Alguns estudiosos, em ter os quais destacamos Bezerra, 2007; Marcuschi, 2003 e Távora, 2012, defendem que, na análise de gêneros, não podemos negligenciar o suporte22, pois há casos em que é o suporte que define o status genérico de um texto. Maingueneau (2011, p. 68) afirma que “Uma modificação do suporte material de um texto modifica radicalmente um gênero de discurso [...], pois todo texto é inseparável de seu modo de existência material”.
Concordamos com o autor, pois essa afirmação é relevante quando nos referimos aos gêneros de carta, pois o suporte em que uma carta é escrita – se em uma folha de papel manuscrita ou em uma folha de papel ofício timbrado, ou em uma página de livro ou de um jornal - é relevante para a identificação de seu status genérico.
A influência do suporte na identificação de certos gêneros é algo inquestionável e segundo Marcuschi (2003), em muitas situações, a mudança de suporte implica mudança de gênero. Para confirmar essa afirmação, o autor apresenta o seguinte exemplo:
Paulo, te amo, me ligue o mais rápido que puder.
Te espero no fone 55 44 33 22. Verônica. (MARCUSCHI, 2003, p. 10)
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Nossas reflexões restringem-se aos suportes de papel de textos escritos, pois as questões em torno dos suportes dos gêneros orais, dos gêneros digitais na tela do computador ou dos gêneros no radio e na televisão, por sua complexidade mereceriam longas discussões que fogem aos objetivos desse estudo. Sobre isso recomendamos a leitura de Bonini (2011).
Conforme o autor, o texto acima pode ser identificado de quatro modos diferentes, considerando-se o suporte em que esteja fixado. Escrito numa folha de papel sobre a mesa de Paulo, será um bilhete; se for repassado pela secretária eletrônica será um recado; se for remetido pelos correios em formulário próprio, um telegrama; se for fixado num outdoor pode ser uma declaração de amor. Há ainda outras possibilidades não mencionadas por Marcuschi que acrescentamos aqui. Tratar-se-á de um e-mail, caso seja enviado pelo correio eletrônico ou de um torpedo, se enviado pelo celular.
Como o domínio jornalístico opera com vários suportes (jornal diário, revista semanal ou mensal, rádio, televisão, web23 etc.) nos quais as cartas podem circular, é importante verificar as interferências e influências desses suportes na identificação dos gêneros de carta que neles se fixam.
Não podemos esquecer que enquanto alguns gêneros de cartas são publicados indistintamente em revistas e jornais (carta do leitor), outros são específicos de revistas (carta- pergunta/carta-resposta). Uma explicação provável para que as cartas-pergunta e as respectivas cartas-resposta só circulem em revistas mensais é que a elaboração da resposta demanda tempo para que o(a) profissional responsável pela seção elabore uma resposta satisfatória para o leitor. Já a carta aberta e a carta-crônica são tradicionalmente publicadas em jornais.
Esses exemplos mostram que o suporte pode ser um elemento importante na identificação da carta-crônica, considerando que esse gênero, semelhante ao que ocorre com a crônica, é publicado primeiramente em jornais e posteriormente em livros. No caso específico da carta-crônica, a mudança de suporte interfere na identificação do gênero? Para responder a essa questão, iniciaremos nossas reflexões com base num exemplo citado por Marcuschi (2003) a respeito do gênero carta pessoal. Segundo ele, quando cartas pessoais migram para o livro passam a integrar o domínio discursivo literário. Essa mudança de domínio discursivo faz com que as cartas pessoais, principalmente quando os produtores são escritores famosos, passem a ser consideradas como carta literária. A figura 2 a seguir ilustra essa situação:
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Embora Marcuschi (2003) inclua o rádio e a televisão como suportes (o rádio é suporte para gêneros orais e a televisão alia som e imagem), ele diz que sua definição é complexa, pois podem ser considerados ainda como meio ou sistema.
Figura 2 - O suporte como critério para identificação de gêneros
Fonte: Autora (2012).
No caso da carta pessoal, as mudanças de suporte e de domínio discursivo alteram o status genérico. Ao migrar para o livro, a carta pessoal perde a função original, adquire novos propósitos e, consequentemente, transforma-se em outro gênero.
Quando tratou dos gêneros primários e secundários, Bakhtin (2003) exemplificou com a carta pessoal. Segundo o autor russo, uma carta pessoal pode ser transmutada para um romance, mas quando isso acontece ela passa a integrar a “realidade concreta apenas através do conjunto do romance, ou seja, como acontecimento artístico-literário e não da vida cotidiana” (BAKHTIN, 2003 p. 264).
Cartas pessoais também podem ser inseridas em teses e dissertações como objeto de estudo. Além disso, a produção epistolar de um sujeito ou de vários sujeitos de uma geração pode ser reunida e publicada em livro, a exemplo do que fizeram Rocha (1965) que compilou epístolas escritas por personalidades portuguesas entre os séculos XIV e XX e Moraes (2010) que resgatou a correspondência trocada entre Câmara Cascudo e Mário de Andrade. Em todos esses casos, as cartas pessoais perdem a relação com a realidade original e podem adquirir valor literário e até de documento histórico.
