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Formou-se em direito? Eu dizia não. Formou-se em engenharia? Não. Formou-se em medicina? Não. Mas, então, que

diabo você fez com dinheiro do seu pai no estrangeiro? (Gilberto Freyre) 3

A presença e o potencial da ciência aplicada foram sentidas no Brasil nas primeiras décadas do século XX, mas não houve um equacionamento adequado para a formação científica dentro do país, 4 segundo a uma clássica abordagem da historiografia da ciência brasileira. Derrotado intelectualmente na área estritamente científica, o positivismo continuou por várias décadas do período republicano como “ideia-força de engenheiros, técnicos intelectuais, que identificam, na organização de um Estado forte e centralizador e no

                                                                                                                         

3 FREIRE,1985. In: SBPC, Cientistas do Brasil: depoimentos, 1998. p.119. 4 SCHWARTZMAN, 1979, p. 161

 

pragmatismo da técnica a forma de realização de seus ideais”. 5 Na visão de Schwartzman (1979), o desenvolvimento da ciência encontrou como barreira o Estado Novo (1937-1945), pois a visão pragmática e centralizadora que prevaleceu nesse período, colocou à margem das prioridades a questão do desenvolvimento da ciência em "reais" universidades com associação ensino-pesquisa.6

Segundo Andrade (2001), foram numerosas as lutas de intelectuais e professores do ensino superior, inclusive de escolas militares, para se organizarem em defesa da fundação de institutos de pesquisa e defender a pesquisa nas universidades. Foi o caso da Sociedade Brasileira de Ciência (1916), logo depois denominada Academia Brasileira de Ciências (1921), e da Associação Brasileira de Educação (1924). Na década de 30, o processo de profissionalização de grupos dedicados à pesquisa e ensino se concretiza na criação da

Universidade de São Paulo em 1934.7 O contexto mais amplo em que a SBPC foi fundada era

de mobilização política da sociedade brasileira após a Segunda Guerra Mundial. 8

Ao convite de Paulo Sawaya, Maurício Rocha e Silva e José Reis atenderam 60 pessoas que se reuniram no auditório da Associação Paulista de Medicina. Registraram que os movia o mesmo impulso que em outros países levou os cientistas a criarem instituições con-

gêneres9. Criaram a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em 8 de julho de 1948.

O grupo de cientistas da SBPC, nos tempos da fundação, era ligado às ciências naturais e especialmente ao campo das ciências da saúde e da biologia.

                                                                                                                          5 SCHWARTZMAN, 1979, p. 189. 6 Ibidem. p. 188. 7 ANDRADE, 2001, p. 1-2, SCHWARTZMAN, 1979. 8 Ibidem, p. 5

9 Quando a SBPC foi proposta, Maurício Rocha e Silva havia participado de reunião na American Association

for Advancement of Science (AAAS) em Nova Iorque. Em 1950 é publicada em Ciência e Cultura uma nota

sobre a “Federação Mundial de Sociedades para o Progresso da Ciência”, proposta pela Associação Francesa, a ser criada com a ajuda da UNESCO, durante a Assembleia Geral do Congresso de Genebra, realizado em 15 de junho de 1948 (alguns dias após a criação da SBPC). Trechos da proposição esclarecem: "As associações

constituíram-se, sucessivamente, nos países de espírito liberal e verdadeiramente democrático, onde se compreendeu que a ciência não deveria permanecer esotérica, mas que sua difusão ao público não iniciado, deveria contribuir para a elevação da cultura intelectual e a melhoria do nível moral e social. Assim, fundaram-se, sucessivamente, a Associação Britânica para o Progresso da Ciência (1831); Associação Americana para o Progresso da Ciência (1849); Associação Francesa (1871); Associação Australiana e Neozelandesa (1889); Associação Sul-Africana (1903); Sociedade Italiana (1907); Associação Espanhola (1907); Associação Canadense (1932). Atualmente assiste-se, em diferentes países, a criação ou crescimento de tais associações”. (Ciência e Cultura, 1950, pp. 154-5)

  Apesar de entre os membros fundadores da SBPC constarem o advogado Jorge Americano e o educador Anísio Teixeira, a participação das ciências sociais na instituição foi pouco expressiva até a década de 70.

