Em nosso percurso de investigação, não encontramos os conteúdos de Química que José Vieira de Faria Aragão Ataliba teria estudado nos anos de sua formação ilustrada em Medicina na Universidade de Coimbra, entre os anos de 1820-1827. Entretanto, sabemos que no terceiro ano letivo o jovem baiano foi arguido com conteúdos de Química, em 1826.
Não sabemos o que o jovem baiano estudou, nem qual debate teórico sobre a Química no contexto da Universidade de Coimbra. As reformas de 1772 indicaram que uma nova visão das ciências naturais, ou seja, os conhecimentos desta área eram resultados de atividades experimentais e estudos teóricos, todavia não sabemos qual a mudança teórica nos estudos químicos. Temos consciência de que alguns acontecimentos de cunho científico marcaram a sociedade portuguesa contribuindo para a caracterização dos discursos científicos químicos, por isso merecem ser identificados.
Na edição comemorativa do primeiro centenário da Escola de Cirurgia do Porto, Aguiar (1925, p. 13-14) tratou de organizar o ensino de química em cinco fases: a primeira, a origem (1772-1780) que inicia na reforma da Universidade de Coimbra e marca o ingresso da química como disciplina; a segunda, a extensão (1780-1837) que corresponde com a criação da Casa da Pia e da Casa da Moeda; a terceira, disseminação (1837-1885) com a criação dos estudos químicos nas Politécnicas de Lisboa e do Porto e a organização dos Institutos industriais e agronômicos; a quarta, aperfeiçoamento e apogeu (1885-1911) que trata das atividades científicas da química no Porto e a quinta, contemporânea (1911 até os dias atuais).
Na fase ‘origem’ (1772-1780), a reforma da Universidade de Coimbra inaugurou
as primeiras atividades da Ciência Química em Portugal na condição de disciplina. Martins (2011) ao analisar as produções científicas de Antonio Amorim da Costa acerca dos estudos químicos em Portugal, caracterizou as mudanças naquela instituição de estudos superiores como positiva para a área da Química uma vez que, além dessa disciplina ser criada no curso de Filosofia, a construção de um Laboratório Químico foi importante para impulsionar as atividades experimentais.
Foi com a Reforma Pombalina da Universidade que a Química emergiu em Portugal com um notável desenvolvimento. O ensino da Química deveria passar por um resumo abreviado da história da Ciência, mostrando a sua origem e respectivos progressos, as revoluções, sucessos e decadências que conheceu o descrédito com que a cobriram os alquimistas, e, finalmente, a restauração, para bem das artes que dela dependem. Estabelecia-se com clareza o objecto da Filosofia Química, esclareciam-se as razões da inserção da Química no Curso Filosófico e definia-se explicitamente o conteúdo programático. Para que as experiências relativas ao curso
das lições fossem realizadas com bom proveito dos estudantes, foi criado um laboratório, onde se pudesse trabalhar assiduamente nas preparações químicas destinadas ao uso das artes em geral e da medicina em particular (Idem, p.27-28).
Segundo os Estatutos da Universidade de Coimbra de 1772, a disciplina de Química do curso de Filosofia tinha os seguintes objetivos de ensino:
[...] separar as diferentes substancias, que entram na composição de hum corpo; a examinar cada huma das suas partes; a indagar as propriedades, e analogias dellas; a comparallas e combinallas com outras substâncias; e a produzir por mixturas diferentemente combinadas com novos Compostos, de que na mesma Natureza se não acha modello, nem exemplo [...] (Estatutos da Universidade, 1772, vol. III, p.251).
A partir desta intenção de estudos, prevista pelos Estatutos de 1722, a cadeira de Química do curso de Filosofia também era direcionada aos cursos de Medicina e Farmácia. Para orientar os alunos ao conhecimento da teoria e prática daquela ciência, o ministro do Estado Português, o Marquês de Pombal, convidou o italiano Domenico Vandelli para ocupar a cadeira de Química e História Natural. Segundo os estudos de Ferraz (1997) que tratou de analisar o percurso histórico da Química em Portugal e no Brasil no período de 1772-1822, o referido ilustrado italiano formava os estudantes a serem naturalistas a fim de participarem de viagens filosóficas.
