• Sonuç bulunamadı

A cultura de um povo é recebida pelo exercício de atos práticos de audição de regras de conduta religiosa e social. Assim, a sabedoria tradicional é guardada na memória, o que, no exercício verbal, consagra a cultura popular (CASCUDO, 1983, p. 686). E o conto popular é um instrumento de veiculação desses saberes.

O conto é um relato de curta duração, onde se destacam poucos personagens. No nosso país recebe muitas designações: História da Carochinha, História de Trancoso, Histórias das mil e uma noites, entre outras. A origem é incerta: Sellan (2005, p. 1) registra que “uns remontam ao Egito; outros, à Índia; outros ainda apontam à Babilônia”. O que importa validar, entretanto, é que todos os povos possuem seus contos que refletem, de algum modo, seu imaginário, ou sua memória coletiva. É o conto oral a gênese de todas as variações de contos populares hoje existentes.

Sabe-se, no entanto, que o interesse dos intelectuais por essa forma literária, começou no século XVII, quando, em 1697, Charles Perrault publicou a primeira coleção de contos populares franceses, onde se destacaram A gata borralheira, O chapeuzinho Vermelho e O gato de Botas, com o propósito de entreter o filho do rei Luiz XIV e os frequentadores de salão. Esse interesse foi intensificado no século XIX, com os trabalhos dos Irmãos Grimm, na Alemanha que tiveram consciência do valor dessas criações anônimas e as reuniram, conservando-lhes determinadas características conferidas pelos contadores do povo.

Segundo Cascudo (1986, p. 15), o conto apresenta uma multiplicidade de saberes. Seu valor não se limita apenas ao emocional e delicioso, nem muito menos a uma viagem de retorno à infância. Está mais na constituição de elementos indispensáveis às ciências afins. Revela informações históricas, etnográficas, sociológicas, jurídicas. Dessa forma, é um documento vivo, denunciador de costumes, ideias, mentalidades e até de julgamentos.

Faria (2004, p. 229) relata que “Os contos populares, com sua dimensão estratégica, trazem encobertos por trás do lúdico, um direcionamento para informar e convencer.” Dessa fala, extraímos a ideia de que há sempre um contrato fiduciário, cuja pretensão é a adesão do enunciatário: o público acolhe os ensinamentos veiculados no conto.

Em conformidade com a classificação organizada por Coelho (2003, p. 172), o conto pode ser maravilhoso e de fadas. Maravilhoso porque o núcleo das aventuras é sempre de natureza material/social/sensorial (busca de riquezas, a satisfação do corpo, conquista do poder, entre outros). O maravilhoso era uma fonte misteriosa e privilegiada, de onde nasceu a literatura. Nas palavras da autora:

Desse maravilhoso nasceram personagens que possuem poderes sobrenaturais; deslocam-se, contrariando as leis da gravidade; sofrem metamorfoses contínuas; defrontam-se com forças do Bem e do Mal, personificadas; sofrem profecias que se cumprem; são beneficiadas com milagres; assistem a fenômenos que desafiam as leis da lógica, etc. (COELHO, 2003, p. 172).

Segundo Coelho (2003, p. 173), o conto de fada é de natureza espiritual/ética/existencial. De origem céltica, esses contos apresentam heróis e heroínas, cujas aventuras estavam ligadas ao sobrenatural, ao mistério do além-vida e objetivavam a realização interior do homem. Esta seria a razão da presença de uma fada, cujo nome vem da palavra latina fatum, que significa destino.

Nesses contos, o homem é limitado pela materialidade do próprio corpo e do mundo em que vive, por isso deseja uma ajuda mágica. Assim, entre ele e suas realizações se instalam os adjuvantes (fadas, talismãs, varinhas mágicas, entre outros) e oponentes (gigantes, bruxas ou bruxos, feiticeiras, seres maléficos e outros). Segundo a autora:

[...] as fadas são seres imaginários, dotados de virtudes positivas e poderes sobrenaturais, que interferem na vida dos homens para auxiliá-los em situações- limite (quando nenhuma situação natural poderia valer). A partir do momento em que passam a ter comportamento negativo, transformam-se em bruxas. A beleza, a bondade e a delicadeza no trato são suas características comuns (COELHO, 2003, p. 174).

