A análise do testamento do capitão Álvaro de Caminha167 permite a identificação
das bases sociais e econômicas estabelecidas em São Tomé e da forma de apropriação dos poderes delegados pelo rei por parte dos capitães e moradores. A economia da ilha estava baseada na reexportação de escravos provenientes do continente africano que tinham como destino as ilhas mediterrâneas e atlânticas e a península ibérica. O documento também faz referências a outras atividades econômicas: a preparação de terras para roças e sementeiras, a produção de víveres, a criação de porcos e gado e a presença de instrumentos para a futura criação de engenhos de açúcar. Além dos escravos africanos, o capitão faz referência ao trabalho dos moços (jovens judeus entregues à tutela de Caminha) e de um escravo branco. A estrutura social descrita por ele, seguindo a lógica da divisão social do período, é tripartite.
No primeiro item de seu testamento, Álvaro de Caminha vinculava o governo da capitania à escravidão.
“Primeiramente peço perdão a el-rei D. Manuel, nosso senhor, que ora pelo poder de Deus governa, de cuja mão tenho a governança e capitania desta sua ilha, que, se lhe tenho por negligência ou mau cuidado feito algum desserviço, me queira perdoar; e, assim, se destes negros tenha tomado mais dos que me cabiam pelos regimentos, para suportamento do mantimento da gente daqui e dos moços e feitio destas obras, isso mesmo me queira perdoar”.168
Por que associar, no primeiro item do testamento, os possíveis desserviços no governo da capitania ao excesso de escravos tomados? De que forma o controle sobre a escravidão interferia nas relações de poder entre a Coroa, o capitão e os moradores de São Tomé?
O poder emanava de Deus, em nome de quem o rei governava. Das mãos do rei era delegada a governança e a capitania da ilha, que não perdia por isso o domínio eminente sobre ela (“sua ilha”). Dessas mesmas mãos foi dado o privilégio de comercializar escravos para o bem próprio do capitão e dos moradores. De acordo com
167 “Testamento de Álvaro de Caminha”. São Tomé, 24 de abril de 1499. In: IST, p. 66-91. Sobre o início da colonização de São Tomé ver SANTOS, Catarina M. “A formação das estruturas fundiárias”, op. cit., p. 51-91. Ver também CALDEIRA, Arlindo Manuel. “Rebelião e outras formas de resistência à escravatura na Ilha de São Tomé”. Africana Studia – Revista Internacional de Estudos Africanos. Porto, Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, nº 7, jan.-dez. 2004.
esta passagem, os regimentos haviam determinado a quantidade ou a maneira dessa apropriação de escravos pelos particulares, e o rei preservava, também nesse caso, um poder eminente sobre o comércio escravista.
Os escravos foram os principais bens doados em seu testamento. Seguindo a lógica do poder régio, o acesso aos escravos aparecia como elemento central na definição do poder do capitão. As mais de trezentas e quarenta peças arroladas em seu testamento favoreciam os homens bons, os funcionários da capitania, os casados169, os
degredados, os moços e moças e os escravos forros. Os escravos eram distribuídos em virtude das relações pessoais do capitão, em remuneração aos serviços prestados e para o pagamento dos soldos.
“E depois de assim tomar estes [escravos] que digo, mandava resgatar para meu remédio outros, assim como dava resgate de minha mercadoria e de alguma de Sua Alteza (…) porque tudo fazia por necessidade (…) assim isto como tudo o mais que fiz contra seu serviço (mas Deus sabe que nunca essa foi minha tenção), as quais [coisas] pus neste testamento, e não me lembra que mais haja.”170
Álvaro de Caminha admitia o desvio daquilo que estava estipulado nas cartas régias, explicitando a correlação entre os escravos tomados em excesso e os desserviços à Coroa, mas apelava à onisciência divina e se justificava pelas necessidades da terra. Aqui devemos destacar uma tópica171 que acompanhará todo o processo de colonização,
em que o exercício de um poder de exceção se justificava pela ideia de necessidade.172
169 “(...) os que de Portugal vieram por suas vontades e casaram na ilha” que constituíam um grupo social específico. “Testamento de Álvaro de Caminha”, 24/4/1499, in: IST, p. 72.