[...] análise das terras examinando seus principais constituintes para determinar a melhor conjugação planta-terreno; atenção aos bosques e minas de carvão fóssil. Estudo dos metais e minerais pensando no estabelecimento de fábricas para substituir os materiais importados; conhecimento das plantas alimentícias e medicinais e análise das águas minerais para fins de medicamentosos [...] (Idem, p. 153).
Com este perfil de formação ilustrada, alguns brasileiros adquiriam orientação para participarem das viagens naturalistas. Entre os exemplos está José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838) ingresso na Universidade de Coimbra em 1780 para o curso de Direito Canônico e Filosofia Natural. Os textos memorialísticos de José Bonifácio eram, predominantemente, relacionados com estudos teóricos da Ciência Química. Para o pesquisador Varela (2006) que analisou as suas memórias científicas, tais como: o uso da droga quina para fins terapêuticos e fabricação de medicamentos (1814) e o método de desinfetar cartas (1815) e a sua atuação no ensino do curso docimástico na Casa da Moeda (1801) caracterizaram o seu perfil de químico.
Em cada uma destas citadas atividades em que José Bonifácio desenvolveu no início do século XIX, o seu entendimento químico estava associado aos estudos teóricos de Antonie Laurent Lavoisier (1743-1794). Ao analisar a memória referente ao método de investigação e da nomenclatura científica para o uso do composto químico Quina, Varela (2006) pontuou que:
Quanto a nomenclatura química, pode-se observar a utilização dos nomes dos sais sem tradução do francês, como tartarite, sufate, acetate, oxalate. Nesta memória, a nomenclatura moderna de Lavoisier já estava sendo melhor apropriada pelos portugueses, como por exemplo sulfato de ferro, sulfato de cobre, acetato de chumbo, ácido nítrico, entre outros [...] (Idem, p.149).
A perspectiva de utilizar a nomenclatura da Ciência Química moderna por José Bonifácio também foi vista na memória que tratava sobre o método de desinfetar cartas e na relação de livros comprados pela Casa da Moeda. No entanto, os estudos da cadeira de Química na Universidade de Coimbra no período de sua formação ilustrada, ministrado pelo italiano Domingos Vandelli tinham como base a teoria Flogística orientada pelo teórico alemão George E. Stah (1660-1734), o qual era contrário aos pressupostos científicos desenvolvidos pelo grupo de pesquisa do francês Lavoisier.
Nos estudos de Costa (1988) sobre a introdução das teorias da química em Portugal, considerou como sistema teórico e método de explicação o sistema Flogísitico desenvolvido por Stahl, o qual tornou o fundamento de compreensão dos fenômenos químicos dos estudiosos do século XVIII antes do sistema conceitual da Química Pneumática de Lavoisier. Ainda por aquele autor, a publicação do livro Historologia Médica escrito por Joseph Rodrigues Abreu, em 1733, pode ser considerado como responsável por apresentar o sistema stahliano em Portugal nos anos setecentistas.
Ponderando os requisitos necessários e precisos para um Médico Prático no exercício clínico, Rodrigues de Abreu debruça-se demoradamente sobre as doutrinas dos Gregos, Árabes, Indos, Chineses, Paracelso, Severino, Crollius, Van-Helmont, Tachenius, Sylvius, Willis, Descartes, Gassendi, Hoffman, Boerhaave, Andry, Bartholomeu Moor e Leibnitz para se fixar no sistema de Stahl [...] Quase idolatricamente, ele enumera todas as obras publicadas, ano a ano, por Stahl e refere uma longa lista de 57 escritores que seguiram a sua doutrina que, segundo ele, assenta na observação e contemplação de três seguintes circunstâncias: (i) - a matéria do corpo humano e sua mixtão; (ii) – a vida ou a conservação do corpo mixto; (iii) – o modo com que se conserva o mesmo corpo tanto pelos movimentos vitais ordinários como extraordinários [...] (MENDONÇA apud AMORIM, 1988, p. 9).
Conforme os estudos da pesquisadora Ferraz (1997), o professor Domingos Vandelli conduzia os estudantes nas atividades químicas tanto na teoria quanto nas práticas. Essa orientação dos estudos deveu-se a divisão que, segundo os manuscritos de Vandelli sobre os aspectos de suas atividades na Universidade de Coimbra a Química ensinada era do tipo física, isto é, com a prática química era possível descobrir as causas dos efeitos físicos e, do tipo técnica que trata da aplicação da Química-Física para aperfeiçoamento da manufatura, como por exemplo, dos metais, porcelanas, pólvora, louças e etc.
