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Na ordem internacional, a vontade do Estado é representada pelos posicionamentos alinhados com a política externa elaborada pelo Poder Executivo Federal, conforme estabelece a Constituição (art. 84, inciso VII), ficou claro que raramente a política interna e a política externa se entrelaçam. De acordo com as opiniões emitidas no marco das Nações Unidas, o Brasil apresenta à sociedade internacional a ideia que os direitos humanos devem prevalecer. Nessa perspectiva, as liberdades públicas implicam muitas vezes em prestações

estatais. Embora se preocupe com a excessiva politização do discurso dos direitos humanos e defenda a parceria entre políticas universais e políticas nacionais com vistas à concretização de tais direitos, a faceta efetiva da atuação do Brasil é insatisfatória.

De acordo com o Brasil na Assembleia Geral das Nações Unidas, todo caso que revelar seres humanos despojados dos direitos mais essenciais de sobrevivência deve colocar a vítima no centro da abordagem. A primazia dos direitos humanos pressupõe a construção de ambiência fundada em três pilares principais: desenvolvimento econômico, democracia e resolução pacífica dos conflitos. A primazia dos direitos humanos é postura impositiva a ser adotada pelos Estados e deve ser posta em prática. As posições brasileiras enfatizam a necessidade de que a sociedade internacional coopere com Estados menos desenvolvidos. Nesse caso, a opinião externa e a prática interna se uniram quando do perdão de parte considerável da dívida do Sudão. De fato, com o desenvolvimento econômico torna-se mais viável atingir níveis mais altos de desenvolvimento social. O Brasil defende que as regras de financiamento e a transferência de novas tecnologias impulsionam o desenvolvimento econômico. Aqui, vê-se atuação um tanto mais coerente com o princípio da primazia dos direitos humanos.

Outro argumento importante é o fortalecimento do regime democrático. A democracia, vista como regime de governo no qual a titularidade do poder político reside nas mãos do povo, compõe um dos pilares para o exercício da primazia dos direitos humanos. A concepção de democracia deve corroborar com o reconhecimento comum dos direito à vida, a não ser submetido à escravidão nem a tratamento desumano, à liberdade e ao acesso universal à justiça, deixando de ser um mero desejo da maioria, para englobar os grupos considerados minoritários. Não deve haver incompatibilidade entre os direitos humanos e os direitos de identidade.

A construção da cultura de diálogo que coloca os direitos humanos acima de qualquer outra questão dependerá da resolução pacífica dos conflitos. Os posicionamentos brasileiros apontam o Estado como principal responsável pela criação dos ambientes de negociação, logo, a ausência de força militar e o fortalecimento do processo de resolução pelo diálogo, da postura construtiva e da boa-fé são imprescindíveis. A impositividade dos direitos humanos recai sobre os Estados e todos os demais atores de direito internacional (coletividades estatais, movimentos de libertação nacional, insurgentes, ONGs, seres

humanos). Outro ponto a se mencionar é a relevância que o Brasil atribui à ratificação dos tratados internacionais sobre direitos humanos, contudo, na terceira parte se verá o grau de dificuldade imposto pelo sistema brasileiro de recepção à efetivação dos tratados sobre direitos humanos. A assinatura desses acordos é um marco de respeito e primazia dos direitos humanos, mas os formalismos adotados internamente tornam-se verdadeiros obstáculos.

Assim como na Assembleia Geral, a representação brasileira no Conselho de Segurança defende a necessidade de se criar certa ambiência de primazia dos direitos humanos. No Conselho de Segurança os posicionamentos do Brasil são mais temáticos, já que os assuntos de competência do CS estão sempre relacionados à paz e à segurança internacionais. Os direitos humanos devem permear os discursos emitidos, e nas discussões junto ao CS têm lugar questões como a reconstrução social pós-conflitos armados, as operações de manutenção de paz, a criação de instituições, a responsabilização dos Estados, o empoderamento das mulheres, a educação para a tolerância, a punição em tribunais penais internacionais, a proteção de minorias, a cooperação, o repúdio à violência, a cautela com usos da força militar, a autodeterminação dos povos etc. A primazia dos direitos humanos deve ser postura adotada pelo Brasil e, ao mesmo tempo, marco orientador na construção de ambientes de paz e de segurança internacionais.

As teses mais emblemáticas na constituição da ambiência de primazia dos direitos humanos estão no contexto da diplomacia preventiva. Nas situações de violência contra direitos humanos, a ambiência de primazia deve restaurar a esperança das vítimas no respeito aos direitos, principalmente as pertencentes a minorias (mulheres, crianças, grupos étnicos e religiosos etc.). Os conflitos são gerados por descontentamento interno, por isso em crises complexas o conceito de segurança se alarga para abranger o dever de prestar assistência maior (econômica) e elevam-se ao primeiro plano as investigações das violações, a fim de dar às vítimas alguma satisfação.

