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3.TERMAL KAMERALARIN KULLANIM ALANLARI

3.1. Rüzgar Enerjisindeki Kullanımları

A discussão sobre a mulher na política foi suscitada no discurso jornalístico principalmente pela participação das candidatas Marina Silva e Dilma Rousseff na eleição presidencial de 2010. Houve, a princípio, uma preocupação da instância de produção jornalística de não enfatizar a possibilidade de ser eleita a primeira mulher ao cargo de presidente da República, nem de discutir questões de gênero que envolviam essa situação. Entretanto, tendo em vista que a relação entre a instância política e a instância cidadã é mediada pela instância midiática, no debate político foram introduzidos pontos como a participação política da mulher e a legalização do aborto, o que abriu espaço no jornal para tais temas. Nesta primeira parte da análise, é possível verificar esse processo:

Sem citar quebras de sigilo, presidente diz que oposição age por ‘preconceito contra a mulher’ (Linha fina. Na TV, Lula contra-ataca e acusa Serra de ‘partir para a baixaria’ contra Dilma. Folha de S. Paulo. 08/09/2010. Eleições 2010, Especial 1) Anexo 1. O presidente, principal cabo eleitoral da petista, pediu “equilíbrio e prudência”. Criticou os que “caluniam Dilma, movidos pelo preconceito contra a mulher e contra mim”. “Tentar atingir, com mentiras e com calúnias, uma mulher da qualidade de Dilma Rousseff é praticar um crime contra o Brasil. E, em especial, contra a mulher brasileira”, afirmou Lula. (Excerto. Na TV, Lula contra-ataca e acusa Serra de ‘partir para a baixaria’ contra Dilma. Folha de S. Paulo. 08/09/2010. Eleições 2010, Especial 1) Anexo 1.

Pelo processo de discurso relatado, verificamos nesses trechos a voz do locutor, responsável pelo texto, dando espaço à voz de outro, no caso, do então presidente Lula, que relaciona as críticas direcionadas a Dilma Rousseff à sua condição de mulher. A instância de produção abstém-se de sua responsabilidade com o dito relatado, marcando, por meio das ilhas enunciativas (‘preconceito contra a mulher’; “caluniam Dilma,

movidos pelo preconceito contra a mulher e contra mim”) e do discurso direto (“Tentar

atingir, com mentiras e com calúnias, uma mulher da qualidade de Dilma Rousseff é praticar um crime contra o Brasil. E, em especial, contra a mulher brasileira”, afirmou Lula), a voz do outro. Assim, a discussão em torno do preconceito contra a mulher é introduzida pela instância política (Lula). A imagem de Dilma Rousseff passa a ser vista não apenas a partir de sua identidade social como candidata política, mas também como mulher.

No próximo recorte, verificaremos a abertura na coluna Tendências/Debates do jornal Folha de S. Paulo para abordagem da mulher na política. No referido recorte, é feita alusão à lei 12.034/200942, além de serem tecidas sérias críticas à ausência feminina nos espaços governamentais e de se destacar a omissão dos órgãos responsáveis pela efetivação da lei:

Novas eleições, e os direitos das mulheres seguem desrespeitados.

São 52% do eleitorado, 5 milhões a mais que os homens, e a participação política das mulheres não importa. Os presidenciáveis, incluindo as candidatas, não pautam o tema; os partidos não cumprem a lei da cota de no mínimo 30% de mulheres candidatas; e os tribunais regionais eleitorais não a fiscalizam.

Nestas eleições, a média de candidaturas de mulheres é de 21%. Alcançamos hoje o que a lei determinava em 1995. Nesse tempo, os partidos não tiveram interesse de incorporá-las a seu cotidiano, suas instâncias de poder e não investiram na formação política. Não interessa ao poder masculino dos partidos a participação das mulheres! (Excerto. MORI, Natalia; MORONI, José Antonio. Presença feminina na política. Folha de S. Paulo. 14/09/2010. Opinião, p. A3). Anexo 3.

42 Nova redação dada à lei 9504/1997, que estabelece normas para a eleição, determinando que o número

de candidatos fosse na proporção de 30% e 70% entre os sexos feminino e masculino respectivamente. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Lei/L12034.htm>. Acesso em: 23/01/2012.

A participação política feminina no jornal permeou também outros cadernos do jornal, ultrapassando o de política para chegar, até mesmo, ao de entretenimento, na coluna social:

Socialites socialistas (Título. BERGAMO, Mônica. Socialites Socialistas. Folha de S. Paulo. 18/09/2010. Ilustrada, p. E2). Anexo 2.