170 Ibidem, p. 74.
171 Interessa-nos destacar as tópicas (topoï) de discurso referentes ao dominium sobre as populações não cristãs que definem as relações de poder entre os agentes coloniais, a Coroa e a Igreja. A importância das tópicas nos foi sugerida pelo trabalho de HANSEN, João Adolfo. A sátira e o engenho: Gregório de
Matos e a Bahia do século XVII. Campinas: Ateliê editorial, Editora da Unicamp, 2004 [1989]. E de
KOSSOVITCH, Leon. “Contra a ideia de Renascimento”. In: NOVAES, Adauto (Org.). Arte e
Pensamento. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 59-68. Ver também HEINTZE, Beatrix.
“Problemas de interpretação de fontes escritas. Os regimentos portugueses para a política de Angola no século XVII” [1983]. In: HEINTZE, Beatrix. Angola nos séculos XVI e XVII, op. cit., p. 96 e ss.
172 Villanueva Villanueva López analisa a ideia de doutrina da necessidade como pretexto para o exercício de um poder extraordinário por parte do rei, como um poder supremo independente da hierarquia jurisdicional. “Además de la ‘paz y quietud pública’, otro motivo que justificaba el ejercicio del poder de excepción por el príncipe era la ‘necesidad’ – ‘necesidad pública’, ‘necesidad urgente’, ‘estado de necesidad’ –, una situación en la que estaba en juego la supervivencia del Estado (sobre todo por un conflicto bélico) y facultaba al soberano para actuar suspendiendo el orden jurídico ordinario”. VILLANUEVA LÓPEZ, Jesús. El concepto de soberania, op. cit., p. 244. Álvaro de Caminha utiliza a ideia de necessidade para justificar o excesso de escravos tomados, os desserviços e negligência em relação às ordens régias e a governança da capitania.
O rei havia delegado o acesso aos escravos para o bem próprio do capitão e dos moradores, no entanto, Álvaro de Caminha passou a controlar o comércio de escravos que se transformou na base do ordenamento social, político e econômico daquela sociedade nova.
O documento destaca a importância da Casa da Mina em todos os assuntos econômicos, que, desde pelo menos 1486, possuía uma repartição exclusiva para o comércio de escravos.173 Esse controle da economia aparece também pela indicação de
Caminha ter enviado à Casa da Mina os livros dos órfãos, da receita das mercadorias, de escravos e de soldos. Desde o princípio da expansão ultramarina pelo Atlântico, a administração do comércio ultramarino se mostra central na caracterização do poder régio. Se, por um lado, o termo Casa da Mina sugere a concepção econômica da administração dos bens da Coroa, por outro, suas atribuições tributárias, comerciais, monetárias e produtivas indicam uma diferenciação fundamental da economia natural relacionada ao universo de domínio do pater famílias, daí a designação de Magalhães Godinho de crematística colonial.174 Trata-se de uma instituição de transição que
enfatiza a eminência do poder régio.
Em seu testamento, Álvaro de Caminha doava a capitania a seu primo Pero Álvares de Caminha. Este, assim como o capitão, fazia uma prestação de contas pormenorizada do comércio de escravos, com a intenção de mostrar o cumprimento do que havia sido estipulado pelas determinações régias, em que os excessos cometidos estavam relacionados exclusivamente às contingências do povoamento da ilha. Sobre o direito de 25% desse comércio, Pero Álvares diz que pagaria o rei com peças e não em dinheiro, por ser mais serviço do rei.
“Senhor nesta ilha ficam ao presente comigo cinquenta moradores, com os quais os navios são marinhados e não fazem outro serviço esses que para isso são necessários, senão ir e vir e trazer escravos para pagamento de soldos devidos a finados e vivos e alguns outros ficam para serviço das obras e para me acompanharem, por quanto Álvaro de Caminha tinha por vossa ordenança para estes pagamentos por cinco anos mil e oitenta escravos, nos quais fez tal provisão, e com tanto resguardo de vosso serviço, porque a ilha fosse povoada, que em todos os ditos cinco anos não gastou em soldos mais que novecentos e vinte ou trinta escravos, pouco mais ou menos. E ficam ainda por despender cento e cinquenta peças, pouco mais ou menos. Estas Senhor, despendo agora em soldos, não passando da ordenança de vossa alteza. E se vossa alteza houver por bem que na ilha estee [?] até que acabe estas coisas então
173 Ver LUZ, Francisco Mendes da. O Conselho da Índia, op. cit., p. 38.
174 GODINHO, Vitorino Magalhães. Os descobrimentos e a economia mundial. vol. 4. Lisboa: Editorial Presença, 1981-1983, p. 151.
