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repeated firings on the biaxial flexural strength

Conforme já foi dito, as teorias de reconhecimento se dividem em duas vertentes teóricas. A primeira delas é a que relaciona o reconhecimento com a identidade. E a segunda

delas é a que relaciona reconhecimento com status social. A teoria identitária do

reconhecimento afirma que este é um elemento essencial para a formação da identidade

individual. De fato, a identidade seria fruto do relacionamento entre o indivíduo e os outros significantes, ou seja, aquelas pessoas com as quais se compartilha experiências de vida e valores, seja na esfera emotiva, jurídica e social. A concretização de cada nível de reconhecimento é essencial para o desenvolvimento da própria dignidade humana, de modo que sua ausência gera uma das piores formas possíveis de opressão, já que através dela se denigre o valor que cada indivíduo imprime em sua personalidade.

Por outro lado, para a teoria do reconhecimento como status social, a aproximação entre identidade e reconhecimento não é só desnecessária, mas também inoportuna. Isso acontece porque, na verdade, o pior mal que se gera com a ausência de reconhecimento é a negação do status político, ou seja, do direito que cada indivíduo tem de participar na formação da comunidade política em que vive.

Ocorre que essas duas perspectivas teóricas do reconhecimento não são incompatíveis, ou até mesmo contraditórias. Na verdade, elas são complementares, de modo que é possível afirmar que a teoria do reconhecimento se constitui em uma doutrina não só ética, mas também política. Desse modo, é possível afirmar que o reconhecimento, em sua perspectiva ética, fundamenta-se nas teorias do reconhecimento identitário, enquanto o reconhecimento, em sua perspectiva política, fundamenta-se nas teorias do reconhecimento como status social.

Até agora, entretanto, essa posição teórica foi devidamente explanada nos capítulos anteriores. Entretanto, de que modo se podem relacionar as teorias de reconhecimento com uma possível teoria de tolerância? Essa é a pergunta que se pretende responder nesse tópico.

Considerando que a teoria do reconhecimento tem dois sentidos, logo, uma teoria de tolerância que se aproxime desse paradigma necessariamente terá de se adequar a essas duas perspectivas. Nesse sentido, é possível afirmar que a concepção de tolerância como reconhecimento também terá duas vertentes: a ética e a política.

Sob o ponto de vista ético, a tolerância como reconhecimento é aquela que caracteriza a tolerância como a ação de reconhecer o outro a partir dos seus próprios paradigmas morais. É preciso notar, portanto, que essa concepção de tolerância deve se submeter a duas especificidades. Em um primeiro momento, o método através do qual se reconhece o outro como sujeito moral é aquele preconizado por Charles Taylor, e intitulado “fusão de horizontes” (TAYLOR, 1994, p.67). A possibilidade dessa fusão tem seu fundamento no fato de que cada cultura tem um valor intrínseco para a história da humanidade: elas, no mínimo, têm a função educativa de servir como exemplo para as gerações futuras. 102 Sob esse ponto

102 Evidentemente que esses exemplos poderão ser bons ou maus, mas, conforme foi ressaltado por Mill, os maus exemplos têm função, no mínimo, educativa. Não se trata, portanto, de saber se toda diferença é boa ou má,

de vista, é preciso que haja uma expansão do vocabulário lingüístico, comum ao tolerante e ao tolerado, para que eles se possam entender reciprocamente, a partir dos seus próprios horizontes de sentido103.

Em um segundo momento, a concepção de tolerância como reconhecimento se fundamenta em uma espécie de virtude perceptual104, em que o conteúdo moral das crenças deixa de ser o objetivo primordial da noção de tolerância, abrindo espaço para o ser humano por trás dela. Nesse sentido, essas crenças divergentes são toleradas não porque são boas e más, certas ou erradas, muito menos porque se é indiferente ou piedoso, mas sim porque elas são valoradas pelos seus possuidores, e isso é motivo suficiente para que sejam objeto de tolerância.