Chella Safra, mulher do banqueiro Moise Safra, surpreendeu na noite de anteontem ao comparecer a um jantar de apoio a Marta Suplicy (PT-SP), que concorre ao Senado. Ela não apenas prestigiou a candidata - mas declarou que vota em Dilma Rousseff (PT) para presidente. "Mulher vota em mulher", disse. Chella até gravou depoimento para o site de Marta.

Se no passado o PT liderou greves históricas de bancários contra banqueiros, no presente o partido de Lula tem a adesão explícita dos outrora combatidos patrões. (Excerto. BERGAMO, Mônica. Socialites Socialistas. Folha de S. Paulo. 18/09/2010. Ilustrada, p. E2). Anexo 2.

Do texto emergem dois conflitos pertinentes na sociedade: o de gênero e o de classe social. No discurso direto (“Mulher vota em mulher”), indicia-se uma tensão existente entre homens e mulheres, da qual haveria uma necessidade de afirmar-se como grupo, ao passo que no enunciado final (“Se no passado o PT liderou greves históricas de bancários contra banqueiros, no presente o partido de Lula tem a adesão explícita dos outrora combatidos patrões”), o conflito de classe é destacado e, ao mesmo tempo, ironizado.

O recorte da crônica de Cony, pós primeiro turno das eleições de 2010, avalia a participação feminina nesse evento:

Curioso como as mulheres se destacaram para o mais ou para o menos no episódio eleitoral: Dilma, Marina e a consorte do Roriz, que trocou as prendas domésticas por outro tipo de prendas. (Excerto. CONY, Carlos Heitor. Lula ficou tiririca. Folha de S. Paulo. 05/10/2010. Opinião, p. A2) Anexo 4.

Nesse trecho, o locutor designa como “curioso” o destaque feminino no processo eleitoral. Apesar de não problematizar esse ponto, a surpresa demonstrada revela a ausência feminina anterior no domínio político. Importante relevar a maneira como são

designadas as três primeiras mulheres citadas no texto: Dilma e Marina, que são chamadas apenas pelo primeiro nome, e “a consorte do Roriz”, que é apresentada por meio do seu marido. Nessa última, há um apagamento do nome próprio da mulher, Weslian Roriz, para um destaque de sua relação com o ex-senador Roriz que teve sua candidatura impedida por decisão do Tribunal Superior Eleitoral, com base na Lei Ficha Limpa43, e deixou a vaga para a esposa. É evidente que a causa da candidatura de Weslian Roriz é pertinente para o entendimento e avaliação do caso, porém a referência a ela apenas pela sua ligação com o marido demonstra sutilmente uma herança patriarcal, em que a mulher só é reconhecida por meio da imagem masculina de poder na família (cf. SAFFIOTI, 2004).

Nesse sentido, o silenciamento inicial do jornal frente à desigualdade na participação política entre homens e mulheres teve de ser substituído pelo ingresso de questões de gênero. Contudo, quem afirma que eles existem é o outro, não a instância de produção jornalística. Esse fato foi percebido na maior parte da cobertura das eleições de 2010, em que não houve valorização de aspectos como a possibilidade de chegada de uma mulher à Presidência. Em uma tentativa de transparecer-se imparcial, o jornal omitiu-se na abordagem dos avanços e das limitações ainda existentes no espaço político em relação à mulher, acabando por auxiliar na construção da violência simbólica. Quando não se reconhece o conflito, não é possível resolvê-lo, e ele acaba por ser naturalizado. É como se se considerasse a seguinte pergunta retórica: Não havendo diferenças sociais entre homens e mulheres, por que noticiá-las?

Embora os temas femininos tenham ganhado força no período eleitoral, em nenhum momento foi destacado pela mídia escrita que havia a possibilidade de eleição da primeira mulher à Presidência da República. Provavelmente porque isso beneficiaria as candidatas que estavam na disputa, Marina Silva e Dilma Rousseff, em especial esta última, já que havia sido indicada pelo presidente Lula. Entretanto, ao final da eleição, esse ineditismo foi valorizado:

43 Lei Complementar que estabelece casos de inelegibilidade, prazos de cessação e determina outras

providências, para incluir hipóteses de inelegibilidade que visam a proteger a probidade administrativa e a

moralidade no exercício do mandato. (Disponível em:

Dilma é a eleita (Título. Dilma é a eleita. Folha de S. Paulo. 01/11/2010. Capa) Anexo 5.

Primeira mulher a ocupar o cargo, petista teve 56% dos votos e será o 40º presidente (Linha fina. Dilma é a eleita. Folha de S. Paulo. 01/11/2010. Capa) Anexo 5.