Senhor, por virtude da vossa carta que aqui está, tirarei dos Rios dos escravos todos os que houver mister, porque assim é vosso serviço para povoação da ilha. A qual é para fazer dela muito fundamento, assim pelos proveitos que vossa alteza dela tem, como para reparo de vossos navios que para baixo houvessem de ir, tendo porém as liberdades como as tinha o dito Álvaro de Caminha, metendo nisso o Rio dos escravos para os soldos, sem as quais coisas não sei quanto folgará a gente de vir a ela. Antes todos fugirão, porque na ilha não há mais que semear inhames e cocos e colhê-los, sem outro proveito.”175
O elemento de agregação política e social era o tráfico de escravos: dele dependia a continuidade daquela sociedade nova e sua subordinação ao poder régio; e dele provinham as riquezas da Coroa que viabilizavam o prosseguimento do périplo africano rumo à Índia. Além de garantirem a produção de víveres e as obras na ilha, os escravos aparecem como mercadoria, moeda e fator de produção.
Para completar o quadro da relação entre o poder político e o dominium sobre as populações não cristãs, é necessário analisar outro grupo social presente em São Tomé, as moças e moços judeus emigrados de Castela, considerados cativos do rei e entregues à tutela do capitão para o povoamento da ilha. Eles são mencionados no testamento em uma condição social intermediária, entre os homens livres e os escravos. O testamento e as cartas de Pero Álvares de Caminha mostram uma preocupação com sua subsistência e com sua evangelização. Alguns foram incluídos no testamento do capitão e ficaram com uma boa parcela de seus bens, embora não fossem as coisas mais valiosas.
“E porquanto o dito Pedro [Pero] Álvares terá tanta ocupação que em tudo não poderá entender, encomendará o encargo das moças e moços a pessoa que seja de fiança e para que não [se] passe nenhuma vileza, posto que o seu principal cuidado seja sempre prover sobre eles e saber como são limpos, castigados e ensinados em seus mantimentos e em tudo o mais para conservação de suas vidas e ensinos cumprir, de maneira que não faça para isso míngua. (…) e vindo os ditos frades lhes será tudo [a educação dos moços e moças] entregue, porque é mais excelente e natural para eles que para leigos.”176
A obrigação de criá-los – nos bons costumes e por meio da religião cristã – é citada como elemento que justifica o pedido de confirmação da capitania para Pero Álvares e como condição da doação feita a Álvaro de Caminha, como dever de tutela (relacionado à ideia de encomenda). E essa tutela seria mais perfeita se fosse feita por religiosos.
175 “Carta de Pero de Caminha a el-rei”. São Tomé, 30 de julho de 1499. In: MMA, 1, I, p. 175. 176 “Testamento de Álvaro de Caminha”, 24/4/1499, in: IST, p. 83-84.
“Por quanto Senhor, ao ensino e castigo dos moços que parece-me que além de lhes ficar a doutrina d’Álvaro de Caminha, são de muito boa condição e devotos, porque os mais deles todo os dias ante manhã rezam as orações de nossa Senhora e dos finados e sete salmos e outras muitas devoções. E como é manhã os oficiais obram de seus ofícios uns de carpinteiros, outros pedreiros. E assim os outros cada um é ocupado de maneira que se não fazem calaceiros [vadios, ociosos, devassos].”177
Aos moços judeus convertidos cabiam os trabalhos especializados e mecânicos, e as moças eram dadas como esposas aos moradores solteiros da ilha. O testamento faz referência aos seguintes ofícios: mestre de açúcares, pedreiro, carvoeiro, serralheiro, lavrador, oleiro, mestre de carpintaria e carpinteiros, alfaiate, gaiteiro, ferreiro e calafates.
