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Esta seção tem por finalidade – antes de partir para a problematização das questões colocadas – expor a trajetória dos ex-alunos entrevistados, que participaram direta ou indiretamente do empreendimento de produção do impresso analisado. Isto porque as falas dos alunos se pautaram, em certa medida, ao longo das entrevistas, pela atuação individual dos mesmos no que se refere tanto à época em que o jornal Sud Mennucci foi publicado, quanto aos momentos posteriores de suas vidas. Estas trajetórias ajudam na compreensão dos posicionamentos atuais dos entrevistados frente à determinada atuação no passado, como a articulação do grupo de alunos para produzir um impresso escolar, problema e questão central desta pesquisa. O olhar sobre as memórias tem que contar com o componente da experiência de vida posterior do entrevistado, na qual ocorre a construção da memória individual, com os pontos de seletividade ressaltados por Pollack (1992). O autor ressalta inclusive que as preocupações do momento constituem elementos de estruturação da memória (POLLACK, 1992, p. 203).

Desse modo, se justifica analisar – por meio das memórias dos próprios entrevistados – a trajetória profissional dos ex-alunos que conseguimos entrar em contato: Gustavo Jacques Dias Alvim, Luiz de Almeida Mendonça, dois ex-alunos que pertenceram ao grupo que se articulou para produzir o jornal escolar em 1952, e Marly Therezinha Germano Perecin, historiadora que foi responsável pela “escrita institucional” da história da escola na cidade de Piracicaba. Além de ser considerada uma das autoras que contribuiu para a construção da memória de excelência da instituição, também foi aluna do Instituto nos anos em que o jornal foi produzido e publicado.

Gustavo Jacques Dias Alvim, ex-aluno do Instituto de Educação Sud Mennucci, é professor e reitor da Universidade Metodista de Piracicaba. Seu nome apareceu no impresso como orador do Grêmio Normalista e como um dos redatores do jornal escolar. Em alguns exemplares dos jornais, Gustavo aparece no discurso de posse do Grêmio como porta-voz das melhorias no espaço do educandário, como, por exemplo, da construção de novas salas de aula no Instituto de Educação, no ano de 1953.

Durante a entrevista, o professor, contando as lembranças do empreendimento do jornal escolar O Sud Mennucci, falou um pouco de sua trajetória de vida e sua relação com o jornalismo. Segundo ele, sempre “mexeu com jornal, desde criança”. Inicia contando sobre sua relação com a mocidade metodista na sua infância e o gosto pela escrita. Nesse período, segundo ele, também se envolveu com a feitura de jornais para a Igreja. Continua dando exemplificações de seu envolvimento com a imprensa:

E todo lugar que eu me meti, eu acabei mexendo com jornal. Por exemplo, em São Paulo eu fiz bacharelado em Sociologia e Política e lá, no Centro Acadêmico, tinha um jornal, do qual fui redator. Eu tenho jornal daquela época nos meus arquivos. Trabalhei na Dedini e nessa empresa eu criei um jornal; escrevi muito nos jornais locais, revistas, tenho muita coisa publicada. Inclusive o jornalismo sempre foi uma coisa que esteve dentro de mim. Eu quando fui pra São Paulo estudar, o meu primeiro emprego lá foi numa revista, que era uma revista da mocidade metodista do Brasil. Comecei como revisor, depois de um ano e pouco, eu já era redator e logo em seguida fui diretor da revista: aí eu trabalhei uns cinco anos. (Gustavo Jacques Dias Alvim, entrevistado.)

Continua contando que em Piracicaba foi sócio de Cecílio Elias Neto na fundação do jornal A Província, tendo trabalhado com o escritor durante dois anos. Após isso apresentou sua formação profissional, sempre mostrando o envolvimento com o jornalismo:

