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Rapoport, A., Fights, Games and Debates, Michigan 1960

O empreendedorismo social na Ascamar em Bonito de Santa Fé possui traços de manifestação sistêmica. Nesse ponto, é semelhante à Associação de Pombal, pois não se desenvolve apenas pela predisposição do indivíduo empreendedor, mas de toda uma rede apoio de entidades que possuem em comum uma natureza cujo cerne não é direcionado pelo fator lucro, pelo menos não de maneira isolada. Porém, o fator que diferencia o propósito social da Ascamar é que não há uma rede de apoio bem desenvolvida como em Pombal. A rede é menor, o que dificulta o desenvolvimento da associação e do empreendedorismo social.

Cooperar Reduzir a incidência da pobreza na zona rural do Estado (COOPERAR, 2016).

Escola Monsenhor Morais (EEEFM - Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (Escola Pública Estadual)

Educar e contribuir efetivamente para a formação de cidadãos éticos, responsáveis, socialmente solidários e comprometidos com o bem comum, totalmente preparados para a construção de um conhecimento interdisciplinar, autônomo, criativo e que responda à sociedade com ações concretas e fundamentadas nos valores cristãos (Dados da Pesquisa, 2016)

Ascamar (propósito social a partir da fala das entrevistadas)

Despertar entre os associados o sentimento de solidariedade e do objetivo comum.

Desenvolver os associados para a satisfação do bem comum.

Contribuir para a preservação do meio ambiente (Adaptado a partir das entrevistas, 2016).

Banco Mundial (Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento)

Atuar como uma cooperativa de países, que disponibiliza seus recursos financeiros, o seu pessoal altamente treinado e a sua ampla base de conhecimentos para apoiar os esforços das nações em desenvolvimento para atingir um crescimento duradouro, sustentável e equitativo. O objetivo principal é a redução da pobreza e das desigualdades (BANCO MUNDIAL, 2016).

Prefeitura de Bonito de Santa Fé

Atender aos fundamentos da constituição: cidadania, dignidade da pessoa humana, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa assim como o pluralismo político (Adaptado da Constituição de 1988).

Fonte: Elaborado pelo autor (2017).

Bem-estar social e econômico, redução da pobreza, sustentabilidade e ética são palavras de grande significado nas declarações destas missões. Pode-se assumir a cidadania como elemento inicial de discussão do Quadro 8, haja vista a sua amplitude, que pode ser vinculada a todas as demais expressões.

A noção de justiça social deriva da luta pela melhoria das condições sociais daqueles que vivem em situação precária, sobretudo no que tange à diminuição da vulnerabilidade econômica. O galpão comunitário tem sido um avanço considerável, mas o alcance da justiça social não se faz apenas com a melhoria do processo produtivo, mas da vida das famílias.

A declaração informal de missão social pode ser identificada a partir das falas das entrevistadas, as quais foram indagadas de forma objetiva sobre qual seria o propósito da associação. As respostas foram sintetizadas na missão que aparece no Quadro 9.

As entrevistadas revelam o desejo do compromisso solidário entre os associados com vistas a desenvolver a associação e preservar o meio ambiente. Todavia, o bem comum também aborda o bem-estar da comunidade em geral: cidadãos do município que também são atendidos pela associação e que também devem contribuir com a sociedade. Mas o que aparenta estar implícito? Ao que parece, os discursos sinalizam para um desânimo gradativo, em que a empolgação de outrora cede espaço para a não continuidade da mobilização social dos cidadãos, seja pela não expansão da rede de apoio, seja pela inadequação da gestão da Ascamar ou ambos.

De acordo com Nassif, Prando e Consentino (2010), a atuação do empreendedor social é vista como apoiada por um grupo, cujos membros são coletivamente responsáveis pelo cumprimento dos objetivos da empresa. Desta forma, reforça-se o entendimento de que o empreendedor social não depende de um único sujeito, mas da mobilização de um grupo, uma rede ou aliança entre organizações, entre empresas e o governo, cuja finalidade principal é lidar com problemas sociais (GALERA; BOZARGA, 2009).

