• Sonuç bulunamadı

A todo agir liga-se um esquecer: assim como a vida de tudo o que é orgânico diz respeito à luz, mas também à obscuridade.

Nietzsche

“Ninguém está a salvo do esquecimento. Todos já passaram pela experiência de ter

esquecido uma coisa ou outra [...]. O homem está naturalmente sujeito à lei do esquecimento, ele é fundamentalmente um animal obliviscens”299. Estas palavras, com que Harald Weinrich inicia sua reflexão em Lete: arte e crítica do esquecimento, abrem espaço para algumas perguntas, que não cabe responder, mas antes guiarão as reflexões desenvolvidas nesta seção.

296 Em Signos e poderes em Nietzsche, Leon Kossovitch (2004) observa que existe no conceito de força a ideia

de que toda força atua num campo, num sistema de intensidades diversas e, portanto, é preciso perguntar-se que força cede, que força vence. É exatamente nesse campo de adversidade e tensão que as tonalidades diferentes de forças se exercem e se tornam visíveis.

297 Nietzsche (2003b, p. 10), na Segunda consideração intempestiva, fala de uma força plástica do homem, que

muitas vezes está associada à capacidade de se colocar no instante presente. Tomo o conceito de força plástica de Nietzsche para ler a obra de Clarice, estabelecendo diálogos e confluências com outros conceitos que não só o do esquecimento.

298 Em A filosofia na era trágica dos gregos, Nietzsche (1995) desenvolve a ideia do agon, que significa, dentre

outras coisas, a divergência, a luta que se trava dentro de um homem consigo mesmo. Esse conceito de divergência atravessa toda a análise deste capítulo e será retomado em outros momentos deste estudo.

Qual é a força de se esquecer? Existe uma intensidade diferente no homem que consegue não se ater ao que foi e entrar num ritmo que o dissemina no instante-já? De que modo ficar em pé diante do presente pode fazer da experiência humana algo melhor? Que alegria sente esse homem que se entrega ao obscuro de cada instante? Tais perguntas podem ser expandidas com uma passagem de A maçã no escuro, em que Martim, o protagonista do romance, encontra-se numa fazenda e, adentrando no curral, observa as vacas que ruminam.

Mas também é verdade que, a essa altura, a alegria de viver já o tomara, essa alegria fina que às vezes nos toma no meio da própria vida como se a mesma nota de música se intensificasse: essa alegria o tomara e o guiava instintivamente na luta. Martim já não saberia se estava apenas obedecendo à ordem informulada com que as vacas terminam por forçar um vaqueiro a um modo peculiar de olhar e de ficar em pé. Ou se, verdade, era ele próprio quem estava buscando, em doloroso esforço espiritual, libertar-se enfim do reinado dos ratos e das plantas – e alcançar a respiração misteriosa de bichos maiores.300

O trecho descreve o estado de um homem que se alegra ao se entregar ao instante; sem refletir, ele vive um movimento intenso que pode ser pensado como um andamento em que há uma nota musical que se intensifica numa espécie de alegria, que surge desta intensidade. Na luta que travamos com o próprio tempo, ganhamos quando fincamos nossos pés no instante presente. Nesse aspecto, as vacas são o símbolo dos animais maiores, seres grandiosos que ruminam e que vivem de modo mais pleno o presente; elas se esquecem do passado e podem, assim, ganhar o instante extraordinário301, o agora. Talvez esse fragmento de A maçã no

escuro seja o que melhor consegue ilustrar os embates entre memória (passado) e

esquecimento (presente) encenados na escritura de Clarice. No trecho citado, Martim começa, enfim, a se dar conta de que um homem só pode se fazer302, só consegue se tornar aquilo que é, quando direciona seu olhar interpretativo em função do presente.

O romance A maçã no escuro foi escrito ainda na década de 1950, mas Clarice Lispector apenas o publicou no ano de 1961303. No centro da narrativa está Martim304, um

300 LISPECTOR, 1999c, p. 97.

301No aforismo “O maior dos pesos”, de A gaia ciência, Nietzsche (2001, p. 230) fala de um “instante imenso”,

no qual o homem afirma seu presente bem como toda sua existência.

