Em 1955 o Clubinho Infantil de Arte, juntamente com os outros cursos e o próprio Museu foi transferido para a Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP. E aí foi possível a D.Hebe expandir o número de técnicas e de trabalhos que foram aí testados e a acompanharam no Experimental e no seu próprio Ateliê Infantil de Arte.
“Além de desenho e pintura, trabalhava-se com gravura, argila, madeira, nanquim. Havia muita exigência com relação à técnica, enquanto era incentivado o desenvolvimento da linguagem visual de cada um.”34
D.Hebe conta que seu método de trabalho foi adquirido por experimentação desde o Clubinho Infantil de Arte e expandido depois nas aulas da FAAP.
“Naquela época ainda não tinha, um modo geral de estudar arte, não só a criança, mas a família, eles não tinham ainda muita abertura para esta liberdade total, que a criança tem hoje na Arte, tanto os pais como a própria criança queriam aprender, então para você ensinar alguma coisa, eu achava mais fácil partir de um modelo, para depois se a criança quisesse entrava para a criatividade, mas ainda naquela época se falava muito sobre modelo, sabe, principalmente com crianças a partir de dez anos precisa de um modo geral, ela precisa se sentir segura, se ela não tem o hábito de trabalhar com liberdade desde cedo, ela fica muito insegura porque ela não tem confiança na sua expressão, então é preciso que o trabalho tenha muita continuidade e que seja aceito pela produtividade, porque a criança, o pré-
adolescente é inseguro, quanto à sua própria expressão.”35
Célio Bernardes, que foi aluno de D.Hebe na FAAP durante mais de dez anos, e hoje é médico homeopata, psicodramaticista, nos descreve a sala de Artes como uma sala enorme com mesas grandes mais baixas, com banquinhos pequenos do tamanho dos alunos, onde cabiam três alunos de cada lado, com bastante espaço entre os lugares. A mesa era realmente muito grande, tanto que você não conseguia com a mão alcançar o centro ou o outro lado da mesa, para pegar qualquer coisa, só deitando o corpo em cima dela, você tinha que subir na
34FERREIRA, Ilsa Leal Kawall. As escolas exper imentais de São Paulo na década de 60, sua contr ibuição
par a a for mação do cidadão: tese de doutor ado apr esentada à Escola de Comunicações e Ar tes da Univer sidade de São Paulo.p.118
35Entrevista de Hebe de Carvalho em 1983 a Ilsa Leal Ferreira, pelo Centro de Pesquisa de Arte Contemporânea
mesa para pegar uma ou outra coisa. Os lugares não eram totalmente preenchidos e não tinha lugares determinados, você chegava e sentava onde queria.
Quanto à organização da sala, o método de Dona Hebe na FAAP, no Experimental e no Ateliê Infantil de Arte sempre foi o mesmo.
Com exceção do Experimental da Lapa, onde não tinha auxiliares, pelo menos durante o primeiro ano em que lá lecionou, D.Hebe sempre treinou pessoas para essa função.
Quando as crianças chegavam já encontravam o material sobre as mesas, para uma atividade geral, e uma segunda mesa preparada com opções de material diversificados para quando o aluno não estivesse motivado para a atividade geral que se oferecia.
D.Hebe justifica essa organização dizendo que a criança gosta quando se dá uma direção, ela não se sente perdida. Com uma hora ou uma hora e meia de aula, você não consegue controlar mais a criança, ele vai perdendo o interesse pela atividade.
Então quanto maior a diversidade de material e maior facilidade de acesso, mais fácil será para a criança interessar-se por outra atividade, que não seja a principal oferecida no dia.
Em sua entrevista ao autor, D.Hebe assim se expressa sobre essa forma de trabalho, quanto à organização, material e técnicas:
“...quando eu comecei a ver aquela quantidade de material, eu não sabia lidar com aqueles materiais. E ao mesmo tempo, eu fui percebendo que eu precisava dar bastante material, porque com os anos, os alunos iam ficando de um ano para o outro, eu tive alunos que começaram comigo com cinco anos de idade, e saíam depois com doze anos de idade, quando eu já tinha saído da Fundação e aberto a minha Escola. Eu precisava a cada dia criar o maior número de técnicas, para que o aluno se interessasse, porque não estava ainda na idade do aluno criar as coisas por si, ele ia criando através do material, eu acredito muito nisso, que o material influi na criatividade. E não queria deixar o aluno, numa só maneira dele trabalhar. Então, eu precisava dar técnicas diferentes, cada técnica se expressava de uma maneira, por exemplo, eu dava muito linóleo, porque o linóleo leva obrigatoriamente a uma simplificação.
Ou então técnicas de acaso, técnicas de acaso obriga as pessoas a se afirmar, porque toda a classe faz um trabalho mais ou menos igual, então eu sempre procurei muito fazer o desenho e formar, fazer com que a criança trabalhasse bem esse desenho, essa gravura, vamos supor, mas que ela realizasse o melhor possível.
