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No Nordeste, a insuficiência e a distribuição desigual das chuvas predispuseram as populações de extensas porções do semiárido a adotar estratégias de resistência, para conviver com os frequentes períodos de estio. Assim, em sua fase primitiva, os índios, apercebidos do valor da água, empenhavam-se em represá-la como que numa ação instintiva de busca de sobrevivência (POMPEU SOBRINHO, 1958, p. 76).

No Rio Grande do Sul, tem-se referência de que, em 1832, praticava-se o cultivo do arroz sem utilização da prática de irrigação. A partir de 1904, a cultura do arroz irrigado avançou rapidamente pelo estado graças aos irmãos Roover, que desenvolveram uma máquina alternativa a vapor para acionar bombas hidráulicas, fazendo surgir, no município de Pelotas, a primeira lavoura de arroz irrigado. Debita-se, pois, a experiência pioneira dos irmãos Roover à expansão da lavoura do arroz irrigado em terras gaúchas. Em 1908, onze lavouras irrigadas mecanicamente produziram cerca de 150.000 sacos de arroz no município de Cachoeira do Sul, alcançando, quatro anos depois, 350.000 sacos. Com disponibilidade de água (Lagoa dos Patos) e maior de terras planas, o arroz irrigado expandiu-se pelos municípios de Pelotas, Camaquã e Tapes, contabilizando, já em 1920, a existência de lavouras de mais de 1.500 ha, revelando, desde aquela época, a característica de lavoura empresarial que tem marcado a evolução do cultivo de arroz irrigado no Rio Grande do Sul (MINISTÉRIO DO INTERIOR, SUDESUL, 1980, p. 81-82).

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No caso do Nordeste brasileiro, o desenho de um “cenário de miséria tem sido historicamente um marketing

eficiente para as alianças da elite política regional, que é também, na maioria dos casos, a elite econômica. A imagem da necessidade e do abandono tem um endereço certo e um retorno garantido de dividendos políticos e econômicos (CASTRO, 1991).

Assim, à exceção das áreas de arroz inundado e faixas ribeirinhas restritas, a produção por meio de cultivos irrigados, no Brasil, é relativamente recente. Pode-se dizer que o último quarto do século XIX marca o início das atividades de irrigação mecanizada, registrando iniciativas realizadas por meio de ações isoladas e tópicas, dirigidas para alvos específicos. Em termos setoriais, destaca-se a iniciativa experimentada no cultivo do arroz por parte de imigrantes no Rio Grande do Sul. Em termos espaciais, tem-se por referência o uso da irrigação junto às populações ribeirinhas do semiárido brasileiro, visando ao combate à seca. É característica desse período, que se iniciou em fins do século XIX e persistiu até meados da década de 1960, a ausência de estruturas políticas ou de programas nacionais.

A descontinuidade das ações governamentais era um traço visível. Além disso, as diferentes administrações federais implantavam projetos de irrigação que se direcionavam, quase que com exclusividade, para construção de açudes e para as questões de produção, deixando ao largo aspectos relevantes dos sistemas de produção, tais como conhecimento e manejo dos solos, o uso racional da água para irrigação e as questões ligadas à organização para produção e comercialização de produtos agrícolas.

Somente a partir do final dos anos de 1960, com a instituição do Grupo de Estudos Integrados de Irrigação e Desenvolvimento Agrícola (GEIDA), o Estado brasileiro se volta para uma vertente de compreensão mais global, capaz de ampliar o conhecimento sobre os recursos naturais disponíveis por meio da concepção e implementação de programas nacionais, a exemplo do Programa Plurianual de Irrigação (PPI), em 1969, e do Programa de Integração Nacional (PIN), em 1970.

Ao lograr status de programa nacional, a agricultura irrigada contabilizou as maiores incorporações de áreas irrigadas no Brasil. Fruto da disponibilidade de linhas de crédito para irrigação privada e a existência de programas governamentais, como o Provárzeas, Profir, Proine e Proni, nas décadas de 1970 e 1980, o incremento de áreas irrigadas no Brasil correspondeu, respectivamente, a 1.300.000 ha e 1.100.000 ha (HEINZ, 2002).

Os incentivos governamentais, como mostram os censos agropecuários de 1960 até 1995/96, favoreceram a expansão da área irrigada no país, passando de 0,45 milhões de hectares para 3,1 milhões de hectares em 1995-96 e, em 2006, para 4,6 milhões de hectares, como pode ser visto na tabela 3. Note-se que cerca de 90% dessas áreas foram implantadas pela iniciativa privada, e apenas os 10% restantes debitam-se aos projetos públicos.

Tabela 3 – Evolução Histórica da Área Irrigada no Brasil Região 1960 (ha) 1970 (ha) 1975 (ha) 1980 (ha) 1985 (ha) 1995/96 (ha) 2006* (ha) Norte 457 5.640 5.216 19.189 43.244 83.023 149.671 Nordeste 51.774 115.971 163.358 256.738 366.826 751.887 1.207.388 Sudeste 116.174 184.618 347.690 428.821 599.564 929.189 1.377.143 Sul 285.391 474.663 535.076 724.568 886.964 1.096.592 1.376.422 Centro-Oeste 1.637 14.358 35.490 47.216 63.221 260.952 490.664 Total 455.433 795.291 1.085.831 1.476.532 1.959.819 3.121.644 4.601.288

Fonte: Censos Agropecuários do IBGE de 1996 a 1995/1996.

