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A maioria das regras de direito internacional privado na União Europeia foi adotada sob o amparo dos artigos 61 e 65 do Tratado de Amsterdã, de 1º de maio de 1999, que atribuiu à União Europeia, de maneira expressa, a competência para “adotar medidas no âmbito da cooperação judiciária em matéria civil, em conformidade com o artigo 65” (art. 61, “c”), com a finalidade de atingir “um espaço de liberdade, de segurança e de justiça”, reforçado posteriormente pelo Tratado de Lisboa, em seu artigo 81.

323 Restatements of the law são enunciados oriundos de julgamentos, publicados pela American Law Institute (ALI), que por sua vez é composta por juízes, acadêmicos e advogados. Embora não sejam vinculantes, os Restatements são levados em conta como uma espécie de princípios ou regras do common law (HIXSON, Kathleen. Extraterritorial jurisdiction under the Third Restatement of Foreign Relations Law of the United States. Fordham International Law Journal, v. 12, p. 127, 1988).

324 BRAND, Ronald A.; JABLONSKI, Scott R. Forum non conveniens: history…, cit., p. 55.

325“The fact is, of course, that the application of a foreign law implies no act of courtesy, no sacrifice of sovereignty. It merely derives from a desire to do justice.” (NORTH, Peter Machin; FAWCETT, J. J. Cheshire and North’s private international law. 13th ed. London: Butterworths, 1999. p. 5).

Atualmente, essas regras de cooperação judiciária estão previstas no Regulamento (UE) 1215/2012 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 12.12.2012, relativo à competência judiciária, ao reconhecimento e à execução de decisões em matéria civil e comercial, também denominado Regime de Bruxelas.

Como forma de se mitigar eventuais “táticas de litigação abusivas” (conforme consta no 22º considerando), o Regime de Bruxelas estabeleceu regras e exceções, e com isso permitiu uma maior clareza no estabelecimento da competência internacional dos litígios cíveis e comerciais.326

Não se aplica o Regulamento às seguintes matérias:

a) Fiscais, aduaneiras ou administrativas, nem à responsabilidade do Estado por atos ou omissões (art. 1º);

b) Ao estado e à capacidade jurídica das pessoas naturais e ao regime de bens (art. 2º, a);

c) Às falências e concordatas (art. 2º, b); d) À segurança social (art. 2º, c);

e) À arbitragem (art. 2º, d);

f) Às obrigações de alimentos (art. 2º, e); g) À matéria sucessória (art. 2º, f).

Como regra geral, a competência é baseada no domicílio do réu (art. 2º), seguindo a regra actor forum rei sequitur.327

326 CAMPUZANO DÍAZ, Beatriz. Las normas de competencia judicial internacional del reglamento 1215/2012 y los demandados domiciliados fuera de la UE: análisis de reforma. Revista Electrónica de Estudios Internacionales, v. 28, p. 3, 2014; BELL, Andrew. Forum shopping and venue in transnational litigation. Oxford: Oxford University Press, 2003. p. 55.

327 Formulado por juristas romanos no fim do século III, a máxima actor sequitur forum rei é conhecida e aplicada nas mais variadas jurisdições. Segundo Fragistas, dois são os fundamentos principais dessa regra para determinação da competência internacional: em primeiro lugar, segue-se a regra interna de competência territorial, que dá a primazia do local do processo ao réu. Essa posição é manifestamente conservadora, pois favorece aquele cujo direito quer se manter (o réu), em detrimento daquele que pretende modificar o statu quo (autor); em segundo lugar, há uma razão de ordem prática, que leva em conta a satisfação do direito sub judice. A execução forçada da sentença parece ser mais eficaz no local em que o réu detenha patrimônio, e isso – via de regra – ocorre na jurisdição em que ele detém domicílio (FRAGISTAS, Charalambos N., La compétence internacionale en droit privé, cit., p. 200).

