3. PROGRAM KURMA VE GÜNCELLEME
3.1. Program Kurma
3.1.4. Program Kurulumu
Nessa lógica e para o propósito deste trabalho, destacamos quatro manuais do mundo ilustrado português de fins do século XVIII e início do XIX. São eles: “Viagens Filosóficas ou dissertação sobre as importantes regras que o Filósofo Natural nas suas peregrinações deve principalmente observar167”, datado de 1779; “Breves Intrucções aos Correspondentes da Academia das Sciencias de Lisboa sobre as remessas dos produtos, e noticias pertencentes a Historia da Natureza, para formar um Museo Nacional”, de 1781; as Instrucções para transporte por mar de árvores, plantas vivas, sementes, e de outras diversas curiosidades naturaes, por José Mariano da Conceição Velloso168, publicado em 1805; e, por
166 LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo: Editora
UNESP, 2000. p. 365.
167 VANDELLI, Domingos. Viagens Filosóficas ou dissertação sobre as importantes regras que o Filósofo Natural
nas suas peregrinações deve principalmente observar. Academia de Ciências de Lisboa, série vermelha 405, 1779. (A transcrição integral deste documento se encontra em: CRUZ, Ana Lúcia Rocha Barbalho da. Verdades por mim vistas e observadas oxalá foram fábulas sonhadas: cientistas brasileiros dos setecentos, uma leitura autoetnográfica. Tese (Doutorado em História) – Centro de Documentação e Pesquisa de História dos Domínios Portugueses, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2004. p. 276-308.
168 Religioso franciscano José Xavier Velloso, nascido em 1741 na Vila de São José Del Rei, comarca do Rio das
Mortes, em Minas Gerais, cidade atualmente chamada Tiradentes. Posteriormente adotou o nome José Mariano da Conceição Velloso. Em 1762 ingressou no Convento Franciscano de São Boaventura do Macacu, atual cidade de Itaboraí, estado do Rio de Janeiro. Cursou Filosofia e Teologia no Convento Santo Antônio. In: BEDIAGA, Begonha; LIMA, Haroldo Cavalcante de. A “Flora Fluminensis” de Frei Vellozo: uma abordagem interdisciplinar. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 10, n. 1, p. 85-107, jan.-abr. 2015. p. 91-92. Há ainda uma farta bibliografia tomando a trajetória científica do religioso como objeto de investigação, especialmente durante o período em que esteve à frente da Oficina Tipográfica, Calcográfica e Literária do Arco do Cego, entre 1799 a 1801. De forma mais cristalizada na historiografia, temos o trabalho dos autores Maria de Fátima Nunes e João Carlos Brigola, José Mariano da Conceição Veloso (1742-1811), um frade no Universo da Natureza. In: A Casa Literária do Arco do Cego (1799-1801). Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1999. Mais recentemente outros trabalhos vieram à lume trazendo novas interpretações deste mesmo objeto, tais como: HARDEN, Alessandra Ramos de Oliveira. Brasileiro tradutor e/ou traidor: Frei José Mariano da Conceição Veloso. v. 1, n. 23 (2009); KURY, Lorelai. O naturalista Veloso. rev. hist. (São Paulo), n. 172, p. 243-277, jan.-jun., 2015;
fim, Instrucção para viajantes e empregados nas colonias sôbre a maneira de colher, conservar e remetter os objectos de historia natural, de 1819. Este último sem autoria específica.
Voltaremos nossa atenção inicialmente sobre o Instrucções para transporte.... O trunfo de José Mariano da Conceição Veloso, valendo-se de seus conhecimentos científicos sobre botânica, era lançar um manual, um guia prático, que pudesse auxiliar os diferentes sujeitos presos às atividades de coleta e remessa de produtos vegetais no além-mar sobre as formas mais seguras de envio, principalmente em alto mar. Formas menos dificultosas, menos onerosas, sem grande margem de perda de produtos durante a travessia do oceano.
O documento divide-se em dois capítulos intitulados: Do transporte das árvores e Das sementes, sendo que cada capítulo se subdivide em 10 e 6 tópicos, respectivamente. Além de indicar uma Explicação da estampa, porém, infelizmente, sem conter as referidas estampas. Isso de modo algum é demérito na análise do documento, especialmente se levarmos em consideração que se trata de um manual que estava diretamente ligado aos objetivos científicos que dominavam Portugal naquele período.
