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Paralelamente a essas instâncias centralizadoras das possibilidades de inserção no mercado editorial brasileiro, uma parcela considerável de co- merciantes passou a enxergar no comércio de livros um empreendimento promissor. Estando cientes de que as edições de luxo já estavam bem repre- sentadas no mercado, apostaram em um “novo” produto, o livro barato, e in- vestiram em uma produção de grande escala.

De acordo com Alessandra El Far, entre 1870 e 1900, o Almanak La-

emmert registra 121 firmas vinculadas ao comércio de livros (EL FAR, 2004).

Embora muitas delas não se dedicassem exclusivamente à venda de livros, elas fomentavam o mercado brasileiro. Evidentemente, a maior parte desses investimentos não conseguia se manter por muito tempo, mas o efeito pro- duzido no mercado foi significativo, visto que, ao priorizarem as publicações baratas e, portanto, acessíveis a um número maior de leitores, esses livrei- ros contribuíram para a descentralização do consumo do livro.

Para baixar os custos, os livreiros não contavam apenas com o bara- teamento da edição – substituição das encadernações mais elaboradas pela capa brochada, utilização de papel de baixa qualidade, etc. A facilidade de traduzir obras sem pagar direitos autorais, conforme já referido no caso de Laemmert, também impulsionou os negócios. Entre os nomes que consegui- ram permanecer no mercado por conta dessas publicações, merece destaque o de Pedro da Silva Quaresma.

O português Pedro Quaresma fundou, em 1879, na Rua São José, a Livraria do Povo. É interessante observar a descrição de Broca a respeito do que teria levado o editor a se dedicar aos livros “populares”:

levando em conta a pouca cultura do povo, compreendeu que o meio de levá-lo ao livro era dar-lhe leitura fácil, amena ou de interesse prático, mas de cunho essencialmente popular, ao alcance de qualquer um e em brochuras de preço módico. Daí o verdadeiro gênero por ele criado entre nós, e o rótulo de “Edição Quaresma”, que passou a designar, de maneira geral, as edições populares para o grande público (BROCA, 2005, p. 201).

Além das questões comerciais, o trecho acima remete a um outro tipo de postura frente ao mundo dos livros. Os traços apontados por Broca dei- xam entrever na atitude de Quaresma uma espécie de comprometimento so- cial, ancorado no projeto de “democratização” do livro. Dessa forma, é com- preensível a grande variedade de gêneros que compunham sua linha editori- al. Quaresma publicou romances, livros de pensamentos, de poesia, de his- tória, de drama e séries de trovas e modinhas. Constavam também no seu catálogo, livros direcionados ao público masculino, chamados, de modo ge- ral, de romance para homens.

Outro ponto destacado pelos historiadores se refere às edições para crianças. De acordo com Hallewell, nessa época, a maior parte das publica-

ções destinadas ao público infantil vinha de Portugal. O idioma e o estilo da escrita portuguesa dificultavam a compreensão dos leitores e mesmo os pou- cos títulos produzidos no Brasil não resolviam tal problema, visto que, na lin- guagem, seguiam os usos de Portugal. Pedro Quaresma, ele próprio imigran- te português, percebeu aí mais uma lacuna no mercado brasileiro e, com o auxílio de Figueiredo Pimentel, produziu uma coleção de livros infantis escri- tos em português do Brasil (HALLEWELL, 1985).

É importante ressaltar que, no que concerne ao capital de relações, a Livraria do Povo contava com alguns freqüentadores de prestígio, como é o caso de Alberto de Oliveira, Catulo da Paixão Cearense e João Ribeiro. Con- tudo, a figura que mais chama a atenção é a de Machado de Assis, já apon- tado como uma das glórias de Garnier. Segundo Broca, o alvoroço dos salões da Garnier, em que os intelectuais chegavam a tropeçar uns nos outros, não se coadunava com o temperamento de Machado:

Daí uma secreta preferência pela Livraria Quaresma, à Rua São José. [...] Todos os dias, a caminho do Ministério da Via- ção, o mestre não deixava de fazer ali uma pequena parada, tendo confidenciado, certa vez, ao gerente José de Matos: ‘Sabe? Gosto mais de sua casa porque é silenciosa, não há aquele zunzum da Garnier (BROCA, 2005, p.83).

A possível relação entre Machado e a Livraria do Povo aciona uma sé- rie de indagações no que concerne ao capital de relações de Quaresma. Essa aproximação representa um dos poucos indícios de uma ligação do editor com o pólo dominante do campo literário da época. É importante fazermos essa ressalva, uma vez que grande parte dos comentadores aponta a Livraria do Povo como ponto de encontro dos escritores mais jovens e mais pobres. Tal informação, se concatenada com os fragmentos das trajetórias aqui apre- sentadas, permitiria cogitar sobre um possível descolamento de Quaresma

das leis gerais do campo, mas, ao encontrarmos a referência a Machado, tal especulação passa a ser encarada com certo descrédito.

Embora a Editora Globo só venha a existir, como Seção Editora, em meados da década de 30, as origens da Livraria remontam ao final do século XIX e início do século XX. Pesse período, em que as atividades estavam vol- tadas principalmente para o comércio de artigos variados – entre os quais o livro figurava apenas com mais uma das mercadorias – e para os trabalhos encomendados à oficina gráfica, duas figuras merecem destaque: José Berta- so e Mansueto Bernardi. Centrando a análise nas trajetórias desses dois ho- mens que, por caminhos diversos e ocupando posições distintas, contribuí- ram para escrever não apenas a história da Globo, mas também a história do livro no Rio Grande do Sul e no Brasil, o próximo capítulo versa sobre os pri- meiros anos da Livraria e o conjunto de ações que encaminhou a constituição da Seção Editora.

2 A LIVRARIA DO GLOBO

Benzer Belgeler