4. ARAŞTIRMA BULGULARI
5.2. Puzolanik Katkı Kullanılarak Yapılan Çalışmalardan Elde Edilen Sonuçlar
Zaratustra chega à cidade mais próxima e na praça do mercado, onde se encontram muitas pessoas reunidas que aguardavam a apresentação de um equilibrista (Seiltänzer) que fora anunciada, profere suas primeiras palavras: “Eu vos ensino o Além do Homem. O homem é algo que deve ser superado. Que fizeste para superá-lo?”173 (Za/ZA “Prólogo”, 3). Zaratustra se
apresenta como aquele que ensina o Além do homem e imperativamente afirma que o homem deve ser superado, questionando seu auditório acerca do que fizeramem vista dessa superação. Dessa forma, o personagem demonstra que seu ensino possui um apelo à ação, entendendo ser necessário que cada homem com suas ações no presente prepare o futuro para o advento do Além do Homem, apresentado numa linha evolutiva: “Que é o macaco para o homem? Uma risada, ou dolorosa vergonha. Exatamente isso deve o homem ser para o Além do Homem: uma risada, ou dolorosa vergonha.” (idem). Essa primeira imagem do Além do Homem é construída a partir de uma compreensão linear e teleológica do tempo e parece estar atravessada por uma concepção histórica evolucionista, na qual cada espécie deve criar uma espécie que lhe é superior. A humanidade deve ser então alimentada por duas paixões, desprezo pelo que é passado e anseio pelo vir-a-ser futuro. Superar o homem no Além do Homem é entendido como um progresso que depende das atitudes humanas. Em seu ensino inicial, o personagem procura fomentar no seu auditório os sentimentos de vergonha e asco com relação ao homem, como forma de encorajamento. No entanto, é preciso não confundir esse repúdio com o ascetismo religioso, metafísico. Zaratustra afirma que o Além do Homem é “o sentido da terra” (der Sinn der Erde) e implora à multidão: “Eu vos imploro, irmãos, permaneceis fiéis à terra e não acrediteis nos que vos falam de esperanças supra-terrenas! São envenenadores, saibam eles ou não.” (idem). Segundo Lampert, a Terra para a qual Zaratustra pede lealdade é aquela que é considerada como “mundo aparente” por aqueles que acreditam no “mundo verdadeiro”, mas como o personagem nietzschiano aparece num momento onde a crença
173 “Ich lehre euch den Übermenschen. Der Mensch ist Etwas, das überwunden werden soll. Was habt ihr gethan, ihn zu
überwinden?”. Apesar de Paulo César de Souza, tradutor brasileiro de Assim Falou Zaratustra que tomamos como referência, traduzir o termo Übermensch por super-homem, mantemos a opção pelo termo em português Além-do-Homem, proposta por Rubens Rodrigues Torres. Segundo Paulo César, esse neologismo parece muito artificial para uma obra que é também literária, sendo que, além disso, perde-se com essa tradução a relação com o adjetivo ubermenschlich, resolvendo então empregar o termo super-homem mais comumente utilizado no Brasil para a tradução desse conceito nietzscheano sem, no entanto, desconsiderar suas deficiências. Na tradução de Mario Silva também é empregado o termo super-homem.
no mundo verdadeiro de Platão foi abolida, também a crença num mundo aparente deixa de fazer sentido174. Para criar o Além do Homem é necessário aprender a viver sem metafísica, sem acreditar no transcendente. O povo deve então se sacrificar para que a terra seja no futuro a morada do Além do Homem. É nesse contexto que o personagem se refere pela primeira vez em
seu discurso à morte de Deus, tratando-a a exemplodo insano como um evento consumado. Como
argumenta Zaratustra, se antes ofender a Deus era a pior das ofensas, agora que a divindade morreu ofender a terra passa a ser a pior das ofensas. Ofender a terra é como ofender o corpo, como a alma outrora fazia, tentando enfraquecê-lo e deteriorá-lo, pensando que com isso poderia livrar-se dele assim como da terra. Nem humanismo, nem ascetismo, a pedagogia de Zaratustra prega a superação do homem num plano imanente. O personagem qualifica o homem como um “rio imundo” (schmutziger Strom) que para acolhê-lo sem tornar-se impuro é necessário ser um
oceano, apresentando o Além do Homem como esse oceano. O mestre evoca a hora do “grande
desprezo” (grosse Verachtung), a hora em que aquilo que foi mais venerado pelos homens se converte em nojo, a hora em que os homens devem se perguntar: o que importa minha felicidade, compaixão, razão e virtude?
