Durante quinze anos ininterruptos, Getúlio Vargas ficou no poder (1930-1945). Para muitos analistas, essa foi uma época que promoveu inflexões importantes em nossa história; transformações econômicas, sociais e políticas que calcaram os pilares de um Brasil Moderno
considerando, muitas vezes, práticas amplamente autoritárias114. O contexto que cobre a nossa
Primeira República – já analisado – e o Fim do Estado Novo é extremamente destacado por Bolivar Lamounier, Evaldo Vieira, Wanderley Guilherme dos Santos e Boris Fausto em suas reflexões sobre a edificação de um pensamento de cunho autoritário no Brasil. Sendo assim,
114 No sentido de autoritarismo dado por Azevedo Amaral, vale destacar em o “Estilo do Regime”, título da quarta
parte de O Estado Autoritário e a Realidade Nacional (1938), o autor defende o Estado Novo instituído das críticas que lhe acusam de fascista ou totalitário. Sobre isso, ele informa que o reconhecimento da autoridade do Estado e, consequentemente, a prerrogativa de sua ação e intervenção – suas perspectiva de autoritarismo – não podem ser confundidos com formas de governo que, dentre as mais problemáticas consequências, aniquilam e reduzem ao máximo o indivíduo e a personalidade humana: “O que define o totalitarismo, no sentido peculiar que a essa expressão lhe deu ao fascismo, não é, portanto, a extensão do poder estatal, mas a natureza compressiva, absorvente, aniquiladora da personalidade humana, que imprime às instituições fascistas um aspecto repelente, tornando-as tão incompatíveis com todos que prezam a dignidade do espírito. A submissão dócil à autoridade do estado não repugna, nem pode repugnar os indivíduos normais, que intuitivamente compreendem que um povo, para se transformar em uma nacionalidade, precisa organizar-se em uma estrutura hierárquica, cuja solidez e funcionamento eficiente exigem a atuação de uma autoridade capaz de tornar-se a força coordenadora e orientadora dos elementos que se justapões nas sociedades” (AMARAL, 1938, p. 155). Além disso, Azevedo Amaral afirma que governos autoritários não estão, necessariamente, em contraposição à existência de regimes democráticos. Em relação a isso, o intelectual chega a afirmar que a democracia, em determinadas circunstâncias, só poderia existir ou ser assegurada pela existência de um Estado autoritário. Para ele, o Brasil representaria um desses casos: “Felizmente, porém, o Estado Autoritário pode harmonizar-se perfeitamente com o estilo essencial do regime democrático. E podemos ir mais longe afirmando que somente uma forma de governo autoritário é capaz de permitir o desenvolvimento normal da democracia e das suas instituições, de modo a torná-las adequadas às soluções dos problemas cada vez mais complexos que surgem em todos os setores da vida das nações contemporâneos. Um exemplo significativo dessa verdade, temo-lo no próprio Estado Novo organizado pela atual Constituição Brasileira (AMARAL, 1938, p. 177-178). De acordo com Azevedo Amaral, o Estado Novo poderia
ser considerado democrático justamente porque ele resguarda um profundo nacionalismo: “O estilo do Estado Novo define-se por duas características inconfundíveis. É democrático e é nacionalista. Estes dois traços conjugam-se em uma unidade harmoniosa que representa o equilíbrio entre os elementos da formação brasileira e o sentido histórico de nosso futuro. O Estado Novo é democrático porque é nacionalista. E somente corresponde à ideia nacional por ser democrático. A plasmagem da nossa nacionalidade realizou-se sob a influência do espírito democrático, que já nos veio da metrópole europeia onde ele emergira desde o século XV em afirmações significativas e que anteciparam no Velho Mundo os surtos da ideia democrática, preludiados em outros países pela grande revolução religiosa do século XVI” (AMARAL, 1938, p. 178-179
122 revisitar esse momento de nosso passado auxilia na compreensão das condições sociais e políticas que alimentaram a emergência e a estruturação de uma dada corrente intelectual
composta por formas significativas e influentes de conhecimentos que115, dentre outras coisas,
tinham o propósito de modificar a realidade social e política brasileira desse período116.
Certamente Oliveira Vianna fazia parte dessa corrente intelectual e é justamente por isso que fazemos questão de analisar a fase 2 de seu pensamento considerando os meandros do contexto social e político intrínseco ao primeiro governo Vargas (FILHO; PENNA, 2011a).
