Os tensoativos são substâncias indispensáveis na maior parte das formulações de certos produtos acabados, e têm um importante papel em processos industriais distintos. Sua importância é menos conhecida nos processos de separação (Canselier, Mans, Llorens, 1995). O quadro atual mostra que tem havido um crescente desenvolvimento de novos tensoativos para serem utilizados em processos de separação. Destacando-se entre as várias formas de aplicação a utilização na formação de microemulsões.
As aplicações tecnológicas das microemulsões podem ser agrupadas distintamente através da sua propriedade principal no processo, ou seja, solubilizar dois líquidos de polaridades distintas, pela sua capacidade de reduzir a tensão interfacial ou pela grande área interfacial gerada entre a fase contínua e a fase dispersa, acelerando reações químicas e a transferência de massa.
Neste contexto destacam aplicações como a recuperação avançada de petróleo, a solubilização de ceras, lubrificantes de motores, cosméticos e enzimas, a purificação, utilizando a superfície interfacial, para a extração de metais e de proteínas e a liberação controlada de medicamentos (Moulik e Paul, 1998).
O fundamento básico de extração e separação com o auxílio de microemulsão é a solubilização na interface e a transferência de massa. Estes processos ocorrem de maneira dinâmica através da interface óleo/água. Tradicionalmente, existe uma tendência de dividir os trabalhos nesta área em duas categorias: o transporte de massa envolvendo a extração por solubilização e o transporte de massa relacionado à ação da microemulsão como uma membrana líquida.
Moulik e Paul (1998) relatam que, apesar de já se ter estudado bastante o equilíbrio de extração e as possibilidades de separação, o mecanismo detalhado de solubilização em um sistema líquido-líquido ainda não foi totalmente equacionado. Sobre o ponto vista destes autores, os aminoácidos, por sua estrutura e propriedades, são solubilizantes promissores para investigar o mecanismo de partição dos diferentes substratos em um sistema Winsor II.
Os processos com membranas líquidas são empregados para extrair espécies químicas, orgânicas ou metálicas, da fase aquosa externa para uma fase aquosa interna, intercalada por uma fase imiscível (ex. água/óleo/água), formando uma membrana
líquida. Assim a membrana líquida, fase do meio, pode agir sozinha ou com um suporte poroso, que sustente-a. O transporte é efetivado via complexação ou captura com agentes adequados, deste modo o soluto é transferido de um lado chamado de “fase fonte” para outro chamado de “fase receptora”. Microemulsões tipo Winsor I e Winsor II podem ser consideradas como membranas líquidas dispersas que facilitam a transferência de solutos (compostos solúveis em óleo por Winsor I e compostos solúveis em água por Winsor II), através do aprisionamento em microgotas (Moulik e Paul, 1998).
A dinâmica de transferência de proteínas da fase aquosa externa para a fase aquosa interna de uma microemulsão não iônica de Tween 85 foi estudada por Vasudevan e Wiencek (1996). Neste estudo eles buscaram compreender o mecanismo de extração de várias proteínas, relacionando-a a fatores como o tamanho da cadeia proteíca e a quantificação de carga iônica necessária para a extração.
Gupta e Singh (1993) mostraram que é possível produzir materiais porosos pela polimerização de estireno com uma microemulsão inversa de água em óleo. A natureza do polímero pode ser controlada pela cuidadosa seleção da composição da microemulsão antes da polimerização. Recentemente, Duan et al. (2006) utilizaram uma microemulsão água em óleo composta por água/span 80/triton X100/hexanol/octano para preparar zirconia pura, esférica e ultrafina, demonstrando a potencialidade das microemulsões inversas na área da nanotecnologia.
A extração de contaminantes orgânicos de aqüíferos e solos utilizando tensoativos não-iônicos tem sido bastante estudada nos últimos anos. Akita, Takeuchi, (1995) utilizaram o PONPE10 para extrair piridina e fenol de soluções aquosas, obtendo como resultado uma maior seletividade do tensoativo para os compostos fenólicos. Dierkes, Haegel, Schwuger (1998) estudaram a extração de bifenil policlorados usando uma microemulsão produzida a partir de uma mistura de tensoativos aniônicos e iônicos. A sinergia obtida com os tensoativos permitiu a formação de uma microemulsão bicontínua com baixo conteúdo de tensoativo (a 10% m/m) e alta eficiência na extração.
Tensoativos não-iônicos também tem sido utilizados para extrair contaminantes orgânicos de maior peso molecular. Carabias-Martínez et al. (2003) usaram triton X114 para extrair e predizer o comportamento de extração do herbicida triazina, onde observaram que para uma maior eficiência na remediação, uma grande concentração de triton X114 deve ser utilizada. Zhao, Zhu, Gao (2005) utilizaram um sistema microemulsionado em Winsor I, a partir do óleo de mamona, para solubilizar e extrair
fenantrenos de solos em comparação com tensoativos convencionais, mostrando-se ser o tensoativo a base de óleo de mamona uma alternativa aos tensoativos comerciais. Xiarchos, Doulia (2006) estudaram a habilidade dos tensoativos não-iônicos de remover pesticidas do solo. Os autores verificaram que a série homóloga dos álcoois decil etoxilados (Neodol) é mais eficiente que a série dos octilfenóis etoxilados (Triton).
A extração de íons metálicos de soluções aquosas utilizando um sistema microemulsionado em Winsor II é bastante eficaz devido ao aumento da área interfacial, o que facilita o transporte dos íons da fase aquosa para a fase orgânica (Watarai, 1997).
Barros Neto (1996) estudou a extração de cobre por microemulsão utilizando tensoativos à base de óleo vegetal. O rendimento do processo proposto foi superior a 99% e após a reextração o metal foi concentrado em uma fase aquosa com concentração até 10 vezes superior a inicial.
Castro Dantas, Lucena Neto, Dantas Neto (2002) utilizaram os sistemas microemulsionados para extrair gálio do licor de Bayer. Um planejamento experimental foi utilizado para otimizar a composição da microemulsão e obter melhores percentuais de extração. Na reextração foi possível obter seletivamente o gálio e o alumínio em função do pH da solução.
Castro Dantas, Dantas Neto, Moura (2001) usaram diatomita impregnada com microemulsão para remoção de cromo de soluções aquosas. O sistema microemulsionado foi composto por querosene (fase oleosa), n-butanol (cotensoativo), água (fase aquosa) e óleo de coco saponificado (tensoativo). A diatomita impregnada com microemulsão mostrou-se um adsorvente seletivo e barato para a remoção de cromo.
Com base no exposto e considerando que as microemulsões apresentam um grande potencial na extração de metais, proteínas e compostos orgânicos, procurou-se neste trabalho estudar a viabilidade da sua utilização na remoção de compostos orgânicos de óleos de transformadores elétricos.