Depois que Zaratustra termina o seu discurso, nos deparamos com a sutileza do texto nietzschiano, quando nos revela que a multidão ouvia seu personagem não pela força de sua mensagem, mas porque acredita que com suas palavras estava apresentando o equilibrista,
entendendo ser o seu discurso um prelúdio para a exibição do funâmbulo: “Já ouvimos bastante
sobre o equilibrista; agora nos deixa vê-lo!” (Za/ZA “Prólogo”, 3). Em meio aos risos, o equilibrista se prepara para iniciar seu trabalho, acreditando também que as palavras de Zaratustra foram dirigidas a ele, o que obriga o mestre a mudar de estratégia. Tendo em vista que a multidão concentra sua atenção na apresentação do funâmbulo, Zaratustra aproveita essa cena para falar do Além do Homem. O personagem afirma que “o homem é uma corda, atada entre o animal e o além-do-homem – uma corda sobre um abismo” (idem). O homem é caracterizado como uma ponte (Brücke), uma travessia (Hinüber), uma passagem (Übergang) e um declínio (Untergang).
Zaratustra explora os elementos que fazem parte da cena para a qual a multidão volta sua atenção, a travessia do equilibrista de uma torre a outra numa corda, como metáfora para a mensagem que procura comunicar. Zaratustra encerra sua segunda tentativa de falar ao povo proclamando-se como “arauto” (Verkündiger) do Além do Homem, porém, o povo novamente reage com risos as suas palavras. Zaratustra fala pela segunda vez ao seu coração: “[...] não me compreendem, não sou a boca para esses ouvidos...” (Za/ZA “Prólogo”, 5). Zaratustra descobre que deve falar de uma
maneira diferente, pois acredita que a multidão reage dessa maneira ao seu discurso por ser demasiadamente orgulhosa de sua cultura (Bildung), por isso não gosta de ouvir a palavra “desprezo”, confidenciando que agora passará a falar a este orgulho. Pela terceira vez, então, Zaratustra modifica a forma de falar, agora não mais discorrendo sobre o Além do Homem, mas sobre o futuro da humanidade.
É tempo de o homem fixar sua meta. É o tempo de o homem plantar o germe de sua mais alta esperança.
Seu solo ainda é rico o bastante para isso. Mas um dia este solo será pobre e manso, e nenhuma árvore alta poderá nele crescer.
Ai de nós! Aproxima-se o tempo em que o homem já não lança a flecha de seu anseio por cima do homem, e em que a corda do seu arco desaprendeu de vibrar!
Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante. Eu vos digo: tendes ainda caos dentro de vós. (Za/ZA “Prólogo”, 5)
Ao invés de profeta do Além do Homem, Zaratustra se apresenta como um vidente do futuro que fala sobre o destino da humanidade, convocando-a a aproveitar o momento presente no qual ainda anseia por algo para além de si mesma, para fixar sua meta, pois deixará de ser um solo fértil e se tornará pobre. Em vez de incitar diretamente a multidão à criação do Além do Homem, Zaratustra muda de estratégia e procura amedrontá-la diante de um futuro tenebroso que aponta para o depauperamento do homem. O mestre começa então a falar sobre o “último homem” (letzten Menschen), aquele que “tudo apequena” (Alles klein macht), aquele que já não sabe desprezar nem a si mesmo, mas que, porém, é o “que tem a vida mais longa (längsten)”. Os últimos homens não sabem nem mandar nem obedecer, pois rejeitam as tarefas demasiadamente árduas, procuram pelo bem estar, pela segurança, representam o estágio mais agudo atingido pela vida gregária, onde não existem mais aqueles que se submetem ou dominam, pois todos sentem da mesma maneira; o último homem é produto da uniformização dos sentimentos. O último homem é a manifestação do grande cansaço, o homem para o qual a morte de Deus representa o fim de todas as esperanças, aquele que perdeu a capacidade de criar, o sintoma mais agudo do empobrecimento da vida e do esgotamento da própria cultura. Conforme as palavras de Zaratustra é esse o destino reservado ao homem se não aproveitar esse momento oportuno no qual ainda é possível “plantar o germe de sua mais alta esperança (höchsten Hoffnung)”, pois chegará o tempo
