Apesar de ter impulsionado muitas revisões em termos identitários e a formação de movimentos sociais, além de ter funcionado como discurso aglutinador, o katarismo se enfraqueceu visivelmente desde a década de 1980, em conjunto com os demais movimentos sociais populares fortemente vinculados a estruturas sindicais e que também estavam em crise. Após a liderança katarista inicial na CSUTCB, a entidade passou a ter uma direção mais afastada das demandas étnicas durante os anos 1990.
No entanto, o marco dos 500 anos da conquista espanhola levou a uma nova rearticulação do movimento indígena, com a convocatória da Assembleia das Nacionalidades em 1992. Esta foi pensada, segundo Pablo Regalsky, para responder a uma luta de recuperação das territorialidades indígenas, para pensar sua forma de gestão, entendendo que esse fórum era que iria solucionar o “problema do poder” e a necessidade de representação dessas comunidades (Regalsky, 2007: 54). Mas o movimento não tem grandes consequências e a história do movimento indígena durante o restante da década de 1990 acaba sendo marcada por estratégias mais institucionalizadas e de pacto com a ordem “neoliberal” vigente, em oposição às linhas tomadas pelos setores mais organizados do campesinato, como os cocaleiros.
Um exemplo desse processo foi o fato de Victor Hugo Cárdenas, ex-liderança katarista, ter sido vice-presidente no primeiro mandato de Sánchez de Lozada, de 1993 a 1997, marcado pelas privatizações de empresas estatais. Apesar de sua atuação em um governo identificado como “neoliberal”, Cárdenas impulsionou uma reforma constitucional que reconheceu oficialmente a multietnicidade e a pluriculturalidade do país, assim como a personalidade jurídica das comunidades indígenas e sindicatos agrários camponeses. Entretanto, tal reordenamento institucional51, conquistas vindas de cima, tinha
51 Tal reordenamento foi composto principalmente pelas Lei de Educação de 1994, Lei de Participação
Popular de 1994, Lei INRA de 1996, Lei Florestal, Lei de Municipalidades de 1999, promulgadas nos anos do primeiro governo de Sánchez Lozada (com Victor Hugo Cárdenas como vice-presidente). Essas leis transformaram a participação política das comunidades rurais, compostas por indígenas, permitiram a educação intercultural (combinando o espanhol e línguas nativas) e possibilitaram a titulação de terras coletivas. Foram avanços fundamentais, resultado da percepção do governo de então de que os indígenas eram a única força política capaz de fazer frente às “políticas neoliberais” em curso, no entanto, em vez de
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um sabor amargo graças à sua combinação com o “neoliberalismo” e não era percebido como suficiente para garantir o atendimento das demandas dos distintos movimentos indígenas.
Os movimentos indígenas começaram a identificar, paulatinamente, que o reordenamento institucional da década de 1990 subordinava medidas inclusivas a uma ordem política “superior”, na qual predominavam as instituições liberais republicanas e a identificar tal reordenamento como insuficiente. Isso fica explícito na questão da demanda por reconstituição dos ayllus. Segundo Schavelzon: “... como algo contra-estatal, o ayllu não tem nada a ver com a nação e com o partido, ambas instituições modernas, escreve Prada. Assinala também as contínuas tentativas por parte do Estado de fragmentação do ayllu desde a colônia até a Lei de Participação Popular de 1994, passando pela reforma agrária em 1953 e pelas leis de Exvinculação de 1874. Todas elas violavam a territorialidade nativa, cortavam alianças familiares e enclausuravam povos em reservas passíveis de vigia e controle, afirma Prada. O autor permite pensar a questão da relação do ayllu com o Estado e do Estado com o comunitário, quando escreve que para o ayllu há apenas dois caminhos que aparecem como dilema em momentos cruciais: estatização ou transtorno profundo do Estado, que não apenas tenta uma nova forma de convocatória, de res publica, mas também uma nova forma de sociedade (2008:45).” (Schavelzon, 2010: 22) A análise de Schavelzon sobre a discussão proposta por Raul Prada (2008) é interessante porque nos permite perceber por que, para os movimentos indígenas andinos, a questão territorial continuou sendo uma questão aberta e como se articula a demanda por território e autonomia feita por estes.
Na Bolívia, o desenvolvimento da autonomia indígena como parte do regime autonômico se estabelece no processo de descentralização iniciado nos anos 1990 e que deu lugar à Lei da Participação Popular, de 1994, e a Lei de Municipalidades de 1999. Segundo Schavelzon (2010), os artigos da NCPE que tratam do tema são resultado de um processo constituinte em que o desenvolvimento da autonomia indígena esteve vinculado ao desenvolvimento de outros níveis de autonomia, especialmente o departamental. “Quanto mais descentralizador era o projeto do MAS, mais avançava a autonomia indígena, como quando os departamentos conseguiram com que as autonomias tivessem
conter as demandas dos povos indígenas e dos movimentos sociais indígenas, tais medidas favoreceram o fortalecimento da organização de tais movimentos e ensejaram mais mobilizações e reivindicações por parte dessas parcelas da população boliviana.
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qualidade legislativa.” (Schavelzon, 2010: 455) Assim, do mesmo modo que os departamentos, as autonomias indígenas passaram a ter faculdades legislativa normativo- administrativa, fiscal, executiva e técnica, exercidas pelas entidades autônomas, a ter “a administração de seus recursos econômicos e do exercício das faculdades legislativa, regulamentária, fiscalizadora e executiva, por seus órgãos do governo autônomo”. (Schavelzon, 2010: 455)
Todas as novas reivindicações e os debates que têm sido travados no contexto pós- promulgação da NCPE boliviana, embora se baseiem em ideias que foram construídas pelo katarismo, apresentam hoje reformulações e dimensões discursivas novas, como por exemplo, as demandas por território e autonomia que têm dividido e exacerbado “diferenças” entre movimentos sociais indígenas, articulados em torno da forma ayllu e movimentos sociais camponeses, organizados em torno de organizações sindicais. As tensões entre essas duas identidades e seus movimentos representantes serão discutidas no próximo capítulo.
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