302

O romance A maçã no escuro (LISPECTOR, 1999c) se divide em três partes, a saber, Como se faz um

homem, O nascimento do herói e A maçã no escuro. Na primeira parte, na qual se encontra o trecho citado em

que Martim observa as vacas no curral, o processo de fazer a si mesmo parece apontar para a força plástica do esquecimento, ou seja, apenas o homem que consegue esquecer, ruminar e assimilar seu passado, é um sujeito capaz de se recriar e sentir a alegria do instante.

303 O romance A maçã no escuro foi escrito e reescrito num período de 10 anos, de 1951 a 1961. Segundo

homem que foge de seu passado. Ele acredita ter matado a sua esposa e, temendo a punição pelo crime, decide abandonar tudo. Encontra uma fazenda, onde se estabelece e começa a se relacionar com algumas pessoas: Vitória, dona da fazenda, que, com dificuldades, o aceita como empregado; Ermelinda, prima de Vitória; Francisco, o caseiro; uma mulata e sua filha. Nesse intervalo de tempo, enquanto trabalha na fazenda, Martim vai lutar com suas próprias lembranças e tentar superar seu passado, assim como seu suposto crime. Enquanto o protagonista busca essa superação, percebe a força plástica do esquecimento, o poder de se

colocar na “estaca do instante”305

e de viver o agora. O esquecimento, portanto, passa a ser um dos componentes nevrálgicos do romance. Quando o protagonista finalmente consegue se alocar no instante presente, seu passado ressurge para ser reinterpretado. É nesse momento que o próprio personagem, assim como os leitores, descobre que, na verdade, o crime pelo qual fugia nem sequer foi concretizado, uma vez que sua mulher não morreu.

Nos primeiros capítulos, encontramos Martim em um hotel. Ele está planejando uma nova fuga, tentando abandonar o passado, mas ainda não consegue se ajustar ao presente. Acima de tudo, deseja retirar o peso de suas costas e começa a pensar em como se livrar do

“mundo anterior”, que já não existe além de suas reminiscências, mas sem se prender ao

futuro. Embora ele queira se livrar do passado, despojando-se de seu peso, ainda está preso aos acontecimentos que se deram e não consegue agir. Emaranhado entre o passado e o futuro, se esquece do próprio instante e, portanto, não pode dar seus primeiros passos.

Nem mesmo se soubesse que passos o levariam ao mar, ele agora os daria – tanto fora aos poucos se descartando com sabedoria instintiva de tudo o que pudesse mantê-lo entravado por um futuro, pois futuro é faca de dois gumes, e futuro molda o presente. Com o correr dos dias também outras ideias tinham ficado gradualmente para trás como se, à medida que o tempo não definindo o perigo o tornasse maior, o homem fosse se despojando do que pesa. E sobretudo do que ainda pudesse mantê-lo preso ao mundo anterior.306

Martim busca compreender sua vida, entrar no real, que só pode advir quando o criamos307, quando nos entregamos à força do instante, daquilo que experimentamos. Criar o que já tinha escrito. Vale citar que a própria extensão do livro aponta para essa estrutura ruminante, uma vez que ele consiste no texto mais longo de sua carreira de ficcionista.

304 Importante atentar para o nome do protagonista do romance, Martim, mártir, aquele que está marcado pela

dor. No romance de Clarice, o protagonista empreende uma jornada rumo à superação da dor, que não significa necessariamente sua exclusão total, mas, ao contrário, um redirecionamento do sofrimento que permite viver de modo alegre.

305 NIETZSCHE, 2003b, p. 07. 306

LISPECTOR, 1999c, p. 26.

307Clarice Lispector (1999c, p. 07) utiliza como epígrafe do romance o seguinte texto: “Criando todas as coisas,

real significa, para o personagem, conseguir viver o instante308, esquecer. Mesmo que queira se despojar do peso dos acontecimentos passados, ainda está ligado àquele mundo e isso o impede de agir, de viver com as forças intensificadas. Como um homem que não consegue se livrar do passado, mas que deseja e procura fazê-lo, o personagem começa seu lento e penoso trabalho de esquecimento, de ruminação309, de metamorfose.