As exceções à regra geral estão enumeradas nas seções 2 a 7 do regulamento:

a) Em matéria contratual, a competência é do Estado em que a obrigação deva ser cumprida (art. 7º, 1, a);

b) Em matéria extracontratual, onde ocorreu ou poderá ocorrer o fato danoso (art. 7º, 2);

c) Em ações fundadas em infração penal, no local em que foi antes proposta a ação criminal (art. 7º, 3);

d) Nas hipóteses de ação visando à recuperação de um objeto cultural subtraído, a competência é do tribunal do lugar em que esteja situado o bem, quando da propositura da ação (art. 7º, 4);

e) Se se tratar de um litígio relativo a uma sucursal, agência ou filial de uma pessoa jurídica, no local em que tais se situem independentemente da sede da matriz (art. 7º, 5);

f) Nas ações propostas contra um fundador, trustee ou beneficiário de um trust, a competência é domicílio do trust (art. 7º, 6);

g) Nos litígios relativos à reclamação por assistência ou salvamento de uma carga ou frete, perante o tribunal em cuja jurisdição essa carga ou frete tenham sido arrestados para garantia do pagamento (art. 7º, a) ou poderiam ter sido arrestados, se não tivesse sido prestada caução ou outra garantia (art. 7º, b);

h) Havendo mais de um réu, o autor poderá propor a ação no tribunal do domicílio de qualquer um deles (art. 8º, 1);

i) Havendo intervenção de terceiro, a competência é da jurisdição em que o feito principal tramita (art. 8º, 2), ocorrendo o mesmo com a reconvenção (art. 8º, 3); j) Em matéria contratual, se a ação puder ser apensada a uma ação em matéria de direitos reais sobre imóveis, desde que o réu seja o mesmo, a competência é o do local onde está situado o imóvel (art. 8º, 4);

k) Nos casos em que um tribunal for competente para apreciar ações envolvendo responsabilidades decorrentes da exploração ou utilização de um navio, essa corte também será competente para apreciar ações que tratem de limitação a essa responsabilidade (art. 9º).

Além dessas regras específicas, o regulamento também define regras em que há mais de uma alternativa de foro competente, cuja escolha cabe ao autor. São hipóteses de

forum shopping licitamente permitido pelo legislador europeu, tendo sido considerado se

tratar de hipóteses de hipossuficiência do demandante328. São as hipóteses de contratos de seguro, relações de consumo e relações trabalhistas.

Em matéria de seguros, o segurador domiciliado no território de um Estado membro pode ser demandado onde tiver domicílio (art. 11, 1, a); em outro Estado membro, onde se situe o domicílio do autor, seja ele tomador do seguro, segurado ou beneficiário (art. 11, 2, b), podendo estes ainda optar pelo local onde ocorreu o fato danoso (art. 12). Caso o segurador seja o autor da ação, ele obrigatoriamente deverá propor a ação no Estado membro em que o réu seja domiciliado (art. 14).

Nos contratos envolvendo relações de consumo, o consumidor poderá optar entre seu domicílio (art. 18, 1) e o Estado membro em que o réu estiver domiciliado (art. 18, 1,

in fine). Porém, o fornecedor apenas poderá propor demanda em face do consumidor no

Estado membro em que este último tenha domicílio (art. 18, 2).

Nas relações trabalhistas, o trabalhador poderá optar entre o Estado membro em que o empregador for sediado (art. 21, 1, a); no Estado em que o trabalhador habitualmente efetua seu trabalho (art. 18, 1, b, i); no Estado em que o trabalhador foi contratado (art. 18, 1, b, ii), caso o trabalhador labore em mais de um Estado membro. Por fim, o empregador apenas pode propor uma demanda contra o trabalhador no domicílio deste último (art. 22, 1).

Ocorrendo litispendência ou conexão internacional, todos os tribunais de diferentes Estados membros, que não seja o que foi o primeiro demandado, devem suspender a tramitação dos respectivos feitos, até que este primeiro tribunal demandado analise a regularidade de sua competência (art. 29, 1). Se esse tribunal confirmar sua própria competência, todos os demais deverão declarar-se incompetentes em favor daquele (art. 29, 3).

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Informações oriundas das instituições e dos órgãos da União Europeia: Convenção relativa à competência judiciária, ao reconhecimento e à execução de decisões em matéria civil e comercial assinada em Lugano, em 30 de Outubro de 2007 − Relatório explicativo do Professor Fausto Pocar (Titular da cátedra de Direito Internacional da Universidade de Milão). Jornal Oficial da União Europeia C 319 de 23.12.2009, p. 1-56.

Disponível em: <http://eur-lex.europa.eu/legal-

Benzer Belgeler