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3.1.1 Condicionantes climáticos

A planície costeira de Jericoacoara é representada por um conjunto de unidades morfológicas diretamente relacionadas com os componentes meteorológicos locais e regionais. A ação dos ventos, a sazonalidade das precipitações pluviométricas e a insolação, atuam na dinâmica de transporte de sedimentos, formação de lagoas costeiras e comportamento ecodinâmico da fauna e flora do Parque.

Os ventos na região Nordeste do Brasil são regidos pela presença de um forte ciclo temporal definido por um período anual. As mudanças ocorridas neste sistema climático estão agregadas às variações da ZCIT (Zona de Convergência Intertropical), uma vez que esse fenômeno climático controla o regime desses ventos. A ZCIT é uma zona ou região marcada pela confluência dos ventos alísios de nordeste e sudeste, por conseguinte corresponde a uma intensa nebulosidade e baixa pressão atmosférica (PHILANDER; PACANOWSKI, 1986). (Figura 04)

A variação anual da precipitação pluviométrica é controlada pelo movimento da ZCIT, principal sistema sinótico responsável pela quadra chuvosa no Estado, que dependendo da sua posição e tempo, pode provocar chuvas intensas. Com um regime pluviométrico variável, todavia, as precipitações ocorrem no primeiro semestre, distribuindo-se entre os meses de março e maio BRANDÃO, 1995).

Para a região em estudo, a precipitação média anual alcança valores em torno de 823,8 mm (IPECE, 2010). O regime pluviométrico da área de estudo é do tipo tropical com a estação chuvosa concentrada em cinco meses consecutivos. A estação chuvosa começa geralmente no mês de fevereiro, com os valores máximos frequentemente associados aos meses de março e abril. A parir de julho as precipitações diminuem até o mês de novembro (Figura 02). O primeiro semestre do ano responde, em média, por mais de 90% das precipitações anuais (ZANELLA, 2005).

O vento apresenta-se no litoral como um importante componente da dinâmica da paisagem natural e subsistente para a composição da morfologia local, principalmente na migração dos campos de dunas e aporte de areia para a planície Figura 4: imagens provenientes dos satélites meteorológicos de órbita polar da série NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) (FUNCEME, 2011) evidenciando a diferença de cobertura de nuvens durante os períodos anuais de estiagem (A) e de maiores índices pluviométricos (B). Verificar a eleva nebulosidade concentrada no oceano Atlântico e sobre a zona costeira cearense (associada ao período chuvoso). Meireles, 2011

de aspersão eólica. As direções predominantes dos ventos nesta planície litorânea são de SE, ESE, E e NE. As médias de velocidade chegam a superar os 4m/s nos meses de estiagem (segundo semestre anual) (figura 05). No início da estação chuvosa, com a chegada da ZCIT, registram-se mudanças na direção dos ventos, passando a predominar os de nordeste. No período de estiagem (segundo semestre) procede-se um predomínio dos ventos de SE, cujas velocidades são as mais intensas.

A integração entre as médias de pluviometria, velocidade dos ventos e insolação é um importante indicador para a análise da dinâmica morfogenética da planície costeira onde está inserida a unidade de proteção integral. No primeiro semestre, os valores tanto da intensidade dos ventos quanto da insolação são menos elevados, apresentando índices altos de precipitação. No segundo semestre, ocorre uma diminuição dos índices pluviométricos e eleva-se a velocidade dos Figura 5: Precipitação por ano (a). Velocidade e direção dos ventos (b) (Jimenez et al., 1999).

ventos e a insolação. Desta forma, a migração das dunas é mais efetiva no segundo semestre (menores índices pluviométricos, ventos mais elevados e maior insolação), juntamente com uma diminuição do nível hidrostático do lençol freático e assim a incidência das lagoas sobre a planície costeira.

3.1.2 Geologia, Geomorfologia e Solos

A planície costeira é composta por sedimentos do Holoceno, que correspondem aos Sedimentos Litorâneos e aos Depósitos Aluvionares. Os Sedimentos Litorâneos estão presentes nas formações dunares e nas areias de praia, na forma de grãos de quartzo de granulação fina e média e coloração esbranquiçada. Na planície flúvio-marinha encontram-se sedimentos de mangue, compostos de argilas e matéria orgânica.