Veloso estava inclinado a demonstrar de forma escrita, prática, comum ao seu estilo letrado, que era possível fazer a transplantação e aclimatação de vegetais entre lugares distantes de forma segura, sem causar prejuízo nem à Coroa nem ao naturalista que desejava estudar mais detalhadamente a planta transferida. Nesse sentido, indica que:
Todo aquelle que, por proveito seu, ou por satisfazer ao seu gosto, ou ao dos outros, que transportar plantas, ou grãos, ou outras curiosidades naturaes de hum lugar para outro, muito distante, deve saber, que quasi tudo sempre se perde nestes transportes, não sendo feitos com as cautelas necessarias. O fim desta Memória he apontar as mais essenciais [formas de transporte]169.
Aliou suas duas principais técnicas, a cultura escrita com a prática de naturalista especialista em botânica para promover o que ele considerava de mais essencial para transporte
PEREIRA, Magnus Roberto de Mello. D. Rodrigo e frei Mariano: A política portuguesa de produção de salitre na virada do século XVIII para o XIX. Topoi (Rio J.), Rio de Janeiro, v. 15, n. 29, p. 498-526, jul./dez. 2014, além dos já anteriormente citados Begonha Bediaga e Haroldo Lima. De modo geral, essas referências se pautam em esclarecer alguns vazios deixados pela historiografia a respeito do frade franciscano, especialmente em sua atuação como administrador, editor, revisor e tradutor na Casa do Arco do Cego, demonstrando que seu empenho em fazer circular livros traduzidos de outras línguas no reino português teve papel de destaque no universo letrado e científico na virada dos séculos dezoito para o dezenove. Por outro lado, há que se frisar, segundo estes autores, que sua figura não estava alheia aos mecanismos de controle vigentes, forças centrípetas que não davam margem para um posicionamento autônomo, como é demonstrado na sua relação com D. Rodrigo de Sousa Coutinho. Foi com esse ministro que frei Veloso obteve maior destaque, tendo sido nomeado para o comando da Arco do Cego, além de receber promessas de ter sua Florae Fluminensis publicada, fato que nunca se concretizou devido ao custo elevado de publicação, tendo ocorrido efetivamente somente em 1825.
169 VELLOSO, Fr. José Mariano da Conceição. Instrucções para o transporte por mar de arvores, plantas vivas,
por mar de plantas. Com efeito, antes de iniciar de pronto suas recomendações que, grosso modo, giravam em torno de “observações detalhadas sobre o tipo de solo, o clima, a disponibilidade de água, a época do ano para coleta e plantio170”, alertou para outros detalhes primários, não obstante relevantes para o desenvolvimento da tarefa, quais sejam:
[...] o que houver de fazer remessas, faça por sua mão Listas exactas de tudo quanto remete, e que mande diversas copias, ou segundas vias. Que estas Listas sejão feitas em columnas. Que a 1.ª tenha por titulo Numero. 2.ª O nome Portuguez. 3.ª O nome dado pelos habitantes selvagens. A 4.ª O verdadeiro nome. A 5ª Qualidades. Ora esta columna deve dobrado espaço, pelo menos, das outras, para se poder declarar, se he arvore; ou se o fructo, se as folhas, ou raízes são comestíveis, ou uteis á Medicina, e ás Artes; o modo, com que se servem de cada huma destas cousas, etc. Mas, sendo estas exposições compridas, e interessantes, he melhor tratallas em huma Memoria separada. A 6.ª O terreno, onde cresce a planta. A 7.ª O tempo, em que se apanhou a semente, ou se tirou a planta da terra. Quando se expõe cousas, que não são plantas, deve ter a 6.ª columna o titulo. = Lugares donde se tirarão, e a 7.ª Estação conveniente. Em toda qualidade de cathalogos deve haver sempre huma oitava columna, que tenha por titulo Observações. Esta deve ter tambem, como a precedente, hum dobrado espaço, ao menos, para se escrever nella tudo aquillo, que não couber nas columnas precedentes. Tambem se poderão apontar nelas todas as precauções, que se houver de recommendar aos encarregados de receberem, e enviarem as remessas, as quaes se escreverão no fim deste Tratado171.