Porque constitui uma mescla de culturas, o conto popular não separa o conto maravilhoso do conto de fada, uma vez que este pode estar naquele e vice-versa. São narrativas que refletem estruturas de comportamento cujas forças incoativas partem do consciente e, principalmente, inconsciente. Estudar esses discursos é apossar-se da possibilidade de “vir a conhecer certos complexos estruturais, tornando-nos mais capazes de distinguir entre o que é e o que não é individual” (VON FRANZ, 1985, p. 22).

Neste contexto, a ideia de destino na origem latina da palavra fada, como coloca Coelho, constitui uma lógica concebível, quando se reporta aos arquétipos do inconsciente coletivo. A fada é nada mais, nada menos que a personificação da anima (aspectos femininos na psique masculina) e pode representar, entre outras simbologias, o arquétipo materno (JUNG, 2000, p.95), indicador do destino, tanto do homem quanto da mulher. É a mãe que cria, nutre e potencializa (ou não) o filho ou a filha a vivenciar e desfrutar dos segredos da vida.

Quanto à estrutura, esses contos apresentam elementos constantes, comuns a todos eles, seja explícito ou implicitamente. Tais elementos determinam o tipo. Propp (2003) nomeou-os de funções, destacando trinta e uma. No entanto, cinco funções destacam-se como mais presentes e indispensáveis: partida do herói, tarefa difícil, ajuda de elementos mágicos, reconhecimento e final feliz.

Cascudo (1986), baseando-se na classificação de Aarne-Thompson, admite doze classificações para o conto popular (Contos de encantamento, Contos de exemplo, Contos de animais, Facécias, Contos religiosos, Contos etiológicos, Demônio logrado, Contos de adivinhação, Natureza denunciante, Contos

acumulativos, Ciclo da morte, Tradição). Nascimento (2005), também se fundamentando na classificação de Aarne, em seu Catálogo do Conto Popular Brasileiro, admite quatro (Contos de animais, Contos folclóricos comuns, Facécias e anedotas, Contos de fórmula). No catálogo de Nascimento, os Contos maravilhosos, Contos religiosos, Novelas (Contos românticos) e Contos do Ogro estúpido inserem- se na classificação de Contos folclóricos comuns.

De acordo com Alcoforado (1986, p. 90), as cinco funções constantes no conto maravilhoso ou de encantamento “após passarem por arrumações, reduplicações e receberem encaixes de novos motivos, organizam-se em novas sequências narrativas, possibilitando uma infinidade de articulações”, originando as versões ou variantes. São constantes nessas narrativas: a onipresença da metamorfose pelos encantamentos que, geralmente, são quebrados por mulheres; o uso de talismãs que, como “num passe de mágica” solucionam os problemas mais difíceis, ou satisfazem os desejos mais impossíveis; a força do destino indicando que tudo parece determinado a acontecer, como uma fatalidade a que ninguém pode escapar; o desafio do mistério ou um interdito que consiste num enigma a ser superado pelo herói; a reiteração dos números (principalmente 3 e 7) ligados a crenças nas religiões e filosofias antigas; magia e divindade que se confunde, muitas vezes, com a providência divina, com o milagre que se acredita advir de contos representativos da passagem da Antiguidade pagã para a modernidade cristã; e valores ético-ideológicos. Nestes se destacam: valores humanistas (preocupação com a sobrevivência e com a palavra dada), oscilação entre ética maniqueísta (separação entre o bem e o mal, certo e errado), e ética relativista (o que parece mau, termina se revelando bom, o que parece errado, termina se mostrando certo), e a esperteza inteligente que sempre vencem a imprudência e a força bruta (COELHO, 2003, p. 177-180).