A responsabilização no caso da cooperativa é conjunta, isto é, agentes e comunidade devem se comprometer com o desenvolvimento local. Na Ascamar, complicadores sociais, políticos e culturais arrefecem o potencial do empreendedorismo social da associação: a falta atual da mobilização dos cidadãos, o desgaste da liderança, os conflitos políticos da prefeitura com as cidades vizinhas, o autoritarismo histórico que influencia o poder legislativo são alguns dos exemplos que puderam ser evidenciados na pesquisa de campo.

4.3.5 Áreas críticas de atuação

De acordo com os relatos, os motivos que levaram Bonito de Santa Fé a ser contemplado com os recursos do Banco Mundial apresentam uma junção de fatores críticos da comunidade com condições organizacionais mínimas. A escolha da comunidade beneficiada com o galpão levou em consideração a organização burocrática, toda a composição de membros necessários para a formação de uma associação, os registros documentais etc.

Não obstante, existem outros motivos que fizeram da Ascamar uma organização-alvo para os investimentos públicos. De acordo com os relatos, muitos associados residem em casas precárias e insalubres, que estão localizadas em áreas públicas e privadas, e cujo acesso ao terreno se dá através de ocupação, de compra informal, ou, muitas vezes, de heranças de família.

Minha família mora no mesmo lugar há mais de 30 anos. Meu avô tinha um sitiozinho e depois ele vendeu pra gente vir morar na cidade de Bonito. A casa não tem tanto conforto, mas tem ventilação, dá pra viver. De vez em quando aparece um rato, uma barata, mas a gente mata. A casa é pequena, mas dá pra todo mundo. São dois quartos, uma cozinha, um banheiro, uma sala e temos até um quintal. Tem muita casa por aí que não tem. Uns moram de aluguel, outros o terreno foi cedido e o pessoal mesmo construiu, meio que na sabedoria né? Tive um vizinho que o teto caiu com uma chuva que deu há muito tempo atrás, graças a Deus ele não tava em casa. A gente ajudou a subir o teto de novo, mas acho que se der a mesma chuva... sei não (risos). (Naldinha, associada).

Os moradores são trabalhadores pobres do setor formal ou mesmo do setor informal, cuja renda familiar é de até um salário mínimo de acordo com Rita, presidente da associação. Conforme com as entrevistadas, se não fossem os programas sociais, elas não teriam como cobrir as necessidades básicas. A busca de uma complementação para o atendimento de suas necessidades levou os associados a buscarem a ajuda da prefeitura.

O galpão foi inaugurado recentemente, ainda no ano de 2015, mas as falas dos entrevistados indicam que houve melhorias significativas após a sua construção. Porém, eles não creditam tal avanço apenas à construção e ao funcionamento do local, mas a toda a caminhada da Ascamar, desde seu surgimento até os dias atuais. Isso nos mostra que a redução da vulnerabilidade é processual e não afeta apenas a questão econômica.

No processo de desenvolvimento comunitário, há ações provenientes de diferentes direções, mas que convergem no mesmo sentido. De acordo com Bronzo, Teodózio e Rocha (2012), o governo estabelece políticas e regulamentos que criam um ambiente favorável para as iniciativas locais. E o terceiro setor (aqui protagonizado pelas catadoras) capacita a comunidade para o desenvolvimento sustentável.

Quadro 18 - Síntese dos achados empíricos na categoria Área crítica de atuação – contexto da Ascamar, em Bonito de Santa Fé

CATEGORIA INDICADORES PRINCIPAIS ACHADOS NAS

NARRATIVAS

ÁREA CRÍTICA DE ATUAÇÃO

Razões de escolha Cooperativa formalizada

Busca incessante da comunidade por alternativas de obtenção de recursos

Ações desenvolvidas Construção do galpão Capacitação dos associados Melhorias percebidas Melhorias na captação renda

Aprendizado, liderança, profissionalização Necessidade de continuidade dos projetos Fonte: Elaborado pelo autor (2017).

Atuar de forma a reverter quadros de vulnerabilidade econômica e social parece se materializar como um dos principais pilares do empreendedorismo na região. De acordo com a presidente da associação, a ação dos projetos deve ser continuada, e as entidades educacionais possuem grande papel nisso. Entretanto, um maior apoio dos poderes públicos também se faz necessário, tanto para legitimar quanto oferecer o suporte devido para atração de investimentos e recursos que possibilitem o desenvolvimento continuado da Ascamar.