Havia, portanto, duas modalidades de dominium sobre as populações não cristãs em São Tomé. De um lado, estavam os escravos que deviam subordinação total a seus senhores, como propriedade do pater familias. A reprodução da ordem social escravista (como mercadoria ou como fator de produção) dependia do controle do tráfico de escravos, por meio dos resgates e da repartição. De outro, estavam os jovens cristãos- novos que deveriam ser tutelados e integrados à sociedade colonial pelo trabalho especializado e pela catequese. O poder político nessa sociedade nova era definido, em perspectiva dialética, pelo controle dessas formas de dominium. Ou seja, pelo comércio (sua regulação político-institucional e as formas de aquisição e repartição); pela determinação da guerra, da paz ou aliança; pela definição político-jurídica das populações submetidas; pelo direito penal; pelo dever moral e religioso; e pelo ordenamento das relações laborais.
Ao evocar a doutrina da necessidade para justificar o excesso de escravos tomados, o capitão Álvaro de Caminha atrelava o reconhecimento da autoridade política ao fornecimento constante de escravos e ao de fazer os jovens judeus disponíveis à sociedade colonial. A base dessa nova arquitetura de poder era o dominium sobre as populações não cristãs. Repetimos o primeiro item de seu testamento:
“Primeiramente peço perdão a el-rei D. Manuel, nosso senhor, que ora pelo poder de Deus governa, de cuja mão tenho a governança e capitania desta sua ilha, que, se lhe tenho por negligência ou mau cuidado feito algum desserviço, me queira perdoar; e, assim, se destes negros tenha tomados mais dos que me cabiam pelos regimentos, para suportamento do mantimento da gente daqui e dos moços e feitio destas obras, isso mesmo me queira perdoar.”178
177 “Carta de Pero de Caminha a el-rei”, 30/7/1499, in: MMA, 1, I, 177. 178 “Testamento de Álvaro de Caminha”, 24/4/1499, in: IST, p. 67.
Por mais que reafirmasse o sistema hierárquico de poder, o capitão suspeitava que a apropriação excessiva de escravos e a tutela dos moços e moças haviam provocado desequilíbrio nesse mesmo sistema. Por meio do controle da reprodução social escravista e senhorial, a esfera de poder do capitão ultrapassava os limites estabelecidos pelas cartas de doação, tornando-se quase independente em relação ao poder régio.
Assim, em seu testamento, Caminha reafirmava o direito de ir e vir dos moradores da ilha para o reino, concedia perdão a alguns degredados e distribuía cargos. Apesar de as cartas de doação restringirem a transmissão da capitania aos seus filhos, Álvaro de Caminha doou-a a seu primo Pero Álvares:
“deixo por capitão e governador da ilha, com todos os poderes e pela maneira que o era e fazia, assim na governança da justiça como na repartição das terras, escravos e toda a minha fazenda (…). E quero e mando a todos os moradores e povoadores da dita ilha que em tudo e por tudo e sem nenhum defeito lhe obedeçam e cumpram inteiramente seus mandados e lhe sejam obedientes como a minha pessoa.”179
É nesse trecho que encontramos pela primeira vez o título de governador. O título sugere uma transformação da realidade em São Tomé, que, nos cinco anos sob o domínio de Caminha, passava de um posto avançado do périplo africano para constituir- se como uma sociedade nova do atlântico português. A sugestão de Caminha apropriava-se da tópica do “primeiro povoador” e legitimava seu domínio em um novo estágio político e social da ilha. A delegação do cargo de governador a Pero Álvares indica essa nova complexidade política, que também se materializava pela edificação de uma torre, para residência dos capitães, e de um mosteiro, para ordem de São Francisco. A linguagem e as fórmulas usadas pelo capitão são muito semelhantes àquelas utilizadas pelo poder régio, e a expressão minha fazenda é uma evidência disso. Na fórmula “obedeçam e cumpram inteiramente seus mandados e lhe sejam obedientes como a minha pessoa”, o capitão personificava o poder político e o transmitia.
A delegação genérica de atribuições, contidas na expressão “todos os poderes pela maneira que o era e fazia”, era discriminada por Álvaro de Caminha nas seguintes áreas: (1) governança da justiça; (2) repartição das terras; (3) repartição dos escravos; (4) fazenda. O esforço em diferenciar as esferas de poder estava intimamente relacionado à experiência de governança da ilha, fato evidente pela inclusão da
repartição de escravos entre os atributos fundamentais de seu poder. No intervalo de cinco anos, entre a doação régia e a doação do capitão, os escravos, além de mercadoria, se transformam em moeda e em instrumento das relações sociais e políticas, até se converterem em atributo imprescindível para o governo da capitania. A educação dos
moços e moças e outros serviços religiosos – dos quais Caminha se responsabilizava em
nome da consciência régia – também eram lembrados para enfatizar a legitimidade de seu poder sobre a ilha e reforçavam seu pedido de confirmação em Pero Álvares.