onde não mais se acreditará no futuro. Dessa forma, ao invés de fomentar o desprezo pelo homem, Zaratustra procura mexer com o orgulho do seu auditório, incitando-o agora a intervir nesse processo, a modificar o seu destino. O personagem, então, comunica-se com a multidão não somente como um profeta do Além do Homem, mas também como um vidente do futuro, aquele que mostra (zeige) o último homem. No entanto, ao fim de seu discurso, este vidente se depara
com mais um fracasso, pois aos gritos e júbilos a multidão lhe interrompe: ““Dá-nos esse último homem, ó Zaratustra” – clamavam as pessoas -, “torna-nos como esse último homem! E nós te presenteamos o Além do Homem!”” (Za/ZA “Prólogo”, 5)
Segundo Eugen Fink, conforme concebida por Nietzsche, a morte de Deus marca o fim de toda idealidade na forma de uma transcendência objetiva, o que traz consigo duas possibilidades distintas para a humanidade: 1) o atrofiamento da tendência idealista e, consequentemente, uma terrível banalização da vida e a emergência de um ateísmo vulgar; 2) a permanência da tendência idealista, sem se alienar naquilo que ela própria criou como se fosse uma coisa estranha, como um Deus transcendente175. Segundo o intérprete, o último homem representa esse atrofiamento da tendência idealista responsável por gerar um empobrecimento da humanidade, sendo que o Além do Homem representa o reconhecimento da natureza criadora presente em todo idealismo, como uma forma de romper a alienação do próprio homem nos ideais que ele mesmo criou. A morte de Deus representa o momento oportuno para o fim dessa alienação e, sendo assim, o que Zaratustra apresenta à multidão é um novo ideal, a criação do Além do Homem, um ideal que satisfaça o anseio humano de criar algo que o supere, que o projete para além de si mesmo, sem aliená-lo como o idealismo moral, religioso e metafísico. Zaratustra ensina que essa superação do homem no Além do Homem não aponta para uma dimensão transcendente, como Deus, pois é um ideal imanente que se realiza no tempo, é o sentido da terra. A dimensão temporal privilegiada pelo ideal do Além do Homem é o futuro, sendo a esperança a disposição requerida para que se crie esse novo ideal. Nesse sentido, se estabelece uma forma de vivência da temporalidade onde o presente possa encontrar sua justificação no futuro. Zaratustra é aquele que prega a substituição dos ideais metafísicos e religiosos por um ideal capaz de dar sentido à experiência temporal humana. Aquele que ensina esse novo ideal é um profeta que possui uma compreensão linear do tempo, onde o passado é irreversível e o presente se esvai. A pedagogia de Zaratustra na primeira parte se encontra articulada com sua visão profética do destino da humanidade, que aponta para o empobrecimento, para a deterioração da capacidade humana de criar novos ideais, incitando a uma intervenção sobre o presente como forma de preparar o futuro para o advento do Além do Homem, sendo esta preparação uma forma de obstruir os caminhos que conduzem ao último homem. O drama do profeta visionário se intensifica cada vez mais na medida em que se torna mais evidente a escolha dos homens atuais pelo último homem.