Nietzsche, na Segunda consideração intempestiva: da utilidade e desvantagem da

história para a vida, fala do homem que não consegue se colocar no presente, que vive preso

aos acontecimentos passados, fazendo da memória uma fonte de doença. Para o filósofo alemão, seguindo as palavras de Goethe310, cada homem deve pensar o passado ou manter com ele uma relação guiando-se por aquilo que o vivifica, que lhe atribui mais forças para a vida e que o faz agir, viver. É nesse sentido que Nietzsche inicia sua consideração dizendo:

Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que é ontem e o que é hoje; ele saltita de lá para cá, come, descansa, digere, saltita de novo; e assim de manhã até a noite, dia após dia; ligado de maneira fugaz com seu prazer e desprazer à própria estaca do instante, e, por isto, nem melancólico nem enfadado. Ver isto desgosta duramente o homem porque ele se vangloria de sua humanidade frente ao animal, embora olhe invejoso para a sua felicidade – pois o homem quer apenas isso, viver como o animal, sem melancolia, sem dor; e o quer entretanto em vão, porque não quer como o animal. O homem pergunta mesmo um dia ao animal: por que não me falas sobre tua felicidade e apenas me observas? O animal quer também responder e falar, isso se deve ao fato de que sempre esquece o que queria dizer, mas também já esqueceu esta resposta e silencia: de tal modo que o homem se admira disso.311

pode ser definido e o que não pode ser definido; tornou-se o que tem apoio e o que não tem apoio; tornou-se o que é grosseiro e o que é sutil. Tornou-se toda espécie de coisas: por isso os sábios chamam-no o Real.”

308 Vale dizer que esta problemática do instante atravessa toda a escritura de Clarice Lispector, desde Perto

coração selvagem ao romance A hora da estrela, a obra da escritora promove embates e reflexões sobre o tempo.

Essa reflexão sobre o instante atinge seu ápice com Água viva, publicado em 1973. Ainda que o objeto central de estudo deste capítulo seja A maçã no escuro, as reflexões sobre o instante que se encontram disseminadas pela obra de Clarice aparecem como pontos de apoio para a análise em questão.

309 É necessário sublinhar que na literatura de Clarice, em especial, no romance A maçã no escuro, a ruminação

possui um caráter ambíguo, uma vez que ela pode significar um estar preso ao passado, como para Nietzsche quando o filósofo fala da figura do ruminante, como também pode significar um processo necessário de elaboração do passado. A ruminação, portanto, pode ser entendida como sinônimo de saúde ou doença, dependendo do seu grau. Caso o grau de ruminação seja uma elaboração do passado tendo em conta o presente ela será sinônimo de força. De outro modo, se seu grau prende o sujeito que rumina numa atitude de ressentimento, ela pode ser associada a um processo de decadência.

310 Nietzsche (2003b, p. 05) abre a Segunda consideração intempestiva citando a seguinte frase de Goethe: “De

resto, me é odioso tudo o que simplesmente me instrui, sem aumentar ou imediatamente vivificar a minha atividade.” A partir da frase do escritor alemão, Nietzsche diz que a história nos serve, precisamos dela para a vida e para a ação, mas não para abandonarmos o presente. Assim, o passado só será útil se ele se colocar a serviço da vida, do presente e do homem.

O homem que vê o rebanho se depara com outra forma de viver, com um modo de sentir o tempo e experimentar a vida que não exige sentir “com dor o grande peso do dia”312. Nesse trecho da Segunda consideração intempestiva, Nietzsche contrapõe o modo de viver do animal com o modo de viver do homem. A relação que o animal mantém com o tempo parece ser mais saudável do que a do homem. Esse modo efêmero de viver, um modo de animal, é o

que Martim vai buscar. Ele “procurava se manter apenas vivo, e nada mais – assim como o

animal brilha apenas nos olhos, mantendo atrás de si a vasta alma intocada de um animal.”313 Para Martim, viver como um animal é lentamente ir se livrando do passado. Sair do passado requer esquecer o que aconteceu, o crime cometido, a família, o espaço, tudo que se situa num outro momento que já não faz parte do presente. Requer transformar o crime supostamente cometido em uma forma de romper com a ordem social314. Acima de tudo, implica em rejeitar a linguagem dos outros e construir uma nova linguagem, um modo de falar que seja seu.

