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A três dias do início da reunião de abertura dos trabalhos da Assembléia Constituinte, Plínio Corrêa de Oliveira escrevia artigo59 onde destacava que o ―governo provisório‖ buscaria por meio de um esforço supremo a defesa de sua orientação doutrinária, tentando cristalizá-lo nos artigos do anteprojeto da Constituição. Conforme Plínio, as características do governo provisório de Vargas flutuavam de modo ‗incessante entre o Catolicismo e o Socialismo‘. Ao analisar os altos cargos administrativos do governo provisório de Vargas, Plínio destacava:

―Na distribuição dos altos cargos administrativos, não foi outro o seu critério. Ora confiava as mais importantes tarefas a elementos mais ou menos da ―direita‖, apaixonados da disciplina social e freqüentemente simpáticos ao Catolicismo, ora introduzia habilmente, em outros cargos, alguns agitadores impenitentes, capazes de imprimir à sua atividade os rumos mais inquietantes. Ora combatia o liberalismo, servindo-se das armas da sociologia católica. Ora fazia socialismo do mais extremado, flertando a esquerda com a mesma insouciance (despreocupação) sorridente com que, há pouco, se aproximara da direita‖.

Em dezembro de 1933, Plínio mostrava estar confiante na atuação da Liga Eleitoral Católica em meio ao primeiro mês de trabalhos da Assembléia 57 Já o ‗espírito reacionário‘, assim chamado por Plínio para acentuar sua oposição ao ―espírito revolucionário‖, constaria principalmente de elementos eleitos pelo norte, e que encontrariam sua expressão mais característica nos monarquistas integrais, desejosos de opor ao comunismo (que seria o ―espírito de revolução levado até os seus últimos desdobramentos‖) o patrianovismo, isto é, o princípio da autoridade adotado em todos os terrenos.

58 A análise de Plínio sobre os grupos políticos que viriam a serem representados na Assembléia Constituinte foi escrita em artigo chamado: Previsões - publicado em 3 de setembro de 1933 no Jornal O Legionário, edição nº127.

59 Artigo publicado no Jornal O Legionário de 12 de novembro de 1933, edição 132 – título: Como sempre. Merece ser destacado que faltando três dias para o início da reunião de abertura da Assembléia Constituinte (12-11-33), Plínio Corrêa de Oliveira era homenageado pelos membros do Jornal O Legionário. Tal homenagem e os votos de sucesso em sua atuação na Constituinte podem ser vistas no ANEXO 5 desta dissertação.

54 Constituinte. Destacava a relevância da Liga Eleitoral Católica do Rio de Janeiro na coordenação dos esforços dos elementos católicos na Constituinte. O destaque era dado a figura central de Tristão de Athayde (Alceu Amoroso Lima). De acordo com Plínio, o prestígio de Tristão de Athayde era conquistado junto a todos os representantes católicos do povo brasileiro.

Plínio recorre a uma reflexão de São Francisco de Sales, que se referia a ‗certo lago italiano, que jamais transbordava a despeito das mais violentas tempestades, porque os rochedos que o marginavam cresciam com as ondas levantadas pelo vento‘; e concluía:

―É assim também Tristão de Athayde, que cresce em atividade à medida que as dificuldades se avolumam, conseguindo, hoje em dia, acumular as múltiplas funções de diretor de uma importante sociedade de fiação, do homem de estudos constantemente a par das últimas novidades bibliográficas, de crítico e jornalista, de diretor da ―Ordem‖, de Presidente do Centro Dom Vital e, atualmente, de líder católico da Constituinte‖ 60.

A partir da análise da intelectualidade da década de 1930, o sociólogo Guerreiro Ramos destacava que a mesma, por sua determinação social, como em todos os períodos de nossa história, seria constituída por indivíduos incluídos na estrutura social estabelecida, seja por identificação, seja por acomodação. Em outras palavras, na década de 1930, significante parcela da inteligência brasileira se colocava como excluída da estrutura social estabelecida, ou em frontal antagonismo com ela.

Em sua abordagem sobre a análise da intelectualidade da década de 1930, Guerreiro Ramos cria um espectro das posições destes grupos entre dois pólos: o da ―hipercorreção‖61 e o do ―pragmatismo crítico‖62. Nem sempre é possível identificar os

integrantes da inteligência nacional claramente como representativos de um ou outro pólo do espectro.

