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O Espírito é força, vida, ar e anúncio. O Silêncio cria, a Palavra revela e o Espírito vivifica. Do Silêncio brota a Palavra, por sua vez o Espírito perpassa o Silêncio e a Palavra para torná-las presente no hoje. Sem o Espírito a Palavra seria morta, não seria possível o encontro entre o divino e humano. O Espírito é o responsável por trazer o mistério presente no coração humano. Ele tem a função de recordar. “Essas coisas vos disse estando entre vós. Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos disse” (Jo 14,25s)
O Espírito não é a Palavra; ele, porém, torna de fato possível o encontro vivificador com a Palavra. Tampouco ele é o Silêncio; anuncia, porém, o que, ouviu da Palavra nos silêncios eternos e se abre para o futuro, já que ele está totalmente relacionado com aquela plenitude da verdade que será o eloquente Silêncio do Deus tudo em todos.93
92 FORTE, Bruno. Nos caminhos do uno. Metafísica e Teologia. p. 262-263.
O Espírito é aquele que proporciona o encontro, que abre o divino e o torna solidário com a obra criada unificando o que estava dividido essa dupla função do Espírito unir e abrir coloca em evidência sua singularidade bem como sua participação na Trindade. Segundo Forte, foi a Teologia ocidental que percebeu no Espírito a função de unificar o Pai e o Filho e Corpo Místico da Igreja com seus diversos dons e carismas. O termo que o qualifica é o amor, pois é algo inerente a Deus, demonstra singularidade e totalidade, doação e comunhão. Ele se torna a personificação do amor. Diante daquele que sofre o Espírito recorda que Deus em seu Silêncio é presença e Companhia.
A relação Trinitária se dá no amor, por causa desse amor pode-se afirmar que o Espírito procede do Pai e do Filho. O concílio XI de Toledo define:
Nós cremos também que este Espírito Santo não é nem não –gerado nem gerado: para não afirmar dos pais, se o disséssemos não- gerado, ou para não aparentar que pregamos dos Filhos, se o disséssemos gerado, diz-se, entretanto, que ele não é o Espírito apenas do Pai e do Filho. De fato, ele não procede do Pai no Filho, nem procede do Filho para santificar a criatura, mas se demonstra que precede conjuntamente de ambos, porque se reconhece que a caridade e a santidade são de ambos.94
A pergunta que surge a partir dessa afirmação é: qual a consequência da insistente afirmação da função do Espírito de unir? A categoria que exprime essa união é o encontro que significa: aproximar e unir, mas também manter a distinção das Pessoas da Santíssima Trindade, na qual ele próprio é pessoa. Esse encontro se dá no Silêncio. A característica própria do Encontro é o dar-se divino que promove a união e a paz. O Espírito revela outro silêncio e outro pronunciar, proporcionado pelo encontro. Ele profere a Palavra e procede do Silêncio. O fator comum aos três é o amor. Por isso, é possível afirmar a distinção das três pessoas e a união das mesmas. Nela une-se a humanidade graças a humanidade do Filho que resgatou e redimiu a criação. Essa união do Criador com a criatura deve tornar-se a evidência da presença de Deus junto aos que sofrem.
A essência de Deus é o amor e ele cria pelo transbordamento desse amor. Bruno Forte intitula esse transbordamento do amor de Deus como êxtase característica própria do Espírito do abrir-se de Deus. de seu advento. Afirmar que o Espírito é o dom e o êxtase de Deus é afirmar sua ação em todos os momentos da História divina em relação a humanidade. Poderíamos ainda afirmar que Deus age o Espírito é essa ação e o Filho é a comunicação dessa ação.
O Espírito revela Deus e sua essência que é o amor. “Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único para que todo o que nele crer [...] tenha a vida eterna” (Jo 3,16)
O Encontro eterno nos revela, assim, a transcendência do amor eterno, seu livre e gratuito autodestinar-se ao outro, sua natureza difusa de si e, por isso, fonte de autocomunicação pessoal, no jogo das relações entre as chamadas por elas mesmas a existência. Enquanto transcendência de si em direção ao outro, o Encontro inclui a dimensão imprimível de separação, de Êxodo sem retorno, de morte a se mesmos para a vida do outro, da qual é rica imagem no tempo a entrega do espírito na hora da cruz.95
O Espírito ensina assim o verdadeiro significado da vivência do amor, como doação, morte de si em vista do outro. Amor que é a exemplo do amor divino esvaziar-se de si para preencher-se do outro como afirma o Papa Bento XVI na
Carta Encíclica Deus caritas est: “ o amor ao próximo é uma estrada para encontrar também a Deus, e que o fechar os olhos diante do próximo torna-os cegos também diante de Deus”.96 Reafirma-se o compromisso do ser humano de livremente viver o
amor e evitar a dor e o sofrimento alheio.
A partir do momento que entendemos o transbordamento do amor de Deus o traduzimos como prática da caridade, como doação e serviço. Ele abrange a morte e a vida, morte porque se esquece de si em vista do outro e vida enquanto abertura a comunhão e ao dom vivificador. Conseguimos compreender o porquê praticar do amor liberta. Descobrimos o compromisso que toda a humanidade deve assumir em
95 FORTE, Bruno. Teologia da História. Ensaios sobre a revelação, o inicio e a consumação. p. 166. 96 BENTO XVI, Papa. Carta Encíclica Deus Caritas est. p. 30.
viver esse amor. Entendemos também o hino de amor de São Paulo, onde ele lembra que se em nossas atitudes não existir o amor elas carecem de sentido.
Compreender o Espírito como encontro e como doação propicia ao ser humano fazer parte da Trindade e viver no amor. Quando existe uma doação, existe também complementariedade. O ser humano fazendo parte do Divino pelo amor carrega consigo a marca do eterno, da mesma forma o Divino unindo-se à humanidade pelo amor leva consigo esta humanidade. Compreende-se assim o êxodo e o advento no amor, que caminham unidos, mas não se anulam, mas se complementam. Abre-se assim uma nova perspectiva de perceber Deus em toda a humanidade, principalmente daqueles que estão à margem, por causa do amor de Deus.
3.2.2 O ENCONTRO NA HISTÓRIA: O OUVINTE DA PALAVRA E A FIGURA DO