A inteligência coletiva aparece como um elemento basilar da cibercultura e da interatividade ao passo em que alicerça toda a sua dinâmica de funcionamento. Como dito anteriormente, a inteligência coletiva tem como excelência a valorização dos saberes dos sujeitos.
Nas observações de Lévy (1998), a partir do momento em que o saber, em sua mais ampla magnitude, passar a ser considerado como fator primordial à vida em sociedade, teremos o nascimento de um “novo espaço antropológico”: o Espaço do Saber. Essa nova antropologia teria potencialidades suficientes para reger os antigos espaços antropológicos: a Terra, o Território e o Espaço Mercantil (ou de mercadorias). Nessa perspectiva, o espaço antropológico “é um sistema de proximidade (espaço) próprio do mundo humano (antropológico), e, portanto, depende de técnicas, de significações, da linguagem, da cultura, das convenções, das representações e das emoções humanas” (LÉVY, 1998, p. 23).
O primeiro dos espaços ocupados pela humanidade foi a Terra. Por isso, é um espaço dotado de signos, significados e sentidos. É na Terra que se encontram todas as formas de
vida da natureza, é o lugar onde todas essas esferas estão em permanente interação, comunicando-se, evoluindo e metamorfoseando-se cotidianamente. A linguagem, as técnicas e as formas complexas de organização social são características que nos permitem ser diferenciados dos outros seres vivos. Esse espaço antropológico também é marcado pelos mitos e pelos ritos próprios do homem (LÉVY, 1998).
O segundo espaço, o Território, começa a se desenhar ainda sobre a Terra, a partir da criação e domesticação de animais. As marcas mais expressivas do Território também se fazem presentes quando se observa o rápido desenvolvimento da agricultura e das cidades, desencadeando no aparecimento da escrita e do Estado. As paisagens naturais dominantes na Terra “cedem” espaços para a arquitetura (LÉVY, 1998).
O Espaço Mercantil (ou das mercadorias) começa a se desenvolver ainda no século XVI, com o advento de um espaço mundial originado da conquista das Américas pelos europeus. O fluxo é o vetor que organiza o terceiro espaço, seja de energias, matérias-primas, mercadorias, capitais, mão de obra e informações. A velocidade se torna o fator condicionante da evolução da sociedade. Nesse sentido, as indústrias de tratamento de matérias e da informação se tornam visivelmente soberanas. Aos poucos, a tecnociência passa a conquistar seu espaço no terceiro espaço antropológico (LÉVY, 1998).
A emergência do quarto espaço, o Espaço do Saber, trará a probabilidade de reconfigurar os espaços anteriores. O diferencial desse espaço é inserir no cerne de suas atividades a inteligência e o saber coletivo. Lévy (1998) afirma que as redes econômicas e potências territoriais dependem consideravelmente da alta velocidade do aprendizado e da imaginação coletiva da humanidade. No que se refere ao diferencial, o autor aponta três vantagens: a velocidade na evolução dos saberes, a grande quantidade de indivíduos convidados a aprender e a gama de variedades existentes no ciberespaço. A sinergia desses três elementos tem a capacidade de permitir “paisagens inéditas e distintas, identidades singulares, específicas desse espaço, [e] novas figuras sócio-históricas” (LÉVY, 1998, p. 24). Uma característica marcante do Espaço do Saber é que ele “incita a inventar um laço social em torno do aprendizado específico, da sinergia das competências, da emancipação e da inteligência coletiva” (LÉVY, 1998, p. 26).
Freire (2005, p. 135) reforça essas considerações ao falar que,
no espaço do saber, as tecnologias da informação e da comunicação nos permitiriam criar e percorrer mundos virtuais, colocando sobre novas bases os problemas do laço social e abrindo possibilidades não somente para pensarmos coletivamente a aventura humana, mas principalmente influenciá-la [...] [e direcioná-la para o surgimento de inteligências coletivas da humanidade].
Outro ponto de destaque são as considerações de Andrade et al (2011, p. 2) que revelam que, para a construção do Espaço do Saber, de fato, é necessário que haja a adoção de instrumentos e técnicas capazes de otimizar e racionalizar a informação para que se torne suficientemente acessível, “de modo que cada um possa orientar-se e reconhecer seus pares em função dos seus interesses, competências, projetos, meios e identidades recíprocos”. Nesse horizonte, vemos que as tecnologias digitais da informação e da comunicação citadas por Freire (2005) podem ser consideradas como uma solução pertinente a essa questão.
E a pergunta que paira sobre nós, de quando se instala o Espaço do Saber, é respondida por Lévy (1998, p. 28):
O Espaço do Saber começa a viver desde que se experimentam relações humanas baseadas nesses princípios éticos da valorização dos indivíduos por suas competências, de transmutação efetiva das diferenças em riqueza coletiva, de integração a um processo social dinâmico de troca de saberes, no qual cada um é reconhecido como uma pessoa inteira, não se vendo bloqueada em seus percursos de aprendizado por programas, pré-requisitos, classificações a priori ou preconceitos em relação aos saberes nobres ou ignóbeis.