A partir de 1930 temos no Brasil a agudização da autoridade do Estado117. Getúlio
Vargas gozava de largos poderes e construiu, juntamente com seu staff, um conjunto de políticas públicas ligadas ao processo de modernização da nação brasileira. Foi nesse momento que ele cria novos Ministérios, tais como o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e o Ministério da Educação e Saúde. Em termos de políticas altamente enfáticas ligadas ao desmantelamento das oligarquias nacionais anteriormente condutoras da política nacional (Primeira República), Getúlio Vargas demitiu todos os governadores dos Estados Brasileiros, nomeando assim, interventores em seus lugares. Estes eram pessoas da sua confiança que, ao serem empossados de seus cargos, impunham aos Estados a perca de grande parte de suas autonomias político-administrativas, centralizando deste modo, a tomada de decisões na Presidência da República. No ano de 1933, Vargas convocou uma Assembleia Constituinte que, em 16 de julho de 1934, elaborou uma nova Constituição para o Brasil. A mesma trazia novidades, como por exemplo: 1) o voto secreto e o voto feminino (sufrágio); 2) a criação da Justiça do Trabalho; 3) a definição dos direitos constitucionais do trabalhador (como jornada
115 Significativos porque conseguiram condensar as principais percepções e vontades de determinados
agrupamentos sociais e políticos de nosso país. Nos termos de Karl Mannheim, estudiosos capazes de promover a
síntese. Influentes porque não se limitaram à captura e à teorização de um momento específico do Brasil. Os intelectuais vistos como pertencentes ao Pensamento Autoritário Brasileiro são definidos como produtores de ideias práticas, com propósitos orientados para a mudança social. Se apropriando de um termo muito utilizado por Ângela de Castro Gomes (1993) para definir o trabalho de Oliveira Vianna no Estado Brasileiro entre os anos de 1932 e 1940, podemos considerá-los statemakers; ou indivíduos pressupostos a esta função.
116 As lições de Karl Mannheim presentes na obra Ideologia e Utopia (1976) auxiliam na compreensão destes dois
movimentos expostos nesse parágrafo, quais sejam: 1) o vínculo profundo entre as condições materiais da vida e a emergência de um dado conhecimento; 2) o modo como um conhecimento determinado retorna à realidade que o inspirou ensejando assim, na maioria das vezes, sua mudança social e política.
117 Na segunda parte O Estado Autoritário e Realidade Nacional, nomeada de “Fase de Transição”, Azevedo
Amaral narra a transição da Primeira República para o Estado Novo e afirma que: “Realmente, em face da situação que então se delineava, os constituintes de 1891 detiveram, com outorga de uma ampla autonomia às províncias, a ação dissolvente das forças dissolutivas da nacionalidade. Isto não importa, contudo, em dizer que, mais tarde, o que fora benéfico em 1891 não viesse a tornar-se um elemento ameaçador à unidade nacional, justificando a reação contra os excessos de autonomia, que surgiu no fim da Primeira República e foi um dos traços característicos do espírito revolucionário de 1930” (AMARAL, 1938, p. 38).
123 de 8 horas diárias, repouso semanal e férias remuneradas); 4) a separação dos poderes em Executivo, Legislativo e Judiciário; 5) estabeleceu a nacionalização de recursos minerais presentes no subsolo brasileiro; 6) e determinou o monopólio estatal em alguns setores da indústria.
Durante esse período, duas correntes políticas marcaram presença em nosso país. Uma delas era denominada de Aliança Integralista Brasileira (AIB), caracteristicamente fascista, defensora de um Estado Totalitário e inspirada nos fascistas europeus (inclusive com o uso de e a feitura de alguns rituais). Estes eram demasiadamente nacionalistas, eram aveços aos comunistas e conservavam o lema “Deus, pátria e família”. Também intitulada de Integralismo, tal corrente política ficou conhecida em todo o Brasil e teve o Sr. Plínio Salgado como a sua principal liderança. Inicialmente Getúlio Vargas demonstrou algum tipo de simpatia e afinidade junto aos integralistas brasileiros. Foi expressivo o crescimento da força do Partido Comunista Brasileiro (PCB) que, por sua vez, inspirava-se no Regime Socialista da antiga União Soviética. Aliança Nacional Libertadora (ANL) representou, nesse momento, a articulação de atores que, no Brasil, cultivavam ideais de esquerda. Vargas percebendo o potencial ideológico e político da ANL proibiu o seu funcionamento e, desse modo, as suas sedes, espalhadas pelo Brasil, foram fechadas (a tentativa de reconstituição da ANL de modo clandestino poderia acabar com a prisão de seus organizadores). Inconformada com sua condição de opressão e com o próprio governo de Vargas ocorre em 1935 a Intentona Comunista que, por sua vez, foi facilmente controlado pelo governo devido a sua deficitária organização e a presença espiã do governo varguista no seio do movimento. Depois dessa derrota, o Partido Comunista e a ANL deixaram de existir. Todos os militantes que compuseram o seu funcionamento foram presos, inclusive os líderes Luis Carlos Prestes e Olga Benário Prestes (esta posteriormente extraditada para a Alemanha Nazista – fato este que culminou em seu assassinato em 1942).