*Os dados de 2006 foram fornecidos pela Agência Nacional de Água, ANA, 2009.

A suspensão de algumas linhas de crédito específicas para irrigação privada, entre 1990 e 1994, provocou uma pequena retração da área irrigada do País, notadamente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. De maneira geral, no que se tem chamado de “A era Collor”, a inexistência de uma política creditícia que estabelecesse taxas de juros compatíveis com a expectativa da iniciativa privada, a sequencia de reformas administrativas de organismos públicos, a exemplo das medidas provisórias que visavam à extinção do DNOCS e à fusão da CODEVASF com outras autarquias, tiveram como resultante um desaquecimento de áreas de cultivo irrigado.

A partir de 1996, foi mais notória a expansão da irrigação privada. Estima-se que, entre 1996 e 2006118, a área irrigada do País tenha aumentado em 47%, devendo-se tal fato à ampliação nos cultivos de fruticultura, grãos e café, notadamente na Bahia, São Paulo e Minas Gerais; fruticultura em Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte e na produção de grãos nas fronteiras agrícolas do Centro- Oeste (Goiás e Mato Grosso) e Tocantins (ANA, 2009).

Pode-se perceber, como evidencia o Gráfico 1, que até o final dos anos de 1960, era inexpressiva a participação relativa do Nordeste em termos de área irrigada no panorama brasileiro. Como se pode ver, os dados do Censo Agropecuário até 1970 mostram que a irrigação estava concentrada no Sul e Sudeste do país, que possuíam mais de 80% das terras irrigadas, enquanto que as regiões Nordeste, Centro-Oeste e Norte, reunidas, não somavam 20% do total da área irrigada. A pequena expressão da agricultura irrigada nordestina em relação ao restante do país contradiz o discurso adotado pelo Estado, que concebe essa modalidade agrícola como alternativa para romper o atraso e promover o desenvolvimento

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A dimensão da área irrigada em 2006 foi ajustada a partir da área plantada atual, considerando-se a mesma relação entre área irrigada e área plantada municipal do Censo Agropecuário de 1996. In Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil, 2009, Agência Nacional de Água, ANA.

regional, considerado, inclusive, como principal alternativa de combate ao fenômeno das secas, recorrentemente atribuído e identificado ao Nordeste brasileiro.

Gráfico 1 – Evolução da Área Irrigada do Brasil por Regiões Fonte: Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil (2009).

A partir de 1970, pode-se observar, nas regiões Sul e Sudeste, uma discreta retração em relação ao total da área irrigada. No Nordeste, ao contrário, verifica-se uma notável ampliação da área irrigada, confirmando o quanto a região tem sido palco de intervenções do Estado, já que o marco de expansão da atividade coincide com o início da

“modernização da agricultura”, período no qual se fundam, por meio de sofisticados

projetos119, as bases para recriação de várias porções do espaço rural, para implantação de projetos de irrigação, instituindo, em meio ao espaço rural tradicional, algumas “ilhas de

prosperidade.”120

Bem a propósito, foi em 1970 que o Programa de Integração Nacional (PIN) concedeu financiamento para implantação da primeira fase do Plano Nacional de Irrigação (PNI), restabelecendo a continuidade das ações do governo federal, com ênfase, porém, nos grandes projetos públicos de irrigação, e previa o estímulo ao desenvolvimento da irrigação privada em pequena escala, mediante a concessão de crédito especial e a utilização de recursos, a fundo perdido, para obras de infraestrutura.

119A capa e algumas das exigências do projeto encontram-se no apêndice III.

120Araújo (1995) chama atenção para a heterogeneidade intrarregional que acompanhou o processo recente de desconcentração, legando uma configuração ao país bem distinta a 1970. Pacheco (1998) concorda que o desenvolvimento da agricultura [...] transformou as estruturas produtivas de diversas regiões, resultando em maior diferenciação do espaço nacional, com aumento da heterogeneidade interna e reforço de certas

Nessa fase, que corresponde à instituição de programas nacionais como o PPI em 1969 e o PIN, em 1970, foi concebido o projeto de irrigação Curu-Paraipaba, espaço rural do semiárido brasileiro, reconstruído com base em um estudo de viabilidade técnico-econômica,

elaborado por especialistas do consórcio entre a empresa israelense “TAHAL” e a brasileira

“SONDOTÉCNICA”.

O consórcio apresentava projetos para diferentes regiões do Brasil, tendo em vista o respectivo aproveitamento hidro-agrícola de cada espaço selecionado. Assim, o volume III

do documento “Aproveitamento hidro-agrícola da bacia do Rio Curu” traçava regras e normas

para o planejamento do projeto que seria implantado na área de Paraipaba. Sendo esse o espaço rural delimitado para o estudo empírico, já se quer chamar atenção para uma evidência: a ausência, na arquitetura do projeto, dos sujeitos que se transformaram em um

novo agente social do sertão: no caso, o “colono”. Além disso, é relevante registrar que, sendo

o DNOCS o principal ator na condução desse processo, traços da sua atuação no Nordeste, especialmente, no estado do Ceará, trarão mais clareza ao entendimento de algumas questões.

Benzer Belgeler