Com estes objetivos de ensino químico, o italiano Domingos Vandelli também indicava outras obras aos estudantes que queriam aprofundar nos estudos daquela ciência. Dessa forma, o professor da cadeira de Química além de utilizar o livro de Stahl, também recomendava leituras dos seguintes autores: Lemery, Hoffman, Boerhaave, Geoffroy, Pott, Maquer, Bomè e etc. Esse conjunto teórico que Domingos Vandelli indicava para seus alunos permite dificuldade para compreender qual seria a sua filiação teórica química ou quais seriam os pressupostos conceituais que ele uniu para organizar as atividades de ensino na cadeira de Química.
[...] J.R. Spielmann seguia de perto a orientação da química flogística de Stahl, podendo-se dizer o mesmo de Friedrich Hoffmann (1660-1742) e de Johann Heinrich Pott (1692-1777). Quanto a Nicholas Lemery (1645-1715) [...] seus texto poderiam ser muito úteis como um receituário, uma vez que as explicações dos fenômenos dadas pelo pensador francês não só estavam em desacordo com as idéias do texto principal indicado por Vandelli (Spielmann), como também constituíam apenas uma pequena introdução no seu Cours de chmie e eram praticamente ausentes em outrso textos. Etienne-François Geoffroy (1672-1731), embora não fale do flogístico em seus textos é importante por seus estudos e tabelas de afinidades químicas tão enfatizadas seja nos Estatutos, seja na fala de Vandelli. Pierre Joseph Macquer (1718-1784) desenvolveu em seus trabalhos o que poderíamos chamar de uma transformação da teoria do flogístico [...]. Da mesma forma Antonie Baumé, que trabalhou elementos constituintes da matéria. Para finalizar, as ideias de Boerhaave foram, durante todo o século XVIII, um contraponto às de Stahl, não só na Química, como também na Medicina (Ferraz, 1997, p. 75-76).
Como a maioria dos textos que orientavam as aulas do professor Domingos Vandelli, assim como os livros que ele indicava aos alunos, estava de acordo com a teoria Flogística do alemão Stahl. Dessa forma, seja possível compreender o poema satírico No Reino da Estupidez que José Bonifácio de Andrade e Silva escreveu em 1785. Segundo Varela (2006), este texto literário apresentou críticas aos mestres de cursos que tratavam com desleixo a aplicação das medidas reformistas do Marquês de Pombal.
O referido poema de José Bonifácio informou que os mestres da Universidade de Coimbra, dignos de conhecimentos científicos, eram submetidos à estupidez de outros
professores que não norteavam os estudos acadêmicos em vista as novas teorias da ciência
moderna. Dessa forma, o ilustrado José Bonifácio indicou que o ensino “distanciava a nação
lusa daquelas como a França e Inglaterra, consideradas como os grandes centros de irradiação
das “luzes”, e envergonhava ao português ser chamado ele próprio de português” (VARELA,
2006, p. 90).
A corrente teórica que José Bonifácio estaria tratando para o caso dos estudos químicos era a chamada Pneumática ou dos gases construída pelo grupo de estudos do francês Lavoisier. Conforme Costa (1985) que apresentou considerações sobre o desenvolvimento dos estudos dos gases, em pesquisa sobre os experimentos com balões aerostáticos na cidade de Coimbra, em 1784, os alicerces daquela teoria provém de questionamentos acerca da natureza dos fenômenos da combustão, da calcinação e da natureza da água.
Com a caracterização das críticas de José Bonifácio sobre os estudos acadêmicos que não acompanhavam os avanços da ciência moderna e dos livros da teoria Flogística que faziam parte dos títulos indicados, em sua maioria pelo catedrático Domingos Vandelli, a Faculdade de Filosofia, também tinha renomados professores que defendiam a corrente teórica dos gases, como por exemplo, Thomé Rodrigues Sobral que assumiu a cadeira de Química no ano de 1791 e Vicente Coelho da Silva Seabra Teles que foi demonstrador da citada cadeira a partir do ano de 179313.
