O sistema penitenciário mundial percorreu um vasto caminho, desde a antiguidade até os tempos atuais. A pena, como aplicada na modernidade, não existe desde o início dos tempos. Tem-se uma construção do sistema no decorrer de diferentes épocas e Estados.
Na Antiguidade, segundo Bitencourt (2011), a prisão só existia para manter os indivíduos e réus contidos até a execução da pena ou julgamento, respectivamente. Era o que o autor denominou de prisões de custódia. Para Bitencourt (2011), usualmente, a pena aplicada era aquela que inferia o corpo, com mutilações, açoites e morte, em condições subumanas. Era a época dos suplícios (FOUCAULT, 2012).
De acordo com Foucault (2012), os suplícios e o domínio sobre o corpo são formas de cumprimento de pena que prevaleceram nos séculos XVIII e anteriores, tendo como principal punição o dano ao corpo em público, com o físico apresentando-se como alvo principal da repressão penal, através de espetáculos e encenações. Como Foucault (2012) pontua, são as relações de poder que determinam o uso do corpo. Na época, era o poder do soberano sobre o povo.
Conforme Bitencourt (2011), durante a Idade Média, a pena continua tendo propósito de custódia, sendo determinada pelos governantes e de acordo com o status social do réu, sendo aplicada a pena de prisão, ou seja, o encarceramento privado, apenas em últimas circunstâncias.
Segundo o autor, na época, existiam duas classificações de prisão: prisão de Estado e prisão eclesiástica. A primeira tinha a finalidade de manter em custódia os inimigos do Estado, enquanto que a última pretendia manter clérigos que se rebelavam, com o intuito de cumprir penitência e meditar sobre seus erros.
O direito canônico criou o conceito de pena medicinal ou da alma, tornando o principal objetivo da prisão o arrependimento e o reconhecimento de seus erros. Assim, Bitencourt (2011) posiciona que é a partir da ideia da prisão eclesiástica que surgem os
principais fundamentos para a instituição da pena privativa de liberdade, tais como o isolamento, a possibilidade de arrependimento e correção do apenado. Foucault (2012) explana sobre a mudança no objetivo da pena: atingir a alma do condenado e não mais seu corpo.
Bitencourt (2011) descreve com detalhes o desenvolvimento da pena privativa de liberdade. Durante a idade moderna, a pobreza assolou grande parte da Europa, gerando mais violência, e como reação houve a aplicação de todo tipo de medida penal. Apenas na segunda metade do século XVI, com a influência da Inglaterra e da Holanda, foram instituídos diversos estabelecimentos próprios para a execução de penas, e o desenvolvimento da pena privativa de liberdade torna-se cada vez mais próximo. O que predominava nesses ambientes era o trabalho pesado, a disciplina rígida, a religião, e os castigos corporais, tudo isso com o intuito de prevenir o aumento da criminalidade. Inglaterra e Holanda foram dando origem às casas de correção e às casas de trabalho. O trabalho do apenado surgiu como uma resposta ao sistema capitalista, que não permitiria o desperdício de mão de obra. O sistema econômico constrói a ideia do trabalhador-preso com o intuito de docilizar o indivíduo, deixando claro o domínio da classe superior, e evitando a resistência do proletariado, pondo de lado o objetivo de correção para o delito. Como Bitencourt (2011) coloca, o que predomina nas casas de trabalho e correção é “[...] a disciplina capitalista de produção. (BITENCOURT, 2011, p. 45)”. Assim, a adoção dessa metodologia permite que os trabalhadores aceitem as suas condições de trabalho. Além disso, Bitencourt (2011) finaliza essa questão apontando que o trabalho tinha a intenção de autofinanciar o apenado, como também o de causar tormento e fadiga.
Com a mudança do sistema econômico, a transformação social e o fim das penas de morte, a pena privativa de liberdade vai ganhando espaço. De acordo com Bitencourt (2011), no século XVII, a partir dos pensamentos de Filippo Granci - sacerdote Florence - passou-se a dar importância a ressocialização do apenado. No final do século XVIII inicia-se a dedicação legal a princípios humanísticos para a correção do apenado por meio da pena (BITENCOURT, 2011).
Três pensadores são considerados de suma importância e grandes influenciadores da legislação criminal, e do conceito de ressocialização do apenado: Cesare Beccaria, John Howard e Jeremy Bentham. De acordo com Bitencourt (2011), a segunda metade do século XVIII foi marcada pela reforma do sistema punitivo, devido, principalmente, às ideias desses três pensadores.
Beccaria, segundo Bitencourt (2011), lançou a ideia do contrato social no direito penal. Se um indivíduo descumprisse alguma ordem social, violando o pacto do contrato, uma pena seria atribuída, pelo bem da sociedade como um todo. Para Beccaria, a pena privativa de liberdade surgiu para dar o exemplo para o futuro do apenado e não como uma vingança por sua ação do passado. Outra noção criada pelo pensador foi a celeridade da imposição da pena, como também a humanização na administração penal, pondo de lado os aspectos capitais e corporais da pena.
De acordo com Bitencourt (2011), Howard, também tentando apresentar um sentido humanitário às penas, acreditava que o sofrimento não fazia parte do processo. Logo, idealizou a construção de estabelecimentos mais apropriados para o fim de cumprimento de pena privativa de liberdade. O ambiente prisional deveria dar importância a três aspectos: higiene, alimentação e assistência médica. Além disso, considerava o trabalho obrigatório, mesmo pesado, como um importante meio de ressocialização.
Como descrito por Bitencourt (2011), Howard considerava a religião e o isolamento como fortes instrumentos no processo de ressocialização. Pode-se indicar que isso se fundamenta no direito canônico, detalhado anteriormente.
