Inicialmente, realizei um levantamento bibliográfico no Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (IHGP) e na Biblioteca Central (BC) da Universidade Federal da Paraíba visando fundamentar e contextualizar o presente estudo.
No IHGP, identifiquei obras raras de alguns especialistas que abordam o assunto em questão, entre outras informações que contribuíram para a construção e o desenvolvimento deste trabalho. Nas várias visitas a esse órgão, copiei ou fotografei partes de obras
especificamente relacionadas com o objeto de estudo. Porém, essa instituição reserva um acervo de alguns documentos e obras que são restritos a pesquisadores a ela vinculados.
Na Biblioteca Central, encontrei algumas obras relacionadas com o arcabouço histórico que somaram para a construção de parte da Dissertação. Destaco a carência de obras no acervo literário referente à história e à questão teórico-metodológica do estudo.
Com o objetivo de preencher as brechas na história estudada, viajei ao Recife-PE para averiguar fontes literárias no que concerne à história. Visitei a Biblioteca Setorial do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde encontrei algumas referências que contribuíram positivamente na construção da parte dissertativa. Porém, essa Biblioteca apresenta a mesma necessidade no respeitante ao acervo literário.
Mesmo tendo pecorrido os diferentes lugares para a pesquisa, as lacunas históricas persistiram. Então, com o objetivo de preenchê-las, recorri a arquivos públicos na tentativa de encontrar respostas e compreender as conexões do objeto. Iniciei a pesquisa no Aquivo Histórico da Fundação Espaço Cultural da Paraíba (FUNESC). Nesse arquivo, não obtive êxito, pois há poucos documentos referentes ao período estudado, alguns dos quais em avançado estado de deteriorização.
Posteriomente, visitei o Arquivo Provedor Carlos Neves da Franca, na Santa Casa de Misericórdia, em João Pessoa. No momento, o arquivo não se encontra aberto para pesquisa. Por essa razão, um funcionário me encaminhou à extensão do arquivo, que funciona na Igreja da Misericódia. O material do arquivo encontra-se em total descaso. É um espaço improvisado, onde os documentos estão desorganizados, isto é, empilhados em prateleiras. Num armário de pastas suspensas, em péssimo estado de conservação, havia alguns documentos danificados com rabiscos coloridos de giz de cera, o que demonstra o despreparo e o descaso dos responsáveis pelo acervo, que não valorizam tamanho tesouro de parte da nossa história.
Lamentavelmente, alguns documentos foram extraviados ou encontram-se em estado de deteriorização pelo desgaste do tempo e pela falta de zelo. Outros documentos que poderiam servir para pesquisas futuras estão-se desgastando em razão do descuido.
Os funcionários que auxiliam pesquisadores pouco podem fazer, pois a disponibilização dos recursos materiais de que necessitam independe de suas vontades. Fiquei indignada com o estado deplorável do acervo documental (livros e outros documentos) do
arquivo, corroído por traças e cupins. Senti-me impotente ao presenciar a desintegração de um rico patrimônio histórico, sociocultural e religioso, e, com ele, de parte da história da Capitania da Parahyba. Temo dizer que, num futuro próximo, essas fontes documentais se extinguirão e, sem elas, se ampliarão os espaços em branco na história sociocultural da Paraíba.
Fiz também uma apreciação de possíveis documentos relacionados com o objeto de estudo existentes no Núcleo de Documentação e Informação Histórica e Regional (NDIHR), da Universidade Federal da Paraíba, porém não encontrei nada pertinente. No entanto, o NDIHR dispõe dos catálogos impressos do Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa (AHUL), referentes às Capitanias da Parahyba e de Pernambuco, que pude examinar. Deles, retirei as sinopses dos documentos referentes ao objeto de estudo. Não posso deixar de registrar, e de lamentar profundamente, a precariedade dos recursos didáticos e humanos desse Núcleo. A falta de pessoal especializado e de recursos tecnológicos impediu-lhe a aquisição de material (em CD-ROM) relativo aos documentos (primários) das Capitanias da Parahyba e de Pernambuco53. Não obstante, a pesquisa no NDHIR referente à Capitania da Parahyba serviu para confirmar as pesquisas anteriores, pois, como pesquisadora voluntária do grupo Paraíba: da descolonização ao Império (1780-1889), eu já possuía os CDs-ROM. Já no catálogo impresso do AHUL referente à Capitania de Pernambuco, fiz averiguação para identificar e selecionar os manuscritos avulsos, como cartas, requerimentos e ofícios, que dissessem respeito ao objeto da pesquisa.
