1 ( ss[ssssssssssssssssssssssssssss[sssssssssssssssssssssssss) 2 Clara [ei gente\ (psssiu) (.) ei\ peraí\
3 LA [ei [gente dê licença aí\
4 ? [(pa pa pa) ((palmas))
5 ? [(pssssssssiu)
6 ?LC [quem enricou foi você\ que nem- que pode ser (?eu)] 7 H1 (x[x)
8 H2 [foi- er^issâí 9 ?LA [faz ele (xx)\
10 H3 [muda isso\ Lucas\ 11 H4 quem é que vai se 12 (x[x)/
13 Clara [<porque é que você- (.) (psiu) pra que é que faz igual na Unidade/& 14 <((olhando para LA))
15 Clara &lá paga três reais\ a Associação\ (x[xxxx) pronto\>
16 H5 [três reais [é muito caro
17 LA [ago::ra < ago::ra>
18 <((baixo))>
19 ((H conversa com Clara. Ela fala algo não captado pelo registro 20 e repete o gesto que fez quando disse: pronto\))
21 ZL cê mandou risCAR seu nome na caderneta\
Desde alguns momentos anteriores ao trecho transcrito no Extrato 31, os participantes da reunião estão discutindo diretrizes para a organização da Associação, na gestão que está iniciando. Um dos aspectos discutidos diz respeito a taxas a serem pagas pelos associados, conforme já tratamos nas análises dos Extratos 25 e 27.
Já era praxe os sócios da Associação pagarem uma taxa mensal. A proposta de uma taxa extra, para cada uso específico de algum equipamento agrícola da Associação, provocou questionamentos quanto à necessidade ou legitimidade ou conveniência dessa taxa extra. Os ânimos estão tensos. Explicações sobre as finalidades de cada uma das taxas são fornecidas. Alegando direitos, um participante retoma o questionamento das taxas. Os direitos desse participante são, por sua vez, questionados. A finalidade da taxa mensal é novamente explicada.
Em um contexto, portanto, de muita tensão, Clara está posicionada de pé, no exterior da sala. Ela tem acesso aos procedimentos dos participantes através de uma das janelas do recinto. Alguns estão fora do seu campo de visão. Ela própria está fora da visão de muitos membros. Em um momento em que muitas falas são produzidas simultaneamente, Clara auto-seleciona-se e toma o turno. Ela realiza 4 tentativas para manter consigo o turno tomado, intercaladas por uma pausa curta (Linha 2, (1ª tentativa) ei gente\ (2ª) (psssiu) (.) (3ª) ei\ (4ª) peraí\). Ela exibe a sua auto-categorização como participante legítima quando exerce o direito de tomar o turno. Assim auto-categorizada, ela olha para Laura (Linha 14), selecionando-a como sua interlocutora. Diante do problema das taxas, ela propõe, então, uma taxa única com um valor que excede os valores somados da taxa fixa e da taxa eventual (Linhas 13 e 15, porque é que você- (.) (psiu) pra que é que faz igual na Unidade/ lá paga três reais\ a Associação\ (xxxxx) pronto\). Clara avalia a solução por ela proposta como algo relativamente simples (pronto\). O fato de estar fora da sala não foi tratado por ela como um critério de auto- exclusão do direito de participar ativamente do evento, de propor soluções para os problemas tematizados.
O participante H5 sobrepõe seu turno nos instantes finais do turno de Clara. Ele retoma o valor sugerido e o qualifica (Linha 16, três reais é muito caro). Com o seu turno, H5, simultaneamente, aceitou a auto-categorização de Clara como participante legítima da interação, categorizou-a como participante legítima e rejeitou sua proposta. O fato de estar fora da sala, portanto, também não foi tratado por H5 como um critério de exclusão do direito de Clara de participar ativamente do evento.
A proposta de uma taxa única, feita por Clara, além de situar-se acima do poder de pagamento dos participantes, possivelmente implicaria desvantagens para sócios que demandam pouco uso dos equipamentos da Associação. Apesar disso, o fato de situar-se fora da sala também não foi invocado pelos demais participantes para construir uma ilegitimidade dela, mesmo considerando que sua proposta poderia suscitar um acionamento ad hoc desse critério.