Segundo José Reis, em entrevista a Ana Maria Fernandes, em 1984, a ideia da Sociedade foi dele, mas quem de fato se moveu para realizá-la e se tornou o membro mais ativo foi Maurício Rocha e Silva. Segundo Reis, Maurício tinha, no início, a tática de colocar como presidente pessoas eminentes, mesmo que não fossem diretamente pesquisadores, e ele como vice-presidente ou presidente executivo10.

Sobre o fato dos cientistas sociais não participarem da SBPC, José Albertino

Rodrigues11, primeiro sociólogo membro da diretoria (1981-1983), diz:

Quando se criou a SBPC, eu me lembro, eu estava entrando na universidade, eu olhava assim a SBPC como uma coisa do cientista, que eu não era o cientista... E os outros cientistas sociais eles mantiveram naquela, eu até diria, um certo preconceito que eles tinham ou ainda têm em relação aos cientistas, de que são alienados, o cientista de laboratório é um alienado que só cuida dos seus tubos de ensaio, da suas maquininhas, dos seus animais de laboratório e não cuidam do óbvio, não cuidam dessa categoria social muito ampla e indefinida, e então eu culpo em parte os cientistas sociais por terem se mantido à margem, e a vinda desses cientistas para SBPC foi uma vinda em grande parte provocada pela situação política.

O entrevistado atribui a entrada das ciências sociais na SBPC ao momento agudo de repressão pós-AI-5, quando muitas ações do governo cerceavam a liberdade de expressão dos cientistas sociais em seus meios de comunicação. Cita, como exemplo, o fechamento da revista Argumento pelo ministro da Justiça Armando Falcão. Segundo José Albertino, os cientistas sociais, que estavam sob a mira da repressão desde 1964 “porque se confunde, sobretudo, sociologia e socialismo”12, perceberam que eles tinham na SBPC a possibilidade de fazerem ouvir sua voz, atuando num campo que lhes seria próprio, as reuniões científicas por ela promovidas. O ano de 1974 foi considerado o marco da entrada das ciências sociais na

                                                                                                                          10

Depois criou-se a figura do presidente de honra e Rocha e Silva e outros passaram a ser realmente os presidentes.

11 RODRIGUES, José Albertino. Entrevista concedida a Ana Maria Fernandes. 12 FERNANDES, 2000, p. 180-181.

  SBPC, pelo número de participantes na Reunião Anual, sobretudo de pessoas representativas das ciências humanas.

Coerentemente com a intenção de conquistar maior respeito e prestígio junto ao Estado e à opinião pública, a SBPC não se propunha a ser sociedade apenas de cientistas, muitos menos de cientistas naturais apenas. Apesar destes terem prevalecido nas duas primeiras décadas, a Sociedade apresenta-se com o intuito de se tornar "empresa em que cientistas se irmanarão com os não cientistas, porém amantes da ciência".13

A SBPC não impõe qualquer exigência ou restrição de ordem técnica para admissão de novos sócios. Estes últimos não devem ser necessariamente cientistas e grande percentagem deles são pessoas apenas interessadas no progresso da ciência. Às reuniões anuais comparecem amigos da ciência, pessoas apenas curiosas nos assuntos que se vão debater, pessoas das famílias dos cientistas... O desinteresse ou mesmo hostilidade ao cientista que eram observados em tempos idos, vai se transformando em reconhecimento, que se traduz por maior amparo dado à ciência pelos poderes públicos e pelo respeito com que o público aflui às reuniões em que se debatem seriamente assuntos científicos.14

O conselho editorial trata do “sentimento de solidariedade e compreensão"15 que almejava conquistar junto ao público, agradecendo a doação do industrial Francisco Pignatari, que sustentou a edição de Ciência e Cultura durante seus três primeiros anos. Manifestações desse tipo seriam sempre bem vindas. Mas o que a SBPC almejava mesmo era “colocar a ciência em seu devido lugar”16: conquistar prestígio suficiente para não precisar pechinchar apoio financeiro, que solicitava que fosse proporcionado aos cientistas pelo governo para que fizessem ciência (basicamente pura) no Brasil. Discussões sobre onde a ciência deveria ser feita, em que condições, com que propósitos, enfim, um plano geral para o desenvolvimento da ciência e seu papel para o progresso do país é o que encontramos lendo Ciência e Cultura.  