Entretanto, por mais que se entenda que essa primeira noção de tolerância como reconhecimento ainda recorra a um sentido ético do próprio valor do ser humano, de modo nenhum ela pode ser caracterizada como uma concepção moral de tolerância.105 Isso acontece

por vários motivos: (1) ela não é uma concepção negativa de tolerância, mas sim positiva, pois se perfaz na ação de reconhecer o outro em seu horizonte de sentido, e não apenas deixar de agir perante uma conduta que se considere errônea ou maléfica; (2) seu objeto não recai sobre um juízo de valor acerca da crença de outrem, na verdade, ela se baseia pura e simplesmente em um valor mais fundamental, qual seja, o valor da personalidade humana, cujo desenvolvimento salutar deve ser garantido, independentemente da verdade das crenças que se possui.106 Segundo Galeotti,

diferenças podem ser reconhecidas não pelo seu valor intrínseco, este que não pode ser determinado pelas autoridades políticas, mas instrumentalmente, pelo valor que elas tem para os seus portadores. Para ser mais preciso, diferenças podem ter o

porque, para fazer isso, é preciso utilizar-se de um juízo moral acerca da crença do outro, que é o que se evita nessa dissertação. O que importa é evidenciar que, sendo boa ou má, toda diferença tem algum valor, nem que seja apenas o educativo, de servir de exemplo como modo ineficaz de conduta.

103 O método da fusão de horizontes se dá em relação a culturas e não a ideologias. A cultura é o conjunto de relações significativas e históricas que ligam, por laços sentimentais, os membros de um determinado grupo. Nesse sentido, sob a perspectiva comunitarista, a cultura comunitária, por um lado, é a base formadora da identidade do indivíduo e seus valores compartilhados e, por outro lado, ela dirige a ação do indivíduo ao moldar a forma e o vocabulário através do qual ele percebe o mundo. A ideologia, por sua vez, é algo com papel social e teórico “menor”, tendo em vista que representa apenas um conjunto de idéias usadas para justificar certas ações, geralmente políticas.

104 Sobre a questão da tolerância como virtude perceptual, vide o tópico 2.3. 105 A concepção moral de tolerância é aquela descrita no tópico 2.2.

106 Por razões metodológicas, esclarecidas na introdução, essa concepção de tolerância como reconhecimento em seu sentido moral não será objeto de análise mais detalhada, tendo em vista que a perspectiva que se optou para o desenvolvimento dessa pesquisa é a política e não a moral.

mesmo valor, para seus portadores, que as práticas e características ‘normais’ têm para a maioria (GALEOTTI, 2005, p.15).107

Por sua vez, a tolerância como reconhecimento em seu sentido político é a concepção segundo a qual ser tolerante é reconhecer o outro como sujeito de direitos. Esse sentido de tolerância é político porque só pode ser efetivado entre indivíduos, ou entre estes e o Estado na esfera pública, afinal, a própria ordem jurídica preconiza que o indivíduo, por si só, não pode atribuir direitos a outrem: isso é uma legitimidade que, pelas doutrinas contratualistas, pertence à sociedade civil como um todo, representada pelo Estado.

Ora, mas se tolerar passa ser a ação de reconhecer direitos a outrem, que direitos seriam esses? De modo geral, esses direitos seriam os de participação nos processos de tomada de decisão da comunidade política. Isso implica em duas consequências teóricas.

A primeira delas é o estreitamento entre esfera pública e privada. Conforme já foi analisado anteriormente, a separação entre o público e o privado é um dos fundamentos que justificam a neutralidade do Estado liberal em face das diversas concepções de bem existentes na esfera privada. Entretanto, a neutralidade, em si mesma, é um valor do liberalismo como tradição e, nesse sentido, a separação entre esfera pública e privada passa a ser apenas um ideal, imposto duramente apenas às minorias culturais, enquanto a maioria tem suas concepções de bem naturalmente enraizadas nas instituições públicas e sociais. Segundo Will Kymlicka, a idealidade do princípio de neutralidade é evidente, pois existem certas decisões comuns ao Estado, como a língua, os símbolos civis, e os feriados públicos, que, por si só, já evidenciam o favorecimento de algumas culturas em detrimento de outras (KYMLICKA, 1996, p. 113).

