etc.’. O linguista assinala ainda que o termo se aproximaria de através de e de . Das observações acima, podemos inferir que a ideia de excelência e de superioridade que provém da palavra , explica-se, então, se entendermos, em princípio, que ser excelente é ajustar-se, adequar-se. Resta-nos, conseguintemente, analisar de que modo ocorre esse ajustamento, e em relação a que. Antes, porém, verifiquemos o que Benveniste discute acerca da raiz .
Setundo o linguista, no alicerce desta raiz está o sentido de ordem, princípio que permite a organização e o funcionamento do universo, e sem o qual retornaria o estado de caos. Esse princípio está na base jurídica, religiosa e moral do indo-europeu, como também nos fenômenos da natureza, e na relação entre homens e deuses. Benveniste elenca alguns vocábulos que trazem, em sua formação, essa raiz, os quais carregam, em sua acepção, o sentido de ordem. Ela está presente no védico rta, iraniano arta, avéstico asa. Por intermédio de uma sufixação de abstrato em -tu-, o indo-iraniano constitui o tema védico rtu, avéstico
ratu-, designando a ordem especialmente das estações, além de assinalar o sentido de regra,
norma de uma maneira geral. Todas essas formas se vinculam a uma raiz , presente na forma grega "ajustar, adaptar, harmonizar", a qual se ligam vários derivados nominais. Com -ti-, dá a forma latina ars, artis "disposição natural, qualificação, talento", com -tu-, artus "articulação" também com outra forma do radical, em latim dará ritus “ordem, rito”; e em grego, (arm. ard, genitivo ardu “ordem”) assim como o presente “arranjar, equipar”; com *-dhmo- gr. “vínculo, junção”; com *-dhro-, gr. “articulação, membro”, etc. A mesma raiz está na base da palavra sânscrita dharman, que significa lei, aquilo que está estabelecido solidamente, logo, aquilo que está ajustado, posto em uma ordem.
Assim, diante do que foi exposto, é possível inferir, ratificando a ideia acima alentada, que ser excelente é ajustar-se à ordem estabelecida. No que concerne aos heróis, raça criada por Zeus, a ordem é aquela estabelecida pelo deus, após a sua luta contra os Titãs e a sua consagração como pai dos deuses e dos homens24. Desse ajustamento, advêm como consequência natural, os privilégios aos quais o herói deve fazer jus. É o que mostra os versos abaixo: ῦ ί ἢ ὴ ῶϊ ή ά ἕ έ ί ἰ ὲ ί ά ἐ ί , ά ὲ ὺ ᾏ ἰ ό , ὶ έ ό έ ά ᾽ ὸ ῆ ὶ ἀ ύ ό ; ὼ ῦ ὴ ί έ ώ ἐό ἑ ά ἠ ὲ ά ί ἀ ῆ , ά ᾔ ᾽ ί ύ ά · ὐ ὰ ἀ έ ί ά έ ἡ έ ῆ , ί ί ῆ ό ᾽ έ · ἀ ᾽ ὶ ἲ ἐ ή, ἐ ὶ ί έ ώ ά . (Ilíada, XII, 310-321)
Glauco, por que, afinal, somos honrados com o melhor assento, com carne fresca e também com cálices cheios, na Lícia, e assim todos consideram nos deuses? Também cultivamos grande terreno junto às margens do Xanto, bom de fruteira e também de campo de trigo. Por isso agora convém estar firme dentre os primeiros Lícios e confrontar a guerra ardente a fim de que alguém dos fortemente armados dentre os Lícios, veementemente assim diga: certamente não inglórios reis, os nossos, comandam a Lícia; consomem gordas ovelhas e doce vinho escolhido; mas, precisamente, também é valorosa a força, quando combatem no meio dos primeiros Lícios.
O trecho acima diz respeito ao episódio em que os troianos, estando em vantagem em relação aos gregos, avançam em direção aos navios e atravessam o muro de proteção do acampamento dos aqueus. Nesse momento, Zeus insufla ardor no seu filho Sarpédon, que, semelhante a um leão faminto, avança. O herói, então, volta-se para o companheiro Glauco, e enfatiza a importância de buscar o ponto em que a batalha se faz mais acirrada, para que assim provem o quanto são valorosos e merecedores dos privilégios adquiridos pela posição que ocupam semelhantes a deuses - ' ά ὲ ὺ ᾏ ἰ ό '. É preciso, pois, que
os heróis – criados para fazer valer a justiça, combatendo a injustiça da raça de bronze, e por isso serem eles nomeados mais justos, criados também para fazer valer a ordem estabelecida por Zeus, ajustando-se a ela, e por isso serem eles nomeados mais nobres - - respeitem o , a medida que dá ao homem a sua condição humana, reverenciando os deuses, submissos aos seus desígnios. Eles têm como consequência natural desses qualificativos, viver na ilha dos bem-aventurados depois da morte. Há aqueles, no entanto, que, além disso, obtêm a glória imperecível através da ‘bela morte’ e conquistam a imortalidade, tendo seus feitos relembrados e seu exemplo seguido pelas gerações vindouras, estando sempre presentes na ausência física através dos cantos dos aedos. A garantia da lembrança desses feitos é que eles sejam grandiosos, por isso, o herói busca sempre se exceler seja no campo de batalha, enquanto combate com outro guerreiro, seja na assembleia, enquanto profere discurso persuasivo, distinguindo-se na arte do bem falar. Tratando-se de uma sociedade cuja base de sustentação é a guerra, tendo em vista que reflete o modo de estabelecimento da ordem do cosmos por Zeus, que foi através da guerra, a Titanomaquia, sendo o deus o expoente máximo de excelência, apenas os , denominação dada aos homens da raça de heróis, podem ter . Descendentes de deuses – 'ἀ ῶ ἡ ώ ῖ έ , έ ἡ ί ' – eles se ajustam a esta ordem social, cuja mola propulsora é a emulação, e a qual demanda força, coragem e ardor guerreiro a fim de que nela se enquadre. Na Ilíada, Canto XII, versos 298-308, graças às forças de Sarpédon, as quais lhe foram insufladas por Zeus, os troianos conseguem ultrapassar o muro construído pelos gregos para a proteção do acampamento. Nesse momento, o herói é comparado a um leão montanhês, que, faminto, avança perigosamente contra um curral fechado, protegido por pastores armados, e, destemido, salta o cercado, a fim de capturar uma presa, ou ali mesmo perecer, tamanha é a intrepidez do filho de Zeus. Essa comparação serve para exaltar a do herói, aproximando-a à ferocidade de um animal ávido.
A consagração da excelência de um herói guerreiro ocorre com a ‘bela morte’. Ela lhe confere a glória imperecível e a imortalidade, pois desse modo ele estará sempre presente na lembrança dos que vivem.