Não cabe aqui listar todas as observações elencadas nas Instrucções para o transporte..., muito por que são ao todo 32 somente na introdução do documento. Importa dizer que, mesmo não tendo sido aluno de Domingos Vandelli, frei José Mariano muito provavelmente tinha conhecimento da principal publicação do paduano acerca dos modos que um naturalista deveria seguir para executar uma viagem filosófica pelo Brasil. Estamos fazendo referência ao Viagens Filosóficas..., analisado melhor adiante.
Chama a atenção na memória a parte final, onde José Mariano da Conceição apresenta uma Explicação de estampa, que, como dissemos, não está presente no corpo do documento. Nessa parte ele descreve alguns objetos que serviriam como suporte para o trabalho de recolhimento das plantas, árvores, sementes, frutos, arbustos e toda a sorte de espécies vegetais que pudessem e merecessem coleta.
Entre uma exposição e outra, o religioso faz menção às figuras IV e V, que na explicação se tratavam de utensílios, como pá e uma sapa – espécie de pá para cavar fossos – utilizadas para arrancar as plantas da terra. Além disso, recomendava também o uso de caixas grandes, de mais ou menos “quatro pés de comprido, dois de largo, e dois de profundo, para
170 PATACA, Ermelinda Moutinho. Coleta, transporte e aclimatação de plantas no império luso-brasileiro (1777-
1822). Museologia & Interdisciplinaridade. Vol. 9, nº 5, Jan./Jun. de 2016. p. 89.
171 VELLOSO, Fr. José Mariano da Conceição. Instrucções para o transporte por mar de arvores, plantas vivas,
que, sendo desse tamanho, possão dois homens, estando a metade cheia de terra, facilmente transportallas”, através das aselhas fixas nos lados da caixa. Outro detalhe importante, as árvores, plantas e arbustos não deveriam ultrapassar um pé de altura e que fosse dado preferência às mais novas, por sofrerem menos com a viagem em alto mar, segundo o botânico172.
Segue adiante no texto trazendo detalhes de como deveria se dar o processo de transporte já dentro do navio. Recomendava que se evitasse o contato das amostras com a água do mar, pois o sal era um agente nocivo para a vida útil dos vegetais. Para isso indicava uso de panos para cobrir as plantas, protegendo-as. Mas essa tarefa também exigia ressalvas. Não poderia os encarregados do navio deixá-las cobertas todo o tempo, pois criaria umidade fazendo com que a planta se perdesse. Outro vilão nas embarcações eram os ratos. Para evitar a perda, ensinava a criação de uma armadilha para combater esses predadores, que consistia em misturar à terra pedaços de vidro quebrados e colocá-los sobre o húmus, de modo “que embaraça a estes animaes a não entrarem pela terra, para destroirem as raizes tenras, e as sementes que brotão173”.
Expostas essas informações, chegamos ao nosso ponto de interesse, qual seja, frei José Mariano da Conceição Velloso menciona que as caixas das figuras IV e V “podem mais particularmente servir para o transporte dos arbustos, e das plantas da América Septentrional”174. Ou seja, espécies botânicas endêmicas das Capitanias do Norte do Brasil, o que incluiria a do Ceará. Isso denota uma pretensa familiaridade que o religioso teria com a flora dessa região. Muito provavelmente, é certo, por meio de estudos de outros naturalistas, haja vista não ter registros de sua presença em alguma capitania do Norte. Ainda assim, vale o destaque porque demonstra consciência das diferenças entre as espécies de diferentes partes do Brasil, não caindo na homogeneização e respeitando as especificidades.
Todas as questões acima suscitam um outro debate. Sendo a botânica um recurso natural valioso no sentido de que seria através dela que se poderia tirar grandes benefícios para a agricultura, medicina e artes, nada mais natural que fazer com que os navios se tornassem uma espécie de laboratórios flutuantes, onde a tripulação era envolvida nas tarefas de proteger as amostras durante todo o decurso de travessia do oceano, fazer experimentações e criar novas técnicas de transporte175.
172 VELLOSO, Fr. José Mariano da Conceição. Instrucções para o transporte por mar de arvores, plantas vivas,
sementes, e de outras curiosidades naturaes. Imprensa Régia. Lisboa, 1805. p. 90-91.
