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Em 1963, época em que Eggers se dedicava quase que exclusivamente às rádios

– período que será abordado no capítulo 3 –, a luta pela valorização dos cantores

amadores ainda deu um último suspiro. Foi uma iniciativa de Eggers e de sua sobrinha, Maria de Paula Leite. Maria costumava reunir em sua casa um grupo de cantores e, acompanhando-os ao piano, encenavam trechos de óperas por ela ensaiados e dirigidos. Em 1962, Maria traduziu para nosso idioma algumas óperas e burletas líricas, todas de enredo cômico e de pequena duração. Encenou com esse grupo As Camareiras, de Luigi Bordese (1810-1886), em sua própria casa. Desde então passou a pensar na possibilidade de encenar essa ópera e mais uma burleta lírica, O Salteador, de Bela Laszky (1867-1935) em algum teatro de Porto Alegre. Por sugestão do jornalista e professor Dante Piantá e com o apoio de seu tio Roberto Eggers, organiza oficialmente uma sociedade com o objetivo de “apresentar óperas e operetas cantadas em português,

afim de levar, mais facilmente, ao grande público, este gênero musical”, dando-lhe o nome de “Teatro Lírico Rio-grandense”.108

A nova sociedade ficou com a diretoria assim constituída:

Presidente: Roberto Eggers

Vice-presidente: Maria de Paula Leite

106 Como foi o caso da reprise de La Traviata. (TEATRO Lírico Farroupilha. Diário de Notícias. Porto Alegre, 10 jul. 1948.)

107

TEATRO Lírico Farroupilha. Diário de Notícias. Porto Alegre, 11 set. 1948. 108 Programa de concerto do Teatro Lírico Rio-grandense, temporada 1963.

1º secretário: Dante Piantá 2º secretário: João Carlos Beck Tesoureiro: José Carlos Vaz

Aproveitando uma promoção do Conselho Estadual de Turismo – SETUR – e do

Serviço Municipal de Turismo de Porto Alegre, a “Semana do Turismo”, conseguiram

os dirigentes da nova sociedade incluir na programação do evento a encenação das duas obras. No dia 8 de abril de 1963, aconteceu a primeira atuação do Teatro Lírico Rio- grandense.109 Maria, no entanto, não fizera uma tradução literal de O salteador. Além de traduzi-la, reescreveu os versos adaptando-os “aos tempos modernos”, fazendo, por exemplo, com que na cena em que uma moça da nobreza era assaltada na estrada, o salteador aparecesse de lambreta.110 Embora tenha sido chamada pela autora da

adaptação de “ópera bossa nova”, parece ter sido reforçado o caráter cômico da obra.

O objetivo de promover o canto de óperas em vernáculo nos remete aos da Imperial Academia de Música e Ópera Nacional fundada em 25 de março de 1857 no Rio de Janeiro por D. José Amat.111 O artigo 1º do estatuto dessa instituição rezava o seguinte:

A Imperial Academia de Música e Ópera Nacional tem por fim: 1. Preparar e aperfeiçoar artistas nacionais melodramáticos;

2.Dar concertos e representações de canto em língua nacional, levando à cena óperas líricas nacionais ou estrangeiras vertidas para o português.112

A instituição que, em fins de 1858, alterou o nome (por motivo ignorado) para Empresa de Ópera Nacional, mantendo os mesmos objetivos, e igualmente coordenada por Amat, chegou a apresentar algumas zarauelas e óperas bufas traduzidas para o português. Quanto a ópera séria, apenas duas foram encenadas nessa condição: Norma, de Bellini em 12 de agosto de 1858 e La Traviata (na tradução: A Transviada) em 19 de março de 1863. Além dessas, foram apresentadas cinco óperas de autores natos brasileiros e duas de um autor estrangeiro domiciliado no Brasil: A noite de S. João, de Elias Álvares Lobo, em 1860, Moema e Paraguassu, de Sangiorgi (compositor italiano),

109 Ibid.

110“ÓPERA Bossa Nova pela prata da casa”. Correio do Povo. Porto Alegre, 2 abr. 1963.