“Aquele homem rejeitava a linguagem dos outros e não tinha sequer começo de linguagem

própria. E, no entanto, oco, mudo, rejubilava-se.”315

Recusar a linguagem dos outros é um dos primeiros gestos de Martim. Esse gesto denota que ele só poderá superar o passado à medida que exceder a linguagem dos outros, aquilo que dizem, como dizem, enfim, o próprio espectro do mundo dessas pessoas. É necessário rasurar esses contornos para se garantir como indivíduo, fora de um rebanho. Essa rejeição se inicia pelo silêncio de Martim. Por meio de sua mudez, ele enceta um processo de transvaloração de seu passado pelo silêncio, o que vai construir um modo inaudito de se relacionar com os eventos decorridos. À medida que consegue ou pode esquecer, passa a sentir a-historicamente o mundo. Não se trata aqui de pensar que o passado deva ser abandonado, como se ele fosse inútil, mas, ao contrário, de perceber como a história de Martim evidencia que existe, assim como Nietzsche sublinhou, uma utilidade e uma desvantagem em regressar ao passado. O protagonista de A maçã no escuro percebe isso quando se dá conta de que, em seu caso particular, afastar-se do passado, dos outros que faziam dele um sujeito gregário316, significa desconfiar dessa linguagem317 que até então ele usava para nomear as coisas.

312 LISPECTOR, 1999c, p. 21. 313 LISPECTOR, 1999c, p. 33. 314

Benedito Nunes (1995, p. 40), em O drama da linguagem: uma leitura de Clarice Lispector, afirma que, à medida que Martim foge, “o crime se transforma num ato positivo de ruptura com a sociedade e a fuga, num movimento de evasão interior.”

315 LISPECTOR, 1999c, p. 35. 316

Segundo Nietzsche (2007c), a dimensão gregária se constitui como o fenômeno mais antigo e determinante da história da humanidade e se apresenta como a primazia dos instintos coletivos em detrimento dos impulsos e necessidades individuais.

E de tal modo, com perverso gosto, o homem se sentia agora longe da linguagem dos outros que, por um atrevimento que lhe veio da segurança, tentou usá-la de novo. E estranhou-a, como um homem que escovando sóbrio os dentes não reconhece o bêbedo da noite anterior. Assim, ao remexer agora com fascínio ainda cauteloso na linguagem morta, ele tentou

por pura experiência dar o título antigamente tão familiar de “crime” a essa

coisa tão sem nome que lhe sucedera.318

Martim percebe que a linguagem antiga não consegue mais dar conta de sua nova experiência, uma experiência que está do lado do informe, do devir, daquilo que não pode ser nomeado ou, pelo menos, que não cabe mais em lugares tão estanques, tais como aqueles da linguagem passada ou do modo como ele concebia essa linguagem no passado. O personagem, então, começa a efetuar outro crime, um assassínio que consiste em se relacionar com o mundo e com a linguagem de modo diferente. À medida que Martim se assenta no presente, passa a utilizar a linguagem e a se conceber de modo intempestivo, o que significa também se relacionar de modo distinto com o que existe, com seu passado, como aquilo que dizem ser um crime, enfim, com a própria existência. É nesse sentido que podemos ler o

seguinte trecho: “Aqui estou, disse ele, e no coração de alguma coisa.”319

Ainda que não consiga nomear onde está, que não tenha consciência, ele sabe que chegou a outro lugar e que seu mundo precisa ser reconstruído320; na verdade, ele já é outro.