Ademais, a relação de tolerância como reconhecimento em seu sentido político ocasionaria a flexibilização do conceito de razão pública, para abranger também, como legítimas, as pretensões políticas de minorias culturais baseadas em suas concepções particulares de bem.

Percebe-se, portanto, que, para que haja a concretização do direito a participação política das minorias culturais, deve-se lançar mão de uma política de direitos específicos, os chamados direitos de grupos. Entende-se por direitos de grupo aqueles direitos de natureza mista, tanto de titularidade coletiva quanto individual, que surgem para tutelar demandas específicas de grupos culturais minoritários em busca da

107 No original: “Differences can e recognized not for their intrinsic value, which it is not up to the political authorities to determine, but instrumentally, for the value they have for their bearers. To be more precise, differences can be acknowledged to have the same value for their bearers as that which ‘normal’ characteristics and practices have for the majority”.

igualdade material.108 Sob essa perspectiva, reconhecer para tolerar representa, portanto, o fundamento teórico a partir do qual é possível complementar o liberalismo, em sua política de direitos da dignidade, tornando-o mais inclusivo e menos individualista.

Todavia, cabe perguntar até que ponto essa concepção de tolerância é estritamente política. De fato, não se pretende afirmar que essa noção política de tolerância é, por si mesma, isenta de qualquer conteúdo moral. Afinal, sob a própria perspectiva comunitarista que aqui se segue, não há possibilidade teórica ou prática de separar o homem dos seus contextos de vida, suas concepções de bem e sua forma de interpretar o mundo. O que se defende, na verdade, é o reconhecimento do outro como sujeito de direitos pode ser anterior ao reconhecimento do outro como sujeito moral.

Essa postura se justifica por causa da independência que existe entre o sentido político da tolerância como reconhecimento e o possível juízo de valor que o indivíduo pode produzir sobre a crença de outrem. O que importa, na verdade é a ação de reconhecimento em si: os motivos morais que levaram a essa ação são irrelevantes, pois um indivíduo pode reconhecer o outro por boas e por más razões.

Por exemplo, uma pessoa pode considerar que as crenças do outro são boas e certas, ou até ser indiferente a elas. Entretanto, apesar de acreditar nisso, ele não será tolerante, no sentido político, enquanto não reconhecer o outro como sujeito de direitos, isto é, como alguém que tem legitimidade de exigir e propor demandas e princípios relativos à organização da sociedade política. No mesmo sentido, se outro indivíduo considera detestáveis essas mesmas crenças, mas defende a legitimidade do outro propô-las na esfera pública, essa pessoa será tolerante em sentido político, pois, antes de agir conforme seus juízos de valor inevitáveis, ela foi capaz de reconhecer a pessoa jurídica que subjaz ao humano que dela diverge. Desse modo, a tolerância como reconhecimento, em seu sentido político, constitui-se quando a ação fundamentada em razões políticas precede a ação fundamentada em razões morais.109

Estabelecidos os sentidos pelos quais é possível propor uma concepção de tolerância como reconhecimento, passa-se a analisar, no próximo tópico, algumas características específicas que essa teoria apresenta, no contexto do pluralismo.

108 As implicações teóricas e jurídicas dessa espécie de direitos em face do multiculturalismo e da teoria geral dos Direitos Humanos foram objeto de análise na dissertação desenvolvida junto ao Programa de Pós graduação em Ciências Jurídicas, já citada na introdução, para a qual se remete o leitor.

109 Isso não implica, por conseguinte, que a ação movida por razões morais não exista. De fato, ela sempre irá existir, sendo, inclusive, inevitável. O que se defende, na verdade, é que a caracterização da tolerância se dá em um momento anterior ao juízo moral, pois as razões políticas são forçosamente anteriores às razões morais. Portanto, é apenas uma questão de posição, o que confirma, novamente a caracterização da tolerância como uma virtude perceptual.