Através da evolução interativa da web, percebemos que o ciberespaço e o Espaço do Saber são cristalizados na dinâmica da cibercultura. Nessa perspectiva, Passos e Silva (2012) afirmam que as noções de sociedade em rede em consonância com os mecanismos de interação dispostos pela geração 2.0 são subsídios impulsionadores da inteligência coletiva no ciberespaço, e, consequentemente, do Espaço do Saber. A conotação de inteligência coletiva para as autoras tem o sentido de que se refere “a um tipo de inteligência que é disseminada em grande escala e em tempo real no ciberespaço” (PASSOS; SILVA, 2012, p. 129).
A concepção de Medeiros (2001, p. 6) é mais completa e diz que a “inteligência coletiva é entendida mediante a relação dos saberes com a práxis social, seja individual- comunitária seja virtualmente pertencente à invisibilidade dos traços do ciberespaço, este último articulador dos vários saberes”. Essa compreensão de Medeiros (2001) se aproxima bastante das considerações de Lévy (1998) acerca do Espaço do Saber.
A inteligência coletiva é aquela que se faz presente em todos os lugares, sumariamente valorizada e também coordenada em tempo real, resultante da mobilização das competências dos indivíduos, cuja base fundamental é o reconhecimento e a valorização mútua das pessoas (LÉVY, 1998).
A inteligência coletiva amplia consideravelmente a dimensão da comunicação humana ao permitir o compartilhamento de conhecimento, direcionando-o de pessoa para pessoa (ANDRADE et al, 2012). Nesse aspecto, ela ultrapassa a conotação de pôr os indivíduos em
consonância para “trabalhar” em conjunto e atingir uma finalidade específica, passando a considerar também as experiências individuais positivas e negativas dos sujeitos envolvidos.
Para Brennand (2001, p. 4),
[a] inteligência coletiva se constrói através do diálogo de saberes. O diálogo entre os saberes diversos pode permitir o estabelecimento de consensos que se apoiam sobre os elementos do mundo da vida, permitindo aos indivíduos compartilhar seus planos de ação e fomentar a ação comunicativa que é a responsável pela coordenação do ato social. A ação voltada ao entendimento pressupõe a existência de um espaço democrático de construção, potencializado pela ação crítica que vai desencadear a capacidade de construção crítica do pensamento e da ação.
Para tanto, reafirmamos que é preciso considerar o saber em sua totalidade. O saber tem de ser visto e considerado sob a ótica de Lévy (1998, p. 121), que diz:
Não se trata apenas, é claro, do conhecimento específico – recente, raro e limitado -, mas daquele que qualifica a espécie homo sapiens. Cada vez em que um ser humano organiza ou reorganiza a sua relação consigo mesmo, com seus semelhantes, com as coisas, com os signos, com o cosmo, ele se envolve em uma atividade de conhecimento, de aprendizado. O saber, no sentido em que o entendemos aqui, é um savoir-vivre [saber-viver] ou um vivre-savoir [viver-saber], um saber co-extensivo à vida. Tem a ver com um espaço cosmopolita e sem fronteiras de relações e de qualidades, um espaço da metamorfose das relações e do surgimento das maneiras de ser; um espaço em que se unem os processos de subjetivação individuais e coletivos [...]. O Espaço do saber é habitado, animado, por intelectuais coletivos – imaginantes coletivos – em permanente reconfiguração humana.
Continuamente, o axioma inicial da inteligência coletiva consiste em ver a inteligência presente por todos os lados. Sob essa visão, ninguém sabe tudo, mas todos sabem algo de importante e de valor que merece ser compartilhado com os demais. Todos detêm um conhecimento específico em uma área também específica. Essas considerações constituem o que Lévy (1998) chama de uma inteligência distribuída por toda parte.
Valorizar as inteligências que se encontram espalhadas por todas as partes é primordial, e essa valorização deve extrapolar as concepções de que uma pessoa inteligente é aquela que possui um alto nível de instrução escolar. Os saberes ultrapassam as fronteiras das instituições de ensino e das classes sociais. Esses preceitos constituem o que se chama de uma inteligência incessantemente valorizada (LÉVY, 1998).
A coordenação das inteligências individuais deve ser feita através das interações no ciberespaço em tempo real. A meta principal, na coordenação das inteligências em tempo real, é transformar o ciberespaço em um “espaço móvel das interações entre conhecimentos e conhecedores de coletivos inteligentes desterritorializados” (LÉVY, 1998).
O ideal de inteligência coletiva requer a mobilização efetiva das competências (LÉVY, 1998). Para isso, é mister identificar, reconhecer e valorizar essas competências, direcionando-as para o exercício das tarefas a serem realizadas coletivamente.
O ciberespaço vai se consolidando aos poucos como o quarto espaço antropológico, ou Espaço do Saber. Chegamos a essa compreensão ao percorrer todo o trajeto evolutivo da rede mundial de computadores e constatar que as ferramentas colaborativas e os espaços abertos de interação valorizam o que os seres humanos têm de mais precioso: o saber.
É importante ressalvar que a compreensão de inteligência coletiva no ciberespaço se consolida também nos processos colaborativos, nos softwares livres e produções culturais coletivas abertas. Essas exposições serão abordadas mais detalhadamente no capítulo seguinte.