4.KABUL DENEYLERİ VE KURALLARI
7. RESİMLER
Na empresa de buscar as raízes históricas da justiça social, temos em KANT o primeiro grande pensador a defender de forma explícita que o auxílio aos pobres deve ser um assunto para o Estado, e não uma obrigação privada. Quando usa a expressão justiça distributiva, lhe dá um sentido peculiar.
123 SMITH, Adam. "An inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations". Org. R. H. Campbell,
A.S. Skinner e W.B. todd. Oxford: Oxford University Press, 1976. Trad. bras. "A riqueza das nações", são Paulo, Martins Fontes, 2003, p. 29
124 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit., p. 97 125 Id ibidem, p. 98
A justiça pública consistiria na "justiça protetora", na "justiça comutativa" e na "justiça distributiva". De forma que se poderia supor que as duas primeiras dividem o trabalho feito pela "justiça corretiva" aristotélica, ou da "justiça expletiva" de GRÓCIO, enquanto a terceira corresponderia à "justiça distributiva" de ARISTÓTELES ou à "atributiva" grociniana; porém o que ele faz é proceder como frequentemente o faz, com base no modelo das tricotomias epistemológicas introduzido na sua "Crítica da razão pura", de sorte que os três tipos de justiça corresponderiam, respectivamente, à "possibilidade", à "realidade" e à "necessidade" da lei.127
A "justiça protetora" deveria nos dar a forma da lei - o que torna a lei possível -, a "justiça comutativa" o conteúdo da lei - sua realidade-, já a "justiça distributiva" o mecanismo pelo qual as leis se fazem cumprir - se tornam "necessárias - coercitivamente. Esta, "distributiva", consiste no uso dos tribunais para aplicar leis e casos específicos, e a presença da "justiça distributiva", assim, é o que assinala a diferença entre ter governo e viver no estado de natureza128; a "justiça distributiva" é coercitiva na
imposição de leis, assinalando por tal alcunha que os tribunais "distribuem" a cada um de nós os direitos que, de outra forma, só teríamos em princípio129.
Como nos aponta FLEISCHACKER, o único predecessor de KANT que assim se utiliza da expressão "justiça distributiva é Thomas HOBBES: "a justiça distributiva, a justiça de um árbitro, é o ato de definir o que é justo", rejeitando assim a distinção comutativa/distributiva, sendo alegada pelo jurista de Chicago como evidência de que ele não conhecia ou não levava em consideração a literatura corrente da tradição do direito natural130.
No tocante à "igualdade", todo ser humano teria um direito igual às coisas boas que a natureza propicia, devendo a caridade ser vista como uma dívida de
127 KANT, Immanuel. "The Metaphysics of Morals". Trad. Mary Gregor, introdução de Allen Wood.
Cambridge: Cambridge Universit Press,p. 120. FLEISCHACKER, Samuel. “Uma breve história da justiça distributiva”, trad. Álvaro de Vitta. São Paulo, Martins Fontes, 2006, p. 100-101
128 KANT, Immanuel. "The Metaphysics of Morals". p. 121
129 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit. p. 101
honra, e não como uma exibição de bondade ou generosidade, com efeito, como uma compensação pela dívida que temos para com os outros.131 KANT defenderia que os benefícios aos pobres fossem fornecidos pelo Estado; onde o Estado cobra impostos para prover aos pobres, todos passam a ter uma obrigação de contribuir, e o auxílio aos pobres se torna um direito132 e não um favor.
Aliada à questão do auxílio aos pobres, em que KANT recomendava que o Estado propiciasse uma outra maneira de ajudá-los que não a caridade privada, estaria incluído no contrato social que o governo "obrigue os ricos a prover os recursos de
subsistência àqueles que não têm como satisfazer suas necessidades naturais básicas"133.