173 Idem, ibid., p. 92-93. 174 Idem, ibid., p. 94.
175 PATACA, Ermelinda Moutinho. Coleta, transporte e aclimatação de plantas no império luso-brasileiro (1777-
Não interessava a Lisboa patrocinar viagens que poderiam não lograr êxito. Ao viajante seu retorno deveria se dar pelo menos com algo de útil vindo de suas expedições filosóficas. Nessa perspectiva, Vandelli lançou o Viagens Filosóficas..., primeiro documento com regras que deveriam ser seguidas à risca. Interessante perceber que há uma clara demonstração de mostrar o passo a passo do roteiro de trabalho e todas as etapas têm o seu grau de importância, que não devem ser descartadas se se quiser um bom andamento das atividades. Chama a atenção primeiro para as necessidades dos diários:
Mui pouca seria a utilidade das peregrinações Filosoficas, se o Naturalista fiandose na sua memoria, quizesse fazer as suas relações e discripções, sem ter notado antecedentemente com a penna todos os objectos, que fosse encontrando no seu descobrimento. Naõ há hoje uma só pessoa, que naõ esteja persuadida da necessidade dos Diarios. Naõ basta que o Naturalista conheça os produtos da Natureza, tambem he necessário que elle assine os diversos lugares do seu nascimento, os caminhos e jornadas que fez nas suas peregrinações; e outras muitas circunstancias que bem mostraõ esta necessidade176.
Nas circunstâncias em que viviam os impérios europeus durante o século XVIII, numa constante corrida para a aquisição de novos conhecimentos sobre as terras já conhecidas, porém pouco estudadas e, também, para as que se esperava descobrir, recomendar o uso de um diário para anotações seria o método menos dificultoso de tomar nota do ambiente ao redor, na ausência de outros aparatos técnicos utilizados pelos cientistas, como a fotografia, que só foi descoberta no século seguinte. Em outro sentido, a escrita de um diário de viagem abria possibilidades de se localizar no tempo e no espaço as coletas já realizadas, haja vista que:
O Diario pois naõ he outra coisa mais, que hum livro de papel, ou outra qualquer materia, dividido em annos, mezes, dias, e horas, no qual se hiraõ notando os objectos, que se encontram ao passo do seu descobrimento com respeito ao anno, mez, dia, e lugar em que se achaõ, para que depois nas horas do descanço, se possaõ mais perfeitamente descrever177.
Além dessa utilidade, manter um diário de viagem durante o percurso terrestre aliviava as tensões dos viajantes-naturalistas, que por viverem meses ou mesmo anos longe da terra natal, por vezes no limite entre a vida e a morte, encontravam na escrita um modo de se manterem ainda dentro da realidade, que em diversas ocasiões parecem ser repetitivas, como se vivessem o mesmo dia continuamente, executando as mesmas tarefas “com uma minúcia
176 VANDELLI, Domingos. Viagens Filosóficas ou dissertação sobre as importantes regras que o Filósofo Natural
nas suas peregrinações deve principalmente observar. Academia de Ciências de Lisboa, série vermelha 405, 1779 apud CRUZ, Ana Lúcia Rocha Barbalho da. Verdades por mim vistas e observadas oxalá foram fábulas sonhadas: cientistas brasileiros dos setecentos, uma leitura auto-etnográfica. Tese (Doutorado em História) – Centro de Documentação e Pesquisa de História dos Domínios Portugueses, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2004. p. 277
repetitiva e habitual, fastidiosa, por vezes esgotante, interrompida por momentos de perigo ou medo178”.