Nesse novo mundo a linguagem poética ganha uma dimensão profunda e se torna o centro da vida de Martim321. É por se dar conta dessa dimensão humana, a da criação, que ele consegue reverter as significações passadas, fazendo-as ressurgir com outras conotações e a partir de uma perspectiva da força. Bernadete Grob-Lima observa que no romance A maçã no

escuro, “o protagonista, primeiramente, desenraíza o seu passado num ato de recusa; em

seguida, no andamento do seu trajeto, consulta-o sublimando suas imperfeições, estando ausente a ideia de finalidade. Martim procura uma verdade sem a esperança de encontrá-

317 Rosana Suarez (2011) desenvolve reflexões fundamentais sobre a linguagem e o gregarismo em Nietzsche e a

linguagem.

318 LISPECTOR, 1999c, p. 35. 319 LISPECTOR, 1999c, p. 53.

320 LISPECTOR, 1999c, p. 130. Na segunda parte do romance, O nascimento do herói, podemos ler que todo

homem precisa destruir sua vida e reconstruí-la novamente a partir de suas condições: “Pensou que com esse crime executara o seu primeiro ato de homem. Sim. Corajosamente fizera o que todo homem tinha que fazer uma vez na sua vida: destruí-la. Para reconstruí-la em seus próprios termos.”

321“Martim se redescobre em linguagem na medida em que se perde e que se avizinha na descoberta de um

território outro. O limite tênue da diferença entre o que é dos outros e o que é dele torna-se consciente quando, com a ponta dos dedos esticada em grau último, descobre-se a dor de ser uma espécie de personagem de si mesmo”. (GURGEL, 2001, p. 23).

la”322. Ele, pela imaginação artística, resolve então escavar o seu passado. O narrador nos mostra o personagem Martim e nos conta de sua busca pela reinvenção do passado, sem, no entanto, adiantar “qualquer explicação dos acontecimentos antes da personagem a ter

encontrado”323 .

Ao se instalar nesse centro, onde o esquecimento é possível e atua como uma força

plástica que lhe permite criar, reinventar e ver por outra perspectiva, Martim consegue

encontrar um modo de ser alegre. “Na linguagem não havia uma palavra sequer que desse

nome ao fato de, no agigantamento de si próprio, ele ter alcançado o alto da montanha.”324 Pela linguagem, pelo novo modo de conceber as coisas, o passado e as próprias palavras, ele compreende que é no gesto de suspeita do que houve e na entrega ao presente que o homem pode se inventar como um sujeito alegre, como um homem do saber alegre. Saindo do universo da linguagem comum, consegue abandonar uma estrutura em que o que vale é a simples comunicação. Martim parece levantar a hipótese de que “a linguagem não se adequa

às coisas, ao contrário, as convencionaliza.”325

Sua fuga é também, em certa medida, o escoamento do convencionalismo.

Em direção a uma linguagem inaudita, que consiga se aproximar da própria condição humana, o protagonista de A maçã no escuro decide viver a linguagem das coisas, comunicar- se com pedras e bichos, colocar-se no mundo aqui e agora. Nietzsche diz que somente o homem que consegue se entregar ao limiar do instante326 alcança saber o que é a felicidade. A travessia/construção de Martim, que se dá pela linguagem, significa exatamente essa entrega a cada instante.

Quem não pode se instalar no limiar do instante, esquecendo todo passado, quem não consegue firmar pé em um ponto como uma divindade da vitória sem vertigem e sem medo, nunca saberá o que é felicidade, e ainda pior: nunca fará algo que torne os outros felizes. Pensem no exemplo mais extremo, um homem que não possuísse de modo algum a força de esquecer e que 322 GROB-LIMA, 2009, p. 130. 323 GROB-LIMA, 2009, p. 30. 324 LISPECTOR, 1999c, p. 53. 325 SUAREZ, 2011, p. 107.

326 Cf. CASANOVA (2003, p. 107). Em seu livro O instante extraordinário: vida, história e valor na obra de

Friedrich Nietzsche, Marco Antônio Casanova observa que “O homem sereno sempre se depara alegremente com o presente e se dispõe incessantemente para o futuro sem débito algum com o passado. Ele tem a cada instante novas esperanças com relação ao futuro. Não porque anseie por uma redenção ulterior da incompletude do presente, mas porque redime no instante o caráter pretensamente deficitário da finitude e se lança para o

Benzer Belgeler