Guerreiro Ramos constata que:

60 Artigo de Plínio Corrêa de Oliveira, publicado em 24 de dezembro de 1933. Título: As Emendas Católicas - Jornal O Legionário, edição nº135.

61 Hipercorreção é a característica do posicionamento de intelectuais que, por força de sua identificação ambivalente com o elemento nacional, tendem a atribuir a ideais e teorias importadas eficácia direta na configuração de comportamentos sociais, assim negligenciando os seus condicionamentos contextuais (Ramos, 1982, p. 533).

62 O pragmatismo crítico caracteriza o posicionamento de intelectuais que, por força de sua identificação positiva com o elemento nacional e de sua sensibilidade às condições contextuais típicas do meio em que vivem, tendem mais a se servir das idéias e teorias importadas do que a admitir a sua exemplaridade abstrata (Ramos, 1982, p.533). Alguns exemplos de pragmáticos críticos poderiam ser indivíduos como: Paulino José Soares de Souza (visconde do Uruguai), Irineu Evangelista de Souza (visconde de Mauá), Sílvio Romero, Euclides da Cunha, Alberto Torres, e Oliveira Vianna.

55 ―Tanto hipercorretos como pragmáticos críticos são largamente consumidores de cultura importada. O que os distingue é o seu posicionamento em face da cultura produzida nos centros da história cosmopolita. Os hipercorretos tendem a aceitá-la como súmula de paradigmas de ação. Os pragmáticos utilizam-na como elemento subsidiário para qualificar o empreendimento formativo da sociedade brasileira, do qual se vêem como mandatários‖ (RAMOS, 1982, p.533)

Dentro deste espectro construído por Guerreiro Ramos, existiria uma particular modalidade de hipercorretos, que seriam os intelectuais católicos. Estes intelectuais estariam alinhados com o pensamento de Jackson de Figueiredo e Hamilton Nogueira, que ganha espaço e força durante a década de 1920.

Boa parte destes intelectuais católicos são bonaldianos63, apresentando uma interpretação conservadora da doutrina cristã. Doutrinários por excelência, em suas obras existem escassas contribuições ao entendimento concreto dos problemas das décadas de 1920 e 1930. Assim, apresentar-se-iam como defensores da legalidade a todo preço, de mal definida ―ordem‖, bem como da imprecisa tradição brasileira. Suas propostas reformistas da época referem-se a medidas sobre a família, o ensino, os costumes, o corporativismo, o combate ao comunismo, a recristianização do país. Considerando as revoluções políticas como fatores de desagregação social, tiveram nula participação nos movimentos insurrecionais dos anos 20 e 30, que por princípio, tenderam a condenar (RAMOS, 1982).

Podem ser destacados como membros desta corrente: D. Sebastião Leme, Alceu Amoroso Lima, padre Hélder Câmara, Plínio Corrêa de Oliveira, Sobral Pinto, Jonathas Serrano, Alcebíades Delamare, Sebastião Pagano, Perilo Gomes, Tenente Severino Sombra, Oscar Mendes, Luís Delegado, dentre outros neste período.

Se recorrermos à análise de Sérgio Buarque de Holanda, no Brasil será precisamente o rigorismo do rito que se afrouxa e se humaniza no campo da religião católica. Isso fazia com que o nosso culto fosse sem obrigação e sem rigor, intimista e familiar, a que se poderia chamar, com alguma impropriedade, ―democrático‖, um culto que dispensava no fiel todo esforço, toda tirania sobre si mesmo, o que corromperia,

63 Visconde Luís de Bonald (1754-1840), autor da Teoria do poder político e religioso na sociedade demonstrada pelo raciocínio e pela história (1796), se inscreve na linhagem anti-revolucionária e anti- individualista. O visconde não apenas considera evidente a fundação religiosa das sociedades humanas, mas pensa, sobretudo que ao procurar libertar-se de toda coerção para construir uma nova sociedade, os revolucionários esquecem que a sociedade tem a primazia sobre o indivíduo. O indivíduo só existe por estar firmemente inserido em uma rede complexa (grupos profissionais, família, nação) que lhe dá o existir como ser social (Lallement, 2008, p.65).

56 pela base, a construção de nosso sentimento religioso. Também merece ser ressaltado fatos significativos que, ao tempo da questão eclesiástica, no Império, levou a uma luta furiosa, que durante largo tempo abalou o país, tendo se iniciado principalmente porque Dom Vital de Oliveira se obstinava em não abandonar seu ―excesso de zelo‖ (praticar a fé católica de fato) (HOLANDA, 1995).