4.3.6 As relações com o Estado

As relações da Ascamar com o poder público apresentaram influências distintas em relação ao fenômeno do empreendedorismo social. Diferentemente do que ocorreu em Lagoa de Roça, em Bonito de Santa Fé há apoio do município, sobretudo no tocante à necessidade de oferecer uma outra forma de renda às catadoras demitidas.

Como já elucidado por Rita, a criação da associação não partiu dela, e sim do município, que procurava uma alternativa para que as catadoras não ficassem sem a fonte de renda advinda da relação com o município, depositando nela a função da representação das catadoras. Isso leva à reflexão de que não houve iniciativa da comunidade para a criação da associação, diferentemente do que ocorreu nos contextos de Pombal e de Lagoa de Roça.

De certo modo, essa tem sido uma das principais causas do aparente declínio da associação e das dificuldades de se conseguir material reciclável. A dificuldade de relacionamento com os municípios circunvizinhos também foi transferida para a Ascamar, a qual não consegue estabelecer parcerias com as cidades próximas.

A prefeitura na pessoa representada pela secretária de meio ambiente está sempre nos ajudando. Ela nos apoiou na criação da associação e hoje estamos aí com nossa fonte de renda. O ruim é que antes, quando a gente limpava as ruas da cidade, dependíamos só do município, agora temos que correr atrás de outras empresas pra conseguir material pra reciclar. É bom e ruim né? (risos). (Maria de Fátima, catadora).

A gente tem muita dificuldade pra conseguir material de outras cidades, porque a prefeitura tem rixa né? Daí tenho que viajar e pedir nas empresas mesmo. Já fui até em Campina Grande pra conseguir material pra cá, a distância atrapalha também. (Rita, presidente da associação).

Melo Neto e Froes (2002) afirmam que existem desafios impostos ao empreendedor social. Um deles está relacionado ao trabalho coletivo, que não se limita a compartilhar tecnologias produtivas, mas também incentiva a participação da população. Esta não vem atendendo adequadamente ao contexto da Ascamar como outrora, o que tem agravado uma situação potencial de risco à continuidade das atividades da associação na cidade. Tal cenário, conforme Bronzo, Teodózio e Rocha (2012), diminui a credibilidade da associação em sua contribuição para possíveis avanços no resgate da cidadania.

Assim como o empreendedorismo na zona rural de Pombal, onde há relevante participação de recursos de outras fontes para tal, em Bonito de Santa Fé vivencia-se situação semelhante, somada ainda ao grande investimento com a criação do galpão, a compra da máquina compactadora de lixo e do caminhão de coleta. Logo, no campo das relações com o

Estado, não se percebe algo de “novo”, mas uma prática de assistência à associação. Mais

uma vez, destaca-se que isso não é demérito, mas necessita de uma maior reflexão sobre até que ponto os benefícios devem permanecer nas mesmas regiões.

Uma das principais contribuições deste trabalho reside no delineamento do fenômeno no campo investigado, sinalizando que tipologias adotadas (tais como a empresa social), que, teoricamente, se aproximam como proposta de estudo, não se adequam de forma harmônica, sendo mister uma readequação dos termos ou das categorias investigadas de forma a evidenciar com maior fidedignidade como o empreendedorismo social se manifesta na comunidade.

Em comparação com os demais casos, a Ascamar apresentou algumas fragilidades: a participação limitada nas políticas públicas devido à resistência do poder legislativo local, a rivalidade entre prefeituras próximas e a condição de dependência que prejudica o fomento à autonomia da associação.

Quadro 19 - Síntese dos achados empíricos na categoria Relações com o Estado – contexto da Ascamar, em Bonito de Santa Fé

CATEGORIA INDICADORES PRINCIPAIS ACHADOS NAS NARRATIVAS

RELAÇÃO COM O ESTADO

Recursos recebidos

Banco Mundial e Cooperar Prefeitura Suporte

burocráticos

Documentos da associação

Incentivos Complementação da renda familiar Preservação do meio ambiente Participação nas

políticas públicas

Não há, exceto no que tange a ações de meio ambiente. Fonte: Elaborado pelo autor (2017).

O próximo caso revela, de modo semelhante, as potencialidades do empreendedorismo social na comunidade de Aparecida. Nesta região, o fenômeno tem mobilizado agricultores do município na formação de uma associação de apicultura.

Benzer Belgeler