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Figura 7

O título dessa postagem realizada no dia 15 de agosto de 2012, no blog Eu Sou Ryca, é: “Pai ganha bolo de aniversário com o rosto da filha”. Duas considerações iniciais ajudarão a nortear essa análise: 1º) Esse blog humorístico, não raro, usa como mote para fazer humor, a vida privada de celebridades e sub-celebridades, e menos frequentemente de pessoas desconhecidas; 2º) A cantora Cláudia Leitte tornou-se motivo frequente de postagens nesse blog, como alvo de piadas, em razão de uma declaração feita em 2008, numa entrevista ao programa Tv Fama da Rede Tv!. Nessa entrevista, o artista transgênero Léo Áquila questionou a cantora sobre a possibilidade de seu filho ser gay, ao que Claudia

Leitte respondeu: "Eu adoro os gays, mas prefiro que meu filho seja macho13”. O marido da cantora, para piorar a situação, completou: “Deus me livre! Ele será bem criado.” A polêmica declaração do casal tornou Cláudia Leitte14 alvo de uma moção de repúdio aprovada por 98% dos delegados na 2ª Conferência Nacional LGBT, em Brasília, no dia 19 de dezembro de 201115. Esse fato ajuda a entender o título da postagem num blog cujo público homossexual prestigia até hoje o trabalho como DJ do criador de Eu Sou Ryca, Phellipe Wanderley, o que se pode constatar no perfil homônimo16 no Facebook através dos convites virtuais às muitas festas eletrônicas a que ele é convidado para tocar por todo o Brasil, a maioria delas em lugares de grande afluência LGBT.

Essa análise incidirá sobre alguns elementos discursivos que caracterizam o grotesco nas postagens do blog Eu Sou Ryca. Aqui, nós encontramos um elemento bastante comum e mencionado por diversos autores que se debruçaram sobre o grotesco (BAKHTIN, 1999a; KAYSER, 2003; RUSSO, 2000; SODRÉ & PAIVA, 2002), que é a referência à função excretora humana e seus dejetos, nessa imagem transformados na torta de aniversário do pai da celebridade brasileira do axé baiano Cláudia Leitte.

Eis como Bakhtin percebe um dos aspectos mais visitados do grotesco no corpo:

Os principais acontecimentos que afetam o corpo grotesco, os atos do drama corporal __ o comer, o beber, as necessidades naturais (e outras excreções: transpiração, humor nasal, etc.) a cópula, a gravidez, o parto, o crescimento, a velhice, as doenças, a morte, a mutilação, o desmembramento, a absorção por um outro corpo __ efetuam-se nos limites do corpo e do mundo ou nas do corpo antigo e do novo; em todos esses acontecimentos do drama corporal, o começo e o fim da vida são indissoluvelmente imbricados (BAKHTIN, 1999a, p. 277).

Enquanto o grotesco, não raro, tem recorrido à visão desses elementos excretados pelo corpo, o uso deles, na construção do efeito humorístico, tem causado polêmicas e divergências entre os teóricos do riso. Propp (1992), refletindo sobre as ponderações quanto ao que muitas estéticas burguesas do século XIX chamaram de comicidade grosseira, discorda de Johannes Volkelt, um filósofo alemão nascido no século XIX, que quanto à problemática

13 Fonte: http://wp.clicrbs.com.br/napontadalingua/2011/12/23/claudia-leitte-recebe-mocao-de-repudio-da- comunidade-glbt/. Acessado em 21 de outubro de 2013.

14 Entrevista: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=LNfV8Hh7RrU. Acessado em 21 de outubro de 2013.

15 Fonte: http://wp.clicrbs.com.br/napontadalingua/2011/12/23/claudia-leitte-recebe-mocao-de-repudio-da- comunidade-glbt/. Acessado em 21 de outubro de 2013.

do cômico ligado a tudo que se relaciona com o corpo humano e às suas tendências naturais, descreve esses elementos do “cômico grosseiro” da seguinte forma: A gula, a bebedeira, o suor, a expectoração, a eructação [...] tudo aquilo que se refere à expulsão das urinas e das fezes17 (VOLKELT apud Propp, 1992, p. 21). Propp não concorda que baste apenas a visão grotesca daquilo que o corpo não precisa mais para gerar o cômico, logo ele não aceita uma divisão do cômico em superior e inferior, vulgar e elevado. Assim, ele conclui esse debate estabelecendo que: mal nos aprofundamos na análise do material, logo verificamos a absoluta impossibilidade de subdividir o cômico em vulgar e elevado (ibidem, p. 23). Mais adiante, ele apontará o exagero como um fator decisivo na construção desse humor atrelado a elementos grotescos.

