2.1. Engellik
2.1.4. Otizm
2.2.2.11. Psikodinamik Psikoterapi ve Psikanaliz
O paradigma da complexidade tem sido crescentemente adotado como perspectiva teórica e metodológica em estudos das interações e produções baseadas em redes digitais. Primo (2007, p.55), por exemplo, propõe uma “abordagem sistêmico-relacional” para os estudos de interação mediada por computador. Para o autor, a caracterização e a discussão da interatividade nas redes digitais não devem seguir os dois posicionamentos mais comuns dos estudos de Comunicação e áreas afins, nos quais o foco de estudos recai sobre a produção ou sobre a recepção da mensagem. Assim, propõe uma “perspectiva que foque o que se passa entre os participantes” e que adote uma “postura sistêmica, buscando valorizar a complexidade dos processos interativos”.
Neste sentido, a complexidade e, especificamente, a teoria dos sistemas adaptativos complexos se diferenciam da perspectiva adotada por abordagens mais estruturalistas, como a Análise de Redes Sociais (ARS), ainda que esta metodologia procure compreender, além da estrutura dos nós que compõem uma rede, a dinâmica das interações entre eles (cf. FRAGOSO, RECUERO e AMARAL, 2011). Para Johnson (2010), a ARS, ao priorizar os aspectos estruturais de uma rede (relações, padrões, fluxos de informações), cria “uma dicotomia entre estrutura e agência, negligenciando os processos, as dinâmicas e dimensões das interações sociais” (p.25).
Assim, consideramos que a pesquisa empírica realizada na perspectiva do paradigma da complexidade deve incorporar procedimentos metodológicos que deem conta de seus pressupostos teóricos, como a relação interdependente entre os agentes que compõem e modificam o sistema. Do mesmo modo, é preciso considerar a dinamicidade e a consequente instabilidade que caracterizam os sistemas complexos, sob o risco de “congelar” a visão sobre um fenômeno e ignorar seus diferentes estados de organização.
Para Capra (2001), esta perspectiva significa um rompimento com o paradigma clássico do “conhecimento científico”, já que considera que o conhecimento pode ser
aproximado, e não necessariamente preciso. Para o autor, “a ciência nunca pode fornecer uma compreensão completa e definitiva” (p.39) dos fenômenos complexos. Larsen-Freeman e Cameron (2008, p.117) sintetizam a necessidade de busca de novos procedimentos científicos:
em resumo, no paradigma científico clássico, teorias são desenvolvidas para descrever, explicar, e predizer o mundo real. Hipóteses são testadas empiricamente, e estudos são replicados para provar ou refutar uma teoria. Mas, em um mundo complexo, muito disso muda: abandonamos o objetivo de predição; causa e efeito funcionam de forma diferente; reducionismo não opera efetivamente para explicar sistemas emergentes e auto-organizados.
Para as autoras, “conhecer sobre as partes individualmente é insuficiente porque teóricos da complexidade estão interessados em entender como a interação entre as partes permite o surgimento de novos padrões de comportamento” (LARSEN-FREEMAN e CAMERON, 2008, p.231). Aproximando-nos da proposta deste trabalho, essa visão dialoga com a posição defendida por Primo (2007), para quem “o estudo das relações mediadas por computador deve partir de uma investigação das relações mantidas, e não dos participantes em separado, ou seja, é preciso observar o que se passa entre os interagentes” (p.100). Para isso, afirma, “emerge uma demanda por um referencial teórico e por um método que dê conta da análise do processo interativo em sua totalidade” (p.55).
Para efetivamente incorporar a perspectiva da complexidade na pesquisa, o campo de Linguística Aplicada tem procurado reinventar abordagens e procedimentos. Para Larsen- Freeman e Cameron (2008, p.15), a transformação da complexidade de uma “mera” metáfora para uma nova estrutura teórica depende do desenvolvimento de uma classificação específica, o que inclui etapas e pressupostos como a construção de uma categorização, a relação com outras teorias, clarificação da natureza das hipóteses, definição do que conta como dado e evidência, o papel da descrição, da explicação e predição e o desenvolvimento de métodos empíricos.
Para tanto, as autoras propõem a adoção de oito princípios metodológicos (p.141): a) Ser ecologicamente válido, incluindo contexto como parte do sistema sob investigação; b) Honrar a complexidade evitando o reducionismo. Evitar idealização prematura, sempre considerar outros fatores;
Considerar auto-organização, feedback e emergência como centrais; d) Adotar uma visão complexa das relações recíprocas;
e) Superar o pensamento dualista [...] pensar em termos de co-adaptação;
f) Repensar unidades de análise, identificando variáveis coletivas ou aquelas que caracterizam a interação entre múltiplos elementos de um sistema, ou entre múltiplos sistemas;
g) Evitar fusão de níveis e escalas de tempo, procurar ligações entre eles;
h) Considerar variabilidade como central, investigando estabilidade e variabilidade para entender o sistema em desenvolvimento.