O acesso a documentos microfilmados relativos à Capitania de Pernambuco só me foi possível graças à generosidade dos responsáveis pelo Laboratório de Pesquisa e Ensino de História (LAPEH), da Universidade Federal de Pernambuco, que mos encaminharam via Internet. Desse modo, identificado o aporte documental, fichei as sínteses e efetuei a compilação dessas fontes primárias e, posteriormente, as transcrevi. Destarte, analisei os documentos secundários, transcrições, com o objetivo de obter possíveis respostas a questões suscitadas pelo objeto de estudo.
Vale salientar que concretizar uma pesquisa, cujas fontes primárias são documentos de séculos longínquos, é tarefa ingente, pois alguns dos documentos manuscritos avulsos microfilmados do catálogo do AHUL referentes à Capitania da Parahyba encontram-se
53
O NDHIR possui os catálogos das duas capitanias (e outras), os quais integram a síntese de todos os documentos avulsos microfilmados e disponibilizados em CD-ROM. Os documentos da Capitania da Parahyba consistem de seis CDs-ROM, enquanto os de Pernambuco são vinte e cinco. Portanto, são meros arquivos, pois sua funcionalidade nesse Núcleo, por motivos já justificados, é precária.
borrados e pouco legíveis, o que dificultou sua transcrição. O mesmo ocorreu com os documentos referentes à Capitania de Pernambuco, cuja transcrição se tornou mais complexa, pois alguns deles se encontravam totalmente apagados. Porém, na maioria, as transcrições puderam ser materializadas com sucesso.
Uma das etapas mais difíceis do trabalho foi selecionar a documentação mais apropriada para a execução da análise da prática discursiva, já que todos os documentos transcritos se mostravam pertinentes para a análise. Então, a escolha dos documentos analisados levou em conta as articulações dos elementos históricos contextuais existentes, que davam ênfase ao discurso das intrigas que envolveram as relações de poder (verdade, ideologia e saber).
A análise dos documentos exigiu tempo e dedicação, pois são documentos escritos em português arcaico, ou seja, do século XVIII. Diante disso, tive o cuidado de não fazer especulações anacrônicas ou diacrônicas na análise documental.
Assim, fui instigada a repetir diversas vezes o processo de leitura analítica, indagando, traçando, de forma pragmática, as vertentes que indicassem possibilidades coerentes para o objeto.
Ressalto a importância da análise minuciosa dos documentos, pois assim pude identificar os interditos nos discursos, as relações de poder, as “verdades”, o saber e as ideologias dos clérigos, de Quitéria e dos envolvidos nas intrigas. Isso só foi possível graças à flexibilidade e à transdisciplinaridade permitidas pela área das Ciências das Religiões e, principalmente, pelo aporte teórico-metodológico da Análise do Discurso e dos Estudos Críticos do Discurso. Além do mais, possibilitaram os resultados hipotéticos das relações de poder, das ideologias e verdades dos envolvidos no caso. Através da AD, verifiquei a existência dos “ditos e interditos” no que concerne à conduta moral de Quitéria e dos clérigos estudados, seja diante da Instituição, seja diante de seus superiores.
Com isso, acredito que a análise e o cruzamento de todas essas fontes permitiram elucidar o poder discursivo-ideológico da moral católica para a mulher, por meio dos “representantes de Deus”, e sua influência na sociedade da época.
Por fim, esse confronto das fontes teórico-metodológicas analisadas contribuiu para o desenvolvimento de um referencial teórico-hipotético que, possivelmente, poderá contribuir para futuras investigações sobre a moral católica da mulher e dos clérigos em tempos de incertezas vividos na atualidade.