111 Militar espanhol que fugiu da prisão em c. 1848, condenado pelo envolvimento na Revolução Carlista,

chegando ao Rio de Janeiro na condição de “Coronel do Estado maior insurrecto”. (CASTAGNA, Paulo.

A Imperial Academia de Música e Ópera Nacional e a ópera no Brasil no século XIX. Disponível em: <http://unesp.academia.edu/PauloCastagna/Papers/1136261/A_Imperial_Academia_de_Musica_e_Opera _Nacional_ea_opera_no_Brasil_no_seculo_XIX>. ,p. 8)

em 1861, A noite do castelo, de Carlos Gomes, em 1861, Os dois amores, de Domingos José Ferreira, em 1862, Joana de Flandres, de Carlos Gomes, em 1863 e O vagabundo, de Henrique Alves de Mesquita, em 1863.113 A Empresa de Ópera Nacional foi extinta em 1863 sem conseguir atingir plenamente seus objetivos, mas segundo Castanha,

as atividades dessa empresa impulsionaram a carreira de um dos compositores paulistas mais respeitados do período - Elias Álvares Lobo - legando, ao menos, dois nomes de destaque: Antônio Carlos Gomes e Henrique Alves de Mesquita, cujas atividades receberam, por conta de seu sucesso na empresa, o patrocínio de D. Pedro II.114

A experiência carioca circunscreveu-se à capital do país e não teve continuidade. É particularmente curioso que, mais de um século depois, surja em Porto Alegre uma sociedade com objetivo semelhante aquela da Imperial Academia de Música e Ópera Nacional no que tange à apresentação de óperas em língua portuguesa. Seria essa uma evidência de extremo descompasso entre o sul do país com o seu centro? Ou simplesmente idealismo de Maria de Paula Leite em querer aproximar o público dos espetáculos líricos em uma Porto Alegre que nem de longe lembrava a dos anos 1930? Afinal, as temporadas líricas, tão interessantes para a sociedade porto-alegrense daquela época, já não aconteciam com a mesma frequência. Depois de dissolvido o Orfeão rio- grandense, em 1952, o Teatro São Pedro ficou quatro anos sem ter uma ópera apresentada. A partir de 1955 aconteceram algumas temporadas breves, sendo a de 1958 mais significativa por ser o ano da comemoração do centenário do Teatro – cinco óperas foram encenadas, Rigolleto, Barbeiro, Lucia, Traviata e Bohêmia. Em 1959 surge a ALPA (Associação Lírica Porto-Alegrense), dirigida pelo professor Frederico Gerling Jr, que contribuiu para o incremento da cena lírica porto-alegrense.115 Outras iniciativas aconteceram na cidade, mas nada que lembrasse os áureos tempos do início do século, lembrando que essas temporadas eram apresentadas por cantores profissionais e não por amadores, como era a proposta de Maria de Paula Leite e Roberto Eggers. Por isso é difícil chegar à uma conclusão quanto às reais intenções dessa sociedade, nos anos 1960, mas pode-se dizer que certamente foi algo curioso, diferente de tudo o que vinha acontecendo na cena lírica porto-alegrense. O fato é que, assim como acontecia com a sociedade carioca, a gaúcha também teve vida breve.

113 Ibid., p. 11 e 12.

114

Ibid., p. 12

A segunda temporada da sociedade, em 1964, contou somente com recitais. A soprano Ophelia Seixas e o tenor Felippo Barani apresentaram-se no Teatro São Pedro no dia 4 de maio, sendo que Barani cantou, entre outras, a ária de tenor do Barbeiro de Sevilha traduzida para português e também uma composição de Eggers, Acalanto. A temporada foi estendida por várias cidades do interior do Rio Grande do Sul. Não há notícias de que uma terceira temporada tenha ocorrido.116

Quanto aos amadores que participaram do Teatro Lírico Rio-Grandense, aparecem os nomes de Aimée Portalet, Shirley Dias, Wilson Ayala, Terezinha Monteiro, Guido Conti, Ophelia Seixas e Felippo Barani.

Benzer Belgeler