A primeiro giverno de Getúlio Vargas teve, como resposta a sua atuação, a emergência de alguns “atentados” ou posicionamentos enfáticos em relação a mesma. Alguns desses eram bem notórios, outros mais idealizados e com menos bases materais de sua efetiva potencialidade. Ligados ao primeiro tipo de atentado, temos a Revolta Constituinte de 1932, liderada pela elite política, econômica e intelectual paulistana. Com a Revolução de 1930 e a diminuição considerável da autonomia do Estados, os insurgentes paulistas requeriam do governo provisório a elaboração de uma nova Constituição e a convocação de eleições presidenciais. De maneira geral, os paulistas fizeram uma grande campanha – usando jornais e
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rádios – para mobilizar parte da população. Nesse momento, foram arregimentados mais de
duzentos mil voluntários, sendo sessenta mil combatentes. Contra esse levante, cem mil soldados varguistas marcharam para enfrentar os paulistas. Depois de oitenta e sete dias de combates (de 9 de julho a 4 de outubro de 1932), registrou-se novecentos e trinta e quatro mortos (mas estimativas não oficiais apontam mais de mil e duzentos mortos). Mesmo derrotado na batalha, o movimento paulista foi politicamente bem-sucedido, afinal, a luta pela Constituição foi fortalecida na nação e no ano de 1933 eleições foram realizadas no país, colocando assim, Armando Sales no governo do Estado de São Paulo.
Atrelado ao segundo tipo de atentado ao primeiro governo de Getúlio Vargas,
verificamos que o mesmo sempre se mostrou “avesso” ao socialismo e, em grande medida,
utilizou essa como a principal justificativa e mote para o fechamento do Estado Brasileiro em 1937, constuindo assim, o Estado Novo. Os integralistas, com o pleno conhecimento do governo, armaram uma mentira de grandes proporções, forjando o “Plano Cohen”. Dessa forma, os integralistas afirmavam que os socialistas planejavam uma revolução maior e mais bem- arquitetada do que a Intentona Comunista de 1935, afinal, a mesma passaria a ter um denso e complexo suporte do Partido Comunista da União Soviética. Muitos analistas classificam esse
momento como um “pretexto para a construção de um golpe antidemocrático”. Soma-se a isso,
a grande possibilidade de, naquele momento, os militares brasileiros apoiarem a ideia de um governo mais fortalecido e forte comprometido com a afugentação do socialismo no Brasil.
Com o apoio militar e popular, Getúlio Vargas anula a Constituição de 1934 e declara o Estado
Novo e, dessa forma, edifica-se um novo momento da História Nacional.
O Estado Novo foi instituído e junto dele edificou-se a Constituição de 1937118 que
resguardava um caráter amplamente centralizador e com predisposições autoritárias, tal como define Azevedo Amara (AMARAL, 1938, p. 98–100). Com esta Carta Magna, os poderes de Getúlio Vargas ficaram ilimitados e o Congresso Nacional foi fechado. Soma-se a isso, a
118 Na terceira parte do livro O Estado Autoritário e a Realidade Nacional, intitulada de “A Primeira Constituição
Brasileira”, Azevedo Amaral se volta para o entendimento daquilo que representou a Constituição Brasileira de 10 de novembro de 1937. Após evidenciar sua percepção acerca das nossas Constituições anteriores aos anos de 1937, Azevedo Amaral afirma que não houve no Brasil uma Constituição mais realística que a confeccionada em 10 de novembro (AMARAL, 1938, p. 134). De acordo com o pensador brasileiro, notamos: “Por enquanto, o que já salientamos parece-nos bastante para comprovar a afirmação de que o estatuto do Estado Novo veio marcar na nossa história política um acontecimento sem precedente. Pela primeira vez foi feita uma tentativa de organizar a Nação em linhas traçadas de acordo com um critério realístico e em obediência a um pensamento de dar ao Brasil uma Constituição Brasileira” (AMARAL, 1938, p. 138).