Para realizar o melhor possível figura e fundos. Para ela ficar segura, ela precisava não se sentir influenciada com relação ao colega, então você tem que, uma vez por semana, dar algum trabalho que seja de acaso, que a classe inteira faça igual, que fiquem todos no mesmo nível, porque a criança tem um olho crítico muito grande, ela mesma sabe, quando ela fez um trabalho inferior.
É preciso que você não deixe que um aluno sobrepuje muito o outro. Que todos tenham realizações boas, nem que não seja sempre e não valorize
absolutamente nenhum trabalho. ‘Eu nunca elogiei na classe, um trabalho de algum aluno mais que o outro.”
Pelos depoimentos de D.Hebe e de seus alunos na FAAP, Célio Bernardes e Paula Motta, as técnicas na Fundação eram: pintura com guache, nanquim, giz de cera, recorte e colagem, gravura (xilogravura) que tinham aulas especiais, com assistente, por causa das ferramentas, papier machê, argila, técnicas ao acaso (desenho com vela ou giz de cera branco e recoberto por guache bem ralo), e desenho ao ar livre.
A tinta guache como já foi dito era preparada no local, assim como no Experimental, no Hospital Psiquiátrico do Juqueri e depois no Ateliê infantil de Arte. Pela importância da mesma, transcrevo abaixo sua receita fornecida por Malvina Nogueira que foi assistente de D.Hebe no Ateliê Infantil de Arte e responsável pela preparação da tinta:
- Dextrina - Água - Lisoforme
- Pó de pintor (pó xadrez)
Dissolver bem três colheres de dextrina com água formando uma pasta grossa e bem consistente e ir colocando a água aos poucos. Depois de a pasta estar pronta ir acrescentando água aos poucos, até a consistência de mingau, e aí acrescentar o pó de pintor e mais água até a consistência que desejar. Para evitar o bolor e o mau cheiro acrescentar uma colher de chá de lisoforme. Para saber se precisa mais dextrina, dê uma pincelada no papel, espere secar e passe o dedo. Se o dedo permanecer limpo, está bom, caso contrário acrescente mais dextrina.
A tinta ficava em potes grandes sobre a pia. Os alunos serviam-se da mesma em porta-ovos plásticos. Eram fornecidas as cores primárias, além do ocre e o lilás (difícil de ser obtido pela simples mistura do azul e vermelho), para que as próprias crianças experimentassem as suas misturas. Essa tinta tem também a vantagem de quando seca no recipiente, ao ser umedecido, volta à consistência original.
As aulas para o curso infantil na FAAP começaram repetindo o horário do Clubinho Infantil de Arte, aos sábados, à tarde. Depois foi havendo procura para aulas durante a semana, e aí foram abertas aulas duas vezes por semana: duas
vezes por semana de manhã, aos sábados continuou sempre, mas passou para o período da manhã.
Paula Motta, ex-aluna na FAAP durante oito anos, e posteriormente colaboradora no Ateliê de Arte Infantil, em seu depoimento ao autor em fevereiro de 2006, assim se expressa sobre o curso e sobre D.Hebe:
“(...) ela ia deixando o aluno ir vendo, sugerindo: você não quer experimentar tal material?
(...) Eu era um xodó especial dela. Tenho uma lembrança de um episódio, quando era ainda lá na casa da Rua Itacoara, não sei porque eu não fiquei na aula e ela resolveu sair comigo pelo Pacaembu para passear, devo ter cansado e me lembro dela me carregando no colo, andando, andando comigo. Onde nós fomos, para mim era um passeio enorme, longe, acho que era ali perto do Estádio do Pacaembu. Lembro de ter ficado com ela aquele dia, não sei o que houve sentia que recebia um tratamento todo especial.
(...) com as outras crianças ela também era ótima. Muito tranqüila.
(...) acho que me sentia com muita liberdade para procurar a minha expressão, procurar o meu caminho, e ter a qualquer momento o apoio necessário que eu precisasse.”
Célio Bernardes também ex-aluno da Fundação e considerado “terrível”, por D.Hebe e seus auxiliares, nos diz que:
“(...) Era um lugar que era lúdico para a gente. Não era uma coisa de castigo, não é? Ela tinha um jeito para chamar a gente. Ela não dava bronca, ela tinha um jeito que ela vinha, ela passava o que queria. Educava-te, eu falo assim como eu fui educado por ela também, tem toda uma coisa de educação, de princípios que ela ia passando no cotidiano.
Mas tinha uma coisa afetiva, carinhosa, afetuosa, quando você chamava, ela sempre atendia.
(...) Então, outro dia eu lembrei dela, da D.Hebe e da minha mãe. Tipo
assim, eu cheguei aonde cheguei, por causa das duas. Porque tenho aquela história de troca de p pelo b, o s, ss, e ç, era tudo a mesma coisa.