As discussões teóricas sobre os estudos químicos foi um dos objetivos da sessão do dia 30de julho de 1798, registrada no livro de Filosofia Actas (1783-1803)14da Congregação da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra. Na presença do reformador reitor, Dr. Castro e de professores15, a intenção dos ilustrados era decidir por qual compêndio os estudos químicos seria orientado enquanto o proprietário da cadeira, o Dr. Rodrigues Sobral, não terminasse de escrever o seu compêndio.
[...] Já se devia ou não ensinar Chimica por outro Compendio, q não fosse Scopoli, enquanto o Proprietário da Cadeira de Chimica não acabasse o Compêndio, de q estava incumbido, e procedendo-se a votos, se determinou, q interinamente se ensinasse Chimica por Jacquin, e como até o Compendio he ainda raro entre nos, e não haveria tempo de se mandar vir em abundância; tornou-se a deliberar sobre o Compendio q se adotaria na falta de Jaquin, e houverão tantos votos a favor de Scopoli, quantos a favor de Xaptal [...] (FilisofiaActas – 1783-1803, folha 75 (verso).
13 Arquivo da Universidade de Coimbra - Livro de Acta Congregação da Faculdade de Filosofia. COTA: IV-1ª D-3-1-67, p. 34 (verso).
14 Idem.
Para o pesquisador português Martins (2011), o livro Fundamenta Chimica de Giovanni Scopoli que ainda era o compêndio utilizado na universidade até o ano de 1798, e o livro de Jean Antonie Chaptal, Éléments de chimie, passaram a ser alvo de discussões entre os professores da Faculdade de Filosofia por razão do proprietário da cadeira de química, Thomé Rodrigues Sobral, não ter terminado de escrever o seu compendio. Diante dessa situação, talvez, seja possível considerar que havia divergência quanto à teoria Química a ser ensina nos estudos superiores, ou seja, de um lado, a teoria Flogística tratada no livro de Scopoli, do outro, a teoria dos gases apresentada no livro de Chaptal, assim como nos textos do livro de Jacquin.
Com a falta de exemplares do compêndio Jacquin suficientes para suprir a necessidade do ensino e, por sua vez, os professores dividiam opiniões sobre a preferência de livro teórico, a decisão recaiu para o diretor da Faculdade de Filosofia, o Dr. António Soares Barbosa. Em ofício enviado aos congressistas daquela faculdade, o diretor apresentou a seguinte resposta:
[...] Em observância da ordem de Sua Excelência pella qual se me manda responda com o meu parecer sobre o que se produz em Congregação, e ficou empatado pello vogaes respondo o seguinte: - Sempre foi bem constante a Sua Excelência e a toda a Congregação o meu sentimento a respeito do Scopoli; e por isso sempre o regeitei, e regeito como incapaz para o ensino publico, como indigno de apparecer nas prezentes luzes da chimica, e alem disso vergonhozo para os que o apadrinhão, e infamatório para a Faculdade. Fui de parecer, que se ensinasse por Lavoisier pello crer mais conforme à chimica geral filosófica, a qual tão somente manda ensinar o Estatuto de Filosofia proibindo na mesma filosofia o ensino de chimica medica, e farmacêutica. Porém já que a Faculdade não foi ahi, voto só a fim de desterrar o Scopoli, que se ensine interinamente pelo Xaptal, enquanto não houver cópia suficiente de Jacquin, ou de outro melhor, que for mais apropriado aos fins da Faculdade segundo manda o Estatuto. (Filisofia Actas – 1783-1803, folha 75 (verso))16.
A escolha do livro de Chaptal possibilitou a formação de estudantes, a partir do ano de 1798, em sintonia com os conhecimentos científicos à luz da ciência moderna enquanto os professores se empenhavam para produzir cópias suficientes do compêndio químico de Jacquin. Mesmo não sendo possível apresentar documentos históricos que informem o momento no qual os estudos químicos foram tratados pelo citado compêndio, a informação da publicação de um edital, em primeiro de junho de 1807, e um aviso de 10 de setembro de 1824 anunciados na lista de relação de livros17 a serem utilizados no ano letivos
16
Arquivo da Universidade de Coimbra - Acta Congregação da Faculdade de Filosofia. Cota: IV-1ª D-3-1-67, fl. 34. Cota: IV-1ª D-3-1-67.
de 1827-1828 são indicações de que, no início do século XIX, os estudos químicos foram norteados pelo compêndio de Jacquin.
