De acordo com Fonseca (2005) a história da arquivística no Brasil tem a década de 1970 como um período fundamental. Nessa época que se estabelecem os parâmetros que definem a arquivologia contemporânea no Brasil. A Associação dos Arquivistas Brasileiros, criada em 1971, exerceu - de acordo com a autora - “indiscutível liderança nas conquistas posteriores” alcançadas pela área. Entre os progressos apontados, estão:
a) a promoção dos congressos brasileiros de arquivologia, que passaram a acontecer desde então;
b) a publicação da Revista Arquivo & Administração, primeiro periódico especializado da área;
c) a criação de cursos de arquivologia de nível superior pela Câmera de Ensino Superior desde 1972; e
d) a regulamentação das profissões de arquivista e de técnico de arquivo em julho de 1978.
As décadas seguintes, 1980 e 1990, são apontadas como representativas da modernização, com mudanças de grande importância para arquivística. A década de 1980 foi marcada pelo fortalecimento das instituições arquivísticas públicas, lideradas pelo Arquivo Nacional. Em junho de 1982, a diretoria geral do arquivo Nacional do Brasil propôs o estabelecimento de um projeto piloto de modernização em uma instituição arquivística do tipo tradicional. Essa experiência se baseou na II Conferência Ramp (Records and Archives Management Programme) 7 realizada pela Unesco. O fio condutor da nova experiência tinha
como lema a “modernização de arquivos”.
Essa acepção significava romper com o círculo vicioso dos chamados “arquivos nominais”, ou seja, as instituições arquivísticas presentes nos organogramas das administrações públicas dos países latino-americanos, com todos os indícios de sua existência, tais como instalações, papéis timbrados e publicações, mas desprovidos de recursos materiais e humanos indispensáveis ao exercício das funções arquivísticas essenciais ( FONSECA, 2005, p.68).
A autora destaca os pontos representativos da modernização das instituições arquivísticas:
a) fortalecimento de uma rede nacional de instituições arquivísticas, com a criação do Fórum de Diretores de Arquivos Estaduais, que deveria estabelecer uma cooperação interinstitucional das instituições arquivísticas brasileiras. Sob a liderança do Arquivo Nacional e coordenação do Sistema Nacional de Arquivos (SINAR), foram realizados cursos de capacitação em âmbito regional e uma Conferência Nacional de Arquivos Públicos;
b) fortalecimento da gestão arquivística, a partir do debate da perspectiva de reforma do Estado, na década de 1980, e tendo como objetivo consubstanciar um projeto de lei para os arquivos brasileiros. Houve praticamente uma década de discussão, mas a lei só veio a ser promulgada na década seguinte, em 1991. Além disso, o AN intervém junto à assembleia constituinte defendendo a inclusão, no texto constitucional, de referencias à gestão arquivística em todos os seus níveis. Houve
7 Programa RAMP - O programa RAMP (Records and Archives Management Programme) consiste em estudos
realizados por especialistas da UNESCO na área de registos e de administração de arquivos, que abrangem questões como: desenvolvimento de infraestrutura de arquivo; legislação de arquivo; formação e educação; proteção do patrimônio arquivístico; e pesquisa em teoria e prática de arquivo. O programa RAMP foi criado em 1979, com o objetivo de conscientizar o público da importância dos arquivos e dos registos para o planeamento e desenvolvimento da proteção do patrimônio nacional. Teve, também, como objetivo, apoiar os Estados membros da UNESCO em relação ao estabelecimento de registos eficientes e infraestruturantes de gestão de arquivo através da padronização, da legislação arquivística, do treino e das infraestruturas de reforço, tanto de edifícios como de equipamentos. O RAMP promove debates internacionais sobre tudo o que engloba a área arquivística. Até 2010, foram publicados mais de 100 estudos RAMP.
presença de instituições arquivísticas nos debates da reforma administrativa federal de 1985;
c) na produção e divulgação de conhecimento arquivístico do Brasil, destaca-se a publicação da revista Acervo, cujo objetivo era aperfeiçoar as técnicas arquivísticas e a metodologia de pesquisa histórica; e
d) internacionalmente, o Brasil passa a ocupar um cargo na Secretaria do Conselho Internacional de Arquivos, bem como a presidência da Associação Latino-americana de Arquivos. Os arquivistas brasileiros passam a ser convidados para proferir palestras no Congresso Internacional de Arquivos. Fonseca (2005).
Outra década, destacada por Fonseca (2005) como significativa, é a de 1990, por representar o período de consolidação da universidade como espaço público e acadêmico importante na configuração do campo arquivístico. A autora destaca, ainda, alguns pontos que ilustram esse momento:
a) o aumento do número de cursos de arquivologia no país;
b) a melhoria da qualificação dos docentes nos cursos de arquivologia;
c) um aumento da contribuição de autores vinculados à universidade na produção científica da área; e
d) maior possibilidade de áreas de concentração em arquivologia nos cursos de pós- graduação existentes.
Por outro lado, Fonseca (2005) sublinha um dos principais aspectos negativos desse mesmo período: (A autora chama de época de) desmobilização das instituições arquivísticas, inclusive do Arquivo Nacional. Trata-se do desmonte das estruturas administrativas do Estado brasileiro no quadro neoliberal. Há um esvaziamento das instituições arquivísticas e outras instituições de informação, com consequente perda de identidade da área. De acordo com Fonseca, na contramão de tudo isso se assiste à consolidação do Conselho Nacional de Arquivos (CONARQ).
Outro aspecto a ser salientado diz respeito à literatura da área arquivística brasileira. Na década de 1990 ocorreram bem sucedidas tentativas de estabelecimento de normas e institucionalização de órgãos responsáveis por prover a administração pública federal de instrumentos técnicos e normalizadores da área. Algumas dessas iniciativas aparecem na literatura como avanço, porém, não suficientes para garantir a gestão de documentos.
Jardim (2009) considera que a gestão de documentos no Brasil tem dado ênfase muito mais aos aspectos legais da arquivística do que propriamente à efetiva gestão dos documentos públicos.
Apesar dessa observação, considera-se importante apontar o caminho traçado pelo Brasil, no sentido de prover o Estado de um aparato legal relacionado à arquivística e à gestão de documentos.