O procedimento dos demais participantes de não retomar a proposta de Clara nem invocar a sua ilegitimidade implica que eles aceitaram a auto-categorização dela, aceitaram a categorização a ela atribuída por H5, compreenderam a qualificação de H5 (Linha 16, três reais é muito caro) como uma rejeição da proposta e aceitaram e/ ou endossaram essa rejeição projetada por H5.
Clara seleciona Laura para o próximo turno, através do olhar (Linhas 14). Contudo, o turno realizado por Laura não estabelece um par adjacente com o turno de Clara. Ao invés disso, Laura tenta introduzir um novo tópico (Linha 17, ago::raago::ra). Essa tentativa, por sua vez, é frustrada por Zé Luís, que se auto-seleciona, toma o turno e reafirma o questionamento dos direitos do participante que criticara as taxas (Linha 21, cê mandou risCAR seu nome na caderneta\).
Nos turnos que se seguem e ao longo da reunião, outros participantes não retomam ou reformulam o turno de Clara. A proposta foi, portanto, abandonada. Mas a legitimidade da participante localizada no exterior da sala não foi questionada, o critério interior da sala vs exterior da sala não foi acionado.
Os participantes da reunião da Associação dos Moradores dos Tipis parecem agir a partir de uma inteligibilidade de critérios que co-constroem e aplicam às circunstâncias do fluxo interativo. Eles não parecem atuar em termos de um consenso normativo superestimado. Os critérios pelos quais se orientam não são previamente definidos nem se mantêm uniformes ao longo da interação. Os participantes configuram esses critérios quando vários fatores se conjugam. De ordens diversas, esses fatores podem dizer respeito, por exemplo, tanto ao espaço físico das interações quanto a algum interesse relativo à política local do evento. Critérios desse tipo são formulados em um momento oportuno para a sua aplicação. Como uma incorporação comportamental, eles são mantidos somente enquanto continuam favoráveis à interação em co-construção ou continuam compatíveis com ela. A formulação e a implementação desses critérios alteram-se quando se alteram os fatores diversos que estão no jogo interacional. Eles são propostos para todos os fins práticos da interação. São critérios ad hoc.
6.5 Instaurando a Reunião da Associação dos Moradores dos Tipis: a Emergên- cia do Evento, na Ação
A recursividade das ações sociais favorece que circulemos no meio social com impressões de estabilidade. Essas impressões, por sua vez, podem propiciar uma interpretação de que os objetos construídos nas redes de conversações das quais participamos são objetos pré-dados e independentes de sua distinção por nossos processos cognitivos. No entanto, consoante a perspectiva teórico-analítica que aqui adotamos, esses objetos são instaurados interacionalmente, pelos particiantes das ações efetivas, conforme sugerem as análises das Seções anteriores. O próprio objeto específico reunião da Associação de Moradores dos Tipis aqui analisado é um exemplo marcante desse processo, como veremos a seguir.
A análise de interações ocorridas no início do registro permitiu observarmos que a atenção dos participantes orientou-se inicialmente para atividades divergentes. Vimos também que a situação social da reunião vinha sendo tecida pelo coletivo de habitantes dos Tipis. Assim, em um dado momento do evento registrado, através de procedimentos locais, os participantes passam a se engajar em atividades interacionais que se caracterizam como tentativas de fazer convergir a orientação dos indivíduos
para uma atividade coletivamente comum. Desse modo, ao longo dessas atividades, emergem aspectos estruturantes do objeto específico reunião, de modo a distingui-lo de outros eventos de comunicação realizados por alguns habitantes dos Tipis, nesse mesmo encontro social. Tal emergência pode ser observada nos Extratos 22, 32 e 33, 13 e 34, a seguir.
Extrato 22 (266-300 Seg.) (4’26’’-5’00’’) (34 seg.)