Pode-se observar que o Além do Homem é um conceito que aparece timidamente na obra publicada por Nietzsche, com exceção de Assim Falava Zaratustra, onde lhe é dada uma
importância que não se encontra em nenhum dos livros que o filósofo trouxe a público. Certamente podemos identificar no projeto de criação do Além do Homem, conforme apresentado pelo primeiro Zaratustra, o embate nietzschiano contra a metafísica. No entanto, o que nos chama atenção é o caráter teleológico e a compreensão linear do tempo que envolve esse projeto, num contexto onde na obra nietzschiana aflora o pensamento do eterno retorno no bojo de uma forte e radical crítica a todas as formas de teleologia, desconstruindo qualquer crença numa redenção futura da humanidade. Além de raros, os momentos nos quais o conceito de Além do Homem aparece nas obras posteriores a Zaratustra, apontam na direção de uma problematização de sua vinculação com as chamadas ideias modernas de evolução e progresso. Duas passagens são muito elucidativas a esse respeito. No Anticristo, Nietzsche argumenta que a humanidade “não representa um desenvolvimento para o melhor ou mais forte ou mais elevado, do modo como hoje se acredita”, afirmando que o progresso é “apenas uma ideia moderna, ou seja, uma ideia errada” (AC/AC§ 4). Um maior desenvolvimento, tal como conquistado pelo europeu atual, segundo o filósofo, não o coloca num patamar superior ao europeu da renascença, pois isso não significa elevação (Erhöhung), aumento (Steigerung,), fortalecimento (Verstärkung). Apesar de problematizar a crença no progresso da humanidade, Nietzsche não nega que nas diversas culturas existentes sobre a terra se assista à manifestação de um tipo mais elevado que “em relação à humanidade como um todo, é uma espécie de Além do Homem” (idem). A existência do Além do Homem então não é fruto da crença no progresso futuro, mas de “acasos felizes de grande êxito” (Glücksfälle des grossen Gelingens) (idem) que sempre foram possíveis e que, segundo o filósofo, talvez ainda continuem a ser. Em outra passagem, agora de sua autobiografia Ecce Homo, Nietzsche procura elucidar o uso do termo Além do Homem em Zaratustra, afirmando que esse termo na boca de seu personagem dá o que pensar, mas que, no entanto, foi entendido de maneira equivocada.
A palavra “além do homem”, para a designação de um tipo que vingou superiormente, em oposição a homens “modernos”, a homens “bons”, a cristãos e outros niilistas – palavra que na boca de um Zaratustra, o aniquilador da moral, dá o que pensar – foi entendida em quase toda parte, com total inocência, no sentido daqueles valores cuja antítese foi manifesta na figura de Zaratustra: quer dizer, como tipo “idealista” de uma mais alta espécie de homem, meio “santo”, meio “gênio”... Uma outra raça de gado erudito acusou-me por isso de darwinismo. Reconheceu-se nisso até mesmo o “culto do herói”, por mim tão desdenhosamente rejeitado, daquele grande falsário inconsciente e involuntário, Carlyle. (EH/EH “Porque escrevo tão bons livros”, 1)176
176 O conceito de Além do Homem aparece poucas vezes mencionado na obra publicada por Nietzsche. Além das passagens
mencionadas, aparece no aforismo 143 de Gaia Ciência caracterizado, ao lado de deuses, heróis, fadas, anões, sátiros, demônios e diabos, como uma das invenções do “inestimável exercício prévio para a justificação do amor-próprio e da soberania do indivíduo” (FW/GC 143). Na primeira dissertação da Genealogia da Moral, Napoleão é caracterizado como “síntese de inumano e Além-do- Homem” (GM/GM§16). No capítulo destinado à Assim Falava Zaratustra em Ecce Homo, fazendo referência à descida do personagem e o tratamento que dispensa aos homens, o filósofo diz: “Ali o homem é superado a cada momento, o conceito de “além-do-homem” fez se ali realidade suprema – tudo o que até aqui se chamou grande no homem situa-se a uma distância infinita,
Nietzsche argumenta que o Além do Homem foi compreendido de uma maneira antitética aos valores manifestados pela própria figura de Zaratustra, ou seja, como expressão “idealista” de uma espécie mais elevada de homem, como uma forma de darwinismo que o filósofo afirma ser fruto de interpretações equivocadas. No entanto, as palavras de Nietzsche tanto em O Anticristo, como
em Ecce Homo,nos levam a pensar acerca do sentido assumido pelo projeto de criação do Além
do Homem, conforme se configura no primeiro Zaratustra, pois nesse momento aparece como um novo ideal de progresso. Diante disso, somos levados a questionar novamente acerca do porque em pleno período em que o filósofo, com o auxílio do pensamento do eterno retorno, ataca amplamente as teorias finalistas, as ideias de progresso e evolução e a compreensão teleológica do tempo, apresenta seu personagem como um arauto do Além do Homem nesses termos. Se por um lado é necessário distanciar o filósofo de seu personagem, não o tratando simplesmente como seu porta-voz, como alerta Stegmaier177, por outro lado devemos questionar porque o filósofo colocaria na boca de seu ilustre Zaratustra uma doutrina que possui aspectos contrários ao seu próprio pensamento.
