Em 2008, foi criada uma Comissão de Elaboração da Proposta de Inovação do Ensino Médio. Em um primeiro momento, os componentes dessa comissão eram representantes de diversos departamentos da SEED: Departamento de Educação Básica (DEB), Superintendência da Educação (SUED), Coordenação de Documentação Escolar (CDE/DAE), Coordenação da Educação de Jovens e Adultos (EJA), Departamento de Educação Especial e Inclusão Educacional (DEEIN) e Coordenação de Gestão Escolar (CGE).
Cabia a esses representantes estudar e levantar diferentes questionamentos que norteassem a construção de uma nova proposta de estrutura curricular para essa etapa de ensino, garantindo a efetivação dos seus princípios norteadores: O direito do aluno à continuidade dos estudos e o
aproveitamento dos estudos parciais. Como fundamentação teórica,
embasaram-se na legislação educacional vigente – LDB 9394/96, instruções emanadas da SEED e literatura específica; dentre os autores que subsidiaram as análises conceituais destacam-se Saviani (1994), Oliveira (2004), Frigotto (2004), Kuenzer (2002), Ramos (2004).
Dando-se continuidade às discussões, amplia-se a comissão e defende-se a participação de todos, agora com diretores de escolas, representantes dos NREs – Núcleos Regionais de Educação, juntamente com os demais representantes dos departamentos da Secretaria de Estado da Educação. Nesse
momento, as questões a serem analisadas eram mais específicas, voltadas para o que se refere à atividades como: tempo escolar, número de disciplinas, organização da prática pedagógica, flexibilização de ingresso e, principalmente, a maneira como tornar o processo de ensino aprendizagem mais eficiente e interessante para o aluno do Ensino Médio.
A SEED/PR, em um texto que relata um pouco da história de criação dessa proposta19, diz que a comissão deveria pautar-se em uma perspectiva de mudança da prática pedagógica docente e na reorganização do tempo escolar, visando tornar o processo de ensino e aprendizagem mais interessante para o aluno do Ensino Médio, sempre no intuito de que essa melhoria repercutisse na redução dos índices de evasão e reprovação.
A SEED/PR salientou a parceria era importante, pois possibilitaria escutar a comunidade escolar para perceber se as ideias de à inovação curricular estavam ou não articuladas com à realidade da escola. No segundo semestre de 2008, as discussões saem do âmbito dos departamentos das SEED/PR e envolvem o coletivo de cada escola, com o enfoque inicial nos alunos do "Ensino Médio Noturno" visto ser este um desafio que, há muito tempo, vem preocupando o grupo, dado que os índices de evasão e retenção nesse turno ultrapassavam a marca de 40%. Acreditava-se que a proposta era uma solução imediata para resolver os problemas e limitações que se enfrentavam.
Foram colhidos pela SEED/PR alguns depoimentos dos alunos sobre as dificuldades enfrentadas no Ensino Médio, como:
Desisti porque estava muito difícil. Tinha dificuldades com
Matemática e Física. Na EJA20, aprendemos o básico e o peso
das disciplinas é menor. Não preciso fazer todas as matérias de
uma vez. É mais fácil.Pretendo fazer vestibular de Enfermagem.
Terei que me esforçar mais para conseguir. (Rosa Pereira da
Silva, 23 anos ex-aluna do EM Regular).
19 Texto elaborado pela Equipe de Legislação e Ensino do Departamento de Educação Básica (DEB/SEED) intitulado "A proposta de inovação do Ensino Médio: uma produção coletiva". (PARANÁ, 2009).
20 Educação de Jovens e Adultos – EJA constitui-se uma modalidade de ensino que tem como uma das finalidades a oferta de escolarização de jovens, adultos e idosos que buscam dar continuidade a seus estudos no Ensino Fundamental ou Médio, assegurando-lhes oportunidades apropriadas, de acordo com suas características, interesses, condições de vida e de trabalho, mediante ações didático-pedagógicas coletivas e/ou individuais.
Fiz o ensino regular até o 1º ano, no início deste ano. Mas como estava trabalhando demais, chegava sempre atrasada e estava cansada. Achei que fazer a EJA seria mais fácil. Estou conseguindo aprender o conteúdo, só que antes de fazer vestibular tenho que fazer cursinho para complementar os estudos. (Alzilete Nogueira da conceição, 21 anos, ex-aluna do
EM Regular).
Fiz o ensino regular até o 3º ano, quando engravidei. Como tive filho muito cedo, precisei abandonar a escola. Decidi voltar a estudar e achei que seria melhor concluir os estudos na EJA. É mais tranquilo, mais rápido e a gente tem menos trabalho que no ensino regular. Facilita para mim. (Claudia Marques Pinheiro, 18
anos, ex-aluna do EM Regular).
Os depoimentos foram recolhidos e tabulados pelos NREs, assim como, os estudos realizados pelos gestores, professores e equipe pedagógica das instituições. É importante esclarecer que esse estudo correspondia à análise de dois textos elaborados pela Equipe de Legislação e Ensino/SEED/PR. Cabia ao referido grupo fazer uma análise crítica baseada em sua realidade. Inicialmente não havia indicativo da proposta nem da existência da comissão; a intenção era permitir a expressão das opiniões da escola de forma mais isenta possível, até porque a comissão tinha apenas um esboço da proposta com seus princípios norteadores. Os relatórios foram encaminhados pelos NREs para o Departamento de Educação Básica.