125 extinção dos partidos políticos e a perca total de autonomia dos Estados Brasileiros (os Prefeitos passaram a ser nomeados pelos Governadores que, por sua vez, eram indicados pelo Presidente). Com a Constituição criou-se o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) que
tinha como principal função o controle da imprensa, dos jornais, das revistas, etc. O 1o de maio
passou a ser feriado e, no Rio de Janeiro, os trabalhadores desfilavam com grandes imagens/retratos de Getúlio Vargas. O controle da imprensa instaurado pelo governo Vargas determina uma fase de feitura da política nacional calcada no amplo controle ideológico da população. Liga-se a isso a necessidade de se forjar – por meio da coordenação e orientação do Estado – uma identidade nacional brasileira moderna, com caracteres particulares e afetos a um projeto nacional específico (que, no caso de países de tradição colonial são facilmente ligados às noções de modernização e industrialização). Esse aspecto ideológico coordenado pelo Estado Novo é ressaltado por Lúcia Lippi de Oliveira no seu livro A Questão Nacional na 1° República. De acordo com a autora, temos a possibilidade de:
Supor que a importância do nacionalismo cultural tende a crescer na medida mesma do fracasso da política em construir uma coletividade com sólidos laços de solidariedade. nacional. Por outro lado, em uma sociedade mais “tradicional”, a identidade deduzida dos costumes, da língua e da cultora aparece de forma mais “natural”, é facilmente visível. Ao contrário, nas sociedades em transição para um mundo industrializado, onde predomina a mobilidade vertical, diminui a importância dos traços “naturais” e aumenta o papel da identidade construída a partir da ação política do Estado. Esta ação política, entretanto, tende a tomar como eixo central a identidade cultural, como no caso do Estado Novo. As propostas nacionalistas, sejam elas marcadamente políticas ou marcadamente culturais, tendem a se auto atribuir uma missão salvadora, acentuando uma glória passada a ser resgatada, ou futura a ser construída (OLIVEIRA, 1990, p. 190).
A partir desse momento, o Estado Brasileiro passou a intervir com toda a força na economia e a fazer escolhas econômicas que dinamizavam a capacidade produtiva do país. Nesse sentido, a cafeicultura foi perdendo força enquanto a indústria nacional começava a crescer. Enfraquecia-se a vida rural em prol do fortalecimento da urbana brasileira. De acordo com Lúcia Lippi de Oliveira, em obra supracitada, vemos que:
No primeiro tempo modernista, o que se pretendia era a incorporação do país à ordem urbana e industrial, ao mundo da racionalidade. Ser moderno era identificado com ser civilizado, cosmopolita, ou seja, estar atualizado com o mundo. Daí o tema da cidade predominar sobre o da província, sobre o regional. A cidade passa a ser o grande tema poético. O grande centro urbano é visto como polo da cultura, como região privilegiada do encontro e fermentação de novas ideias. E também na cidade que aparece a experiência da perda da individualidade, com a dissolução do indivíduo na multidão, na massa” (OLIVEIRA, 1990, p. 183).
126 Para o fortalecimento da economia nacional via industrialização massiva do Brasil, foram criadas empresas estatais, tais como: 1) a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda (para forjar milhões de toneladas de aço); 2) a Companhia Vale do Rio Doce, de mineração; 3) a Companhia Hidrelétrica de São Paulo; 4) a Companhia de Álcalis (produtos químicos). De modo clara, podemos destacar que a visão econômica varguista era amplamente nacionalista e antiliberal, acreditando assim, que a mola propulsora para o desenvolvimento econômico-industrial-nacional deveria ser o Estado. Segundo Lucia Lippi de Oliveira:
O nacionalismo, enquanto bandeira a guiar os intelectuais preocupados em constituir um projeto de salvação nacional, teve de lidar com a questão econômica ligada à industrialização e com sua companheira, a questão operária. Foi também neste quadro que o discurso de Alberto Torres - que tinha por base a ideia de que o abandono da terra era o principal responsável pelo atraso do Brasil - ganhou adeptos (OLIVEIRA, 1990, p. 148).