Larsen-Freeman e Cameron (2008) apresentam também uma “modelagem do pensamento”147 que pode ser usada para problematizar uma situação ã luz da complexidade. Neste modelo, elencam elementos a serem considerados em uma análise (p.70, grifos nossos): − Ιdentificar diferentes componentes do sistema, incluindo agentes, processos e
subsistemas;
− De cada componente, identificar as escalas de tempo e níveis da organização social e humana em que operam;
− Descrever as relações entre e através dos componentes;
− Descrever como o sistema e o contexto adaptam-se um ao outro;
− Descrever a dinâmica do sistema, considerando como os componentes mudam ao longo do tempo e como mudam as relações entre eles;
− Descrever os tipos de mudança que podem ser observados no sistema;
− Identificar os fatores contextuais que estão trabalhando como parte do sistema; − Identificar processos de co-adaptação com outros sistemas;
− Identificar potenciais parâmetros de controle;
− Identificar as possíveis variáveis coletivas que podem ser usadas para descrever o sistema; 147 No original, “thought modeling”.
− Identificar os possíveis fractais do sistema; − Descrever o espaço de fase de um sistema;
− Descrever a trajetória do sistema em seu espaço de fase
− Identificar regiões do espaço de fase que são mais comumente usadas pelo sistema, e as que raramente são visitadas;
− Descrever o que acontece em torno dos atratores;
− Identificar possíveis emergências ou auto-organizações através de escalas de tempo e/ou níveis de organização humana.
6.2.1 Em busca da complexidade na Wikipédia
A compreensão da Wikipédia como um sistema adaptativo complexo baseada na edição colaborativa de textos exige uma aproximação, ã luz dos objetivos e o problema desta pesquisa, das características do site com a relação de elementos proposta por Larsen-Freeman e Cameron (2008). Em primeiro lugar, é importante identificar que, como um todo, o projeto Wikipédia (e, especificamente, sua versão em português) pode ser entendido como um sistema adaptativo complexo. Do mesmo modo, cada artigo também pode ser visto individualmente como uma parte que funciona ã luz do todo, o que se justifica pela fractalidade dos fenômenos complexos. Assim, nesta pesquisa, nos referiremos a cada artigo como um sub-sistema, sempre procurando vê-lo na relação com a dinâmica do sistema maior que o contém (o projeto).
Quanto ã identificação dos diferentes componentes do sistema, parece-nos que o mapeamento e a compreensão da atuação dos editores da Wikipédia (os agentes do sistema) são fundamentais para a compreensão da dinâmica do site. Assim, identificamos os grupos de editores envolvidos no conjunto de artigos analisados e mapeamos sua atuação, inclusive a partir das interações estabelecidas com outros agentes. Nesta análise, dividimos os editores em quatro grupos em função de seu vínculo com a Wikipédia: editores não-cadastrados, bots, administradores e demais cadastrados. A influência dessa hierarquia interna sobre os processos editoriais colaborativos nos parece um nível da organização social fundamental para a pesquisa.
Ainda na caracterização dos componentes do sistema, acreditamos que a compreensão da rede de produção editorial da Wikipédia exige um mapeamento dos principais processos adotados dentro do sistema, como o nível de engajamento dos agentes e a distribuição de suas edições e das interações ao longo do tempo. Para tanto, foi fundamental o mapeamento de variáveis como a média de edições por editor, a média de edições por mês nos artigos e a inclusão ou exclusão de textos pelos editores a cada edição.
Uma ênfase maior é dada a situações que, a nosso ver, atuam como parâmetros de
controle do sistema, afetando fortemente sua trajetória e influenciando eventuais transições de
fase. Na pesquisa empírica, são analisadas as ocorrências de três tipos de edições restritivas nos sistemas: 1) a reversão ou 2) a aplicação do recurso desfazer em edições identificadas como vandalismo ou incorreções (edição desfeita) e 3) a ativação de proteções que limitem a edição de uma página.
Na etapa quantitativa, um mapeamento da distribuição das contribuições dos editores pelo período de desenvolvimento do artigo torna possível a identificação das escalas de
tempo em que as edições se desenrolaram e os tipos de mudança pelos quais passou o sistema.
A caracterização das dinâmicas de edição dos cinco artigos ao longo do tempo nos permite mapear o espaço de fase deles, isto é, os possíveis estados dos sistemas, assim como as situações mais comuns (atratores) e as mais raramente ocorridas.
Α relação do sistema com elementos externos e outros sistemas nos ajuda a compreender os fatores contextuais que os influenciam. No caso da edição de artigos da Wikipédia, é possível identificar as eventuais influências da edição de um artigo em outra página correlata (por exemplo, a edição da biografia de um político pode desencadear alterações na biografia de outro). De forma ainda mais intensa, acreditamos ser possível identificar a relação entre o acontecimento e a divulgação pública de fatos relevantes relativos a uma pessoa (um feito profissional, ou o diagnóstico de uma doença grave, por exemplo) e a dinâmica de edição do artigo referente ao biografado.
Este conjunto de elementos a serem identificados e caracterizados na pesquisa da Wikipédia nos permite, em última instância, compreender os processos de adaptação pelos quais os sistemas passaram e que, ao acumular experiências, permitiram um desenrolar mais adequado ã proposta editorial da Wikipédia. No mesmo sentido, acreditamos ser possível, ao
final da análise dos dados coletados, identificar a existência, total ou parcial, de processos
auto-organizados de edição, conforme características discutidas em capítulos anteriores,
assim como de comportamentos emergentes ao longo das trajetórias de cada artigo.