No desenvolvimento filosófico da interpretação do intelecto agente encontra-se a ilustração deste último através da metáfora do sol. Isto se dá pelo fato de que o intelecto agente ilumina o phantasma, a representação sensível, de forma a torná-lo intelectualmente conhecido. Rahner indica que nesta metáfora, segundo Tomás de Aquino, a ênfase deve recair sobre a "luz", e não sobre o "sol". Todavia, nas concepções filosóficas em que o intelecto agente é concebido como exterior à alma individual, a metáfora do sol adquire um sentido em que o "sol" parece ser tão importante quanto a "luz".
Levando em conta a exposição a respeito do símbolo mandálico, parece que a ênfase também deve recair, de fato, no "sol". O sol é um símbolo mandálico natural. Na citação de Dionísio feita por Tomás de Aquino, acima, consta que o raio divino é “cingido pela variedade dos velames sagrados”. Em latim, a expressão é “varietate sacrorum velaminum circumvelatum”, onde, para a questão presente, deve-se ressaltar o “circumvelatum”. É como se a luz divina proviesse de um centro a partir do qual fosse irradiada, iluminando os objetos e tornando-os sagrados, os símbolos arquetípicos nos quais esta luz se manifesta. Esta iluminação é a abstração. Portanto, é desta forma que o símbolo mandálico realiza a abstração. O símbolo mandálico possui uma expressão significativa (e talvez sua origem) na ideia do sol e do campo esférico da ação de sua luz.
O sol adquire, nessa metáfora, o significado do centro inconsciente da personalidade total. Como a origem do raio divino, o centro é incognoscível em si:
Numa interpretação materialista poder-se-ia afirmar que o centro nada mais é do que aquele ponto em que a psique se torna incognoscível, por ser lá que se funde com o corpo. Numa interpretação espiritualista, inversamente, afirmar-se-ia que o si-
mesmo nada mais é do que o espírito, o qual anima a alma e o corpo, irrompendo no tempo e no espaço através desse ponto criativo.223
Nesta passagem também se aponta o centro criativo como ponto no qual se unem matéria e espírito, ou a transcendentalidade e a historicidade (esta última representada por tempo e espaço). É o ponto no qual "irrompe" o espírito. O mandala, portanto, também pode ser visto como um portal, no qual se cria um acesso para a transcendência, para o reino espiritual, para o Outro. É uma "janela" por onde entra a luz espiritual, e pela qual o ser humano tem acesso ao Tu absoluto. Por causa desse acesso à transcendência, o surgimento do símbolo mandálico é acompanhado pelas mais elevadas intuições das esferas celestes. É o lugar da abertura do ser humano ao mundo, no sentido existencialista de "abertura". É, portanto, também o lugar da abertura mais radical para o outro ser humano, para o mundo social. Nisto se revela aquele aspecto ressaltado anteriormente: introversão e extroversão.
Se podem confundir as imagens, talvez contraditórias, do mesmo simbolismo mandálico como círculo no qual há o ascensus e descensus, ou como esfera, ou como portal224, isto apenas reflete a necessidade de utilizar várias analogias, por si limitadas, para explicar algo que na verdade não tem dimensão, ou seja, o ponto e a forma pela qual ele se desdobra no tempo e no espaço, intramundanamente, conservando sua "luminosidade" espiritual. Há por isso, ainda, a possibilidade de aduzir mais um importante símbolo mandálico, que talvez não seja tão conhecido: a circuncisão. Nela se representa, de fato, uma abertura direta para a exterioridade. A "circuncisão do coração", a "verdadeira circuncisão", é a auréola: nela, como portal que se abre "sem véus", se dá o contato direto com o mundo espiritual, tornando a pessoa sensível para essa realidade, ao contrário das pessoas com o "coração de pedra", ou ainda "cobertas por um véu".
Viu-se que a abstração, na metáfora mandálica do sol, é o equivalente da iluminação. A ação inibitória, por sua vez, corresponde à ação atrativa, gravitacional, que o sol exerce. A multiplicidade do inconsciente é atraída, como numa espiral, pelo centro do Si-mesmo, no qual é organizada e integrada. A transcendência também atrai o espírito humano, causando o seu dinamismo. A inibição, conforme explicado acima, inibe apenas aquilo que é animal,
223 JUNG. Psicologia e alquimia (OC 12), §327.
224 Outro exemplo deste uso no sentido de portal : O Prometeu de Spitteler, a exemplo de seu Deus, afasta-se
do mundo, da periferia, e olha para dentro, para o ponto central, aquela passagem estreita do renascimento. Esta
concentração ou introversão conduz a libido, aos poucos, ao inconsciente. E assim é fortalecida a atividade dos conteúdos inconscientes; a alma começa a trabalhar e produz uma obra que gostaria de passar do inconsciente para a consciência (JUNG. Tipos psicológicos [OC 6], §308).
carnal e mecânico ou instintivo no ser humano. Na verdade, esta inibição (independentemente da maneira pela qual ela se dê fisiologicamente no sistema nervoso) é a mortificação que livra do peso do corpo, permitindo ao espírito "buscar as coisas do céu". Ao se tornar um hábito, libera as estruturas reflexas e inatas (os arquétipos potenciais) para desenvolvimentos mais complexos e conscientes.225
A ação atrativa que o ponto central exerce também é encontrada em São João da Cruz num esquema físico que corresponde à noção da força gravitacional. O centro da alma, que é Deus segundo ele, faz com que, pelo amor, a alma seja atraída para ele:
(...) o fogo, ou a pedra, têm capacidade e movimento natural, e também força, para chegar ao centro de sua esfera, que não podem ultrapassar, mas ao qual não deixam de chegar e permanecer, a menos que sejam impedidos por algum obstáculo contrário e violento. (...)