A fórmula inicial era uma vez... apresenta uma ideia vaga de tempo e funciona como uma indicação de que se vai passar do mundo real, para o mundo da fantasia, onde tudo é possível. Essa é a legalização para a entrada no universo do maravilhoso. A sequência do enredo apresenta uma ordem inicial, seguida de uma ordem perturbada ou conflituosa, finalizando com uma ordem restabelecida. A ideia de tempo no termo inicial, ou equivalentes é vaga e funciona como uma indicação de que se vai passar do mundo real, para o mundo da fantasia, onde tudo é possível. O

mesmo acontece com o espaço que é figurativizado comumente por: reino, palácio, casa, fonte, floresta, entre outras expressões de natureza genérica.

Sobre os actantes, Propp (2003, p. 135) menciona a presença de um herói com atributos positivos e seu opositor ou anti-herói com atributos negativos. Ambos evidenciam características da vida humana e personificam o bem e o mal, acontecendo sempre a vitória do primeiro sobre o segundo. São comuns as ocorrências de natureza fantástico-milagrosa, como: a intervenção de forças sobrenaturais na vida cotidiana; a adoção de formas e falas humanas para animais irracionais; aceitação de animais e plantas enfeitiçadores dos homens; bruxas, feiticeiros, fadas, anões, gigantes, dragões e outros.

Na abordagem de Pais (2004, p. 177), o discurso dos contos populares apresenta um sujeito-enunciador-coletivo que surge sempre à medida que os textos são retomados, a um tempo conservados e modificados, e transformados ao longo das gerações por pessoas especiais como contadores e recebidos pelos sujeitos- enunciatários-ouvintes como “verdades gerais e universais.” Por assim ser, sustenta facetas de sistemas de valores, dos sistemas de crenças que integram o imaginário coletivo de uma comunidade humana.

Esses contos refletem os costumes de uma região e o saber dizer de um contador em particular que, através da incoatividade mnemônica, relatam fatos fictícios do passado, mas atualizados em virtude do espaço, tempo e pessoas do presente. Adéquam elementos conforme a receptividade dos seus ouvintes, causa por que o conto popular sofre determinadas alterações, quer recebendo, quer perdendo elementos. E por assim ser “Quem conta um conto, altera sempre um ponto.”

Portanto, essas histórias são construídas para exprimirem desejos, sofrimentos e alegrias de um povo, de uma comunidade. Ao mesmo tempo em que fazem referência a algo que está além do limite deste mundo, sua significação é extraída da ideologia de um grupo. Neste contexto, a palavra tem função mediadora. O contar e o recontar permitem transmitir a tradição, construir uma nova geração, sem, no entanto, deixar de fora o lúdico que constitui a experiência. Quem conta atualiza conceitos e “concilia o corpo social”; exerce a função de autoridade e legitimador. “O ato de contar se realiza na e através da linguagem (PATRINI, 2005, p. 134).

As pesquisas realizadas por Nascimento (2009, p. 32) afirmam que a migração dos contos para o Brasil, saindo da Península Ibérica, teve início possivelmente no século XVI. Essa cultura transplantada para o Novo Mundo, pelo branco europeu, foi trazida, juntamente com vários outros elementos da literatura popular. Posteriormente, chegou outra contribuição importante: o imaginário dos escravos africanos. Foi a partir da miscigenação das etnias/raças/culturas portuguesa, africana e indígena, desenvolvidas por outros povos, que caracterizou a tradição brasileira. No Nordeste, são numerosos os contos comuns na Idade Média ibérica, permanecendo vivos até hoje, seguindo sua vida tradicional, com reconstruções mescladas culturalmente pelo contexto social.