Em São Paulo eu fiz também Direito e Publicidade e Propaganda, quando este curso ainda era livre. Curso que foi semente do ESPM. Depois que eu estava pra cá trabalhando, eu fiz Administração. Na época a gente conseguia, sendo advogado, fazer o curso num tempo mais curto. Eu fiz em Bragança Paulista, para onde eu viajava, fiz Jornalismo aqui mesmo na Unimep. Jornalismo eu cursei assim mais por diletantismo. Eu gostava tanto que dava aula no curso também. Então eu dava aula e era aluno. Eu fui o primeiro diretor do primeiro curso superior da instituição há cinquenta anos. E outra coisa que eu quero contar: essa vontade de estar no jornalismo é tão grande que, quando fiz o meu doutorado, eu fi-lo em Comunicação e Semiótica na PUC de São Paulo, com ênfase no jornalismo

e eu transformei a minha tese num livro que conta toda a história do Diário de Piracicaba. (Gustavo Jacques Dias Alvim, entrevistado.)

A formação em várias graduações, envolvida com a constante relação com o jornalismo em sua trajetória de vida, explica sua disposição durante o processo da entrevista. O professor se preparou com antecedência, visto que foi enviado um roteiro com as perguntas que seriam feitas aos ex-alunos59. Chegou à sala com uma folha toda escrita com as respostas que ele havia construído sobre as lembranças do empreendimento e foi contando suas impressões, de acordo com o que estava escrito no papel. O posicionamento como intelectual e sua estreita relação com o jornalismo se torna evidente, tendo inclusive defendido uma tese que conta a história do jornal local, Diário de Piracicaba. Isso talvez ajude a explicar seu posicionamento frente às questões que foram colocadas e a maneira como este sujeito tratou de respondê-las, “versões” inseridas logo adiante, no presente capítulo.

Luiz de Almeida Mendonça é considerado pelos ex-alunos entrevistados como o grande articulador do empreendimento do jornal. Aparecia nos exemplares como o diretor- fundador do mesmo. Não escreveu textos no impresso, mas, segundo suas memórias, foi o responsável pelo pagamento da impressão do jornal e pela circulação, tanto dentro quanto fora do espaço do Instituto de Educação. Apresentou uma memória técnica e operacional sobre o processo de constituição e produção do jornal escolar. Não fez análises aprofundadas como os outros entrevistados em relação ao contexto de produção dos impressos e também ao processo de formação dentro da escola, esmiuçado e discutido nas outras falas. Sobre a sua trajetória e formação profissional, falou ao fim da entrevista quando foi questionado sobre a sua formação no Instituto de Educação Sud Mennucci: “Eu fiz advocacia. Mais eu fiz advocacia

depois de alta idade, depois de velho. [...] Na escola normal, no Sud, eu não terminei, eu fui trabalhar em São Paulo, queria casar”(Luiz de Almeida Mendonça, entrevistado).

Acentua ao longo de sua fala que iniciou os estudos na faculdade no momento em que o filho passou no vestibular para medicina. Sobre suas experiências após a escola, Luiz Mendonça conta sobre suas vivências no campo da educação:

59 Interessante notar aqui que foi este ex-aluno o responsável por ceder-nos os outros exemplares que não

estavam presentes no arquivo da escola. O professor, segundo me contou informalmente, tem todos os números dos exemplares guardados em sua casa. Num primeiro contato, logo no início da pós-graduação, ele me cedeu os exemplares de número três e de número sete. Ao longo desta entrevista, chegou à conclusão de que havia mais três exemplares, que fechavam o empreendimento em uma série de onze publicações. Acredito que neste movimento de se preparar para responder às perguntas da entrevista, chegou à conclusão – talvez procurando em seus arquivos pessoais – de que o tempo de duração do jornal foi até dezembro de 1954. Assim, ficou visível nas ações deste entrevistado a enorme atenção que ele deu à documentação histórica e ao valor destes registros.

E em 1955, os Mendonça saíram de Piracicaba e foram para Curitiba. Eu já trabalhava no Bradesco em São Paulo. Então eu tava em São Paulo porque eu namorava e depois eu mudei pra Curitiba também. Quando casamos fomos morar em Curitiba. E lá eu criei o Instituto Mendonça de ensino e era dez anos antes do CLQ, pra dar aulas de reforço pra cursinho. Então eu aluguei a casa do ex-governador do estado do Paraná, naquele tempo se chamava interventor né. E lá era uma casa muito grande do governador e lá nós fizemos escola, e meus irmãos mais velhos lecionavam. (Luiz de Almeida Mendonça, entrevistado.)