                                                                                                                          13

CIÊNCIA E CULTURA,1949, p.3. 14

CIÊNCIA E CULTURA,1952, p.68 (grifo nosso). 15 CIÊNCIA E CULTURA,1949, p.3.

  Como primeiros objetivos a SBPC estabelece:

a) justificação da ciência, mostrando ao público seus progressos, seus méto- dos de trabalho, suas possibilidades e até mesmo suas limitações, buscando criar em todas as classes e, consequentemente na admiração pública, a atitude de compreensão, apoio e respeito para as atividades de pesquisa; b) robustecimento da organização científica nacional, pela melhor articulação dos cientistas, pelo seu mais íntimo conhecimento mútuo, pelo incentivo à formação de novos pesquisadores e ainda pela remoção de entraves que se opunham ao progresso da ciência;

c) luta pela manutenção de elevados padrões de conduta científica;

d) assumir atitude definida e ativa de combate no sentido de assegurar, contra possíveis incompreensões, a liberdade de pesquisa, o direito do pesquisador aos meios indispensáveis de trabalho, à estabilidade para realização de seus programas de investigação e ao ambiente favorável à pesquisa desinteressada.17

O nome da revista tem mensagem clara e direta, que só precisaria de um acento agudo para poupar maiores explicações: Ciência é Cultura. "A SBPC bate-se pelo princípio de que a ciência, como qualquer outra atividade cultural, é essencialmente super-regional e internacionalista".18

Concordamos com a análise de Fernandes (2000), de que existem duas dimensões principais na ciência delineada pela SBPC dos primeiros anos, uma dimensão

internacionalista19 que se articula com uma dimensão nacionalista da ciência.

A SBPC apreciava a intenção de colocar o Brasil no rumo do desenvolvimento científico, integrando a ciência nacional ao cenário internacional, o que se concretizava por meio de convite a professores estrangeiros para centro de pesquisas e universidades brasileiras e por meio de viagens da comunidade brasileira ao exterior. O interesse em buscar diálogo e parceria com interlocutores estrangeiros existia, com foco na Europa e nos Estados Unidos, valorizando-se o grau em que os cientistas brasileiros podiam aperfeiçoar-se nestas                                                                                                                          

17 CIÊNCIA E CULTURA,1949, p.1-3. 18 CIÊNCIA E CULTURA,1949, p.73-74. 19

Esta foi uma tendência que se consolidou após a II Guerra de conceber o modelo ocidental, especialmente o norte-americano, como parâmetro de desenvolvimento intelectual, profissional e institucional, alimentada por agências de cooperação internacional e por fundações privadas, sobretudo as norte-americanas.

  oportunidades. O interesse se dava também pela publicidade que o contato com instituições estrangeiras proporcionava, principalmente mostrando quando a comunidade brasileira era considerada significativa, especialmente em países como França e Itália, de antigas afinidades culturais e intelectuais com o Brasil.20

Por outro lado, existia também uma dimensão da ciência nacionalista, ainda mais enfaticamente defendida pela SBPC. Essa se expressou como conscientização da condição de fazer ciência num país subdesenvolvido e dependente, junto com um sentimento de atraso da ciência em relação aos países de primeiro mundo. O desenvolvimento da ciência era visto

como trilha para superar o subdesenvolvimento e alcançar o progresso.21 Em torno do desejo

de contribuir para o desenvolvimento da nação, a questão da energia nuclear foi um tema central para mobilizar a comunidade científica22 e colocá-la em articulação com segmentos diversos, dados os interesses econômicos potenciais deste campo. A SBPC defendia que era necessário fortalecer a ciência nacional e para isso o Brasil precisava criar seus intelectuais nacionais23

Benzer Belgeler