Não é errado afirmar que o primeiro governo Vargas edificou uma relação com os trabalhadores que correlacionava apoio popular e ampliação dos direitos trabalhistas (mote da tese do denominado Populismo) (WERNECK VIANNA, 1978; WEFORT, 2006). Sendo assim, Getúlio Vargas edificava apoio popular por meio de uma pactuação com a classe trabalhadora. Vargas propôs uma espécie de pacto aos trabalhadores. Mas há teses mais sofisticadas que essa para explicar a consolidação de importantes leis trabalhistas no Brasil deste período. Esse é o caso das teorizações de Lúcia Lippi de Oliveira que, por sua vez, ratifica a impossibilidade de forjar uma sociedade moderno-industrial sem, ao mesmo tempo, constituir uma classe trabalhadora que, por sua vez, ao ser integrada na lógico industrial-capitalista, imerge em um léxico novo, correlato à dinamização e reorientação do mundo do trabalho, requisitando assim, novos direitos delineados e concatenados com a inédita posição no mundo que ocupam – ou
seja, ampliação da “questão social” (OLIVEIRA, 1990). Ou ainda, a tese que ratifica a
importância da ação dos trabalhadores, enquanto grupo de pressão organizado, para o processo de construção e consolidação dos Direitos Trabalhistas no Brasil (uma reivindicação histórica da classe trabalhadora brasileira que, por conta de seu enfrentamento combativo, alargou os limites de seus direitos trabalhistas em nosso país). De qualquer forma, é necessário destacar que houve, na Era Vargas, grandes avanços na legislação trabalhista brasileira que perduraram até recentemente em nosso país. Dentre esses avanços, podemos destacar: 1) a jornada de trabalho de oito horas por dia; 2) a proibição de contratação de menores de quatorze anos; 3) a
127 instituição do salário mínimo; 4) o estabelecimento de férias; 5) a criação da previdência social; 6) a edificação de uma jurisprudência trabalhista nacional; 7) e a aposentadoria aos idosos.
Neste momento, devemos destacar que foi nesse contexto de construção da legislação trabalhista brasileiro que Oliveira Vianna está desenvolvendo suas atividades como consultor jurídico do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e, concomitantemente, cunhando/organizando/editando as obras ligadas à fase 2 de seu pensamento. E, como ficará claro posteriormente, o cargo que ele ocupa, para além dos requisitos técnicos atrelados e ele, liga-se com pertinência à visão conservada pelo autor sobre o Brasil e os caminhos necessários à modernização da nação. Nesse sentido, o intelectual fluminense também resguarda uma tese acerca da importância de integrar os trabalhadores ao processo de desenvolvimento do país por meio da constituição de leis, instituições e organizações que, primeiramente, ampliem ineditamente sua participação no processo político nacional e, em segundo lugar, alarguem seus direitos de modo a garantir a modernização mais coordenada do país, limitando e controlando assim, os conflitos de classes intrínsecos ao mundo do trabalho.
Nessa direção, no momento em que Oliveira Vianna pensava a agia sobre o mundo do trabalho brasileiro, verifica-se que a regulamentação do trabalho representa muitos pontos no dilema social e nacional do país. O mundo do trabalho e a regulamentação do mesmo representaria, assim: 1) a constituição de uma sociedade de direitos e de uma sociedade moderna; 2) a formação de grupos profissionais capazes de participar ativamente da vida política nacional; 3) a criação de sindicatos capazes de neutralizar as forças e os herdeiros ainda
remanescentes da Primeira República (multiplica-se as formas de representação)119. A
constituição dos sindicatos no Brasil obedecia à postulação de um projeto e de uma interpretação acerca da sociedade brasileira ligada a uma visão orgânico-corporativa do Brasil. Sendo assim, o reposicionamento do bloco histórico no poder foi almejado pelo primeiro governo de Getúlio Vargas no momento em que ele, ao constituir e regulamentar a participação dos trabalhadores via sindicatos, buscava diminuir as forças políticas e as elites regionais que
119 Texto de Vargas (Discursos, 1930 – Pré-revolução Paulista). Não se mostrava produtivo retomar o debate
constitucional e eleitoral pois, retomar as eleições no Brasil significa reposicionar todas as forças e o poder que as elites regionais construíram em três décadas. Sendo assim, a democracia seria extremamente problemática de ser efetivada no país. Todavia, por conta da Guerra Civil Paulista, Getúlio Vargas foi obrigado a reaver o debate