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Cenker Aktemur* ‡ , Uğur Atikol*

4. Results and Discussions

O autêntico “mundo às avessas” não é tanto o de Alice, mas so- bretudo o da “sátira barroca”, ou melhor, neobarroca.

O primeiro objecto da sátira diz respeito aos “erros do amor”. “O recalcado desejo” é apresentado, pela negativa, como algo fas- tidioso, “Entre veleidades e argúcias”, precisamente por constituir a inibição do amor, indiciando “torpes minúcias”, ainda que hipocrita- mente encobertas38.

Ao contrário, as “escadas / Dos teus braços”, subidas e descidas pelos amantes, permitem “delicadas picardias saborosas”39.

Jogando lexicalmente com a paronímia (“brigados”, “obriga”, “desobrigas”), a advertência aos “corações brigados” põe em causa os chamados “fracassos venerados”40.

Esta advertência adquire um tom sarcástico com a sátira ao espa- ço conjugal, ironicamente caracterizado como “Lugar obrigatório de cristais”, e aos “mesclados jogos esponsais”, bem como aos “recalques preceituais” dos “preitos maritais”41.

37 Ibidem, “O mundo às avessas”, p. 40.

38 “Entre veleidades e argúcias / O recalcado desejo / Fastidia // Na consolação er-

rante / Que picos / Que ditérios / Que torpes minúcias indicias” (Ibidem, “O recal- cado desejo”, p. 49).

39 “As escadas que subíamos / Eram iluminadas / Pelas claras clarasboias / Dos pra-

zeres // Subíamos / E descíamos / Por delicadas picardias saborosas // Ah! / Que cenas inclinadas / As escadas / Dos teus braços” (Ibidem “As escadas”, p. 50).

40 “Ó corações brigados / Que vos obriga / Ao súbito só de mais? // Dos corações /

Os fracassos venerados / Reverdecem / As pancadas desabridas // Ah como deso- brigam / como descoram / os corações brigados!” (Ibidem, “Os corações briga- dos”, p. 52).

41 “Os mesclados jogos / Lugar obrigatório de cristais / Decorrem de proximidades

desiguais // Infamantes sombrias mas legais / As exigências intensas conjugais / Perluzem pelos preitos maritais // Repercussões: efeitos sociais / Repartição de le- gados essenciais / Injunções recalques preceituais / A família é o prazer dos ca- sais” (Ibidem, “Sátira barroca I – o prazer dos casais”, p. 54).

O paralelismo metafórico com as erratas dos “textos mais cuida- dos”42 e com o encalhe da nau nos “escolhos” do “velho porto-hotel”, permite denunciar “Os erros do amor”, identificados como “a cabal cabala do deslize”43.

As figuras do poeta, do atleta, do artista e do cronista social, íco- nes de frustração, terminam a denúncia satírica.

O poeta, “Ícaro trapezista” “que voa / Com asas de papel e tinta”, ao contrário do filho de Dédalo, não escapa ao “labirinto” do aprisio- namento da sua escrita44, envolvida no “manto roto da filáucia”, des- coberto “No fundo do saber do mundo”45.

O “retrato perturbante” do “atleta lesionado”, que sorri “a outro já sem pernas”, desconcerta pela sua “fanática confiança”46, ao mesmo tempo que mostra o “Germe de ódio, raiva e vingança / Quando se perde a destreza sem esperança”47.

Se a entrevista de um “artista itinerante” a um “jornal distante” revela “O próprio do artista ex-ovo”, focalizando a autonomia do ob- jecto48, o distanciamento crítico do poema perante seus “pensamentos” “rectos e correctos” assume o tom da ironia49, em confronto com a

42 “Os erros / As erratas / As emendas / Que assolam os textos mais cuidados” (Ibi-

dem, “Sátira barroca II – Os erros do amor”, p. 55).

43 São a cabal cabala do deslize / Que a meúdo a ordem subvertem” (Ibidem). 44 “O vero poeta que voa / Com asas de papel e tinta / Ícaro trapezista / Enquanto

cria não cai / Vem e vai / Sobre o labirinto / De que nunca sai” (Ibidem, “Sátira Barroca III – Os erros do amor”, p. 56).

45 “Quanto mais sobe no baloiço / Se não for cauto / Voando por cima do que é fun-

do / No fundo do saber do mundo / Descobre / O manto roto da filáucia” (Ibidem).

46 “No ginásio um atleta lesionado / Sorrindo a outro já sem pernas / Furiosamente

massaja os joelhos / Cheio de fanática confiança” (Ibidem, “Pseudo-soneto-do- -atleta-lesionado”, p. 58).

47 “Lutar com a dura natureza / É como ter nas mãos um ramo de lâminas / Germe

ódio, raiva e vingança / Quando se perde a destreza sem esperança” (Ibidem).

48 “Objecto / Abre-me a tua alma / Dizia um artista itinerante / Numa entrevista / A

um jornal distante” (Ibidem, “O artista ex-ovo”, p. 59).

49 “Seguindo uma estratégia conhecida / De explorar o sólito déjà-vu / Mas sempre

novo / O próprio do artista ex-ovo / Se revela / E no meio da profusão de objectos / Seus pensamentos surgem rectos / E correctos” (Ibidem).

A Neo-Penélope, de Ana Hatherly 81

promessa demagógica de lhe agradar em tudo, mesmo sacrificando a estética vigente50.

A ironia coroa, ainda, os poemas do livro, apresentando os “su- cessos” “dos estros dominantes” como “a plenitude laboral” do “tri- buneiro cronista social”51. A ironia, porém, logo cede lugar ao sarcas- mo, quando se apresenta a sua reacção bipolar perante tais “sucessos”, “Desporto de gigantes”: a “profunda nostalgia” sucede à “sua galhar- dia”52. A “insónia enorme” acaba por consumir as suas noites, numa espécie de beco sem saída que resulta do seu ofício, enquanto retrato da vida social53.

Conclusão

A estética neobarroca, tecendo o fio da escrita contemporânea, a partir do labirinto fascinante da sucessão de metáforas, antíteses, oxi- moros e paradoxos, num tom claramente irónico e, por vezes sarcásti- co, faz d’ A Neo-Penélope um olhar desconstrutor não apenas da espe- ra feminina, mas, no mais amplo alcance, do amor e das relações hu- manas (as novas Penélopes e os novos Ulisses”).

Num “tecido sedoso de palavras”, espraia-se a exploração do “la- birinto” do “útero da alma” feminina, entre a expressão do “recalcado desejo”, do “mar-alto da emoção”, do “jardim da maravilha” e do “mundo às avessas”.

Tal como no teatro barroco do mundo seiscentista, exibe-se em cena a retórica que problematiza, complexifica e põe em causa a apa- rente solidez das coisas humanas.

50 “Basta prometer ao público / O que ele espera / E depois dizer-lhe / Que isso afi-

nal não era / O que ser pudera / Se a estética (?) vigente / Assim o quisera…” (Ibi- dem).

51 “O tribuneiro cronista social / Atinge a plenitude laboral / Ao expor dos estros

dominantes / Os seus sucessos / Desporto de gigantes” (Ibidem, “O cronista soci- al”, p. 60).

52 “Olhando só de longe / Mas a fundo / Cobiça a sua galhardia / E do intenso gasto

da energia / Cai depois numa profunda nostalgia” (Ib).

53 “Sempre quer / Mas não consegue / Nem subir mais nem sequer rir / E à noite /

SONHO, MITO E CRIAÇÃO POÉTICA