É sob a designação de “exagero cômico” que encontramos em Propp uma abordagem que dialoga com essa postagem. Propp afirma que o grau mais elevado e extremo do exagero é o grotesco (ibidem, p. 91). Mais adiante, ele acrescenta: o grotesco nos faz sair dos limites de um mundo realmente possível (ibidem, p. 92).

O grotesco nessa postagem sugere uma inversão subversiva e chocante do processo natural da alimentação, que começa pela ingestão do alimento e é concluído pela eliminação daquilo que não serve ao corpo como nutriente – as fezes. E, naturalmente, essa inversão resulta num efeito de humor grotesco, por representar a eliminação das fezes (etapa última da digestão) substituindo a etapa da ingestão dos alimentos (primeira etapa da digestão) e ao mesmo tempo assumindo o seu lugar. Essa primeira etapa, quando se visualiza o alimento que se vai ingerir, pressupõe um apelo ao paladar, à visão e ao olfato, especialmente através da boa apresentação do alimento. Essa postagem articula o discurso do grotesco ao gerar repugnância por propor que o ato de comer comece pela contemplação do seu consequente último ato, transformado em comida, disso resultando a comicidade grotesca da cena.

Fazendo uma análise de doze situações do grotesco nas artes e na mídia contemporânea, Sodré & Paiva (2002) estabelecem que o comum naqueles casos (e que se aplicam a esse em análise) é:

[...] a figura do rebaixamento (chamada de bathos, na retórica clássica), operado por uma combinação insólita e exasperada de elementos heterogêneos, com referência frequente a deslocamentos escandalosos de sentido, situações absurdas, animalidade, partes baixas do corpo, fezes e dejetos – por isso, tida como fenômeno de desarmonia do gosto ou disgusto, como preferem estetas italianos – que atravessa as épocas e as diversas conformações culturais, suscitando um mesmo padrão de reações:

riso, horror, espanto, repulsa (SODRÉ & PAIVA, 2002, p. 17, grifos nossos).

O riso provocado nessa cena é também evocador, dada a circunstancia do aniversário que o enseja, de uma ideia de renovação, bastante discutida por Bakhtin na sua análise do grotesco:

A imagem grotesca caracteriza um fenômeno em estado de transformação, de metamorfose ainda incompleta, no estágio da morte e do nascimento, do crescimento e da evolução. A atitude em relação ao tempo, à evolução, é um traço construtivo (determinante) indispensável da imagem grotesca. Seu segundo traço indispensável, que decorre do primeiro, é sua ambivalência: os dois polos da mudança – o antigo e o novo, o que morre e o que nasce, o princípio e o fim da metamorfose – são expressados (ou esboçados) em uma ou outra forma (BAKHTIN, 1999a, p. 21-2).

Sendo o aniversário uma data que atrela a si a ideia de envelhecimento, de proximidade da morte, o grotesco da cena, por sua vez, rompe esse paradigma, remetendo ao riso e à percepção de que tudo se retoma, de que não há fim, pois as pontas dos processos se atam novamente.

Do ponto de vista da forma discursiva, conforme a classificação dos gêneros e espécies do grotesco propostos por Sodré & Paiva, nós temos um grotesco do gênero atuado (vivido) espontâneo, ou seja, episódios ou incidentes da vida cotidiana, geralmente expostos na mídia, que apontam para o rebaixamento espiritual ou a irrisão (absurdos de realidade, disparates levados a sério, o ridículo advindo do exagero etc.) característicos do grotesco (Sodré & Paiva, 2002, p. 66).

Benzer Belgeler