• Sonuç bulunamadı

Entre o que é, e o que deveria ter sido, a incredulidade comparece com toda potência e tem várias orientações: a falta de respeito, as coações, a complexidade da situação fundiária, o desvio do projeto original.

Sobre ter uma casa boa num lugar ruim:

Aqui dentro de minha casa eu adoro. Se eu pudesse pegar essa casa aqui e por lá, por na cabeça e por lá em outro qualquer lugar que eu conseguisse era bom demais. Pra mim só não é melhor porque não é maior, pra ser perfeito, mas mesmo assim está muito bom. Agora o lugar, é o ambiente assim, as pessoas não respeitam a gente e isso faz a gente ficar com desgosto. (Adelina)

Porque assim, como que um morador vai ter peito pra enfrentar todo mundo que está querendo fazer uma bagunça aonde mora? Eu vou ser sincera: eu estou já desgostosa daqui justamente por causa disso. (...) Se um dia essa gravação puder passar pra Prefeitura, pode passar, porque eu acho que eles têm que tomar uma providência. Entendeu? Porque os moradores sozinhos não conseguem. Muitos estão indo embora, muitos estão desanimando sabia? E vai ser daí pra pior, porque vai sair os bons e ficar os ruins aí vai chegar uma hora que isso daqui vai cair tudo. (Samara)

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Esse último trecho, diz respeito especificamente à dificuldade de morar no andar térreo em virtude do barulho constante das crianças, que por não terem espaço apropriado para brincar, apropriam-se desse andar. São elas mesmas que também pedem água, inúmeras vezes aos moradores desse pavimento, economizando energia e tempo que gastariam para subir as escadas até o quarto ou quinto andares. A sujeira do térreo não vem do céu, mas vem do alto, das janelas dos outros apartamentos em andares superiores: cascas de banana, fraldas descartáveis, bitucas de cigarro, preservativos usados, embalagens de chicletes, os próprios chicletes, chocolate, cigarro, salgadinho, panfletos de supermercados da vizinhança, papéis de toda sorte. Quando vem de baixo, a sujeira vem da proximidade com as lixeiras, dispostas defronte aos prédios e do mau acondicionamento do lixo104. Responsáveis pela sujeira do térreo, também são as pessoas que por ali circulam, por ali consomem. Entretanto, o lixo não tem mais dono depois de esvaziadas as garrafas e pacotes, depois de saboreadas as frutas, os picolés, as pizzas.

Os jovens e os adolescentes, também eles desprovidos de local apropriado para conversar, ouvir música, namorar, ou dividir uma pizza, escolhem o pavimento ao rés-do-chão. Não raro, pedemaos moradores desse andar um copo que faltou para alguém que chegou exatamente na hora de abrir a Coca-Cola, um isqueiro para acender os cigarros , uma caneta para usar rapidinho, e a bendita chave para abrir o portão, pois o interfone quebrou, o pai dormiu, e a mãe não ouve os gritos, privilégio dos moradores do andar térreo! Todos os aspectos descritos acima, também comparecem em edifícios empreendidos para demandas de média e alta renda, porém nesses casos se há o descumprimento de regras no que diz respeito a descarte de embalagens e lixos, silêncio e uso de espaços comuns, há também multas e outras formas de inibir e ou coibir algumas práticas. A intervenção de zeladores, síndicos, porteiros, administradores e outros moradores faz com que as regras sejam em grande medida respeitadas. Eis o que não há nos conjuntos habitacionais concebidos para a população de menor renda.

Referindo-se ao processo de regularização fundiária em processo e à falta de orientação das pessoas por parte do poder público municipal:

Eu acredito até que o fato das pessoas estarem saindo daqui, evadindo daqui é porque elas ficaram tão descontentes com todo esse processo que isso gerou um

104 Uma das reivindicações dos moradores identificada pela Prefeitura quando da realização da pesquisa foi a troca

das lixeiras atuais por lixeiras de alvenaria. Isso porque as atuais lixeiras instaladas no Conjunto são vazadas, portanto muitos sacos de lixo caem no chão, facilitando o acesso de animais, que espalham o lixo. (Diagnóstico Integrado, 2005, p.68).

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desvalor mesmo, uma insatisfação. Isso é um dos fatores, porque eu percebi inclusive que depois de todo esse processo a gente tem muito mais pessoas indo embora. (Roberta)

Sobre a frustração quanto à expectativa de possíveis melhoras para o empreendimento, uma segunda moradora se pronuncia:

Porque você tem uma primeira visão só que você imagina sempre que as coisas vão mudar, vão melhorar né? Só que as coisas não andaram muito como a gente achou que iria andar. (Risos). Mas enfim... aqui pelo menos em casa a gente está satisfeita. (...) Muita gente foi embora, as pessoas ganham o apartamento pra pagar um valor assim irrisório e de repente essas pessoas deixam, não querem mais morar no apartamento né? Ter uma habitação com saneamento básico tudo bonitinho pra voltar pra favela, preferir a favela. Será que eles preferiam a favela mesmo?