O desenvolvimento observado em São Tomé entre 1494 e 1499 mostra a eficácia dos poderes e privilégios concedidos pelo rei na promoção da ocupação e exploração econômica da ilha. No entanto, quanto mais liberal e franco o rei se mostrava, mais independentes e autônomos se tornavam os senhores e os corpos políticos a ele vinculados. Aqui, a tensão que estrutura as relações de poder e dominium tinha uma de suas primeiras manifestações ultramarinas. A apropriação que o capitão fez dos poderes delegados pelo rei reafirmava, por um lado, os tópicos expressos na carta de doação, resumidos pela ideia de “serviço”, por outro, estabelecia premissas para a reivindicação de um poder quase autônomo: (1) como primeiro povoador e fundador de uma sociedade nova, cabeça de um novo corpo político; (2) na governança da justiça; e (3) como agente econômico que viabilizava o povoamento da ilha e a dinâmica comercial com outros espaços ultramarinos e reinóis.
As cartas de Pero Álvares de Caminha ao rei enfatizaram os mesmos aspectos para confirmação da doação feita pelo seu primo.180 Para justificar a doação em linha
transversal, que contrariava as doações, Pero Álvares fazia referência ao fato de D. Manuel, então rei de Portugal, ser primo de D. João II, seu predecessor, assim como ele era primo de Álvaro de Caminha. As tópicas do desterro – “deixei meu pai e fazenda em Portugal” – e dos ferimentos e chagas sofridas também foram utilizadas para reforçar seu pedido.181 Em uma das cartas, ele destacava o direito de sucessão por meio do
testamento de Álvaro de Caminha, que lhe conferia a transmissão de poder e confirmava sua aptidão para o governo da capitania.182 Mas a ênfase dos pedidos de confirmação
180 “Carta de Pero Álvares de Caminha a El-Rei”. São Tomé, 30 de julho de 1499. In: MMA, 1, I, p. 166-169. “Carta de Pero de Caminha a El-Rei”, 30/7/1499, in: idem, p. 171-178.
181 “Carta de Pero Álvares de Caminha a El-Rei”, 30/7/1499, in: MMA, 1, I, p. 167. 182 “Carta de Pero de Caminha a El-Rei”, 30/7/1499, in: MMA, 1, I, p. 171.
recaíam sobre as expectativas de ampliar o tráfico de escravos e as obrigações de tutelar as moças e moços judeus.183
Pelas cartas de Pero Álvares confirma-se a centralidade da escravidão e da tutela das moças e moços judeus na definição das relações sociais, políticas e econômicas na ilha. A continuidade do processo de colonização passava a depender da confirmação régia, mas o capitão Álvaro de Caminha e seu primo enfatizavam a ideia de autonomia daquele novo corpo social e remetiam à necessidade de confirmação pelo conteúdo das doações passadas e pelas vontades do rei morto (D. João II) e do povo.
“Item. Tanto que me Deus desta vida para si levar, mando que este testamento seja aberto e publicado ao povo, e assim todas as cartas, liberdades e privilégios, poderes e regimentos que para esta ilha trouxe e tenho de el-rei D. João, que Deus haja, de el-rei D. Manuel, nosso senhor, dos quais, querendo o povo tomar o treslado para o terem na câmara ou para verem se se cumpre o que nele mando, que lho dêem em pública-forma.”184
Álvaro de Caminha defendia os direitos políticos adquiridos com a publicização dos documentos régios e apelava ao povo para que a justiça fosse feita em última instância. O povo aparece como ente político, como depositário das leis, que pode reivindicar perante o rei seu cumprimento, exigindo a confirmação daquele novo corpo social que reconhece no capitão seu fundador.185
183 Em relação ao tráfico de escravos, Pero Álvares referia-se à descoberta de muitos rios, onde foram encontrados muitos escravos e muito marfim, que permitiram o aumento da arrecadação da fazenda régia. As expectativas econômicas davam substância ao seu pedido de confirmação. A centralidade do comércio