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A frase de Jerome Kohn: “os seres mortais não pedem nem vêm preparados para viver neste mundo”40, encontra eco na afirmativa de Hannah

Arendt de que “toda pessoa precisa reconciliar-se com um mundo em que nasceu como um estranho e no qual permanecerá sempre um estranho, em sua inconfundível singularidade”41. Tais assertivas evidenciam o quanto o mundo é

inóspito para o homem, requerendo deste constante busca de tentativas para se sentir em casa no mundo. E diante de acontecimentos inaceitáveis para o homem, tal tentativa torna-se mais necessária. Não para que haja pura resignação, mas para que o homem possa dar continuidade à vida através da reconciliação com o mundo. Para Arendt não é o mesmo que perdoar, que necessita de outro caminho para se dar, mas significa “encarar a realidade, espontânea e atentamente e resistir a ela - qualquer que seja, venha a ser ou possa ter sido”42.

Assim, para a autora, faz parte da condição humana o homem produzir significados em todo seu processo de vida a fim de se reconciliar com tudo

40 KOHN, J. “O mal e a Pluralidade: O caminho de Arendt em direção à Vida do Espírito” em Origens do

Totalitarismo – 50 anos depois./ organizadores: Odílio Aguiar et al. RJ: Relume Dumará, 2001.

41 ARENDT, H. “Compreensão e Política” em Dignidade da Política. RJ: Relume Dumará, 2002, p.39. 42 ARENDT, H. Origens do Totalitarismo, Companhia das Letras, p.21

aquilo o que faz e sofre, e a esse processo Arendt denomina de compreensão. É uma atividade interminável, que se inicia no nascimento e finda com a morte, apresentando constante mudança, e que possibilita ao homem aprender a lidar com sua realidade. Devido a essa variação, a compreensão não apresenta resultado final, como por exemplo, a aquisição de um conhecimento ou de uma verdade. Ela é de outra ordem, pois apesar de conhecer e compreender possuírem ligação entre si, são processos distintos. A compreensão oferece significado ao conhecimento, tendo-o como ponto de partida, e ao fazer isso, o transcende.

Narrativa e compreensão ligam-se em primeiro lugar por serem dois movimentos sem fim e que não buscam resultados como o pensar. Em segundo porque narrando-se, o homem pode compreender-se; compreendendo-se, pode assim agir no mundo de modo não alienado, assumindo de modo mais legítimo, seu lugar político, que é entre os homens.

Para Hannah Arendt o homem é herdeiro de uma história que, apesar de não ser o autor, necessita de seu posicionamento como ator para que não seja engolido por ela. É sua a tarefa de enraizamento numa época em que há uma grande ruptura entre um passado que o antecede, mas lhe constitui e um futuro que o convoca, mas é desalentador. Arendt considera que a tradição teve que se calar diante dos acontecimentos. Essa mudez trouxe como conseqüência uma grande falta de articulação entre o pensar e o agir. Ela tece seu entendimento sobre as raízes desse rompimento no seu texto “Compreensão e Política”, quando aponta a Revolução Industrial43 como sendo

a maior revolução44 que já aconteceu no menor espaço de tempo. Essa revolução trouxe a falência dos costumes, silenciando a tradição45. A

industrialização se estendeu de tal maneira, que provocou o surgimento de novas formas de viver e pensar. A economia, que se apoiava em manufatura, trabalhos artesanais, foi levada para as fábricas, e os trabalhos que eram feitos

43 Segunda metade do século XVIII (1760-1830 – fase aguda)

44 Por revolução deve-se entender como sendo uma ruptura radical com o modo tradicional de pensar e agir. 45 O silêncio da tradição é para Arendt um dos pontos de ruptura do fio da tradição, que ela entende como

por vários homens passaram a ser operados por máquinas a vapor. Várias transformações vieram se dando em vários setores: econômicos, tecnológicos e principalmente sociais. As famílias, que tinham seu modo já estabelecido de funcionar, tiveram que ceder às modificações inevitáveis, tendo que pôr em questão seus valores pré-estabelecidos que ofereciam segurança quanto aos papéis que cada componente deveria exercer. Com a urbanização rápida e intensa, com o aperfeiçoamento dos meios de transporte, com a chegada de capital estrangeiro, a mobilidade social aumentou e, assim, as pessoas tiveram que encontrar novos valores que os instrumentalizassem para o novo agir a que eram chamados. Mais tarde, com as guerras mundiais, novo desafio à tradição que, já enfraquecida, não oferecia categorias de compreensão diante de acontecimentos tão absurdos, como esclarece Arendt:

“Duas guerras mundiais em uma geração, separadas por uma série ininterrupta de guerras locais e revoluções, seguidas de nenhum tratado de paz para os vencidos e de nenhuma trégua para os vencedores (...) já não ansiamos por uma eventual restauração da antiga ordem do mundo com todas as tradições (...) nunca antes nosso futuro foi mais imprevisível (...) a estrutura essencial de toda a civilização atingiu o ponto de ruptura”46

O fenômeno totalitário, que possibilitou os acontecimentos bárbaros das guerras mundiais, colocou o homem diante da sua incapacidade de compreender segundo padrões conhecidos. Ficou para o homem uma questão insolúvel: “como aconteceu tudo isso?”, que passado é este que não oferece explicações para um presente tão inusitado? Tal perplexidade aponta para a falta de categorias num presente que não parece decorrer do passado. Passa a ser uma tarefa para o pensamento conseguir alocar tais acontecimentos sob a luz da compreensão.

Passados uns 60 anos desses acontecimentos a que Arendt se refere, ainda o mundo se apresenta desordenado. Talvez o homem jamais o possa ordenar, mas tem como sua possibilidade mais própria, por ser originariamente um

iniciador, compreender sem categorias prévias. Significa dizer que o homem pode “aprender a lidar com o que irrevogavelmente passou e reconciliar-se com o que inevitavelmente existe”47, colocando-se aberto ao diálogo interminável da

busca por significados de tudo o que lhe ocorre no mundo. Essa tarefa é do homem enquanto narrador, que através da narrativa faz com que os acontecimentos do passado, por mais terríveis que sejam, possam fazer parte de uma história que pode ser contada, pois compreender permite ao presente lançar luz ao passado, que se desoculta não como causador, mas como gerador de sentidos.

Benzer Belgeler