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O que acontece na sociologia, política, antropologia, psicologia, história, etc, é a mesma diversidade de paradigmas que originaram teorias diversas e até conflitantes entre si e que aí estão hoje se realizando em escolas, tendências, linhas, etc, dentro de cada uma das Ciências Sociais. Se não existe integração teórica nessas ciências, como esperar que exista no campo da comunicação?” Maria Immacolata Lopes. P.90 (ver www.educacaoonline.pro.br) Em todo este trabalho, onde de encontram (e desencontram) percursos teóricos, a complexidade das linhas de pensamento formam a teia que configura todo um emaranhado kafkaniano de coisas, gentes e lugares que acabam, ao final, se desnudando em belezas e justificando os tempos e as angústias geradas em todo processo criador. É dentro desse universo amorfo, imperfeito, desmedido que se posicionam as duas principais correntes da pesquisa em comunicação, ditos funcionalistas e marxistas. O funcionalista apela para o modelo estímulo-resposta, que coloca o receptor como passivo, apesar dos funcionalistas Lazarsfeld e Merton já se referirem à “disfunção narcotizante dos meios massivos”. No fim dos anos 60 e início dos 70, a semiologia estruturalista coloca a ideologia como objeto e sujeito dos discursos e os receptores como alienados e passivos, afinal, os meios seriam conduzidos pela ideologia.

Também nos anos 70, surgem os projetos de “leitura crítica da comunicação” (LCC), tendo como pressuposto teórico a matriz marxista que concebe os produtos culturais como dependentes da sustentação material e dentro da lógica capitalista. A LCC se propunha, na visão de Fausto Neto, a “preparar criticamente o campo da recepção destituído dos meios capazes de enfrentar o 'bombardeio alienante' da comunicação de massa para defendê-lo dos perigos das práticas da indústria cultural. Nesse modelo, a recepção é situada numa perspectiva passiva e, de certa forma, é uma “caixa vazia”, a despeito do matiz ideológico.”

O campo político, poluído de regimes ditatoriais e autoritários, principalmente na América Latina dos anos 60 e 70, produziram dentro do contexto das pesquisas em comunicação amparada nas teorias da reprodução, um encantamento pelas obras referenciais de Bourdieu, Passeron e Althusser. “Ideologia e aparelhos Ideológicos do Estado”,

produzido pelo último, tornou-se a “ponte” onde se agarraram uma leva de intelectuais, o que gerou a produção de inúmeros trabalhos acadêmicos nas áreas da educação e da comunicação.

Um desvio dentro do paradigma marxista foram os trabalhos de Gramsci, focados no dualismo hegemonia e cultura, e que gerou uma intensa discussão teórica no Brasil em função do “deslocamento” que os frankfurtianos realizaram da análise do “traidor” ao fazerem “a denúncia dos mecanismos manipuladores e reprodutores de uma indústria cultural controlada pelo regime ditatorial, ao mesmo tempo que através dela se tinha explicação para a passividade e alienação das massas” (Lopes, 1990: 57). A academia, no período, se apropria de Gramsci para renovar as pesquisas sobre o popular e o massivo na teoria da comunicação.

Dentro dessa perspectiva ebulitiva, os autores brasileiros e latino- americanos deram uma contribuição importante para a “massificação” da Teoria da Recepção que, entre outros afastamentos, critica a tese de passividade e de manipulação do receptor pelo meio. Atuando no universo popular, os estudos realizados pelos subdesenvolvidos e emergentes abaixo da Linha do Equador, delineiam uma complexa e multifacetada teoria da recepção que desloca os eixos básicos de reflexão dos meios às mediações. Guilhermo Orozco, dentre as várias linhas de investigação, sugere modelos teórico-metodológicos tais como os usos sociais, consumo social, etnografia, jogo, a telenovela, a educação para os meios e as múltiplas mediações, sendo os três últimos importantes contribuições dos estudos latino-americanos. Já na conexão entre meios e audiências, as principais correntes teórico- metodológicas são as pesquisas dos efeitos, a dos usos e gratificações, os estudos da crítica literária, os estudos culturais e os estudos da recepção.