Para cada situação deveria existir um modo diferente de trabalho, descrição e classificação. Assim, tomando os estudos botânicos sobre o Brasil como parâmetro de análise temos, segundo Vandelli que:
O Filosofo que viaja pela Europa deve ter lido, e levado mesmo em sua companhia a Flora dos Paizes, por onde for, que lhe possa servir de guia no conhecimento das plantas; porem o que viaja pelo Brasil destituido de todos estes socorros, vese metido no meio de hum mundo novo, ainda hoje taõ desconhecido, como no primeiro dia de seu descobrimento, se exceptuarmos alguma parte de sua costa observada por Pison e Maregraff e das producções, q’ saõ cõmuas a outra parte da America, investigadas por Plumier, Vansloan, Castesbas, Jachyn, só a observaçaõ, e a experiencia o podem por em estado de penetrar por este vastissimo paiz: a experiencia o confirmará nas suas tentativas, e a observaçaõ e contemplaçaõ da Naturesa, lhe ensinaraõ toda a Sciencia da H.N. A naturesa naõ erra nas suas obras, ela sabe regular os tempos, escolher o terreno, e procurar o clima saudavel ás suas produções. Se os homens a forçaõ a produzir em hum terreno as produções de outros, com difficuldade o faz, e enfadada dos mortaes, a perseguirem dá com maõ escassa os seus mais bellos dons, e o mais do trabalho deixa a todo o cuidado dos homens. Por isso devendo o Filosofo seguir a Naturesa na indagação das plantas, deve começar por conhecer a sua habitaçaõ, obsevando os lugares em que vegetaõ, os litoraes das fontes, dos Rios, as bordas das lagoas, das agoas encharcadas, os lugares humidos; as serras, rochedos, montes, campos, bosques, mattos, prados, pastos, e campos cultivados; se em areia seca, vulgar, farinacea, sabulosa, se em argilla, greda, humus, &c.: notará a que gráos da Equinocial vegetaõ entre os dois Tropicos, onde fica comprehendido o Brasil, ellas
178 BOURGUET, Marie-Noëlle. O Explorador. In: O Homem do Iluminismo. Direcção: Michel Vovelle. 1.ª edição,
Lisboa. Setembro, 1997. p. 230.
É imperativo afirmar que a escritura de um diário de viagem não seguiu um padrão homogêno ao longo dos séculos em suas características internas, ou seja, de conteúdo. Exemplo que destoa nesse sentido é o Diário de Viagem de Francisco Freire Alemão, presidente da Comissão Científica de Exploração e que também acumulou o cargo de chefe da Seção Botânica da mesma expedição de 1859. No seu texto, Freire Alemão tratou dos mais diversos assuntos, fugindo dos limites estabelecidos por Marie-Nöelle Bourguet, que, como vimos, indicou a escrita de um diário de viagem como uma atividade intimista, entre o viajante-naturalista em sua relação solitária com o ambiente ao redor. Como toda história se faz no seu presente, é preciso considerar as temporalidades específicas que norteiam o conceito de diário de viagem lançado pela autora francesa (século XVIII), com aquele tipo de diário elaborado pelo médico-botânico Francisco Freire Alemão na segunda metade do século XIX, conquanto Karoline Viana Teixeira aponte aproximações nas formas como o brasileiro manuseia o papel na hora da escrita com aquelas praticadas nos Setecentos. Ainda assim, a escritura apresentada no diário de viagem do comissionado versa de forma diferente devido à atenção que o autor dispõe para detalhes que poderiam passar facilmente despercebidos, como costumes, alimentação, arquitetura das cidades e das casas, indumentária da população, artefatos caseiros etc: “Na medida em que o diário de Freire Alemão prestava-se a várias funções, como crônica de percurso, descrição de paisagens, diário de campo botânico, registro de questões administrativas e espaço para desvelamento do íntimo e do inconfessável, analisar as condições materiais desse suporte pode nos trazer pistas relevantes sobre usos e procedimentos de escrita praticados pelo autor ao redigir uma representação e uma memória de uma fase excepcional de sua vida, como botânico e presidente da Comissão Científica de Exploração. Um diário que, diferentemente dos que acompanham um percurso de vida, tem começo e fim, e portanto pressupõe certo trabalho de composição perante o fecho temporal pré-determinado dessas ‘recordações para outros tempos’, como sublinha seu autor. Uma materialidade que testemunha os esforços de seu redator em articular, num todo coerente e contínuo, o trabalho do naturalista, a reações fisiológicas a um determinado ambiente ao qual não estava adaptado, as dificuldades do deslocamento e as relações sociais, por vezes marcadas por distanciamentos necessários e proximidades excessivas”. TEXEIRA, Karoline Viana. A seiva e o traço. Configurações da memória na escrita do diário de viagem do botânico Francisco Freire Alemão (1859-1861). Tese (Doutorado em História) – Centro de Humanidades, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2017. p. 284.
daõ-se milhor: o tempo, em que principiaõ e acabaõ de fazer os seus renovos, e se largaõ a folha em determinados tempos do anno, como saõ algumas, ainda que raras do Brasil; se frutificaõ perennemente, sucedendo continuamente a flor do fruto, ou se