No tratamento dessa questão é fundamental observar a peculiaridade do estilo de escrita assumido por Nietzsche em Assim Falava Zaratustra, levando em consideração sua narrativa, o auditório para o qual seu principal personagem se volta e o contexto temporal no qual fala. Se inicialmente Nietzsche apresenta Zaratustra como um profeta do Além do Homem, como um arauto que manifesta sua crença no progresso junto à multidão a qual endereça seu discurso, posteriormente, abdicando de sua pretensão de falar a todos, narra como o próprio personagem se vê desafiado a abandonar essa crença diante da emergência do eterno retorno, pensamento do qual, por fim, se torna o mestre. Nesse percurso, Zaratustra experimenta dramaticamente a possibilidade de que, ao abandonar a crença no progresso, acabe por ser capturado pelo processo que conduz ao niilismo dos últimos homens. Podemos dizer então que, observada à luz do desenvolvimento narrativo, essa associação inicial entre o projeto de criação do Além do Homem e as ideias modernas de progresso e evolução encontraria seu sentido se compreendida como um recurso empregado na configuração desse cenário dramático no interior do qual se inscreve a comunicação do eterno retorno em Assim Falava Zaratustra? Uma fácil objeção a essa tese se encontra no fato de que pressupõe que o filósofo almejava comunicar esse pensamento na obra desde o início do seu processo de elaboração, o que é fortemente contestado pelo fato de que Nietzsche publica o
abaixodele.” (EH/EH “Assim Falava Zaratustra”, 6). Na seção 8 do mesmo capítulo, o termo aparece novamente numa citação literal de “De Velhas e Novas Tábuas”, discurso do terceiro livro de Zaratustra. Nietzsche faz também referência ao termo Além do Homem em sua autobiografia na quinta seção do ultimo capítulo da obra, “Por que sou um destino”. Como diz o filósofo, o que Zaratustra chama de Além do Homem seria denominado pelos bons e justos de demônio. O termo aparece ainda mencionado brevemente em Crepúsculo dos Ídolos (Cf.GD/CI “Incursões de um intempestivo”, 37).
primeiro Zaratustra como um livro independente e autônomo, sem fazer menção ao eterno retorno. Nesse primeiro livro, o personagem não vivencia essa experiência dramática, não é desafiado a abandonar a esperança no progresso futuro, somente muda de estratégia ao se deparar com o fracasso de sua tentativa de falar a todos. No entanto, cabe considerar que esse cenário dramático encontra seu sentido na medida em que é lido no interior de um diagnóstico da cultura moderna que ecoa já no primeiro Zaratustra e pode ser vislumbrado como um “pano de fundo” que se encontra presente na própria obra como um todo, permitindo assim que se analise este primeiro livro em sua conexão com os demais sem com isso desconsiderar a forma como Assim Falava Zaratustra foi composto. No primeiro Zaratustra, o Prólogo contém os elementos mais evidentes desse diagnóstico.
Além do projeto de criação do Além do Homem como resposta à morte de Deus, o Prólogo nos apresenta também a reação da multidão a esse projeto e seu anseio por aderir ao destino do último homem, contendo assim, em germe, na peculiaridade de seu enredo, o diagnóstico nietzschiano da cultura marcado pela caracterização do niilismo como um processo que preside a própria dinâmica da história humana, abordagem que marca o último período da produção do filósofo. Dessa forma, o Prólogo nos apresenta não somente o mestre do Além do Homem, mas também o ambiente no qual o personagem inicia sua jornada, sendo que Zaratustra é tanto aquele que ensina essa doutrina quanto um vidente do futuro que mostra à multidão o último homem. Se tomarmos como referência a abordagem deleuziana acerca das metamorfoses do niilismo na obra nietzschiana, o último homem se afigura como a culminância da perspectiva niilista que preside a história humana do início ao fim. Segundo Deleuze, o niilismo em Nietzsche assume três metamorfoses, caracterizando-se inicialmente como uma vontade de negar em nome de valores superiores (niilismo negativo), depois como uma vontade de negar a existência desses próprios