Conforme define Holanda:

―A uma religiosidade de superfície, menos atenta ao sentido íntimo das cerimônias do que ao colorido e à pompa exterior, quase carnal em seu apego ao concreto e em sua rancorosa incompreensão de toda verdadeira espiritualidade; transigente, por isso mesmo que pronta a acordos, ninguém pediria, certamente, que se elevasse a produzir qualquer moral social poderosa. Religiosidade que se perdia e se confundia num mundo sem forma e que, por isso mesmo, não tinha forças para lhe impor sua ordem. Assim, nenhuma elaboração política seria possível senão fora dela, fora de um culto que só apelava para os sentimentos e os sentidos e quase nunca para a razão e a vontade‖. (HOLANDA, 1995, p.150)

Portanto, não nos causaria surpresa e espanto que a república brasileira tenha sido feita ora pelos positivistas, ou agnósticos, e nossa Independência fosse obra de maçons, assim como períodos de nossa monarquia fossem marcadamente influenciada pelos maçons. O catolicismo viveu em meio ao ―regalismo‖ do segundo reinado.

O ano de 1934 se iniciaria com a Assembléia Constituinte em atividade e Plínio Corrêa de Oliveira fazendo críticas severas ao sistema político/partidário brasileiro. Plínio recorria às reflexões de Oliveira Vianna64 pra dizer que desde a monarquia, a competição entre liberais e conservadores não passaria de uma grande farsa. Os liberais demagogicamente combateriam as reformas dos conservadores e, na

64 Francisco José de Oliveira Vianna (1883-1951) nasce em Saquarema - RJ, filho do fazendeiro e coronel da Guarda Nacional Francisco José de Castro Vianna e de Balbina de Oliveira Vianna. Forma-se em direito em 1905 na Faculdade Nacional de Direito. Nos anos 1920 foi diretor da Carteira Comercial e Financeira do Instituto de Fomento e Economia Agrícola do Estado do Rio. Ainda nessa década, em 1924, tornou-se membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Em 1932, durante o Governo Provisório de Getúlio Vargas, passou a integrar as comissões técnicas do Ministério do Trabalho, criado no ano anterior sob a chefia de Lindolfo Collor, com a função de elaborar e sistematizar a legislação social e trabalhista brasileira, da qual foi o principal mentor. Permaneceu como consultor jurídico e ―assessor técnico em economia social‖ do Ministério do Trabalho até 1940. Nesse período, em 1937, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras. Nomeado ministro do Tribunal de Contas da União em 1940, exerceria esse cargo até sua morte em 1951. Residiu por toda a vida na cidade de Niterói (RJ) e não se casou. Preservou a fazenda herdada de seu pai, orgulhando-se de sua condição de fazendeiro. Era católico praticante e legionário do Sagrado Coração de Jesus. Para Vianna, o intervencionismo estatal seria uma imposição da era contemporânea. (trechos da trajetória de vida de Oliveira Vianna, DHBB - CPDOC- FGV)

57 essência, quando subiam ao poder, eram os seus grandes defensores, pelas indiscutíveis vantagens que lhes proporcionavam e vice-versa. Enfim, entre ambos os partidos, só o personalismo dos chefes servia de limite, porque um e outro participavam da ―mesmíssima mentalidade parlamentarista e democrática do tempo‖. Após esta reflexão, Plínio fazia sua análise sobre o momento presente pelo qual passava o país, dizendo:

―De fato, qual tem sido, até hoje, a característica principal dos métodos políticos de nossa terra senão o personalismo mais primitivo e feroz, e uma ausência completa de idéias e programas? Tudo quanto, durante o Império ou a República, tem aparecido por aí, com os rótulos de federalismo, civilismo, voto secreto, (...) são aspirações vagas, imprecisas, mal coordenadas, que os políticos exploram a seu favor, sem um corpo de doutrina, um programa dentro do qual se encaixem e se justifiquem. Em última análise, todas as lutas políticas, em nosso País, se resumem na conquista do Poder pelo Poder, ou melhor, pelas vantagens do Poder... Faz-se uma propaganda eleitoral, faz-se uma revolução, e ao cabo de uma ou de outra, vença ou não vença, a situação é a mesma... [...] Durante muito tempo, em São Paulo, não foi outra a razão da dissidência entre o PRP [Partido Republicano Paulista] e o Partido Democrático. Procurar programas diversos que justificassem a dualidade de partidos era inútil, pois não os havia. E a própria Revolução de 1930, embora tivesse provocado o surto de muitas ideologias políticas na nossa terra, foi, contudo uma revolução sem programa, e que até aos próprios propósitos de regenerar os costumes políticos desvirtuados pelos ―carcomidos‖ chegou a trair...‖ 65