Howard, como colocado por Bitencourt (2011), foi um dos primeiros a produzir uma classificação para as penas, dando uma sistematizada ao processo. Então, foi elaborada a seguinte classificação: os processados, que teriam que cumprir pena em um regime especial; os condenados, que responderiam à sentença estipulada; e os devedores, ainda colhendo características da prisão custódia. Ainda propôs que homens e mulheres fossem separados, como também os jovens e velhos.
Bentham, também descrito por Bitencourt (2011), formalizou a teoria da pena. Seus principais fundamentos foram baseados no comportamento do ser humano: o homem preza a felicidade e foge da dor. Segundo Bentham, a pena tem como finalidade a felicidade da maioria, ou seja, é “[...] um sacrifício indispensável para a salvação comum. (BITENCOURT, 2011, p. 65)”. Para Bentham, a finalidade da pena era a de prevenção, evitando que os apenados ajam da mesma forma no futuro. O pensador foi o primeiro a questionar e dar importância ao tratamento do apenado pós-penitenciária.
Durante a evolução do conceito de pena privativa de liberdade também foram sendo instituídos diferentes sistemas penitenciários ao redor do mundo, em uma tentativa de gerar ordem e a reabilitação do apenado.
Na teoria, segundo Bitencourt (2011), são três os sistemas penitenciários existentes: sistema pensilvânico ou celular; sistema auburniano; e sistema progressivo. Para
ele, o sistema celular, como o próprio nome identifica, exibe como fundamental característica o isolamento do indivíduo. Os apenados permaneciam reclusos em suas celas, prestavam voto de silêncio, meditavam, oravam e podiam realizar trabalhos, também individualmente. O sistema falhou, principalmente em seu almejo de reabilitação, encarregando-se apenas de dominar e controlar o apenado.
Conforme o autor, em uma tentativa de corrigir os erros do sistema celular, estruturou-se o sistema auburniano - com regras militares, castigos severos, imposição de silêncio e isolamento noturno, os apenados trabalhavam, também com fins capitalistas. De acordo com Bitencourt (2011), o sistema auburniano também não foi bem admitido, entrando em vigor o sistema progressista, o mais usual na atualidade.
O sistema progressista, segundo ao autor, surgiu juntamente com a instituição da pena privativa de liberdade, no século XIX. Cada apenado cumpriria sua pena por períodos, tendo direito a certos privilégios pela sua boa conduta ou pelo indicativo de reabilitação. A partir desse sistema, o apenado tem o direito de ressocializar-se antes do cumprimento total da pena.
Com o respeito ao ser do apenado, seguiu-se a humanização da pena a partir da tentativa de ressocialização, tornando-se possível após alguns anos de debate e pelo próprio desenvolvimento social. Com a evolução da pena, sua aplicação transfere-se para um conflito entre a vingança da sociedade sobre um indivíduo (FOUCAULT, 20102). Assim, segundo o autor, o sujeito não mais se qualifica como cidadão e a sociedade passa a medir sua punição, determinando prazos que não possibilitem a reincidência. A prisão surge com o intuito de controle estatal da criminalidade, com a sociedade punindo através do Estado (MADEIRA, 2004).
De acordo com Foucault (2012), com o desaparecimento dos suplícios e o domínio sobre o corpo, as punições passaram a ter um caráter menos físico e mais psicológico. Segundo o autor, o corpo não mais se apresenta como alvo principal da repressão penal, não há mais espetáculos, a punição torna-se uma represália e não mais uma encenação. Nesse contexto, a condenação manifesta-se como a marca indelével para o sujeito, com significado negativo, entretanto, para o autor, a justiça moderna passa a utilizar como objetivo principal da pena a reeducação do apenado, demonstrando uma nova moral para a punição: a sobriedade punitiva.
Para Bitencourt (2011, p. 26), a prisão atual “[...] avilta, desmoraliza, denigre e embrutece o apenado.”. É constante o discurso sobre a reforma do sistema penitenciário,
principalmente quanto à aplicação da pena privativa de prisão. O autor afirma que a história da prisão não exige sua abolição, mas a sua reforma.
A liberdade é tratada por Foucault (2012) como um bem e um direito do indivíduo, sendo suprimida a um apenado. Além da privação da liberdade, o apenado é abstido de alimentos, relações sexuais, enfrentam sufocação, superlotação, fome e golpes. No Brasil, percebe-se a aplicação constante da pena privativa de liberdade, sendo pouco infligidas penas alternativas, tais como multas, entre outros. Segundo Bitencourt (2011), a pena privativa de liberdade deve ser aperfeiçoada, e quando possível, substituída, pois se tornou patente o retorno obtido por essas medidas nos últimos séculos – falência na sua retribuição e prevenção.
Assim, a punição torna-se uma forma de atender a uma necessidade – prevenção de outros crimes, ou seja, de mais crimes (RODRIGUES, 2001). Na prática, essa medida de curto prazo não tem alcançado seu principal objetivo, o de ressocializar, evitando a reincidência, a redução de crimes e o aumento da sensação de segurança. De forma a minimizar os efeitos negativos oriundos do encarceramento, o sistema penitenciário tem almejado alcançar um sentido prospectivo e socializador, pois é de conhecimento comum que a prisão reforça aspectos negativos a indivíduos que dispõem de valores diferenciados daqueles aplicados pela sociedade (RODRIGUES, 2001; BITTERNCOURT, 2012).
A certeza da punição torna-se a causa para o desvio do sujeito à criminalidade, tendo encontrado na pena privativa de liberdade a punição por meio da dor moral; originando- se, então, os conceitos de reinserção, reabilitação social e ressocialização como uma forma de retornar o apenado ao convívio social (JULIÃO, 2010).