O centro da alma é Deus. Quando ela houver chegado a ele, segundo toda a capacidade de seu ser, e a força de sua operação e inclinação, terá atingido seu último e mais profundo centro em Deus; isto se realizará quando a alma com todas as suas forças compreender, amar e gozar plenamente a Deus. (...)
Observemos como o amor é a inclinação da alma, e a sua força e potência para ir a Deus (...).226
Como nota complementar deste assunto, é interessante observar como, apesar de ter escrito extensamente tanto sobre o simbolismo do sol quanto do mandala, Jung não chegou a relacionar ambos, pelo menos não com com muita frequência227. E é ainda mais interessante porque Jung reproduzia com frequência o símbolo alquímico do sol: um círculo com um ponto central. De relevância para as considerações anteriores, no entanto, tem-se estas informações que ele coletou das obras alquímicas: "Em um caso se chama 'sol' uma substância ativa contida no ouro, do qual deve ser extraída na forma da tinctura rubea. No outro caso o sol é o corpo celeste como possuidor de uma radiação de efeito mágico e transformante"228. A substância ativa do sol forma no homem o bálsamo "que, 'desde o nascimento, promove o calor interno e de que provém todo o movimento da vontade (motus
225 Eis um exemplo deste mecanismo: "Frequentemente, pensava-se que os movimentos voluntários da criança originavam-se nos reflexos elementares, por exemplo, no reflexo de preensão. (...) No entanto, demonstrou-se que este reflexo de preensão não pode, de forma alguma, ser interpretado como protótipo de futuros
movimentos voluntários. Pelo contrário, é necessário que o reflexo de preensão seja inibido para que só então possa aparecer o movimento voluntário. O reflexo de preensão é de natureza subcortical, e o movimento voluntário é regulado pelo córtex dos grandes hemisférios" (LURIA. Pensamento e linguagem: as últimas conferências de Luria, p. 30).
226 SÃO JOÃO DA CRUZ. Chama Viva de Amor, Canção I, 11-13.
227 Não há nenhuma ligação entre ambos nos detalhados Índices gerais da Obra Completa. 228 JUNG. Mysterium Coniunctionis (OC 14/1), §107.
voluntatis) e o princípio de toda a tendência vital (totius appetitus principium)'. É ele o 'espírito vital' e tem 'sua sede no cérebro e seu reinado no coração'"229. E, se o sol forma um mandala, esta passagem indica claramente a ação evolutiva e transformadora que este símbolo é capaz de trazer: "na alquimia 'Sol' não indica propriamente uma substância química determinada, mas sim uma 'virtus' ou uma força misteriosa, à qual se atribui um efeito produtor e transformador"230. Como símbolo da totalidade: "A força admirável do Sol, segundo Dorneus, provém do fato de estarem contidos nele 'todos os elementos simples, como também ocorre no céu e em todos os corpos celestes'. (…) (dizemos que o sol é um elemento único) diz nosso autor; com isso, portanto, ex silentio ele o identifica com a quintessência"231. Finalmente, esta outra passagem também ilustra a relação do sol com a reditio in seipsum e formação da autoconsciência, tornada possível através da iluminação abstrativa:
Todos os mundos primitivos anteriores ao homem existiam apenas fisicamente. Eram apenas um acontecimento sem nome, mas não eram nenhum ser determinado, pois não havia ainda aquela concentração mínima do psíquico igualmente existente para proferir a palavra que se avantajou sobre todas as coisas criadas: Isto é o mundo e isto sou eu. Era o primeiro dia do mundo, o primeiro raiar do sol após a escuridão primordial, quando aquele complexo capaz de ter consciência, o filho da escuridão, o eu capaz de conhecer as coisas, fez a distinção entre o sujeito e o objeto (…). O corpo solar que irradia luz é o eu e seu campo de consciência – Sol et eius umbra (o Sol e sua sombra) – por fora luz e por dentro escuridão.232
229 JUNG. Mysterium Coniunctionis (OC 14/1), §108. 230 JUNG. Mysterium Coniunctionis (OC 14/1), §110. 231 JUNG. Mysterium Coniunctionis (OC 14/1), §111. 232 JUNG. Mysterium Coniunctionis (OC 14/1), §125.
4 METAFÍSICA COMO REVELAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO DA PSIQUE OBJETIVA