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Lage (1990, p.35) afirma que “o jornalismo se propõe a processar informação em escala industrial e para consumo imediato”. A relação entre informação e notícia assumiu, portanto, uma conotação mercadológica. O jornalismo adquiriu um poder inquestionável de informar e de formar o leitor, pois ao mesmo tempo em que se apresentava como algo necessário à sua condição de ser social, de cidadão, manipulava a informação de modo a exercer uma influência psicológica sobre esse leitor.

De acordo com Silva (2004b), a manipulação é vista como parte integrante, necessária em qualquer transmissão jornalística25. O autor afirma também que a preocupação com essa manipulação do texto da notícia suscitou inúmeras discussões sobre a ética profissional de captação e transmissão das notícias e sobre a necessidade de se adotar princípios de imparcialidade e equilíbrio que a norteassem.

Isso fez surgir o interesse pelo que viríamos a conhecer como noção de objetividade, que, no entanto, só passou a ser utilizada na imprensa a partir 1930. Outros fatores se somaram à busca pela objetividade26 no texto jornalístico, como a clareza, a concisão e a precisão na estrutura textual do fato relatado.

Silva (2002, p.19) afirma que, “na realidade, a grande mudança no jornalismo dá-se a partir do impacto da Segunda Guerra Mundial e da invenção do rádio, impulsionando um novo conteúdo jornalístico atual, universal e com significação voltada ao aparecimento de

25 Em nossa opinião a questão da manipulação pode ter, pelo menos, dois sentidos distintos: o de apresentar a

informação da maneira mais eficaz possível ou a de “manobrar” a informação segundo os interesses da Instituição Jornalística. A diferença entre um ou outro sentido poderá depender, principalmente, do assunto noticiado.

26 A questão da objetividade (assim como a da parcialidade) no texto da notícia tem sido bastante discutida, pois

a simples decisão de se apresentar um relato por uma perspectiva e não outra, já envolve uma série de conhecimentos, crenças e intenções do jornalista e/ou da Instituição Jornalística que representa. Não é possível ser plenamente objetivo/imparcial, mas a linguagem possibilita que se mantenha um mínimo de distanciamento na forma de se organizar a informação a ser transmitida.

uma nova audiência: a grande massa”. A referida autora explica que, com o surgimento das agências de notícias internacionais, a utilização do telégrafo e a veiculação de informações atualizadas, o texto noticioso passou a exercer papel de destaque, voltando seu conteúdo para o concreto, o imediato. A produção individual foi substituída por uma produção coletiva, elaborada por uma equipe de repórteres, para atender à necessidade cada vez maior do público leitor por notícias novas27.

Com isso, a notícia ganha um status, uma relevância no jornalismo. Lustosa (1996) define a notícia como “técnica de relatar um fato” e afirma que ela é considerada como a matéria-prima do jornal, como “informação transformada em um produto de consumo”, que existe para atender à necessidade básica do cidadão de obter informações que estejam amplamente relacionadas a aspectos de sua vida cotidiana. Segundo o autor (idem, p.35):

A informação apenas vai se tornar um produto de consumo após ser maquiada e devidamente elaborada pelo jornalista a partir de técnicas capazes de torná-la atraente e interessante. A informação deve assumir um caráter universal, isto é, deve ser inteligível ou passível de codificação por pessoas de diferentes níveis culturais, profissões ou repertórios.

Para assumir esse caráter universal, a linguagem jornalística estabelece restrições pragmáticas de ordem lingüística, textual e ideológica, determinadas pelas circunstâncias da relação entre jornalista e público. Tais restrições estão relacionadas, segundo Lage (1990, p.34), com os registros de linguagem, com o processo de comunicação e com os compromissos ideológicos.

Sobre os registros de linguagem, busca-se uma conciliação entre o registro coloquial e o registro formal de forma que se chegue a uma comunicação eficiente e ao mesmo tempo aceita socialmente. Quanto ao processo de comunicação, a linguagem jornalística é referencial, “fala de algo no mundo, exterior ao emissor, ao receptor e ao processo de comunicação em si”. (idem, p. 39) Aqui se estabelecem alguns usos: a exigência do uso da terceira pessoa, as restrições ao uso de adjetivos testemunhais e subjetivos, o fornecimento de dados que façam o leitor tirar suas próprias conclusões, a presença de palavras que indicam precisão, entre outros.

27 Com o advento da internet, presenciaremos mudanças ainda maiores no processo evolutivo do gênero notícia,

pois, como afirma Castilho (2005), “à medida que a web caminha para projetos multimídia em ambiente de convergência de meios, ficam mais evidentes as deficiências da transposição de textos impressos para a internet.” Como ainda não há um modelo padrão para os textos da notícia no meio virtual, tem-se mantido essa transposição: nos sites dos jornais dos quais colhemos o corpus, apresentam-se as mesmas notícias do exemplar impresso, com modificações (cortes) eventuais, quando necessário reduzir sua extensão em função do espaço (diagramação) em que serão inseridas.

Finalmente, quanto aos compromissos ideológicos, Lage (1990, p.42) diz que as “grandes e pequenas questões da ideologia estão presentes na linguagem jornalística, porque não se faz jornalismo fora da sociedade e do tempo histórico”, ou seja, de acordo com o autor, não há como “fugir” da ideologia ao se construir um texto jornalístico. Por conta disso, importa fazer escolhas conscientes das expressões a serem utilizadas, considerando a conseqüência de tais escolhas (por exemplo, em séries como: soldado, guerrilheiro, terrorista), pois, ainda que implicitamente, cada uma delas representa uma tomada de posição, um valor ideológico28.