A pesquisa sobre os efeitos tenta encontrar respostas através de instrumentos de medida da psicologia experimental e social, o que fazem os meios com os indivíduos. A dos usos e gratificações analisa o que os indivíduos fazem com os meios, propõe compreender a utilidade da informação recebida dos meios de comunicação de massa e das mídias alternativas e como a audiência utiliza essas informações no quotidiano. Na mediação múltipla, ferramentas de Barbero e Orozco, entre outros, a recepção é entendida como “não-linear” e sem unicidade, ocorrendo em vários percursos e está condicionada a questões e valores culturais, sociais, políticos, históricos, enfim, é

“atravessado” pelo ambiente e pela memória.

Para Maria Immacolata Lopes, no Brasil, ainda estamos engatinhando:

A hegemonia do paradigma funcionalista nas pesquisas em comunicação, aponta Lopes, tem sido um fator importante para a insuficiência da crítica cultural e política nas pesquisas empíricas qualitativas. Se a recepção é percebida no contexto “complexa e contraditória, multidimensional no cotidiano das pessoas” e por este cotidiano estar inscrito em relações de poder culturais e históricas que extrapolam a prática do receptor, ela não pode ser analisada apenas como processo redutível ao psicológico e ao cotidiano, mas é profundamente cultural e político. O processo de recepção deve ser visto como articulação de processos subjetivos, objetivos, micro e macro estruturais. “A produção e reprodução social do sentido envolvida nos processos culturais não é somente uma questão de significação, mas também uma questão de poder” (1993:85).

Crítico da mecanicidade da comunicação, que tem no emissor como condutor do processo, cabendo ao receptor apenas reagir aos estímulos, Barbero compreende a recepção como um lugar novo sujeito as várias mediações/destempos ou heterogeneidade de temporalidades; 2) novas fragmentações sociais e culturais; 3) exclusão cultural; 4) demandas sociais.

A mediação via destempos, relaciona-se à multiplicidade de temporalidades, de histórias, com seus próprios ritmos e suas próprias lógicas. Há temporalidades de formação cultural, de classes sociais, das raças, das gerações, dos gêneros, etc, tanto em dimensão macro como micro e estas diferentes dimensões desta mediação interferem na recepção de uma dada mensagem.

No caso do Brasil, a pesquisa de recepção ainda necessita desenvolver uma experimentação metodológica de multi-métodos através de projetos integrados multidisciplinares que procurem combinar os avanços teóricos com as construções empírico- descritivas, e que realizem uma interpretação crítica, cultural e política dos processos de recepção da comunicação, a fim de que possam firmar uma ótica teórica compreensiva. (...) A abordagem teórico- metodológica da recepção apóia-se, basicamente, nas perspectivas das mediações e do cotidiano. (1996:43)

As novas fragmentações sociais e culturais dizem respeito aos motivos e modos das pessoas se juntarem em grupos e se reconhecerem como tal. Referem-se também às fragmentações de como as informações são recepcionadas conforme a divisão social: há informações dirigidas aos coordenadores do Projeto Ciranda que tomam as decisões e coordenação e informações aos vários targets que compõem a massa que buscam o lazer do projeto.

Quando se insere a cultura popular no universo do “brega”, do mau gosto, ocorre a mediação pela exclusão cultural. As necessidades sociais de categorias intelectuais e de setores populares jamais foram analisadas sob o ponto de vista de uma política de comunicação, o que resulta em lapsos, em ruídos na veiculação das informações através das mídias.

Importante destacar como relevante a mediação do cotidiano familiar, uma vez que as práticas que aí se constituem são entendidas como vetores fundamentais para pensar e capturar as lógicas de recepção. No campo da comunicação, a redescoberta do popular, a proposição da cultura como lugar de articulação dos conflitos, de construção da hegemonia, das práticas dos sujeitos como espaços de operação de apropriações e não apenas de reprodução social resgata o cotidiano como espaço de reflexão. Cabe aqui o conceito de habitus de Bourdier, que remete a um distema de disposições duráveis que se constrói ao longo da trajetória dos sujeitos na sua condição de classe e que, integrando todas as experiências passadas funciona como matriz de percepções, de apreciações e de ações. O habitus seria produzido pelas condições materiais de existência relativas a uma condição de classe; funcionaria como uma matriz ordenadora das práticas e de sentidos que, deste modo, tenderiam a reproduzir as condições objetivas da sua produção. O habitus exprime as necessidades objetivas das quais é produto sob a forma de preferências sistemáticas, estando na base da ordenação dos estilos de vida o que inclui os consumos de produtos culturais. (Bourdier, 1991,1994a, 1994b). Por outro, dificulta a apreensão de competências culturais que transcendem o modelamento relativo à condição de classe, como aquelas constituídas pela hibridação das tradições de classes, etnias e nações que tem lugar na modernidade, e que são potencializadas também pela mídia (Garcia Canclini, 1997). Impede de se pensar as mestiçagens de que somos constituídos, como nos lembra Martín-Barbero (1997), as misturas que revolvem, por exemplo, o rural e o urbano, o popular e o