A área integra o domínio dos depósitos sedimentares cenozóicos, de acordo com a classificação morfo-estrutural estabelecida por Souza (1988). Este domínio é constituído, segundo o autor, pelas exposições tercio-quaternárias da Formação Barreiras, representadas, neste caso, pelas falésias, que afloram na área em questão.

A planície litorânea que abrange não apenas o trecho da praia de Jericoacoara, mas praticamente todo o litoral oeste em estudo, é constituído de uma faixa de terras, em especial em alguns setores da faixa de praia e pós-praia. Há, ainda, a existência de expressivos campos dunares, contendo dunas móveis e fixas, corredores de deflação eólica, rebdous e lagoas interdunares.

As feições geomorfológicas características da planície litorânea estudada são: a faixa de praia, os campos de dunas e a planície flúvio-marinha, referente ao Mangue Seco. Os Neossolos Quartzarênicos Marinhos constituem a faixa de praia que acompanha a linha de costa paralelamente. Suas principais características são: extrema acidez, baixa fertilidade natural, pouca retenção de umidade e alta susceptibilidade à erosão eólica. Nessa feição predomina a Vegetação Pioneira Psamófila cuja fisionomia é representada por gramíneas, ciperáceas e espécies herbáceas. No campo de dunas a formação dunar ocorre pelo transporte e deposição de material arenoso. Nesta área predominam as dunas fixas, constituídas por Neossolos Quartzarênicos Distróficos que são caracterizados pela acidez, baixa fertilidade natural, baixa retenção de umidade e susceptibilidade à erosão. Possuem textura arenosa, apresentando-se excessivamente drenados, praticamente sem

estrutura, com ausência de materiais primários menos resistentes ao intemperismo. Têm alta saturação por alumínio e baixo conteúdo de fósforo assimilável, revelando- se de baixa fertilidade natural. A vegetação incidente é a Vegetação Subperenifólia de Dunas, que varia segundo a altura da duna, a sua posição referente ao vento e à incidência solar, predominando o estrato arbustivo à barlavento e o extrato arbóreo à sotavento.

As planícies flúviomarinhas adjacentes à área de estudo possuem relevo plano e têm sua dinâmica condicionada ao regime pluviométrico e à oscilação das marés. Pouco expressiva geograficamente, é composta pela Vegetação Paludosa de Mangue que apresenta mangue vermelho (Rhizophora mangle), mangue preto (Avicennia germinans e A. schaueriana), mangue branco (Laguncularia racemosa) e mangue botão (Conocarpus erectus). Possui Solos Indiscriminados Costeiros que encontram-se parcialmente submersos e são orgânicos, salinos e muito ácidos. Este ecossistema é habitado por diversos animais, sendo considerado um berçário natural para muitas espécies aquáticas (SILVA, 1993).

Tabela II – Associações de Solos, Características Dominantes e Limitações de Uso Unidades

de paisagem

Associações de solos Características

Dominantes Limitações de Uso Faixa de Praia/ Pós-Praia Neossolos Quatzarênicos Marinhos

Solos muito profundos excessivamente drenados, ácidos e fertilidade natural muito baixa Acidez, baixa fertilidade, susceptibilidade à erosão, baixa retenção de umidade Planície Flúvio- Marinha Solos Indiscriminados de Mangue Solos orgânicos,

salinos e mal drenados, muito ácidos e parcialmente submersos Excesso de água, salinização, drenagem ruim e inundações Campo de Dunas Neossolos Quartzarênicos distróficos

Solos muito profundos excessivamente drenados, ácidos e fertilidade natural muito baixa Acidez, baixa fertilidade, susceptibilidade à erosão, baixa retenção de umidade Tabuleiro Pré- Litorâneo Argissolo Vermelho- Amarelo Rasos ou profundos, textura média ou argila, moderadamente ou imperfeitamente drenado, fertilidade Drenagem ruim Impedimento à mecanização

média a alta Fonte: Adaptado de LIMA; MORAIS; SOUZA (2000)

Benzer Belgeler