No marco das Nações Unidas, o Brasil diz que a violência contra civis é inaceitável e, em razão disso, nega qualquer forma de anistia para quem pratica crimes de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes contra a paz. Entretanto, defende que tais casos devem ser devidamente julgados por órgãos competentes. Antes do Estatuto de Roma (1998), o Brasil apoiou a criação de tribunais ad hoc para Ruanda e a antiga Iugoslávia. Atualmente, trabalha no fortalecimento da atuação do Tribunal Penal Internacional. A finalização dos

casos julgados pelas cortes ad hoc não deve atender a prazos rígidos, pois corre o risco de, diante do desejo de celeridade, deixar lacunas no processo de reconstrução da esperança na justiça. Entretanto, os argumentos do Brasil baseados na atuação e existência do TPI tornam- se sensivelmente fracos ao lembrar que a referida corte não possui nenhuma contribuição jurisprudencial e, tampouco, conta com a adesão da maioria dos membros permanentes com CS. A prevalência dos direitos humanos e a segurança social constituem, sem dúvida, o caminho para atingir a paz duradoura, mas nesse processo, a cooperação desses Estados (enquanto permanecer a estrutura atual), bem como a de organismos regionais e locais e a participação da sociedade civil organizada são fundamentais.

As violações em massa são situações gravíssimas por que negam tudo o que se defende como prevalência dos direitos humanos. Elas demandam reconstrução social voltada à manutenção da ordem e da segurança, ao diálogo político e à promoção do desenvolvimento econômico. Entenda-se diálogo político como a articulação da atuação pública de todos (os que desejam agir), sendo garantia imprescindível à igualdade de pontos de partida a fim de conhecer as diferenças que unem os atores. Em comum, os seres humanos atores e os seres humanos não-atores têm certos direitos essenciais. Na reconstrução social, para o Brasil, encontra-se a oportunidade de remodelar as instituições caso os modelos do passado sejam negativamente discriminatórios com as minorias.

O direito dos povos à autodeterminação aparece como pedra angular da primazia dos direitos humanos. Na prática, a autodeterminação está representada pela necessidade de realizar votações e de repassar às mãos dos locais as instituições modeladas sob a tutela dos atores internacionais envolvidos no processo de reconstrução pós-violações aos direitos humanos. O direito dos povos à autodeterminação exige a assistência da sociedade internacional e o amplo respeito ao dever de não-intervenção e de não-ingerência.

Ainda sob os auspícios do direito dos povos à autodeterminação, o Brasil sustenta a desarticulação de braços armados dos partidos políticos e afirma que o diálogo é o único caminho possível para os grupos radicais armados. Por serem os Estados os principais responsáveis pela distribuição das armas, aqueles que desrespeitarem os embargos deverão sofrer as maiores sanções do CS. Já acerca das armas biológica, nucleares e químicas, a posição brasileira é mais incisiva. Para ele, ninguém detém o direito de possuí-las, criá-las ou utilizá-las.

O sistema de responsabilização sob a perspectiva da prevalência dos direitos humanos apresentado pelo Brasil transfere para os Estados a obrigação de prevenir as violações, e para o CS das Nações Unidas o dever de manutenção da paz. O aperfeiçoamento desse sistema de responsabilidades ocorrerá à medida que o potencial da Carta das Nações Unidas for mais explorado nas relações internacionais. O Brasil atua na criação de vontades políticas dos atores internacionais e da sociedade civil organizada, pautado pela ideologia de que a política baseia-se na paz e esta depende da primazia dos direitos humanos.

As inúmeras participações do Brasil na AG e no CS das Nações Unidas demonstram atuação retórica favorável à ideia de primazia da pessoa humana, todavia, são bastante frágeis sob a perspectiva da efetividade. Essa é a forma como o Brasil aparece politicamente no espaço público internacional, porém esta não é a única forma. Atualmente, com a expansão da jurisdição internacional e com o pleito pelo reconhecimento mais amplo da personalidade jurídica internacional do ser humano, o conforto entre Estado e pessoa humana pode revelar ainda mais a atuação paradoxal do ente estatal quanto à percepção dos direitos humanos. A participação estatal que não reflete modificação da realidade é o traço revelado no marco elaborado junto às Nações Unidas (AG e CS) em matéria de direitos humanos. Essa incoerência na atuação estatal traz o conceito de política novamente à tona, fortalecendo a importância dos estudos de Arendt, pois o lança ao contexto da governança e o liberta do sentido pejorativo oriundo do senso comum, sentido este, que afasta a noção de política das mãos dos seres humanos, “construtores” dos espaços comuns de convivência.

O crescimento da jurisdição internacional em matéria de direitos humanos impulsionou verdadeira transformação nas relações internacionais, baseadas no direito internacional dos direitos humanos (DIDH). A mudança de eixo já foi aludida na primeira parte da pesquisa sob o ângulo da dupla personificação jurídica do ser humano, ainda resta esclarecer os traços que irão diferenciar os ramos do direito internacional em razão disso. Os próximos dados colhidos nas cortes internacionais de direitos humanos corroboram com a construção do núcleo comum de direitos humanos, tendo em vista o fortalecimento da ideologia de primazia do ser humano. A própria existência e o acesso do ser humano a essas cortes já configuram indícios da nova centralidade do direito internacional. Destaque-se que a maior atuação do ser humano na ordem internacional representa também o fortalecimento do conceito “não-tradicional” de política apresentado por Arendt como uma das condições humanas.

Todavia, no marco das Nações Unidas, a estrutura e a distribuição de poder no Conselho de Segurança configura enorme obstáculo à efetivação da ideia de primazia dos direitos humanos, tornando essencialmente retóricas muitas das opiniões brasileiras. Sendo assim, antes de adentrar nas cortes internacionais de direitos humanos, acredita-se ser imprescindível conhecer e tecer considerações acerca da situação atual do Conselho de Segurança, sem esquecer a postura brasileira diante dela.

Benzer Belgeler