Então teve uma coisa da parte artística, esse desenvolvimento, esse estímulo, dando uma condição de estar fazendo o aprendizado.
(...) eu fui bem pequeno para lá, e tinha essa coisa desse movimento todo como ela, ela sempre junto; ela fala que eu era terrível, mas ela tinha um jeitinho de tratar...
Esse jeitinho era dela propor atividades.
Não me deixava parado para não virar bagunça, o papel que tinha sido jogado no lixo, a gente fazia bola e virava jogo de futebol, então ela entrava e chamava para uma atividade na mesa, ou então a gente bagunçava com a tinta e ela chamava a gente para desenhar com lápis de cera, então ela trazia a coisa da atenção junto com ela, ela propondo uma atividade. Não era a coisa de bronca não. Eu não me lembro de bronca da D.Hebe.
Tinha castigo, dentro da sala, de não sair da mesa e andar pela sala de aula.”
Dona Hebe tinha formação da Escola Normal, mas nunca havia lecionado antes.
Segundo Maria Amélia Carvalho ela se dedicou muito e profundamente ao ensino da Arte e sempre a partir de suas próprias experiências, embora ela lesse muito sobre todos os movimentos, mas era uma artista plástica ensinando; ela criou o seu próprio método calcado na sua experiência do dia a dia.
Ela lia muito e citou em sua entrevista ter lido ViKtor Lowenfeld, Herbert Read, Arno Stern e Franz Cizek, cujo livro encontrou uma vez, em português na Michelangelo.
Explicando seus métodos, D.Hebe diz que procurava eliminar práticas muito utilizadas na época, que ela considerava pouco criativas, tais como: simples preenchimento de espaços, uso de fórmulas abstratas bonitas, mas convencionais, e que não faziam parte do universo infantil. D.Hebe dizia que a criança compreende e trabalha com o figurativo, o abstrato só vai começar a fazer sentido um pouco mais tarde.
Ela exigia um pouco a utilização correta da técnica, dependendo da possibilidade da criança, sempre visando certo desenvolvimento técnico para que ela pudesse através dele se aprimorar, expressando-se melhor. Quanto a forma da criança criar era totalmente livre, mesmo quando se colocava um modelo para que a criança trabalhasse.
“as crianças conseguiam uma maneira própria de trabalhar cada um, nós reconhecíamos o trabalho de cada criança então significava que cada um estava dando a sua contribuição pessoal, em cor, forma, em maneira de enfocar o assunto, cada um desenvolvia o seu jeito próprio, a sua individualidade, a medida que ela vai tendo maior contato com o material.”36
D.Hebe afirma que chegou à conclusão de que o aluno, a criança, tem que sentir alegria naquilo que está fazendo, o professor é mais um estímulo, um apoio para que ele se sinta valorizado. O professor precisa estimular a criança e D.Hebe acredita que isso se faz justamente utilizando a maior diversidade de material e técnicas. Porque ela conquista o novo material, descobrindo, conquistando cada vez mais a sua própria expressão. Para o professor conseguir que a criança tenha interesse, ele tem que sentir a criança e ver o que é importante para ela, ela não pode sentir-se guiada. A criança tem que sentir que está progredindo.
36Entrevista de Hebe de Carvalho em 1983 a Ilsa Leal Ferreira, pelo Centro de Pesquisa de Arte Contemporânea
“Você pode estimular a cada dia. Você procura uma coisa nova, você traz uma flor diferente; você exalta aquilo, você conta uma história, você põe uma música. Você inventa uma maneira diferente de usar o papel, você não dá sempre igual. Um dia você dá maior, outro dia você dá menor. Um dia você dá uma folha amarela, outro dia você dá uma folha branca. Um dia você dá jornal, outro você dá recorte.
Você precisa ver alguma coisa que há tempo você não dá, para não deixar muito tempo sem dar, porque ela cria uma rotina de trabalho, que daí a uma semana ela possa dar continuidade e aí aprimorar, sem se enfastiar.
Você vai estimular para que ela recrie, mas se ela está há muito tempo sem repetir formas, você vai recriar através de uma história, de um objeto, de um pensamento, de uma atividade.”37
Indagada sobre mostrar reproduções de obras de arte para as crianças, D.Hebe diz que apresentava, mas não acha que isso seja importante, por ser isso mais uma questão referente à ampliação de conhecimentos da História da Arte, o que por sua vez amplia a cultura geral dos educandos.
Ela colocava os seus livros de Arte à disposição das crianças, e também acha que uma visita correndo a um Museu não leva a nada, é gostoso, o professor pode fazer isso uma vez ou outra, com crianças acima de dez anos, porque segundo ela, antes dessa idade a criança não está preparada para entender. Você pode fazer isso uma vez ou outra, para estimular e ir fazendo com que a criança vá adquirindo o gosto e a maturidade de observação de obras de arte aos poucos, até que chegue o momento que ela procure por conta própria.