Dilma Vana Rousseff, 62, será a 40º pessoa a assumir a Presidência do Brasil. Primeira mulher e primeira ex-guerrilheira a ocupar o cargo, a petista nunca havia disputado eleição e era praticamente desconhecida dos eleitores quando foi escolhida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A posse é em 1º de janeiro. (Excerto. Dilma é a eleita. Folha de S. Paulo. 01/11/2010. Capa) Anexo 5.

Verificamos, no título, a ênfase provocada pela colocação do artigo definido feminino “a” e, na linha fina, a constatação do fato de Dilma Rousseff ser a primeira mulher eleita para o cargo da Presidência da República. Diferentemente de outros recortes, em que Monica Serra e Weslian Roriz são designadas a partir de seus cônjuges, a candidata eleita ganha nome e sobrenome no primeiro parágrafo: “Dilma Vana Rousseff”. No entanto, é atribuído o resultado ao fato de ela ter sido escolhida pelo presidente Lula. O verbo selecionado, “escolher”, também indicia o poder de Lula que, poderia ter indicado, sugerido, mas escolheu Dilma Rousseff.

Outro aspecto relevante é o paralelo feito entre “primeira mulher” e “primeira ex-guerrilheira”. No imaginário da instância de recepção, certamente, ser mulher e ser

guerrilheira são características inicialmente excludentes, visto que socialmente quem

vai à luta armada é o homem, ficando o zelo da casa com a mulher. Basta-nos rememorar as cenas de regresso de soldados após uma missão e a célebre acolhida das esposas. A instância de produção, assim, provoca uma reflexão em seu público-alvo, pois atinge os valores de crença dele, o lugar que atribui à mulher na sociedade.

Curiosamente, em contraposição ao recorte anterior, o editorial, publicado no mesmo dia, diminui a importância da eleição da candidata. Nele a desigualdade entre os gêneros e a limitação da participação das mulheres no espaço político, visto por nós como traços da violência, são minimizados:

Dilma Rousseff será a primeira mulher a exercer o cargo de presidente do Brasil. Da Islândia à Argentina, passando pela Alemanha e pelas Filipinas, a presença de mulheres na chefia de um governo já não ressalta pelo ineditismo, ainda que seu número, segundo as Nações Unidas, não alcance a marca de duas dezenas, num total de 192 países pesquisadores.

[...]

Preconceitos de sexo, tanto quanto as operações de marketing em torno do rótulo de “mãe dos brasileiros”, pouco mobilizaram as opiniões. (Excertos. Dilma presidente. Folha de S. Paulo. 01/11/2010. Opinião. Editorial, p. A2) Anexo 6.

Em alguns momentos, como já pudemos verificar, o discurso jornalístico menciona os conflitos de gênero, questionando-os. No entanto, vale salientar que essa questão nunca é atribuída, como dissemos inicialmente, ao próprio jornal, mas a um outro. Neste ponto, o locutor atribui, inicialmente, a identificação do machismo à Dilma Rousseff:

Rosa-choque (Título. FILHO, Melchiades. Rosa-choque. Folha de S. Paulo. 05/01/2011. Opinião, p. A2) Anexo 7.

Dilma Rousseff não se conformava com os elogios que recebia na Casa Civil, de que era uma boa ministra porque se dedicava exclusivamente à gerência do governo. Considerava a avaliação demeritória, senão machista. E equivocada. Dizia que subestimavam a natureza política de seu trabalho - a vitória eleitoral lhe deu razão. (Excerto. FILHO, Melchiades. Rosa-choque. Folha de S. Paulo. 05/01/2011. Opinião, p. A2) Anexo 7.

Em outro trecho, o locutor assume a inserção da questão de gênero, estabelecendo um paralelo entre a ação do governo e da casa:

Há ainda a questão de gênero. Se quer servir de inspiração e romper tabus, a primeira presidente mulher não pode se ater a "afazeres domésticos". Tem de rodar o país. [...]

A afirmação política e feminista de Dilma terá forçosamente de acontecer em público e diante de públicos. Nesse sentido, aplausos e incentivos ao recato da presidente podem ter um quê de sabotagem. (Excertos. FILHO, Melchiades. Rosa-choque. Folha de S. Paulo. 05/01/2011. Opinião, p. A2) Anexo 7.

Em paralelo à discussão da participação das mulheres nas eleições, um tema essencialmente feminino ganhou ênfase, sobretudo no segundo turno, o aborto. Inicialmente nas propagandas eleitorais e, por consequência, nos jornais, a questão da legalização do aborto. O principal motivador foi a publicação de declarações feitas por

Dilma Rousseff que, em entrevistas de anos anteriores44, havia se posicionado a favor da legalização.