Ancorada nas, análises dos depoimentos e estudos realizados sobre o Ensino Médio, a SEED/PR sugeriu que a nova proposta da estrutura curricular oferecesse: número menor de disciplinas, práticas pedagógicas mais significativas, semestralidade, continuidade de estudos e aproveitamento de estudos parciais.
No final do processo de sistematização e compreensão da realidade escolar, a SEED/PR e a comissão de estudos abriram a possibilidade de participação de representantes da Associação de Professores do Paraná – APP, do Fórum de Defesa da Escola Pública e do Conselho Estadual de Educação – CEE, na discussão da proposta.
A proposta final foi tornar o currículo por blocos de disciplinas semestrais opcional para o Ensino Médio noturno, com matriz única e obrigatória. A organização é seriada e cada série formada por dois blocos semestrais. As
disciplinas, que compõem cada bloco, foram selecionadas para dialogarem entre si possibilitando que esse dialogo auxilie no processo de ensino e aprendizagem.
A comissão acreditava que a obrigatoriedade garantiria a flexibilidade de transferência, facilitando o trabalho da escola, e permitiria uma ação pontual.
Assim, no final do ano letivo de 2008, a Comissão delimita a proposta, normatizando-a na Instrução 021/2008 e Resolução 5590/2008, que determina: 1. organização por série; 2. cada série formada por dois blocos; 3. matriz única e simultânea com a distribuição equitativa das disciplinas ao longo das três séries; 4. possibilidade de ingresso do aluno no início de cada semestre letivo; 5. duração de 100 (cem) dias letivos para cada bloco; 6. autonomia da escola para decidir sobre seu sistema de avaliação; 7. os mesmos conteúdos descritos nas Diretrizes Curriculares Estaduais (PARANÁ, 2008a); 8. garantias de realização de cursos de formação para os docentes; 9. suporte para as escolas quanto à documentação e à organização do trabalho pedagógico.
Diante de uma política de gestão democrática defendida pela SEED/PR, de comum acordo com a Comissão, a proposta da estrutura curricular deveria ser optativa para os estabelecimentos de ensino que ofertavam o Ensino Médio Noturno.
No decorrer das discussões, entendeu-se que a proposta deveria ser aberta para todas as escolas estaduais independentemente do período em que ofertassem o Ensino Médio, visto que tinham os mesmos problemas (altos índices de evasão e reprovação).
Saliento que a mudança para o Ensino Médio organizado por blocos de disciplinas semestrais foi oferecida a todos os estabelecimentos de ensino da rede estadual do Paraná; entretanto, não poderia ser aplicada às Modalidades da Educação Profissional Integrada, Subsequente e EJA.
A preocupação que acompanhou a proposta do Ensino Médio Blocado foi a redução dos índices de evasão e reprovação, ou seja, o claro reconhecimento de que a estrutura curricular anual não atendia as demandas dos alunos. É nesse contexto que o Colégio Estadual Francisco Villanueva, campo desta pesquisa está inserido.
O Colégio selecionado para o desenvolvimento da pesquisa apresenta rendimento escolar consonante com a realidade paranaense, ou seja elevados índices de reprovação e abandono.
Gráfico 7 – Índice de aprovação, reprovação e abandono – Ensino Médio no Colégio Estadual Professor Francisco Villanueva – 2008
Fonte: Secretaria do Colégio Estadual Professor Francisco Villanueva.
O Ensino Médio no Colégio pesquisado apresentou, em 2008, de um total de 804 matriculados os seguintes resultados: 511 educandos foram aprovados, dos quais 219 por Conselho de Classe, 200 reprovaram e 93 desistiram.
Em 2008, o Ensino Médio no Colégio ainda ofertava um sistema anual. Os dados revelam um índice de reprovação e desistência muito alto, chegando a 36,44%. Chama atenção o número de alunos aprovados por Conselho de Classe; são aqueles que não obtiveram a média estabelecida para serem aprovados, entretanto, apresentam "supostas" condições de superar as limitações e dificuldades identificadas.
No entanto, o histórico não confirma a capacidade de superação das dificuldades. Os aprovados por Conselho de Classe, em sua maioria, são reprovados nas séries sequentes. Se tomarmos como referência de qualidade a aprovação direta, os dados de retenção e abandono saltariam para a casa dos 63,68%.
Os números demonstram que uma quantidade significativa de alunos se encontram à margem do processo educacional, não lhes sendo assegurado o direito de continuidade dos estudos e/ou o aproveitamento de estudos parciais.
304 213 227 66 0 50 100 150 200 250 300 350 Aprovação Aprovação - Conselho de Classe Reprovação Desistentes
Esses indicadores revelam a necessidade de um acompanhamento diferenciado, razão pela qual elegi a oferta do Ensino Médio nesse estabelecimento de ensino como objeto de minha pesquisa.
3 CAMINHO, TEMPO E PROCESSO DA PESQUISA
Falar não é a mesma coisa que escrever.
Michael Apple