No que diz respeito à SENAES, segundo Singer (2006), esta é parte integrante do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) do governo federal brasileiro e foi criada e instalada em 26 de junho de 2003, sendo dirigida pelo mesmo desde a sua instalação. A equipe da SENAES é composta por cerca de 30 técnicos que são distribuídos entre o dois departamentos da Secretária, quais sejam: de Fomento e de Estudos e Divulgação, além do gabinete do Secretário.
A SENAES contém em sua estrutura coordenadorias, e de acordo Singer (2006, p. 202), abrangem as seguintes áreas:
[...] coordenadorias de microcredito e comercialização de desenvolvimento local solidário, formação em economia solidária, estudos (que incluem o mapeamento da economia solidária em todo o país) e divulgação. As diretrizes de ação são discutidas em reuniões plenárias da equipe e implernentadas por um comitê gestor, composto pelo chefe do gabinete, diretores dos departamentos, secretário-adjunto, assessor do secretário e secretário.
Na sua rotina de funcionamento, visando dar andamento a ações para implementação da economia solidária em todo o país, a direção da SENAES se reúne regularmente com o FBES, em Brasília, através dos representantes da comissão coordenadora nacional. A título de exemplo destas ações realizadas em conjunto entre a SENAES e o FBES, temos a realização do I Encontro Nacional de empreendimentos solidários, realizado em agosto de 2004 e a I Conferência Nacional de Economia Solidária (CONAES), realizada em julho de 2006.
É importante ressaltar que com exceção da SENAES, a única secretaria de Estado de Economia Solidária que se tem notícia na história foi a criada no governo de Lionel Jospin, na França, e que funcionou durante dois anos, tendo como seu secretário o Sr. Guy Hascoet (PINTO, 2006).
2.3.2.1 Da Formação em Economia Solidária
A SENAES deu início a formação em Economia Solidária a partir da sua própria instalação, haja vista que poucos servidores públicos tinham uma noção razoável do que seria a Economia Solidária. Dessa forma, a secretaria organizou cursos sistemáticos em Economia Solidária para servidores públicos da União, dos Estados e municípios que estavam envolvidos no desenvolvimento de Economia Solidária. Essa formação vem se estendendo também aos servidores das Delegacias Regionais do Trabalho (DRTs), aos membros dos comitês gestores do mapeamento da Economia Solidária nos Estados, aos educadores populares que desenvolvem a mobilização para a execução do programa Fome Zero, a gerentes do Banco do Brasil que atuam no programa de Desenvolvimento Regional Sustentável e a outros atores, que impulsionam a economia solidária em todos os quadrantes do território nacional (SINGER, 2006).
Outro enfoque de formação em Economia Solidária da SENAES são as chamadas lideranças locais, posto que ao efetuar a formação desses líderes, a SENAES está apoiando
diversas experiências de desenvolvimento comunitário, tais como os quilombos (comunidades rurais negras), aldeias de pescadores, assentamentos de reforma agrária, etc. A SENAES tem como meta tornar a Economia Solidária um instrumento importante de luta contra a pobreza (SINGER, 2006).
Cabe ainda destacar que a SENAES está associada aos Ministérios de Ciência e Técnologia (MCT) e do Desenvolvimento Social (MDS), ao Banco do Brasil, à Fundação Banco do Brasil e ao comitê de entidades públicas da Ação da Cidadania contra a Fome e a Miséria (COEPE) no desenvolvimento do Programa Nacional de Incubadoras (PRONIC), que mantêm incubadoras populares (que são entidades de fomento a economia solidária) em mais de quarenta e três universidades federais do país (SINGER, 2006).