No foco dessa questão, ficaram a candidata Dilma Rousseff e Monica Serra, esposa do candidato José Serra. No recorte a seguir, verificamos como o jornal noticiou a inclusão de Monica Serra na campanha eleitoral:

Tucanos escalam mulher de Serra para atacar PT (Título. FRANCO, Bernado Mello.Tucanos escalam mulher de Serra para atacar PT. Folha de S. Paulo. 10/09/2010. Eleições, especial 6) Anexo 8.

Como feito em um recorte anterior, a mulher envolvida não é apresentada inicialmente pelo seu nome próprio, mas pela sua relação com o esposo. Somente no decorrer do texto é que são apresentados o seu nome e a sua profissão:

Psicóloga critica... Monica Serra recebe...

Psicóloga chilena Monica Allende Serra, mulher do tucano

(FRANCO, Bernado Mello.Tucanos escalam mulher de Serra para atacar PT. Folha de S. Paulo. 10/09/2010. Eleições, especial 6) Anexo 8.

Com a inserção de Monica Serra, tanto no meio político quanto na mídia, o papel materno da mulher foi relevado e a discussão sobre o aborto ganhou mais força, motivando a inclusão de pesquisas de opinião. De acordo com Charaudeau (2006a), com isso, a instância de produção procura manter sua credibilidade frente à instância de recepção. Assim, entram, nesse ponto, o papel de pesquisador-fornecedor da informação e o de descritor-comentador da informação do jornalista. Estando o aborto em pauta, a instância de produção promove o levantamento da opinião dos eleitores

44 Entre outros, o site de notícias da Rede Globo publicou frases ditas pelos candidatos sobre aborto

(Disponível em: <http://g1.globo.com/especiais/eleicoes-2010/noticia/2010/10/saiba-o-que-dilma-serra-e- marina-ja-disseram-sobre-o-aborto.html>. Acesso em: 25/01/2012).

sobre o tema, a fim de possibilitar a sua avaliação com maior fundamentação. Neste recorte, vemos o título construído a partir do resultado da pesquisa:

Aumenta a rejeição ao aborto no Brasil (Título. MACHADO, Uira. Aumenta a rejeição ao aborto no Brasil. Folha de S. Paulo. 11/10/2010. Poder, p. A8) Anexo 9.

71% afirmam que legislação sobre o tema deve ficar como está e 7 % apoiam a descriminalização, diz Datafolha (Linha fina. MACHADO, Uira. Aumenta a rejeição ao aborto no Brasil. Folha de S. Paulo. 11/10/2010. Poder, p. A8) Anexo 9.

A linha fina traz os dados pertinentes para a comprovação da avaliação feita no título, visto que a legislação atual apenas autoriza o aborto em caso de estupro e de risco de vida para a gestante45. Além disso, o resultado apresentado é atribuído ao órgão Datafolha46, que visa à realização de pesquisas de opinião pública e eleitorais. Assim, o

fazer saber, proposto por Charaudeau (2006a), fica evidenciado, pois mobiliza a

racionalidade para veicular a informação.

Tamanha foi a repercussão do tema, que os candidatos José Serra e Dilma Rousseff tiveram de manifestarem-se publicamente sobre o assunto, em especial a candidata petista, que divulgou uma mensagem tratando da polêmica. O jornal, por sua vez, construiu a notícia a partir do discurso relatado e de sua avaliação:

Em carta, Dilma não promete veto a aborto (Título. FALCÃO, Márcio. Em carta, Dilma não promete veto a aborto. Folha de S. Paulo. 16/10/2010. Poder, p. A10) Anexo 10. Mensagem não atende exigência, feita por evangélicos, de barrar qualquer projeto para descriminalizar a prática (Linha fina. FALCÃO, Márcio. Em carta, Dilma não promete veto a aborto. Folha de S. Paulo. 16/10/2010. Poder, p. A10) Anexo 10.

Texto foi considerado ambíguo por Igrejas e desagradou entidades do movimento gay por não rechaçar homofobia (Olho. FALCÃO, Márcio. Em carta, Dilma não promete veto a aborto. Folha de S. Paulo. 16/10/2010. Poder, p. A10) Anexo 10.

45 Art. 128 do Código Penal Brasileiro (Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-

lei/Del2848.htm> Acesso em: 24/01/2012).