A presença do compêndio de Jacquin na lista de livros da Universidade de Coimbra não indicava que a teoria Pneumática ou dos gases formulada pelo pesquisador francês Lavoisier estava sendo utilizada por outros professores e compêndios de outras cadeiras de ensino. Sobre essa última situação, a sessão de 14 de outubro de 1823, registrada no livro de Actas da Congregação da Faculdade de Medicina (1822-1841)18, foi objeto de discussão. Na presença do Vice-Reitor, Dr. José Feliciano de Castilho, e dos professores: Jeronymo Joaquim de Figueiredo, Ângelo Ferreira Diniz, Antonio Joaquim de Campos, José Ignácio Monteiro Lopo e João Baptista de Ramos, eles discutiram sobre os prejuízos causados as aulas que utilizavam o compêndio de farmácia, o qual não estava em conformidade com a teoria Química Pneumática.
O Vogal o Dr. Figueiredo pediu licença para ler a seguinte proposta = O Compendio de Pharmacia, reimpresso em 1809, já então não podia ser achado digno de servir às lições [...] por não se achar conforme em os conhecimentos da Chimica, que algumas lições antes tinha tornado huma face absolutamente nova: esta sciencia desde aquellaepocha ate hoje tem achado o tal argumento de conhecimentos que huma grande parte da theoria [...] se acha interinamte sentada pela descoberta de humgde no de novas substancias, que pela maior qte devem entrar no Cathologo de Mat.med. ou em medicamentos, ou como vapores pela applicação da Eletricidade como instrumento de analise pela nova doutrina das proporções chimicas.
Por taes motivos o compendio atual de Pharmacia de nada serve, senão de retornar o estudo desta parte de conhecimentos Medicos, demorando o professor a cada passo na refutação de toda a sua theoria, substituições de nova e não o ajudando a conduzir os Estudantes que tem ouvido as lições de Chimica de Seu Professor, que ensina após os conhecimentos actuaes em Seu Laboratorio provido do maior no de maquinas e de aparelhos precários para a ruinar praticamte he finalmte causa de descrédito a Faculde de Medicina dentro de fora da Nação (Actas da Congregação da Faculdade de Medicina (1822-1841), vol. 4, fl.25(frente))19.
Os professores do curso de Medicina que já reconheciam o descrédito da sua faculdade dentro e fora da nação por conta do precário estado físico do laboratório utilizado para as aulas de Química discutiam sobre o compêndio de Farmácia prevendo a possibilidade de uma desqualificação na formação dos estudantes em Medicina. A ciência Química moderna, segundo o Dr. Jeronymo Joaquim de Figueiredo, referenciado, anteriormente, na sessão de 14 de outubro de 1823, apresentava ótimos indícios de aplicabilidade seja nos estudos da disciplina de Matéria Médica, na composição de medicamentos e na sua aplicação
18 Arquivo da Universidade de Coimbra - Acta da Congregação da Faculdade de Medicina (1822-1841). Cota: IV- 1ª D-3-1-85.
19 Arquivo da Universidade de Coimbra. Actas da Congregação da Faculdade de Medicina (1822-1841), vol. 4, fl. 25(frente). Cota:IV-1ª D- 3- 1-85.
na eletricidade. Segundo Varela (2006), as memórias científicas de José Bonifácio, datadas de 1805 a 1816, faziam referências à utilidade da mencionada ciência.
José Bonifácio, por meio das suas memórias, colocou a ciência como algo que pudesse ser útil à sociedade do Império Colonial Português. Por ciência útil devemos entender o conjunto de matérias que possibilitariam a solução ou a transformação da realidade vivida até então. Ele acreditava que o papel da ciência não se restringia ao processo de conhecimento, transcendia-o, pois tinha o poder de transformar a sociedade [...] A utilidade é a vértebra da sua concepção de ciência. A ciência encontra-se a serviço do homem, da sociedade [...] (Idem, p. 139-140).
O conhecimento científico como via de utilidade social era o intuito dos professores da Faculdade de Medicina que buscavam discutir sobre os benefícios que a ciência Química traria aos estudos médicos, assim como o prestígio da formação acadêmica