Constitucionais Transitórias
Pairam no meio jurídico e no contexto social um descrédito e um desânimo em torno da satisfação dos precatórios vencidos e não honrados pela entidade devedora.
Essa inadimplência contumaz do Estado nos levou a crer, por muito tempo, que no ordenamento jurídico não havia normas ou instrumentos capazes de compelir a Administração Pública a honrar com suas dívidas.
Isto é, a obsolescência no pagamento dos precatórios, no mínimo injusta, consagrada pelo desestímulo da entidade devedora em liquidar seus débitos, fez com que se clamasse, por muito tempo, por um aperfeiçoamento da ordem jurídica, uma mudança consentânea com os direitos assegurados aos indivíduos pelo Texto Supremo.
Não por acaso, foi editada a Emenda Constitucional n.º 30, que representou um marco no sistema do direito positivo. Vejamos. Ao acrescer o artigo 78 ao Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, assegurou ao credor do precatório não honrado dentro do prazo previsto pelo Texto Supremo o “poder liberatório” para quitar débitos tributários junto à mesma entidade devedora, em outras palavras, previu formas alternativas para a satisfação dessas dívidas.
Assim, o “poder liberatório” garantiu um direito potestativo ao credor- contribuinte de liquidar seus débitos junto à Fazenda Pública, tendo, ainda, um papel bastante motivador no resgate da credibilidade desses títulos, como forma de realçar a segurança e a certeza do direito.
Importante destacar, ademais, que a Emenda Constitucional n.º 30, ao prever o “poder liberatório” para a satisfação dos precatórios, contribuiu significativamente na valorização da moralidade administrativa e, mais, procurou combater os atos arbitrários dos Entes Públicos, mediante a previsão de meios alternativos para a liquidação dos títulos vencidos e não honrados.
O cenário atual é propício a esse movimento moralizador, pois, no momento em que o desrespeito ao adimplemento dos precatórios estaduais atinge as raias do absurdo, os credores desses títulos, que ao mesmo tempo são contribuintes de ICMS, encontram no preceito fundamental do “poder liberatório” a oportunidade para a extinção de suas obrigações tributárias.
Pois bem. Conforme ressaltado alhures, a Constituição Federal, ao dispor sobre o “poder liberatório”, garantiu ao contribuinte de ICMS o direito de liquidar débitos fiscais junto à mesma entidade devedora, funcionando esse crédito como “moeda de pagamento”, nos dizeres de Geraldo Ataliba e Cléber Giardino.
Bem de ver que o “poder liberatório”, dadas as suas características próprias, é uma forma de extinção de obrigação tributária, que se exterioriza pela compensação de obrigações tributárias, contudo, não se sujeitando ao disposto no artigo 170 do CTN.
É de simples compreensão que a Constituição Federal, ao garantir o “poder liberatório” aos precatórios, pretendeu avançar nos mecanismos disponíveis no sistema jurídico para a liquidação de débitos fiscais, já que não há uma preocupação maior dos Entes Políticos em autorizarem leis que disponham sobre a compensação tributária.
O uso do “poder liberatório” para a compensação de débitos de ICMS com créditos de precatórios permitiria conferir ao ordenamento jurídico estabilidade nas relações jurídicas, pois o clima de completa insegurança decorrente da inadimplência desses títulos pelos Entes estatais e, ainda, da falta de leis estaduais dispondo sobre a compensação tributária, como é sabido, abala a ordem jurídica, econômica e social dos Estados.
Além disso, o disposto no artigo 78 do ADCT, dentro dos limites estabelecidos pelo ordenamento, é uma alternativa jurídica para satisfazer os interesses dos sujeitos envolvidos numa determinada relação de direito, como forma de viabilizar a máxima justiça possível. E mais, será tanto melhor e mais legítima quanto mais conferir ao sistema coerência e possibilidade para uma melhor sintonia com os justos anseios sociais.
Nessa medida, a impossibilidade da compensação de débitos de ICMS com precatórios por meio do “poder liberatório” levar-nos-ia admitir ser lícito ao Estado ficar com o indevido e, em contrapartida, exigir o devido, vindo a desequilibrar por meio de atos ilegais e imorais o desenvolvimento econômico do país.
Com o intuito de corroborar a posição defendida, não podemos esquecer que os princípios fundamentais devem iluminar todas as searas do direito, sendo sua observância pressuposto basilar que visa a coibir a perpetuação de um ordenamento jurídico injusto.
Desse modo, esses princípios devem exercer a função de diretrizes superiores do sistema, vinculando a atuação dos operadores jurídicos na aplicação das normas, no sentido de preservar o direito dos contribuintes, uma vez que tais preceitos não configuram como enunciados meramente retóricos e distantes da realidade, mas possuem plena juridicidade.
Assim, proibir o uso do “poder liberatório” no caso em análise seria o mesmo que desrespeitar o comando constitucional da segurança jurídica, pois colocaria o contribuinte em posição de vulnerabilidade em face dos atos
arbitrários do Ente Público, ou seja, condicionaria um direito do credor às vontades do Estado.
Como decorrência lógica, restaria afrontado, ainda, o princípio republicano, que reza por uma democracia representativa, em que se há de zelar pela atuação de regras e garantias fundamentais como forma de se alcançar a isonomia e a justiça na aplicação do direito.
Reforçando esse entendimento, a Constituição Federal, como lei suprema, não permite nessas hipóteses que nenhum dos credores em questão se oponha à compensação como forma de se preservar a igualdade processual dos sujeitos na relação jurídica, combatendo irregularidades lesivas ao patrimônio do contribuinte desse imposto.
Com efeito, é fácil imaginar o impulso que seria dado à economia do país se, por meio do “poder liberatório”, os débitos de ICMS fossem compensados com os créditos de precatórios, já que os precatórios nada mais são que dinheiro dos contribuintes.
Em resumo, não é por outra razão que a aplicação imediata do artigo 78 do ADCT seria uma importante ferramenta na administração do passivo tributário, especialmente no caso dos contribuintes desse imposto, tornando-se o meio mais eficaz para a retomada de uma sociedade na qual impere o valor Justiça.