Neste trecho e em outras partes da entrevista, Luiz Mendonça se refere aos outros dois irmãos, já falecidos, que também fizeram parte do empreendimento do jornal, Sebastião de Almeida Mendonça (chamado de Taco pelos entrevistados), e Joaquim de Almeida Mendonça, ambos redatores no jornal. Interessante notar que nesta experiência contada sobre a fundação do Instituto Mendonça na cidade de Curitiba, novamente Luiz aparece como o administrador do empreendimento, aquele que “mexia com o dinheiro”. Em relação aos estudos no Sud Mennucci, segundo o entrevistado, o curso que ele não concluiu foi o ginásio. A relação com os empreendimentos se mostra mais técnica.

A outra entrevistada, Marly Therezinha Germano Perecin, já citada no primeiro capítulo deste texto, é uma historiadora piracicabana. Tendo feito doutorado em História, e sendo professora da disciplina, escreveu vários livros sobre a cidade de Piracicaba e sobre a história da escola Sud Mennucci. É uma das responsáveis pela construção de uma memória idealizada da instituição que se tornou coletiva, já apresentada no capítulo primeiro. Por esse fato e por também ter sido aluna do Instituto de Educação à época da publicação do impresso, embora não tenha participado do empreendimento, também nos contou suas memórias a respeito da escola e da associação de ex-alunos. Sobre a sua trajetória de formação e a influência de seu pai na infância, a professora conta:

Sempre fui pesquisadora, sempre tive essa aptidão para história e ciências sociais. Meu pai tem uma culpa muito grande porque foi ele que me punha nos ombros e me mostrava o lado social de Piracicaba. Então eu conhecia os tipos populares, que haviam nascido na escravidão, os coronéis. Ele me mostrava essas coisas. Eu digo sempre que eu conheci Piracicaba do alto. [...] Então eu tinha quatro anos e ele me punha nas costas e andávamos (eu era filha única, sempre fui), andávamos pela cidade, ele dizia: tá vendo aquela ali? Aquela ali é filha de escravo. Tá vendo aquele ali? Não, aquele foi escravo. Eram tipos populares né, os políticos importantes, as pessoas orgulhosas.

[...]Ele conversava com ricos, pobres, brancos e negros, azuis de bolinha verde, branco, bolinha roxa. (Marly Therezinha Germano Perecin, entrevistada.)

Nesta e em outras partes da entrevista, a professora vai narrando sua relação com os aspectos sociais desde sua infância. Segundo ela, o pai sempre mostrou a perspectiva social da cidade de Piracicaba, enquanto a mãe era professora, tendo recebido dela também influências em sua formação profissional. Sobre a carreira de professora, quando fala, acentua que a relação com o Sud Mennucci foi muito importante para sua vida, visto que estudou no educandário na década de 1950 e em momento posterior, depois de formada em História, passou a ministrar aulas na instituição.

Dessa forma, o fato de a entrevistada ter sido aluna e professora da instituição, ter se formado historiadora e ter escrito a história da escola pesquisada, fez com que contasse suas lembranças por meio de uma narrativa construída. O rebuscar das palavras e a sensibilidade com que falava dos assuntos tratados mostra seu olhar de historiadora para o passado e sua relação afetiva com o Instituto de Educação. Sua relação com a entrevista foi singular, já que as perguntas que foram feitas a ela se diferenciaram daquelas feitas para os ex-alunos que participaram diretamente da produção do jornal escolar O Sud Mennucci. Essa condição fez com que, durante a entrevista, memórias valiosas fossem coletadas, desde a questão social envolvida com a escola e a cidade, até as lembranças sobre os professores do Instituto e do processo formativo que se dava na instituição.

Esta síntese da trajetória dos entrevistados nesta pesquisa serve aqui para situá-los e entender um pouco a perspectiva de vida e formação de cada um, visto que estas experiências de vida, como já foi dito acima, contribuem para a forma como as memórias e lembranças recolhidas sobre a história do impresso O Sud Mennucci foram narradas pelos entrevistados.

Benzer Belgeler