1 (ss[sssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss) 2 [HÁ[HÁ HÁ há há há ((riso; 3 seg. de duração))
3 [(ssssssssssssssssssssssssssss[ss) ((17 seg. de duração))
4 LA [vamo/ Lu\
5 (ss[ssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss) 6 LA [bom gente vamo::s [<né:: rezar um pouquin:: (0.4)&
7 <((participantes começam a ficar de pé))
8 H [e::i Jasão\
9 LA &[<que o e- Divino Espírito San:to (0.2) & 10 [(in an) ((arrastado de móvel))
11 <((movimento da câmera para fora da sala, para a janela)) 12 LA & nos ilumi:ne\ nessa nossa nova caminha:da\
13 ? (xx)= 14 H =Dedé/
15 LA quem é que comanda/
16 (ssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss) No Extrato 22, os participantes estão atuando como conversadores e confirmando suas relações sociais, o que pode ser observado em procedimentos como a sobreposição de falas (Linhas 1 e 3) e o riso (Linha 2). Esses afazeres são comuns em interações de caráter mais informal. Após 4 minutos e 45 segundos do início do registro (285 seg.), Laura, a nova Presidente da Associação, toma o turno e o produz com uma forma verbal no plural e um vocativo, convocando a colega para uma atividade conjunta convergente (Linha 4, vamo/ Lu\). A articulação de aspectos contextuais diversos – a situação social historicamente definida daquele encontro, a presença, no recinto, de diversos membros da comunidade dos Tipis, o trabalho por eles efetuado para criar condições para um tipo particular de interação e, simultaneamente, a atuação polifônica, divergente, dos participantes, conforme pudemos ver anteriormente – sugerem que a ação de Laura articula-se com os afazeres dos outros participantes na perspectiva de provocar um engajamento de todos em uma orientação coletiva. Trata- se da primeira tentativa de iniciar a reunião.
De acordo com as ações que os demais participantes desencadeiam imediatamente após a fala de Laura, eles não se orientam através da indicação de instaurar, naquele momento, o objeto reunião. Por mais alguns segundos, os participantes continuam a produzir falas simultâneas (Linha 5). Podemos dizer, então, pelas atividades exibidas, que o convite de Laura para uma atividade coletiva específica não foi aceito automática e imediatamente. A primeira tentativa de iniciar a reunião não foi bem sucedida
A atividade subseqüente de Laura, com a fala das Linhas 6, 9 e 12 (bom gente\ vamo::s né:: rezar um pouquin::\ (0.4)) que o e- Divino Espírito San:to (0.2) nos ilumi:ne\ nessa nossa nova caminha:da\) configura o seu segundo procedimento com vistas à constituição do objeto reunião. Com o marcador bom gente, Laura atua sua compreensão de que os demais participantes não aderiram ao convite formulado na Linha 4 (vamo/ Lu\). Então, ela retoma a forma verbal empregada na primeira tentativa (vamo::s) e formula a sua segunda tentativa de iniciar a reunião. Ela o faz tentando levar os participantes a realizarem um procedimento ritualizado e coletivo (vamos rezar), para marcar o início da nova administração, explicitado lexicalmente como uma nova caminhada. Nessa tentativa, os alongamentos vocálicos (vamo::s; né:: e pouquin::) e as pausas (0.4 e 0.2) são parte da compreensão de Laura daquilo que ela própria e os demais participantes estão fazendo. Esses afazeres projetam justamente a possibilidade de os participantes não se engajarem, naquele momento, na atividade coletiva em construção.
Embora se tenham colocado de pé, os participantes não suspendem efetiva e imediatamente as atividades em que estão momentaneamente envolvidos, como a acomodação no espaço físico (Linha 10) e as conversas divergentes (Linha 13, ((xx)); Linha 14, Dedé/) e simultâneas (Linha 16). Com efeito, enquanto operador da câmera, ainda não estou adequadamente localizado, como sugere o movimento no foco da filmagem (Linha 11). Por sua vez, na Linha 15 (quem é que comanda/), Laura projeta a primeira parte de um par adjacente do tipo questão-resposta, voltada para uma definição do participante que irá dirigir a reunião. A sobreposição de falas (Linha 16) não permite analisar se um outro participante complementou, com uma segunda parte do par adjacente, a projeção iniciada por Laura. No entanto, esse seu turno (Linha 15) sinaliza que ela própria parece não estar pronta para iniciar a atividade reunião, assim como também não estão os demais participantes.
Como conseqüência desses comportamentos, a atividade formulada no convite de Laura (Linhas 6,9 e 12) não foi entabulada e o objeto reunião não foi instaurado. A segunda tentativa de iniciar a reunião não obteve sucesso.
Extrato 32 (300-341 Seg.) (5’00’’-5’41’’) (41 seg.)