Segundo o mesmo autor (2009, p. 35), a primeira pesquisa oral no País foi realizada por Celso de Magalhães (1848-1878), divulgada em seus trabalhos A poesia popular brasileira, publicada em Recife (Pernambuco), no Jornal O Trabalho, de abril a outubro de 1973. Além de romances, coletou contos como: Jesus mendigo, A madrasta, O jabuti, e A saúva. A primeira coletânea de Contos Populares do Brasil foi elaborada por Silvio Romero, com versões de Sergipe, Pernambuco e Rio de Janeiro, e, mais tarde, ampliada por Luiz da Câmara Cascudo. Como resultado do convênio cultural assinado entre os Governos do Brasil e Portugal, com apoio da Fundação Joaquim Nabuco (Recife), na gestão de Fernando Mello Freyre, o projeto Conto Popular e tradição oral no mundo de língua portuguesa, foi elaborado, em 1987, com a participação do Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, da Universidade Católica, sob a presidência de Roberto Carneiro, o Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, sob a presidência de Fernando Alves Cristóvão e Fundação Calouste Guelbenkian, sob administração de José Blanco. Estão incluídos neste Projeto: Brasil, Cabo Verde, e São Tomé e Príncipe cujos coordenadores são do Brasil e Portugal. Depois se associaram a Fundação Gilberto Freire, em Recife a Fundação Augusto Franco de Aracaju, Sergipe. No que se refere às publicações, no Brasil foram editadas em quatro volumes, todos no Nordeste: Contos populares brasileiros: Pernambuco, coordenado por Roberto Benjamin, em 1994; Paraíba, por Osvaldo Trigueiro e Altimar de Alencar Pimentel, em 1996; Bahia, por Doralice F. Xavier Alcoforado e Maria Del Rosário Suarez de Albán, em 2001 e Ceará, por Francisco de Assis de Sousa Lima, em 2003. Todos os volumes tiveram o prefácio de Fernando de Melo

Freyre, introdução e classificação de Bráulio do Nascimento (NASCIMENTO, 2009, p. 36).

Na Paraíba, o Núcleo de Pesquisa Popular – NUPPO - desenvolveu o projeto Jornada de Contadores de Estória da Paraíba, coordenado por Altimar de Alencar Pimentel, cujo objetivo foi a coleta, estudo e divulgação do conto popular, de que resultaram várias coletâneas. Foi realizado, no ano de 1982, o II Encontro de Estudo do Conto Popular em João Pessoa, com o patrocínio do INF/UFPB/NUPPO. Os contos coletados começaram, então, a ser objeto de estudos acadêmicos.

Em seus estudos sobre o conto popular, Nascimento adotou a mesma classificação de Aarne-Thompson para as versões de tipos recolhidos no Brasil, entre os anos de 1873 a 2003, um período correspondente a 130 anos. Veja-se essa classificação no quadro a seguir:

CLASSIFICAÇÃO

I. Contos de animais (1-299)

II. Contos folclóricos comuns

A. Contos maravilhosos (300-749)

B. Contos religiosos (750-849)

C. Contos românticos (850-999)

D. Contos do Ogro estúpido (1000-1199)

III. Facécias e anedotas (1200-1999) IV. Contos de fórmulas (2000-2399)

Quadro 6 - Ocorrências de tipos de conto no Brasil Fonte: Nascimento (2005, p. 23).

Aragão (2004, p. 45) enumera como objetivos da pesquisa sobre o conto popular, na Paraíba, a geração de novos mecanismos adicionais de ensino- aprendizagem para a população rural, através da leitura de textos sobre o conhecimento popular; a motivação para a criação de textos, a partir da realidade sócio-econômico-cultural local; a difusão da cultura e literatura populares manifestadas em suas várias formas, utilizando-se a escola como meio veiculador prioritário de divulgação junto à comunidade.

Fixados em terras brasileiras, os contos populares adquiriram cor local, auto- afirmando um pluriculturalismo que se construiu ao longo do tempo, consistindo, ainda em nossos dias, uma prática de tradição avoenga.

Benzer Belgeler