Após estas críticas ao sistema político/partidário do período, Plínio concluía que a Liga Eleitoral Católica “dentre as grandes forças políticas do momento, agiria no campo restrito das reivindicações sociais da Igreja, e apresentaria uma notável exceção aos hábitos reiterados da nossa política indigna”; e em nova

referência a Oliveira Vianna, dizia:

―O mesmo Oliveira Vianna, a quem já nos referimos, conta que um biógrafo de Hamilton observa que os verdadeiros estadistas praticam a política de colméia, procurando tudo subordinar ao interesse coletivo, enquanto os falsos ―políticos‖ praticam a política da abelha, na qual tudo se subordina ao interesse individual. [...] Destes ―políticos‖ temos tido; mas estadistas realmente não‖.

Oliveira Vianna, segundo a análise de Guerreiro Ramos, se enquadraria no pólo dos ‗pragmáticos críticos‘ deste contexto da década de 1920/30. Segundo esta análise de Ramos, Vianna buscaria seu posicionamento por força de sua identificação positiva com o elemento nacional e de sua sensibilidade às condições contextuais típicas

65 Artigo de Plínio Corrêa de Oliveira – Política de Abelha – Jornal O Legionário, de 4 de fevereiro de 1934, edição nº138.

58 do meio em que vivia, tendendo mais a se servir das idéias e teorias importadas do que a admitir a sua exemplaridade abstrata. Para José Murilo de Carvalho, Em O Ocaso do

Império (obra de Oliveira Vianna mencionada na reflexão de Plínio Corrêa de Oliveira anteriormente), Vianna não mencionaria à Questão Religiosa e a sua contribuição para o desgaste do regime. Aliás, segundo Carvalho, o papel da Igreja é também praticamente ignorado em Populações Meridionais do Brasil. As formas de solidariedade aí discutidas se limitariam às que foram criadas pelo latifúndio. Nada é dito sobre a solidariedade religiosa, como a que se dava nas irmandades, muito mais igualitárias do que a dos clãs familiares. Carvalho diz não encontrar explicação para tal atitude de Oliveira Vianna, que se tornaria ainda mais estranha se levássemos em conta que ele seguia os métodos de Le Play, autor envolvido em movimento católico66.

Voltando a Plínio Corrêa de Oliveira - na arena de atuação da Assembléia Constituinte - sua nova crítica era voltada para a tentativa de aprovação de uma constituição sintética, levada a cabo pela ―comissão dos 26‖ 67. Esta ―comissão dos

26‖ ficaria incumbida de aprovar uma constituição sintética, que viria a ser súmula dos princípios essenciais da organização do Estado. Aprovada essa súmula pelo plenário da Constituinte, esta procederia à eleição do Presidente da República. Só depois de concluídas essas tarefas é que passaria à elaboração de chamadas ―leis orgânicas‖, que completariam a Constituição, sem dela fazer parte, no entanto. A LEC entendeu este mecanismo levado adiante pela ―comissão dos 26‖ como uma manobra com o intuito de excluir por meio da constituição sintética as teses católicas, que poderiam passar a ser reputadas como matéria inconstitucional. A decisão da LEC foi não votar por esta possível constituição sintética, pois ela não apresentaria todos os itens católicos fundamentais68.

66 Introdução da obra de Oliveira Vianna - O ocaso do Império - feita por José Murilo de Carvalho, publicada em 2006 pela ABL (Academia Brasileira de Letras), como parte da Coleção Afrânio Peixoto. Página XIX.