46 Órgão criado em 1983 pelo Grupo Folha da Manhã, a fim de realizar pesquisas de opinião. Disponível

No título e na linha fina, é colocada a opinião do locutor sobre a mensagem da candidata pela negação: “Dilma não promete...”, “Mensagem não atende...”. Aqui a instância de produção toma não só papel de veiculadora da notícia, mas de avaliadora, tornando-se um filtro entre o acontecimento (a mensagem da candidata) e a instância de recepção. Somente no olho é que é atribuído a outro a avaliação do acontecimento: “Texto foi considerado ambíguo por Igrejas...”. Esse tom avaliativo também aparece no corpo da notícia, por meio do discurso relatado:

Diz, por exemplo, que é “pessoalmente contra o aborto” e que vai defender a “manutenção da legislação atual sobre o assunto”, que só permite a prática em casos de estupro e risco de morte para a gestante.

Ambígua em vários pontos, a mensagem não produziu o efeito desejado. (Excerto. FALCÃO, Márcio. Em carta, Dilma não promete veto a aborto. Folha de S. Paulo. 16/10/2010. Poder, p. A10) Anexo 10.

Em paralelo, na mesma página, aparece uma notícia que aborda Monica Serra:

Monica Serra contou ter feito aborto, diz ex-aluna (Título. BERGAMO, Mônica. Monica Serra contou ter feito aborto, diz ex-aluna. Folha de S. Paulo. 16/10/2010. Poder, p. A10) Anexo 11.

O discurso do candidato à Presidência José Serra (PSDB) de que é contra o aborto por "valores cristãos", que impedem a interrupção da gravidez em quaisquer circunstâncias, é questionado por ex-alunas de sua mulher, Monica Serra. (Excerto. BERGAMO, Mônica. Monica Serra contou ter feito aborto, diz ex-aluna. Folha de S. Paulo. 16/10/2010. Poder, p. A10) Anexo 11.

Procurando garantir seu papel de problematizador da informação, a instância de produção apresenta um contraponto dos acontecimentos. Se por um lado, Dilma Rousseff vinha sendo acusada pelo adversário de ser a favor da legalização do aborto, por outro, o próprio José Serra, contrariando seu discurso religioso cristão, teria compactuado com a realização do aborto por sua esposa, Monica Serra.

Diante desses dois pontos, o da participação política da mulher e o da discussão em torno do aborto, é possível traçar alguns pontos referentes à representação da mulher e sua relação com a violência simbólica. A questão da representação é intrinsecamente

relacionada aos imaginários sociodiscursivos, os quais são constituídos pelos saberes de crença e de conhecimento, como discutimos no capítulo IV. Por essa razão, podemos notar que o surgimento da abordagem das questões femininas indiciam dois aspectos acerca da representação social. O primeiro refere-se à função social pré-estabelecida para as mulheres em relação ao exercício do poder no espaço público e no privado. O segundo, por sua vez, refere-se aos estereótipos que fundamentam essa função social.

Na dicotomia colocada entre espaço público e privado, a representação social da mulher delega a ela a responsabilidade pelo espaço privado em detrimento do espaço público. Essa responsabilidade, originária de uma tradição patriarcal, diz respeito à manutenção da estrutura familiar e aos afazeres domésticos, o que promove a restrição da ação feminina aos cuidados internos da casa e o acesso ao exterior a cargo da ação masculina. A referência de uma estrutura familiar tradicional, em que o chefe da família é o homem, no âmbito privado, é absorvida nas relações vivenciadas no espaço público, em que o poder político caracteriza-se como masculino. Por essa razão, o modelo pré- estabelecido de um candidato à Presidência da República também é masculino. Tal representação não tem origem somente na dicotomia público e privado, mas também na ausência de mulheres concorrentes a cargos de poder.

Além disso, essas relações promovem o preconceito contra a mulher a partir do estereótipo de que ela não é apta a desempenhar funções de autoridade e poder no espaço público. Aqui, é estabelecida a desigualdade de gênero de acesso ao poder caracterizando a violência simbólica.

Há, ainda, a percepção de que são agregados à representação social da mulher fortes traços religiosos e morais. Assim sendo, a instância de produção jornalística, ao tratar do tema aborto, traz à tona a questão da maternidade e releva o quanto ela é valorizada e vista como natural, inerente à condição feminina. A violência aqui não recai sobre o fato de ser mãe, mas sobre a fatalidade dessa condição, de modo que não pareçam caber opções à mulher.

Nesse ponto, a abordagem jornalística do aborto revela como o estereótipo da mulher-mãe está presente nos saberes de crença, constituindo nosso imaginário sociodiscursivo e construindo os discursos. O primeiro aspecto diz respeito ao fato de essa questão ter gerado polêmica e motivado uma discussão nos domínios jornalístico e

político, o que só ocorreu porque está intrinsecamente ligada à representação social

Benzer Belgeler