Cientes de que um programa de habitação além de agenda de políticos é também resposta de demandas urbanas, os moradores (nesse caso específico) mesmo que não tenham reivindicado diretamente pela moradia como salientam em seus relatos, o fizeram indiretamente, mesmo que somente fazendo parte das estatísticas que compõem o déficit habitacional da cidade de São Paulo. Incrédulos e pessimistas quanto ao futuro, têm inúmeras idéias para melhorar o espaço que habitam, para que a apropriação ocorra num outro nível de vínculo com esse espaço, uma vez que não puderam opinar na execução do Projeto Cingapura: uma lan house para os adolescentes, banquinhos em frente aos prédios para as pessoas sentarem, assim como, em um condomínio de rico (como faz questão de comparar uma moradora), coleta seletiva de resíduos sólidos, dado o significativo número de moradores, uma creche no Conjunto, um posto de saúde mais próximo, pois a Unidade Básica de Saúde não supre a demanda do bairro105, o fechamento de cada um dos prédios com portões e interfones106, uma Associação de Moradores. Os donos das idéias, ao defendê-las emendam um sonoro mas uma andorinha só não faz verão. Vejamos que temos muitas andorinhas e um mesmo verão , todavia os projetos não caminham, ainda que como digam os próprios moradores, temos no espaço constituído de Mutirão e Cingapura um caldeirão de gente interessante , mão-de-obra pra tudo . Estariam todas essas andorinhas voando por diferentes céus?

105 Até o fechamento desse texto, uma moradora organizava um abaixo assinado para solicitar um Posto de Saúde

nas proximidades do Conjunto. Precisamente em um imóvel da municipalidade atualmente inutilizado no Parque Continental. Ao mesmo tempo os moradores do Parque Continental organizam um abaixo assinado contra o Posto de Saúde alegando ser o bairro estritamente residencial, não havendo necessidade de um estabelecimento dessa natureza.

106 Da totalidade dos edifícios alguns já contam com portões e interfones. Equipamentos desejados por moradores

105 No céu cotidiano e imediato de nosso Conjunto Habitacional, inúmeras outras práticas acontecem, analisá-las mais de perto, no centro da ação, e no ato de sua realização é nossa tarefa no próximo e último capítulo de nossa investigação.

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Em torno deles a liberdade do domingo

punha alegrias naquela tarde. Mulheres

amamentavam o filhinho ali mesmo, ao ar

livre, mostrando a uberdade das tetas cheias.

Havia muito riso, muito parolar de

papagaios; pequenos travessavam, tão

depressa rindo como chorando; (...) ouviam-se

cantigas e pragas entre gargalhadas.

Aluísio Azevedo.

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Para analisar as práticas cotidianas do Conjunto Habitacional Parque Continental,fizemos uso da descrição analítica dos processos e dinâmicas observados. Nesse sentido, temos a intenção de contemplar tanto quanto isso é possível, as diferentes dimensões da vida cotidiana: trabalho, vida privada e lazer, sempre voltando nossa atenção para a apropriação dos moradores com o espaço constituído pelo conjunto habitacional. A tentativa é analisá-las em sua totalidade e não uma em detrimento da outra, por acreditarmos que suas inter-relações e suas coexistências é que compõem a complexa trama da vida cotidiana.

A vida cotidiana anunciada nos capítulos anteriores desse trabalho, nesse momento transborda, resvala, insiste, persiste. Lá estão as ocupações formais, as ocupações informais itinerantes, e as ocupações informais no espaço do Conjunto. As comemorações: aniversários, casamentos, batizados, formaturas. O lazer programado, o consumo. Os encontros: festas, forrós, cultos, churrasco, futebol. Os desencontros: mortes naturais ou induzidas, adultérios, violências, crimes. Na casa, na rua, entre a casa e a rua os mexericos, cochichos, fofocas, futricas.

Observar a vida cotidiana com toda sua riqueza e toda sua pobreza exige encurtar as distâncias, não só práticas, mas também teóricas. Significa dizer que, assim como são necessárias observação, participação, e descrição da realidade em questão, não menos importantes são as contribuições teóricas que nos subsidiam.

São dois os níveis de análise: um primeiro que diz respeito ao cotidiano como modo de vida específico da contemporaneidade capitalista e um segundo, que se refere à análise da vida cotidiana regida por esse modo de vida.

3.1 Para analisar a vida cotidiana... 106 3.2 Cotidiano X Modernidade: a relação entre ambos...107 3.3 Henri Lefebvre e a vida cotidiana no mundo moderno...111 3.4 Habitar X habitat: vivendo no Conjunto...129 3.5 O movimento da rua...137 3.6 A casa e seu movimento...142 3.7 Espaço cotidiano o lazer praticado no Conjunto....148 3.8 Tempo cotidiano não linear e agora...161 3.9 Convivência no Conjunto...165

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Benzer Belgeler