massivo. Impede também de se apreender competências culturais configuradas por outras vias, como a cultura étnica, cujos referentes tem uma longa história, a vigência destas matrizes culturais se inscrevem, também, no consumo e nos modos de apropriação.

Em Rio Verde, mais do que em qualquer outro município goiano, ocorre uma diversidade étnica e cultura extremamente vigorosa. Se a base é de descendentes de mineiros que ocuparam a região no século XIX através da criação de gado, as últimas décadas do século passado presenciaram a invasão de brasileiros oriundos de São Paulo e do Rio Grande do Sul que, juntamente com a tecnologia, trouxeram seus habitus para a nova terra, modificando-a, transformando-a em todos os seus poros sociais. Unam-se a essa leva de brasileiros de “outros lugares”, russos ortodoxos, holandeses protestantes e norte- americanos menonitas que criaram colônias na região para a produção de soja, milho e sorgo, produzindo “gentes” híbridas, complexas, “esquisitas”, que transformaram a região num lugar diferente, contraditório, no cerrado de Goiás.

Nessa dialética, Orozco nos sugere que a recepção é uma complexidade, ambígua e contraditória, onde a relação dos receptores com os meios e as mensagens é mediatizada de forma unilateral e multidimensional. Para o pesquisador, as mediações são classificadas em cognoscitivas, estruturais, situacionais e institucionais.

As cognoscitivas se referem às informações obtidas via meios e que incidem no processo de conhecimento. As institucionais dizem respeito aos cenários onde ocorre a recepção. As mediações que acontecem no momento de ter contatado com a mensagem no momento de se expor à mídia são chamadas de situacionais e as mediações estruturais são sistematizadas como aquelas que conformam a identidade do sujeito receptor, tais como a classe social, a etnia, idade, sexo, etc.

Outro componente fundamental para o real entendimento das culturas populares é a percepção da hegemonia. Dialogo com Gramsci que permite pensar o processo de dominação social não como imposição externa e sem sujeitos, mas como a capacidade de organizar e manter a coesão social, o que implica, além da coerção, o consenso. Uma classe hegemoniza na medida em que articula em suas propostas interesses advindos também das classes subalternas. A hegemonia é construída permanentemente, num processo vivido, de sedução e cumplicidade. O conceito permite ver que nem tudo o que os sujeitos fazem serve à reprodução do sistema e implica uma reavaliação da espessura do

cultural, que passa a ser visto como um campo estratégico de luta (Martín-Barbero, 1987 e 1997).

Dentro desta visão gramsciana, Barbero (1997) alerta que é necessário não interpretar rigidamente a oposição hegemônico/popular, que nem sempre se organiza sob a forma de enfrentamentos. Gramsci complementa e nos ensina a prestar atenção à trama: nem toda assimilação do hegemônico significa submissão, nem toda recusa é resistência e nem tudo o que vem do hegemônico são valores da classe dominante. É preciso reconhecer a interpenetração entre o hegemônico e popular e os resultados ambivalentes que sua mistura produz. E ainda os movimentos simbólicos que engendram processos que não se deixam ordenar por classificações de hegemônico e subalterno, de moderno e tradicional: é para esta ordem de fenômenos, de mesclas culturais, que Garcia Canclini propõe o conceito de culturas híbridas e Martín-Barbero de mestiçagens (Martín-barbero, 1997; Garcia Canclini, 1997).

Benzer Belgeler