2.3.2.2 Do Mapeamento de Economia Solidária
A promoção do mapeamento da Economia Solidária pela SENAES, que levou mais de um ano para se realizar, significou um grande avanço, objetivando identificar detalhadamente a realidade da Economia Solidária no Brasil. Essa ação mobilizou pesquisadores universitários, acadêmicos e militantes da área que já se ocupavam do tema. Para dar início ao levantamento foi necessária a conceituação de modo uniforme do que o movimento entende por empreendimento de Economia Solidária, tendo então, após grande número de discussões chegado ao consenso sobre os requisitos mínimos para que um coletivo, seja de trabalhadores ou de ativistas, pudesse ser reconhecido como sendo integrante da economia solidária (SINGER, 2006). Nesse sentido, vale aqui reproduzir a definição proposta pela SENAES/MTE (apud PINTO, 2006, p. 36) que serviu de referência para mapeamento nacional dos empreendimentos de economia solidária no país, realizado durante o ano de 2005:
[...] considera-se como empreendimento de economia solidária a organização que possua as seguintes características: a) são organizações coletivas (associações, cooperativas, empresas autogestionárias, grupos de produção, clubes de trocas etc.), suprafamiliares, cujos sócios são trabalhadores urbanos e rurais. Os que trabalham no empreendimento são, na sua quase totalidade, proprietários ou co-proprietários, exercendo a gestão coletiva das atividades e da alocação dos seus resultados; b) são organizações permanentes (não são práticas eventuais). Além dos empreendimentos que já se encontram implantados, em operação, deve-se incluir empreendimentos em processo de implantação quando o grupo de participantes já estiver constituído e definido sua atividade econômica; c) são organizações que podem dispor ou não do registro legal, prevalecendo a existência real ou a vida regular da organização; d) são organizações que realizam atividades econômicas de produção de bens, de prestação de serviços, de fundos de crédito (incluindo as cooperativas de crédito e os fundos rotativos populares administrados pelos próprios sócios
trabalhadores), de comercialização (compra, venda e troca de insumos, produtos e serviços) e de consumo solidário. As atividades econômicas devem ser permanentes ou principais, ou seja, a ‘razão de ser’ da organização; e e) são organizações econômicas singulares ou complexas, ou seja, deverão ser consideradas as organizações de diferentes graus ou níveis, desde que cumpridas as características acima identificadas. As organizações econômicas complexas são as centrais de associação ou de cooperativas, complexos cooperativos, redes de empreendimentos e similares.
Por meio do mapeamento, foram localizados cerca de 15 mil empreendimentos solidários, dos quais 55% são associações, 27% grupos informais e apenas 14% cooperativas. De acordo com as pesquisas, a grande maioria desses empreendimentos apresenta precariedade e seus membros têm dificuldades tanto para se manter quanto para levar o empreendimento adiante. No universo de empreendimentos pesquisados, trabalham aproximadamente um milhão e meio de pessoas. O mapeamento também trouxe resultados inusitados, tais como a identificação de muitos empreendimentos que praticam a Economia Solidária sem terem noção de que o fazem (SINGER, 2006).
Durante o mapeamento, a SENAES organizou uma campanha de divulgação da Economia Solidária, sobretudo junto à população mais pobre e marginalizada, o que permitiu incorporar a economia solidária uma quantidade ponderável de grupos informais e associações, que trabalham em conjunto e compartilham decisões, responsabilidades e resultados de suas atividades(SINGER, 2006, p. 205).
2.3.2.3 Outras Atividades da SENAES
Dentre as muitas atribuições da SENAES, destacam-se sua política de estímulo à formação de redes de empreendimentos solidários, e principalmente a sua participação na formação dos Fóruns Estaduais juntamente com as Delegacias Regionais do Trabalho (DRTs), que são os representantes do Ministério do Trabalho em cada Estado. Atualmente todas as Delegacias Regionais do Trabalho têm um setor de Economia Solidária, e por meio deste setor, atuam e colaboram com as ações da SENAES (SINGER, 2006).