De maneira mais clara e explícita do que seus predecessores, KANT proclamou o valor igual de todos os seres humanos; todo ser humano, todo ser racional, "existe como um fim em si mesmo e não somente como um meio"134, tem um "valor absoluto"135, e por essa razão, um valor igual. Assim, estabelece-se a premissa para a
justiça distributiva/social, para a qual vimos ser muito difícil no pensamento aristotélico; não mais as pessoas tem valor porque têm "virtudes", mas sim porque são humanas e são igualmente merecedoras de uma vida boa, e ajudá-las para que ao menos tenham o mínimo de bens de que precisam para exercitar suas vontades racionais, agora passa a ser visto como um dever, e não um ato de bondade.136 No mais, o dever de ajudar outros seres racionais é o quarto dos seus exemplos de "ação moral", constante na "Fundamentação.."137
131 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit., p. 106 132
"Obrigação esta que pode ser igual a todos - em termos absolutos -, como uma proporção da renda, ou como uma proporção da renda disponível, isto é, daquela que não é empregada em gastos necessários. O segundo desses dois tipos de igualdade abre lugar para a progressividade na tributação". In: FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit. p. 225
133
KANT, Immanuel. "The Metaphysics of Morals". Trad. Mary Gregor, introdução de Allen Wood. Cambridge: Cambridge Universit Press, p. 136. In: FLEISCHACKER, Samuel. “Uma breve história da justiça distributiva”, trad. Álvaro de Vitta. São Paulo, Martins Fontes, 2006, p. 107
134 KANT, Immanuel. "Foundations of the Metaphysics of Morals". Tradução de L.W.Beck. Nova York:
Macmillan, 1959, p. 428
135
KANT, Immanuel. "Foundations of the Metaphysics of Morals". Tradução de L.W.Beck. Nova York: Macmillan, 1959, p. 428, p. 435
136 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit. p. 108
137 KANT, Immanuel. "Foundations of the Metaphysics of Morals". Tradução de L.W.Beck. Nova York:
Ademais, KANT interpreta a natureza humana de modo que todos temos um conjunto de potenciais para a ação plenamente livre que só podemos realizar se vivemos em condições naturais e sociais favoráveis.138 Nessa trilha, o terceiro exemplo de ação moral que se nos apresenta KANT em sua "Fundamentação.."139, fala-nos da obrigação que todos temos de desenvolver nossos talentos ou dons, o que fornece fundamento para o que - na sua "Crítica do juízo", ele chama de Cultur: realização de todas as capacidades humanas, por meio do progresso político, econômico e educacional em sua forma mais plena.140
Dessa forma, considerando-se que o desenvolvimento das potencialidades humanas pode exigir um grande número de bens materiais e instituições sociais, de forma a desenvolver e realizar livremente um rico "plano de vida" que lhes seja próprio, no qual possam praticar todas as capacidades que julguem valiosas, diz-se assim, que tal idéia tem grande importância para a justiça distributiva.141 Ainda que não desenvolva plenamente esse pensamento, sustenta KANT142 que o processo de promover
em nós uma "perfeição maior", de fazer com que se realize tudo o que em nós é potencialmente excelente, constituiria algo que nos é moralmente exigido.
Portanto, percebe-se na proposta kantiana de desenvolvimento de nossos talentos, uma concepção de vida humana boa, qual, poderá requerer muito da sociedade, influenciando à frente as filosofias políticas de RAWLS e SEN.143
138 FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit. p. 108
139 KANT, Immanuel. "Foundations of the Metaphysics of Morals". Tradução de L.W.Beck. Nova York:
Macmillan, 1959, p. 423
140
FLEISCHACKER, Samuel., ob. cit. p. 108
141 Id ibidem, p. 109
142 KANT, Immanuel. "Foundations of the Metaphysics of Morals". Tradução de L.W.Beck. Nova York:
Macmillan, 1959, p. 430
1.7. O nascimento da noção moderna de Justiça Social: Babeuf e Fichte - o direito