67 Em 16 de novembro de 1933, após a instalação da Constituinte, esta recebeu oficialmente o anteprojeto constitucional (do Itamarati) e foi formada a Comissão Constitucional, composta de 26 membros, conhecida como Comissão dos 26: um de cada estado da Federação (num total de 20), um do Distrito Federal, um do então Território do Acre e quatro representantes das categorias profissionais. Assumiu a presidência desta Comissão Carlos Maximiliano (do PRL Gaúcho e ex-membro da Subcomissão do Itamarati), a vice-presidência Levy Fernandes Carneiro (jurista e deputado classista dos profissionais liberais) e como Relator-geral Raul Fernandes (do PPR – Partido Popular Radical) (Torrezan, 2009, p.133)

68 Seriam os itens católicos fundamentais: ensino religioso nas escolas; indissolubilidade do vínculo conjugal; atribuição de efeitos civis ao casamento religioso; assistência religiosa às classes armadas, hospitais, prisões etc. A crítica de Plínio Corrêa de Oliveira a ―comissão dos 26‖ foi escrita em artigo chamado ‗on ne passe pas...‘ no Jornal O Legionário de 4 de fevereiro de 1934, edição nº138/2.

59 Plínio destacava que tal comissão estava centralizando muito poder a partir do processo de construção do substitutivo ao anteprojeto do Governo Provisório. Ele destacava que a comissão buscou suprimir o capítulo Da Religião, que o anteprojeto do Governo Provisório trazia. A matéria do capítulo foi distribuída por diversos outros capítulos, e nesta distribuição dar-se-ia a ―escamoteação das teses católicas‖. O divórcio seria proibido por um ―dispositivo ambíguo‖. O ensino religioso só seria ministrado por pessoas estranhas ao magistério oficial e ―sem prejuízo do horário escolar‖. A assistência religiosa aos quartéis ficaria proibida, sendo apenas tolerada nas expedições militares, ―quando se fizesse sentir sua necessidade‖. Para Plínio, esta seria uma ‗fórmula mal intencionada do anteprojeto‘, cuja dubiedade o substitutivo conservaria ‗carinhosamente‘, em lugar de corrigir. Plínio fazia questão de frisar que o papel de Levy Carneiro como vice-presidente da Comissão era importante – devido à ―impecável correção com que ele procedia para com os católicos‖ - diferentemente da postura de Carlos Maximiliano, presidente da Comissão, que apresentaria ―espírito ferrenhamente anti-católico‖ 69.

A perspectiva que Plínio sempre defendeu era enraizada em um catolicismo tradicional e antiliberal, entretanto, em via de assistir uma ascensão das teses marxistas na estrutura social do país, ele passa a fazer um discurso que busca se enquadrar em novas linhas de ação no plano ideológico/econômico. Segundo ele, ―preceituavam os marxistas que todos os fatos sociais, todo progresso e toda decadência, tudo que girava em torno da religião, da moral, da filosofia, do direito, da ciência e da arte, tudo, enfim, seria conseqüência exclusiva dos fatores econômicos‖. Na sua visão, o homem em sua integridade teria que viver tanto com o ―espírito‖ como com a ―matéria‖. Deste modo, seria uma utopia querer o homem ser tão somente espírito, e um aviltamento viver o mesmo apenas da matéria. Para Plínio, a economia:

―Portanto, a economia, que se relaciona com o lado material da vida, é uma grande parcela. Mas... PARCELA. Na complexidade da vida humana, outras parcelas há que, reunidas à economia, vão formar a grande soma de valores. Na harmonia e fusão desses elementos está o VALOR de um povo‖.

Plínio constataria que o triunfo da matéria sobre o espírito levaria a subtração dos valores humanos: ―da religião, da família e da propriedade‖. O marxismo

69 Artigo de Plínio Corrêa de Oliveira: Na ―hora H‖ – publicado no Jornal O Legionário de 4 de março de 1934 – edição nº140.

60 ‗calcaria aos pés toda dignidade humana‘ – ―pregaria a luta das classes‖; ―o ódio ao superior‖; ―a revolta‖; ―e a felicidade efêmera no gozo da matéria‖. A base para combater o marxismo estaria no cristianismo. Nas palavras de Plínio:

―(...) o Cristianismo, que é o amor organizado, ensina aos poderosos a justiça para com os direitos dos humildes; a caridade para socorrê-los nas suas horas difíceis; (...) ensina aos inferiores o respeito aos superiores; a alegria dentro de sua própria condição; a aspiração de elevar-se por merecimento real; (...) o Cristianismo semeia a paz na harmonia das classes e no concerto admirável resultante do domínio das paixões egoísticas e vis; (...) o Cristianismo acena para o Alto e promete uma felicidade eterna depois da prova desta vida...‖ 70

Podemos encontrar no discurso de Plínio Corrêa de Oliveira a defesa do caráter divino da propriedade (considerado um valor humano), e a defesa do

Benzer Belgeler