Portanto, cartas pessoais manuscritas, digitadas ou datilografadas em folhas de papel avulso ao passarem a compor uma coletânea de cartas para ser publicada em livro agregam valor literário. O texto da carta será o mesmo nos dois suportes – na folha manuscrita, digitada ou datilografada e no livro, porém o suporte folha de papel avulso, envelopado e postado (estamos aqui nos referindo somente à forma tradicional de correspondência e isso não inclui a correspondência eletrônica via internet). No livro as cartas passam por um processo de editoração e isso vai de certo interferir na relação que os leitores manterão com essas cartas. Não podemos esquecer que ao serem publicadas, cartas pessoais que eram restritas ao domínio privado, passam a ser de domínio público.
Domínio cotidiano
Suporte: folha de papel
manuscrita, datilografada ou digitada Carta pessoal Domínio literário Suporte: livro Carta literária
Porém, como no estudo dos gêneros as afirmações não podem ser generalizadas, nem sempre mudança de suporte resulta em mudança de gênero. No caso específico das cartas- crônica, não há mudança de denominação quando migram do jornal para o livro24. não altera a denominação do gênero, apenas deixam de ser vistas como texto jornalístico e passam a ser vistas como texto literário. O comportamento da carta-crônica é semelhante ao da crônica que não sofre alteração em seu status genérico ao migrar do jornal para o livro. Esse caso pode ser visualizado na figura a seguir:
Figura 3 - Os gêneros carta-crônica e crônica nos suportes jornal e livro
Fonte: Autora (2012).
Essa constatação é mais uma prova da complexidade que envolve a análise de gêneros e suscita outra questão sobre a relação entre gênero e suporte. Se tomarmos como verdadeira a afirmação feita por Marcuschi (2003, p. 13) de que “o suporte não é neutro e o gênero não fica indiferente a ele”, então teremos que verificar de que forma a mudança de suporte e de domínio discursivo afetam o gênero carta-crônica. Marcuschi (2003), com base em observações feitas por Possenti (2002), declara que o suporte pode mudar a relação que o leitor estabelece com o texto. Ele cita como exemplo o caso de uma mesma notícia que é veiculada sem alteração do conteúdo em dois jornais, sendo um deles de grande circulação e o outro de circulação local. O que se observa é que a repercussão entre os leitores de um jornal e de outro será diferente, pois no jornal de grande circulação o valor de verdade da notícia será maior, já que passa mais credibilidade. Assim, mesmo que e a mudança de suporte não afete o status do gênero, ela exercerá influência sobre os processos de textualização, pois o gênero é o mesmo, mas o valor que os leitores atribuem a ele poderá ser diferente.
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A maior parte das cartas-crônica que compõe o curpus desta pesquisa foi reunida e publicada em livros (BEZERRA, 2000, 2004, 2009; GALVÃO, 2006; SOUZA, 1983, 1969).
Domínio literário Suporte: livro Carta-crônica Crônica Domínio jornalístico Suporte: jornal Carta-crônica Crônica
No caso das cartas-crônica a mudança para o livro não altera o texto original nem o propósito comunicativo, por isso o gênero permanece o mesmo. No entanto, o livro parece conferir às cartas um caráter atemporal. No jornal sua validade é curta, pois coincide com o tempo do jornal. No livro, podem ser mais bem conservadas e, na condição de texto literário, também perdem o vínculo com a realidade imediata que é uma das principais características das cartas e também das crônicas.
As relações que se estabelecem entre as cartas-crônica que circulam no jornal ou no livro, circunscritas respectivamente aos domínios jornalístico e literário, são uma prova de que só podemos fazer certas generalizações sobre os gêneros após observarmos seu funcionamento nos domínios discursivos onde atuam. Certamente o fato de alguns gêneros circularem livremente entre os domínios literário e jornalístico possibilita que alguns deles, como a crônica e a carta-crônica, conservem sua identidade genérica, mesmo migrando de suporte e também de esfera de atividade.
Essa especificidade pode ser explicada a partir da própria história da imprensa escrita. Quando os primeiros jornais passaram a circular, muitos escritores viram nesse novo suporte de circulação diária uma excelente alternativa de divulgação de seus escritos. Além da viabilidade financeira, já que publicar em livro era muito caro, os textos publicados em jornal tinham a garantia de um grande público leitor. Segundo Rizzini (1977), a popularização da imprensa levou os escritores a descobriram a força do jornal como novo espaço público.
Portanto, o desenvolvimento da imprensa e a adoção do jornal como fonte de leitura diária pela população que se reunia em praças públicas, cafés etc. para compartilharem a leitura fez surgir um interesse mútuo entre as empresas jornalísticas e os escritores. Se por um lado os donos de jornais perceberam que a publicação de crônicas e de romances em forma de folhetins aumentava a venda dos jornais, por outro lado os escritores que tinham seus textos publicados em jornais ganhavam notoriedade. Como o jornal impresso esteve, desde o início, aberto aos textos literários é justificável que alguns gêneros, como a carta-crônica e a crônica, transitem por esses dois domínios discursivos com o mesmo nome.