A participação da SENAES na constituição de um órgão para orientar a política de Economia Solidária do governo federal, juntamente com o FBES levaram a criação do Conselho Nacional de Economia Solidária, composto por mais de 50 representantes de três segmentos: a) empreendimentos solidários; b) ministérios e bancos públicos federais; e c) entidades da sociedade civil que fomentam a Economia Solidária ou priorizam-na para gerar trabalho e renda (SINGER, 2006).
de lei de regulamentação das Cooperativas de Trabalho, que visa coibir a má utilização das cooperativas e o não cumprimento da legislação trabalhista. O anteprojeto deverá ser submetido a uma audiência pública, para em seguida ser enviado ao Congresso. Ainda dentro das ações políticas, cabe destacar que a SENAES está envolvida, ao lado do FBES, nas disputas entre as duas vertentes do cooperativismo – o das cooperativas dos trabalhadores e o das cooperativas empresariais, objetivando uma nova lei geral do cooperativismo no Brasil. Por fim, destacamos ainda a luta da SENAES para a criação de um sistema financeiro solidário, mediante a regulamentação legal do microcrédito produtivo orientado, que foi aprovado em 2005 (SINGER, 2006).
É importante ressaltar as parcerias que a SENAES mantém com diversos ministérios, destacando-se o caso do Ministério da Saúde e do Ministério da Educação e Cultura. No primeiro caso, são empreendidas a formação de cooperativas sociais, compostas por egressos dos manicômios e pessoas portadores de deficiência. Já em relação ao Ministério da Educação e Cultura, há toda uma articulação para que a Economia Solidária venha a integrar o currículo dos cursos oferecidos no quadro da Educação para Jovens e Adultos (EJA), programa do governo federal voltado para pessoas que não completaram sua formação escolar. No caso da EJA, há um outro fator positivo em se incluir a Economia Solidária como parte do curso, visto que a maior parte dos alunos são de baixa renda e carecem na sua maioria de trabalho remunerado, dessa forma, a Economia Solidária pode vir a ser para eles um instrumento para sua reinserção social (SINGER, 2006).
Ao que se refere a finanças solidárias, a SENAES mantém parcerias com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES), no financiamento de empresas recuperadas e de entidades de microcrédito; com o Banco do Nordeste do Brasil (BNB), no apoio a fundos rotativos que sustentam o desenvolvimento local na região mais pobre do Brasil; com as Secretarias Nacionais da Pesca, do Turismo e de Políticas Públicas pela Igualdade Racial, objetivando promover o desenvolvimento da economia solidária como arma na luta contra a pobreza (SINGER, 2006).
Nas palavras do próprio de Paul Singer (2006), a atuação da SENAES foi essencial para que o governo federal se envolvesse com a Economia Solidária. Nesse sentido, o referido autor afirma que:
Antes mesmo da criação de Senaes, no fim do primeiro semestre do governo Lula, vários ministérios e secretarias, já haviam cogitado da Economia Solidária como um instrumento de suas politicas. Mas a SENAES deu um foco unificador destes esforços e ensejou a criação duma sinergia entre eles. A formação dos servidores, o mapeamento, o apoio à feiras e a grandes encontros (como o de empreendimentos em 2004) criou espaços em que as
ações dos ministérios, secretarias e bancos se encontraram e reconheceram (SINGER, 2006, p. 206).
Com a instalação do Conselho Nacional de Economia Solidária, Singer (2006) crê na possibilidade de que a política de Economia Solidária se torne um elemento permanente de ação do Estado. Neste sentido cada Estado vem promovendo a criação de uma lei de fomento a economia popular e solidária. No caso do Rio Grande do Norte é a lei n. 8.798 de 22 de fevereiro de 2006 (Ver ANEXO B).
Singer (2006) ainda ressalta que a ação da SENAES vem se estendendo para além das fronteiras do país, na medida que serviu de modelo para que outros governos da América do Sul colocassem a Economia Solidária como um dos seus projetos, podendo se destacar os governos de N. Kirchner na Argentina, e de H. Chavez na Venezuela, que além de terem criado órgãos análogos a SENAES, estão desenvolvendo políticas de economia solidária semelhantes as nossas. Há ainda o intercâmbio promovido pela SENAES com entidades de Economia Solidária de diferentes países europeus, dentre eles, a França.